Vi pingando aqui e ali comentários e artigos sobre o quão incivilizados são os capixabas, porque amplas parcelas populacionais investiram nos saques e em outros crimes com a falta de polícia. A questão, dizem os comentários e artigos, é que as pessoas em geral deveriam se resguardar do crime e da violência pelo mal intrínseco que causam aos outros e à sociedade, não somente por temer punições. Assim, que vergonha!, os brasileiros em geral e os capixabas em particular são incivilizados!

Essas notícias correram o mundo. Li notícias a respeito em páginas jornalísticas dos EUA, Reino Unido e Alemanha. Nos comentários dessas publicações estrangeiras, havia muito menos de “os brasileiros são selvagens” e mais “aqui foi assim em 19XX, quando houve a greve dos policiais: onda de crimes, mortes, e todo mundo saqueando”.

Em especial os americanos, que relataram como foram tempos horríveis de tiroteios. Um americano relatou que, quando era criança, seu tio tinha loja de armas e, durante uma greve dos policiais, descarregou sua espingarda na turba de saqueadores, mandando para o além meia dúzia de bandidos. Mas quando suas balas acabaram, ele mesmo foi cravejado de balas e sua foi loja saqueada.

A questão é a seguinte: a menos que vivêssemos numa situação (ainda) impossível, em que houvesse um agente da lei a cada poucos metros vigiando a conduta de todos, a verdade é que saques são quase impossíveis de se prevenir ou remediar quando muitos ocorrem ao mesmo tempo. Sem greve de policiais militares, se amplas parcelas da população de Vitória, de Paris ou de Los Angeles resolver saquear as lojas e residências ao mesmo tempo, os saques não poderão ser evitados e só uma parte ínfima deles será punida.

As populações humanas passaram por um longuíssimo e penoso processo de “arrebanhamento”, de “domesticação”, a fim de viverem em aglomerados relativamente pacíficos e cooperarem involuntariamente com desconhecidos. Mecanismos aprendidos e de coerção impedem a maioria das pessoas de “saírem da linha”. Mas basta um grande mecanismo se mostrar evidentemente falho e a conduta primata/tribal dos seres humanos volta a ter primazia sobre a longa e penosa educação coercitiva que possibilita o que chamamos de civilização.

Uma greve de policiais apenas sinaliza, em alto e bom som, a falência momentânea de uma das bases coercitivas do comportamento civilizado. Os saques são igualmente possíveis sem a greve se o mesmo montante de pessoas resolvesse praticá-lo. Mas esse montante de gente disposta a saquear é psicologicamente controlada por mecanismos virtuais de coerção em potencial, ainda que na prática esses mecanismos sejam pouco efetivos contra toda a população disposta a transgredir as normas sociais. Deixando clara a inexistência temporária dessa ameaça que sempre foi meramente virtual, a pré-história da mente predomina na população.

A humanidade primitiva se aglomera em pequenos grupos hostis entre si e geridos internamente por lógicas violentas que determinam e fixam hierarquias. Populações tribais tem taxas de mortalidade violenta que multiplicam por mais de dez vezes as taxas por mortalidade violenta nos grandes centros urbanos contemporâneos e por mais de cinco vezes a mortalidade por violência decorrentes das grandes guerras do século XX.

Esta é nossa pré-história, a pré-história que, segundo Nietzsche intuiu, está sempre presente, pacientemente aguardando pra tomar o controle quando nosso fino verniz de civilidade é riscado. E seja onde for, quando fica claro que uma estrutura coercitiva básica e fundamental à vida civilizada falha, o que se tem é uma erupção momentânea da pré-história. Aqui em SP, no ES, em Paris ou em Los Angeles.

Leandro Bellato
Metereologista com a cabeça nas nuvens e o pé nas estrelas, flutua sem rumo satisfazendo sua vasta curiosidade sobre os mais variados e desconexos temas, de literatura à astrofísica, de antropologia à bioquímica, de cultura pop aos pré-socráticos.
  • Francis Fussiger

    O título não tem muito a ver com o texto. O texto Mostra que o ser humano só não sai da linha pelo medo de punição. Os saqueadores demonstram isso perfeitamente. O quão inconscientes e guiados por instintos os seres humanos ainda são.

    • Fala Francis, tudo bom? É verdade, o título completo deveria ser “…nada diz sobre nós, brasileiros”. Mas por questões editoriais, não poderia ser tão grande, e confiamos que a leitura do texto situaria o leitor deixando claro quem são o “nós” referido no título – algo que o Leandro esclarece no primeiro parágrafo. Você tem razão, os seres humanos são guiados por instintos, e o ponto do Leandro é esclarecer que isso não é privilégio dos brasileiros. Abraço!

  • Yagami Raito TR

    Boa articulação de pensamento. Não é que vivamos em constante controle da consciência, a ordem da sociedade nos é agradável e nos dá uma estabilidade para planejar e segurança para organizar. Porém as engrenagens do sistema é que nos são um corpo estranho na nossa sapiência. Temos a natureza de colher uma mangá do pé, não de trabalhar um mês para a comprar num mercado com uma parcela de dinheiro. Mesmo que este seja uma representação de bens e nos dê o “poder de obter”. Para nossas cobiças e necessidades, instinto sempre funciona melhor, qualquer coisa mais complexa que a impulsividade é desgostosa de adotar.
    Nós aprendemos a desejar com nossas necessidades e nossas necessidades sempre foram imediatistas. Portanto, colocar um sistema entre o “desejo e o objetivo”, é o que desafia na nosso homem contemporâneo.

    Quando temos a oportunidade de pular esse sistema, o fazemos com tanta naturalidade, sejam nos pequenos furtos ou nos grandes saques, bastando somente a coerção para nos “reeducar” aos conceitos primitivos de viver.

    Infelizmente, por serem impulsivos e imediatistas nos levam a toda uma infelicidade de atrocidades. Sendo estas ações limitadas apenas por nossa própria cobiça.