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Os saqueadores do Espírito Santo nada dizem sobre nós

Em Política por Leandro BellatoComentários

Vi pin­gando aqui e ali comen­tá­rios e arti­gos sobre o quão inci­vi­li­za­dos são os capi­xa­bas, por­que amplas par­ce­las popu­la­ci­o­nais inves­ti­ram nos saques e em outros cri­mes com a falta de polí­cia. A ques­tão, dizem os comen­tá­rios e arti­gos, é que as pes­soas em geral deve­riam se res­guar­dar do crime e da vio­lên­cia pelo mal intrín­seco que cau­sam aos outros e à soci­e­dade, não somente por temer puni­ções. Assim, que ver­go­nha!, os bra­si­lei­ros em geral e os capi­xa­bas em par­ti­cu­lar são inci­vi­li­za­dos!

Essas notí­cias cor­re­ram o mundo. Li notí­cias a res­peito em pági­nas jor­na­lís­ti­cas dos EUA, Reino Unido e Ale­ma­nha. Nos comen­tá­rios des­sas publi­ca­ções estran­gei­ras, havia muito menos de “os bra­si­lei­ros são sel­va­gens” e mais “aqui foi assim em 19XX, quando houve a greve dos poli­ci­ais: onda de cri­mes, mor­tes, e todo mundo saque­ando”.

Em espe­cial os ame­ri­ca­nos, que rela­ta­ram como foram tem­pos hor­rí­veis de tiro­teios. Um ame­ri­cano rela­tou que, quando era cri­ança, seu tio tinha loja de armas e, durante uma greve dos poli­ci­ais, des­car­re­gou sua espin­garda na turba de saque­a­do­res, man­dando para o além meia dúzia de ban­di­dos. Mas quando suas balas aca­ba­ram, ele mesmo foi cra­ve­jado de balas e sua foi loja saque­ada.

A ques­tão é a seguinte: a menos que vivês­se­mos numa situ­a­ção (ainda) impos­sí­vel, em que hou­vesse um agente da lei a cada pou­cos metros vigi­ando a con­duta de todos, a ver­dade é que saques são quase impos­sí­veis de se pre­ve­nir ou reme­diar quando mui­tos ocor­rem ao mesmo tempo. Sem greve de poli­ci­ais mili­ta­res, se amplas par­ce­las da popu­la­ção de Vitó­ria, de Paris ou de Los Ange­les resol­ver saquear as lojas e resi­dên­cias ao mesmo tempo, os saques não pode­rão ser evi­ta­dos e só uma parte ínfima deles será punida.

As popu­la­ções huma­nas pas­sa­ram por um lon­guís­simo e penoso pro­cesso de “arre­ba­nha­mento”, de “domes­ti­ca­ção”, a fim de vive­rem em aglo­me­ra­dos rela­ti­va­mente pací­fi­cos e coo­pe­ra­rem invo­lun­ta­ri­a­mente com des­co­nhe­ci­dos. Meca­nis­mos apren­di­dos e de coer­ção impe­dem a mai­o­ria das pes­soas de “saí­rem da linha”. Mas basta um grande meca­nismo se mos­trar evi­den­te­mente falho e a con­duta primata/tribal dos seres huma­nos volta a ter pri­ma­zia sobre a longa e penosa edu­ca­ção coer­ci­tiva que pos­si­bi­lita o que cha­ma­mos de civi­li­za­ção.

Uma greve de poli­ci­ais ape­nas sina­liza, em alto e bom som, a falên­cia momen­tâ­nea de uma das bases coer­ci­ti­vas do com­por­ta­mento civi­li­zado. Os saques são igual­mente pos­sí­veis sem a greve se o mesmo mon­tante de pes­soas resol­vesse pra­ticá-lo. Mas esse mon­tante de gente dis­posta a saquear é psi­co­lo­gi­ca­mente con­tro­lada por meca­nis­mos vir­tu­ais de coer­ção em poten­cial, ainda que na prá­tica esses meca­nis­mos sejam pouco efe­ti­vos con­tra toda a popu­la­ção dis­posta a trans­gre­dir as nor­mas soci­ais. Dei­xando clara a ine­xis­tên­cia tem­po­rá­ria dessa ame­aça que sem­pre foi mera­mente vir­tual, a pré-his­tó­ria da mente pre­do­mina na popu­la­ção.

A huma­ni­dade pri­mi­tiva se aglo­mera em peque­nos gru­pos hos­tis entre si e geri­dos inter­na­mente por lógi­cas vio­len­tas que deter­mi­nam e fixam hie­rar­quias. Popu­la­ções tri­bais tem taxas de mor­ta­li­dade vio­lenta que mul­ti­pli­cam por mais de dez vezes as taxas por mor­ta­li­dade vio­lenta nos gran­des cen­tros urba­nos con­tem­po­râ­neos e por mais de cinco vezes a mor­ta­li­dade por vio­lên­cia decor­ren­tes das gran­des guer­ras do século XX.

Esta é nossa pré-his­tó­ria, a pré-his­tó­ria que, segundo Nietzs­che intuiu, está sem­pre pre­sente, paci­en­te­mente aguar­dando pra tomar o con­trole quando nosso fino ver­niz de civi­li­dade é ris­cado. E seja onde for, quando fica claro que uma estru­tura coer­ci­tiva básica e fun­da­men­tal à vida civi­li­zada falha, o que se tem é uma erup­ção momen­tâ­nea da pré-his­tó­ria. Aqui em SP, no ES, em Paris ou em Los Ange­les.

Leandro Bellato
Metereologista com a cabeça nas nuvens e o pé nas estrelas, flutua sem rumo satisfazendo sua vasta curiosidade sobre os mais variados e desconexos temas, de literatura à astrofísica, de antropologia à bioquímica, de cultura pop aos pré-socráticos.

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