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Espinoza, o herói da liberdade intelectual

Em Política por Steven NadlerComentário

Ao longo dos sécu­los, peri­o­di­ca­mente a comu­ni­dade por­tu­guesa de Ams­terdã rece­beu diver­sos pedi­dos para que revi­sasse a con­de­na­ção por here­sia que impôs ao filó­sofo Baruch Espi­noza.

David Ben-Gurion, quando foi pri­meiro-minis­tro de Israel, fez um apelo público para ‘alte­rar a injus­tiça’ feita con­tra Espi­noza. Mas foi só em 2012, no entanto, que a con­gre­ga­ção de Ams­terdã, por insis­tên­cia de um dos seus mem­bros, for­mal­mente assu­miu que era hora de rea­bi­li­tar o filó­sofo diante da con­gre­ga­ção que o havia expulso.

Infe­liz­mente, o docu­mento da here­sia que con­de­nou Espi­noza não men­ci­ona espe­ci­fi­ca­mente quais cri­mes teria come­tido, e por isso há um mis­té­rio em torno desse evento na sua bio­gra­fia.

No entanto, qual­quer um que esteja fami­li­a­ri­zado com as ideias filo­só­fi­cas de Espi­noza sabe que ele ape­nas come­çou a regis­trar seu pen­sa­mento alguns anos após sua exco­mu­nhão. Não há real­mente nenhum mis­té­rio, por­tanto.

Pelos padrões do judaísmo rabí­nico no iní­cio da era moderna (e, espe­ci­al­mente, dos judeus sefar­di­tas de Ams­terdã) Espi­noza era um peri­goso herege.

 

Espinoza, o herege

O que é notá­vel é o quão popu­lar esse herege per­ma­ne­ceu durante quase três sécu­los após a sua morte, e não ape­nas entre os estu­di­o­sos.

Con­tem­po­râ­neos de Espi­noza, como Des­car­tes e Leib­niz, rea­li­za­ram con­tri­bui­ções impor­tan­tes para o sur­gi­mento da filo­so­fia e da ciên­cia moder­nas, mas você não vai encon­trar mui­tos car­te­si­a­nos ou leib­ni­zi­a­nos hoje em dia. Os espi­no­zis­tas, no entanto, estão entre nós.

Eles são devo­tos não-aca­dê­mi­cos que for­mam soci­e­da­des e gru­pos de estudo, reu­nindo-se para lê-lo em bibli­o­te­cas públi­cas, sina­go­gas e cen­tros comu­ni­tá­rios judai­cos ao redor do mundo.

Cen­te­nas de pes­soas, de várias cor­ren­tes polí­ti­cas e reli­gi­o­sas, com­pa­re­cem em even­tos para ouvir pales­tras sobre Espi­noza, tenham ou não já lido sobre ele. Artis­tas já cri­a­ram roman­ces, poe­mas, escul­tu­ras, pin­tu­ras, peças de tea­tro e até mesmo ópe­ras dedi­ca­dos a Espi­noza. É fan­tás­tico.

E é tam­bém uma coisa muito curi­osa. Por que um filó­sofo do século 17, judaico-por­tu­guês, cujos escri­tos den­sos e opa­cos são noto­ri­a­mente difí­ceis de enten­der, inci­tou tal devo­ção apai­xo­nada entre um público leigo no século 21?

Parte da res­posta é o drama e mis­té­rio no cen­tro da sua vida: por que exa­ta­mente Espi­noza foi tão dura­mente punido pela sua comu­ni­dade?

Bom, acre­dito que todo mundo adore um ico­no­clasta — espe­ci­al­mente um que tenha sido radi­cal e des­te­mido, e que tenha sofrido per­se­gui­ção por expres­sar ideias e valo­res que são tão impor­tan­tes para nós hoje em dia.

Espi­noza é um modelo de cora­gem inte­lec­tual. Como um pro­feta, ele pos­suía uma hones­ti­dade infle­xí­vel, e reve­lou ver­da­des feias sobre seus con­ci­da­dãos e sua soci­e­dade.

Ele é um exem­plo e sím­bolo de opo­si­ção inte­lec­tual a todos os gover­nan­tes que ten­tam coa­gir os indi­ví­duos a se com­por­ta­rem de modo con­trá­rio a suas con­vic­ções pes­so­ais.

Grande parte da filo­so­fia de Espi­noza foi ela­bo­rada em res­posta à situ­a­ção polí­tica pre­cá­ria da Repú­blica Holan­desa no meio do século 17.

No final da década de 1660, mui­tos de seus con­tem­po­râ­neos esta­vam ame­a­ça­dos pela fac­ção con­ser­va­dora “Oran­gist” (assim cha­mada por­que os seus par­ti­dá­rios favo­re­ce­ram o retorno do poder cen­tra­li­zado ao Prín­cipe de Orange) e seus ali­a­dos ecle­siás­ti­cos.

Espi­noza estava com medo de que os prin­cí­pios da tole­rân­cia e lai­ci­dade con­sa­gra­dos no pacto fun­da­dor das Pro­vín­cias Uni­das dos Paí­ses Bai­xos fos­sem cor­roí­dos em nome da estru­tu­ra­ção reli­gi­osa e da orto­do­xia polí­tica e social.

Em 1668, seu amigo Adri­aan Koer­bagh foi con­de­nado por blas­fê­mia e sub­ver­são, e mor­reu em sua cela no ano seguinte. Em res­posta, Espi­noza escre­veu o seu Tra­tado Teo­ló­gico-Polí­tico, con­si­de­rado ‘escan­da­loso’ e publi­cado com grande alarde em 1670.

As visões de Espi­noza sobre Deus, reli­gião e soci­e­dade não per­de­ram nada de sua rele­vân­cia para a soci­e­dade atual.

Em uma época em que os polí­ti­cos falam em proi­bir as pes­soas de uma certa fé de ingres­sa­rem em deter­mi­nado país, ou que gover­nos decla­ram res­tri­ções de ves­ti­menta em deter­mi­na­das áreas de uma cidade ou nação, o fana­tismo reli­gi­oso come­çou a exer­cer maior influên­cia sobre ques­tões de lei e ordem pública.

E a filo­so­fia de Espi­noza — espe­ci­al­mente sua defesa da demo­cra­cia, da liber­dade, lai­ci­dade e da tole­rân­cia — nunca foi tão opor­tuna quanto hoje em dia.

Em sua angús­tia sobre a dete­ri­o­ra­ção da situ­a­ção polí­tica na Repú­blica holan­desa, e ape­sar do perigo pes­soal que enfren­tou, Espi­noza não hesi­tou em defen­der cora­jo­sa­mente os valo­res ilu­mi­nis­tas radi­cais que ele, jun­ta­mente com mui­tos de seus com­pa­tri­o­tas apri­si­o­na­dos, defen­dia.

Com Espi­noza, pode­mos encon­trar ins­pi­ra­ção para resis­tir­mos a auto­ri­da­des opres­so­ras e a qual­quer um que, atra­vés de um sis­tema de cren­ças irra­ci­o­nais, pro­cure garan­tir a manu­ten­ção da igno­rân­cia.

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O Deus de Espinoza

A filo­so­fia de Espi­noza é fun­dada sobre uma rejei­ção do Deus das tra­di­ções abraâ­mi­cas. Seu Deus não tem todas as carac­te­rís­ti­cas psi­co­ló­gi­cas e morais de uma divin­dade trans­cen­dente, pro­vi­den­cial.

O Deus da obra-prima filo­só­fica de Espi­noza, a Ética (1677), não é um tipo de pes­soa. Esse Deus não tem cren­ças, espe­ran­ças, dese­jos ou emo­ções. Tam­bém não é um Deus bom, sábio e justo, que recom­pen­sará aque­les que obe­de­cem a seus coman­dos e punirá aque­les que se des­viam.

Para Espi­noza, Deus é a Natu­reza, e tudo o que existe é a Natu­reza. Tudo ocorre com uma neces­si­dade imposta pelas leis da Natu­reza. Não há nada além da natu­reza e não exis­tem des­vios da ordem da natu­reza. Mila­gres e even­tos vin­dos do sobre­na­tu­ral são, para o filó­sofo, uma impos­si­bi­li­dade.

Não há valo­res na natu­reza. Nada é intrin­se­ca­mente bom ou mau, nem a natu­reza ou qual­quer coisa que per­tença à natu­reza existe por algum pro­pó­sito. O que quer que seja, ape­nas “é”.

No iní­cio de “Ética”, Espi­noza diz que

todos os pre­con­cei­tos que aqui expo­nho ori­gi­nam-se deste: que os homens comu­mente supõem que todas as coi­sas natu­rais agem como agem os pró­prios homens, ou seja, por conta de um fim; na ver­dade, os homens têm como certo que o pró­prio Deus dirige todas as coi­sas para algum deter­mi­nado pro­pó­sito; pois dizem que Deus fez todas as coi­sas para o homem, e o homem pode e deve ado­rar a Deus.”

Espi­noza é mui­tas vezes rotu­lado de “pan­teísta”, mas “ateu” é um termo mais apro­pri­ado.

Espi­noza não ido­la­tra a Natu­reza. A natu­reza não é o objeto de temor reve­rente ou reve­rên­cia reli­gi­osa. “O homem sábio”, diz ele, “pro­cura enten­der a Natu­reza”. A única ati­tude apro­pri­ada a tomar em dire­ção a Deus, ou à Natu­reza, é dese­jar conhecê-lo atra­vés do inte­lecto.

A eli­mi­na­ção de um Deus pro­vi­den­cial ajuda a lan­çar dúvi­das sobre aquilo que Espi­noza con­si­dera como uma das dou­tri­nas mais per­ni­ci­o­sas pro­mo­vi­das pelas reli­giões orga­ni­za­das: a imor­ta­li­dade da alma e o juízo divino que o ser humano sofrerá em algum mundo por vir.

Se uma pes­soa acre­dita que Deus vai pre­miar os vir­tu­o­sos e punir os peca­do­res, a vida será regida pelas emo­ções da espe­rança e do medo: a espe­rança de que se deve estar entre os elei­tos de Deus e o medo de que se está des­ti­nado à con­de­na­ção eterna.

A vida domi­nada por tais pai­xões irra­ci­o­nais é, segundo Espi­noza, uma vida de “escra­vi­dão”, em opo­si­ção a uma vida de liber­dade raci­o­nal.

As pes­soas que con­du­zi­das mais pelas pai­xões do que pela razão são facil­mente mani­pu­la­das pelos reli­gi­o­sos.”

Isso era o quanto Espi­noza estava pre­o­cu­pado, no final da década de 1660, com o aumento da influên­cia dos ele­men­tos mais repres­si­vos e into­le­ran­tes na Igreja Refor­mada na Holanda.

Esses sis­te­mas con­ti­nuam sendo uma ame­aça para a demo­cra­cia secu­lar de hoje em dia, pois sec­tá­rios reli­gi­o­sos ainda exer­cem uma influên­cia peri­gosa na vida pública, e isso no mundo inteiro.

A fim de minar tal intro­mis­são reli­gi­osa em assun­tos cívi­cos e de mora­li­dade pes­soal, Espi­noza ata­cou a crença na vida após a morte. Para Espi­noza, quando você está morto, está morto.

Pode haver uma parte da mente humana que é “eterna”. As ver­da­des da meta­fí­sica, mate­má­tica, etc, que adqui­ri­mos durante esta vida, per­ten­cem à nossa mente e ainda per­ma­ne­ce­rão, cer­ta­mente, após nos­sas vidas ter­mi­na­rem — elas são, afi­nal, as “ver­da­des eter­nas” -, mas não há nada pes­soal sobre elas.

Quanto mais se sabe sobre a natu­reza, e, espe­ci­al­mente, sobre si mesmo e como um ser humano se rela­ci­ona com ela, mais se é capaz de evi­tar os erros e des­li­zes na vida, con­tor­nando obs­tá­cu­los em dire­ção à feli­ci­dade e ao bem-estar.

O resul­tado de tal sabe­do­ria é a “paz de espí­rito”: a con­di­ção em que esta­mos menos sujei­tos aos extre­mos emo­ci­o­nais que nor­mal­mente acom­pa­nham os ganhos e per­das que a vida ine­vi­ta­vel­mente traz.

É neste momento que já não se vive com ansi­e­dade sobre o que está por vir após a morte. Como Espi­noza coloca elo­quen­te­mente,

"o homem livre pensa menos sobre a morte do que todas as outras coisas, e sua sabedoria é uma meditação sobre a vida, não sobre a morte." | Baruch Espinoza

o homem livre pensa menos sobre a morte do que todas as outras coi­sas, e sua sabe­do­ria é uma medi­ta­ção sobre a vida, não sobre a morte.” — Baruch Espi­noza

O clero que busca con­tro­lar a vida dos cida­dãos tem uma outra arma em seu arse­nal. Eles pro­cla­mam que existe um e ape­nas um livro que irá reve­lar a pala­vra de Deus e o cami­nho para a sal­va­ção, e que só eles são seus intér­pre­tes auto­ri­za­dos.

Na ver­dade, nas ale­ga­ções de Espi­noza, “eles atri­buem ao Espí­rito Santo o que quer que suas fan­ta­sias sel­va­gens tenham inven­tado”.

 

Espinoza e a Bíblia

Uma das mais famo­sas dou­tri­nas de Espi­noza, influ­ente e incen­diá­ria, diz res­peito à ori­gem das Escri­tu­ras Sagra­das. A Bíblia, Espi­noza argu­menta no Tra­tado Teo­ló­gico-Polí­tico (1670), não foi, lite­ral­mente, auto­ria de Deus.

Deus ou a Natu­reza são meta­fi­si­ca­mente inca­pa­zes de pro­cla­mar ou ditar, e muito menos de escre­ver. Escri­tura não é “uma men­sa­gem para a huma­ni­dade envi­ada por Deus do céu”.

Pelo con­trá­rio, a Bíl­blia, para Espi­noza, é um docu­mento mun­dano, a com­pi­la­ção de tex­tos de vários auto­res com dife­ren­tes ori­gens sócio-econô­mi­cas, tex­tos esses escri­tos em dife­ren­tes momen­tos durante um longo período de tempo e em dife­ren­tes cir­cuns­tân­cias his­tó­ri­cas e polí­ti­cas, e que foram pas­sa­das atra­vés de gera­ções medi­an­tes cópias de cópias de cópias.

Final­mente, uma sele­ção des­tes escri­tos foi reu­nida (com alguma arbi­tra­ri­e­dade, Espi­noza insiste) no período do Segundo Tem­plo, pro­va­vel­mente sob a dire­ção de Esdras, que era ape­nas par­ci­al­mente capaz de sin­te­ti­zar suas fon­tes e criar uma única obra a par­tir delas. Essa cole­ção imper­fei­ta­mente com­posta era sujeita a mudan­ças que ocor­riam em um texto durante o pro­cesso de trans­mis­são ao longo de mui­tos sécu­los.

A Bíblia como a temos, segundo Espi­noza, é sim­ples­mente uma obra de lite­ra­tura humana, uma con­fu­são de tex­tos por mãos dife­ren­tes, de dife­ren­tes perío­dos e para dife­ren­tes audi­ên­cias.

Espi­noza com­ple­menta sua teo­ria sobre as ori­gens da Escri­tura com uma conta igual­mente defla­ci­o­ná­ria dos seus auto­res. Os pro­fe­tas não foram indi­ví­duos espe­ci­ais. Eles não des­fru­ta­vam de um alto nível de edu­ca­ção ou sofis­ti­ca­ção inte­lec­tual. Eles cer­ta­mente não eram filó­so­fos, físi­cos ou astrô­no­mos.

Não há ver­da­des sobre a natu­reza ou o cos­mos a serem encon­tra­das em seus escri­tos (Josué, por exem­plo, acre­di­tava que o Sol girava em torno da Terra). Tam­bém não são uma fonte de ver­da­des meta­fí­si­cas ou mesmo teo­ló­gi­cas. Os pro­fe­tas mui­tas vezes eram ingê­nuos, sus­ten­tando cren­ças filo­so­fi­ca­mente fal­sas sobre Deus.

Eles foram, no entanto, indi­ví­duos moral­mente supe­ri­o­res e com uma ima­gi­na­ção vívida, e por isso há uma ver­dade a ser extraída de toda a Escri­tura.

 

A verdade bíblica que interessa

O último e prin­ci­pal ensi­na­mento da Escri­tura, seja da Bíblia hebraica ou dos Evan­ge­lhos cris­tãos, é, na ver­dade, uma lição bas­tante sim­ples: pra­ti­que a jus­tiça e a bon­dade para com seus com­pa­nhei­ros seres huma­nos.

Essa men­sa­gem moral básica é o resul­tado de todos os man­da­men­tos e a lição de todas as his­tó­rias exis­ten­tes nas Escri­tu­ras, sobre­vi­vendo e inal­te­rada atra­vés de todas as dife­ren­ças de idi­o­mas de todas as cópias, alte­ra­ções, cor­rup­ções e erros dos escri­bas que se infil­tra­ram nos tex­tos ao longo de sécu­los.

As Escri­tu­ras estão reple­tas de exem­plos, tanto nos tex­tos mais arcai­cos (“Não pro­cu­rem vin­gança, nem guar­dem ran­cor con­tra alguém do seu povo, mas ama­rás o teu pró­ximo como a ti mesmo” — Leví­tico 19:18) e tam­bém nos mais recen­tes (“Aquele que ama seu pró­ximo tem satis­feito todas as rei­vin­di­ca­ções da Lei” — Roma­nos 13: 8).

Espi­noza escreve:

posso dizer com cer­teza que, em maté­ria de dou­trina moral, nunca obser­va­rei uma lei­tura falha ou vari­ante que possa dar ori­gem a obs­cu­ri­dade ou dúvida sobre tal ensi­na­mento.”

A dou­trina moral é a men­sa­gem clara e uni­ver­sal da Bíblia, pelo menos para aque­les que são capa­zes de a ler sem pre­con­ceito, supers­ti­ção ou sede de poder.

Será que Espi­noza acre­di­tava que não havia qual­quer sen­tido em que a Bíblia pudesse ser des­crita como “divina”? Cer­ta­mente não no sen­tido cen­tral para ver­sões fun­da­men­ta­lis­tas, ou até mesmo tra­di­ci­o­nais, das reli­giões abraâ­mi­cas.

Para Espi­noza, a divin­dade das Escri­tu­ras — na ver­dade, a divin­dade de toda a escrita — é uma pro­pri­e­dade pura­mente fun­ci­o­nal. A obra de lite­ra­tura ou arte é “sagrada” ou “divina” só por­que é efi­caz em apre­sen­tar a “pala­vra de Deus”.

Qual é a “pala­vra de Deus”, ou a “lei divina uni­ver­sal”? É pre­ci­sa­mente a men­sa­gem que per­ma­nece “muti­lada” e “não cor­rom­pida” nos tex­tos bíbli­cos: amar seu pró­ximo e tratá-lo com jus­tiça e cari­dade.

A Bíblia, tal­vez mais do que qual­quer outra obra de lite­ra­tura, motiva as pes­soas a segui­rem essa lição e a imi­ta­rem o retrato (fic­tí­cio) da jus­tiça e mise­ri­cór­dia de Deus em suas vidas.

Espi­noza observa que

uma coisa é cha­mada de divina quando o seu obje­tivo é pro­mo­ver a pie­dade, e é cha­mada de sagrada ape­nas durante o tempo em que os homens a usam de uma forma reli­gi­osa”.

Em outras pala­vras, a divin­dade das Escri­tu­ras reside no fato de que ela é, acima de tudo, uma obra espe­cial e moral­mente edi­fi­cante da lite­ra­tura.

E, no entanto, exa­ta­mente por esse motivo, a Escri­tura não será a única obra de lite­ra­tura que é “divina”.

Se a lei­tura de A Tem­pes­tade, de Wil­liam Sha­kes­pe­are, ou Aven­tu­ras de Huc­kle­berry Finn, de Mark Twain, indi­cam o lado da jus­tiça e mise­ri­cór­dia, ou se a lei­tura de Tem­pos Difí­ceis, de Char­les Dic­kens, ins­pira o amor e a cari­dade, essas obras tam­bém são divi­nas e sagra­das.

A pala­vra de Deus, Espi­noza diz, “não se limita ao alcance de um número defi­nido de livros”.

Em uma carta para Espi­noza, a car­te­si­ana Lam­bert van Velthuy­sen apre­senta a obje­ção de que, se acei­tar­mos as ideias do filó­sofo, “o Alco­rão tam­bém pode­ria ser clas­si­fi­cado como a Pala­vra de Deus”, pois “os tur­cos, em obe­di­ên­cia ao comando de seu pro­feta, cul­ti­vam as vir­tu­des morais sobre os quais não há dis­cor­dân­cia entre as nações”.

Espi­noza reco­nhece a impli­ca­ção e não enxerga nisso uma obje­ção. Ele está per­fei­ta­mente dis­posto a per­mi­tir que exista outros pro­fe­tas ver­da­dei­ros, além daque­les exis­ten­tes nos livros sagra­dos dos câno­nes judai­cos e cris­tãos.

A men­sa­gem moral da Bíblia e suas pres­cri­ções de como deve­mos tra­tar outros seres huma­nos repre­senta a “Pala­vra de Deus” autên­tica. Espi­noza insiste, então, que a ver­da­deira pie­dade ou reli­gião não tem nada a ver com cerimô­nias e ritu­ais. Res­tri­ções ali­men­ta­res, prá­ti­cas litúr­gi­cas e sacri­fí­cios, ora­ções: são ele­men­tos típi­cos das reli­giões orga­ni­za­das.

Con­tudo, tra­tam-se de com­por­ta­men­tos supers­ti­ci­o­sos que, sejam quais forem suas ori­gens his­tó­rico-polí­ti­cas, atu­al­mente não têm qual­quer razão de ser. Eles con­ti­nuam a ser pro­mo­vi­dos pelo clero ape­nas para ades­trar fiéis dóceis e obe­di­en­tes.

 

A verdadeira religião

O que Espi­noza con­si­dera como “ver­da­deira reli­gião” e “ver­da­deira pie­dade” não requer nenhuma crença em qual­quer evento his­tó­rico, inci­dente sobre­na­tu­ral ou dou­trina meta­fí­sica. Não exige acei­tar qual­quer par­ti­cu­lar teo­lo­gia da natu­reza de Deus ou rei­vin­di­ca­ções filo­só­fi­cas sobre o cos­mos e suas ori­gens.

A lei divina nos ori­enta ape­nas sobre como nos com­por­tar­mos com jus­tiça e cari­dade perante outros seres huma­nos.

[Deve­mos] defen­der a jus­tiça, aju­dar quem está carente, não fazer nenhum assas­si­nato, não cobi­çar os bens de nin­guém e assim por diante”.

Todos os outros ritu­ais ou cerimô­nias advin­das dos man­da­men­tos da Bíblia são prá­ti­cas vazias, com a falsa pro­posta de “inten­si­fi­car nossa vir­tude”.

A ver­da­deira reli­gião não é nada mais do que o com­por­ta­mento moral. Não importa no que você acre­dita, mas sim o que você faz.

Escre­vendo para Henry Olden­burg em 1675, Espi­noza diz que

a prin­ci­pal dis­tin­ção que faço entre reli­gião e supers­ti­ção é que essa última se baseia na igno­rân­cia, enquanto a reli­gião se baseia na sabe­do­ria.”

O ideal polí­tico que Espi­noza pro­move no Tra­tado Teo­ló­gico-Polí­tico é de uma comu­ni­dade laica, demo­crá­tica, livre da inter­fe­rên­cia de reli­gi­o­sos.

Espi­noza é um dos defen­so­res mais elo­quen­tes da liber­dade e da tole­rân­cia. O obje­tivo final de seu tra­tado está exposto no capí­tulo final: mos­trar que

a liber­dade de filo­so­far não ape­nas poderá ser auto­ri­zada sem perigo para a pie­dade e a esta­bi­li­dade da Repú­blica, mas que não se pode recu­sar tais valo­res sem des­truir a paz da pró­pria Repú­blica.”

Todas as opi­niões, incluindo as reli­gi­o­sas, devem ser abso­lu­ta­mente livres e desim­pe­di­das, tanto por neces­si­dade quanto por direito.

É impos­sí­vel para uma mente viver com­ple­ta­mente sob o con­trole de outra, pois nin­guém é capaz de trans­fe­rir para outro a sua capa­ci­dade de raci­o­ci­nar livre­mente e for­mar sua pró­pria opi­nião sobre qual­quer assunto que seja, e nem pode ser obri­gado a fazê-lo.”

Na ver­dade, qual­quer esforço de um sobe­rano para pre­pon­de­rar sobre as cren­ças e opi­niões dos cida­dãos só pode sair pela cula­tra, uma vez que, em última aná­lise, isso serve para minar a pró­pria auto­ri­dade do sobe­rano.

O sobe­rano pode cer­ta­mente ten­tar limi­tar o que as pes­soas pen­sam, mas o resul­tado de uma polí­tica tão vai­dosa e impru­dente seria ape­nas criar res­sen­ti­mento e opo­si­ção a seu governo.

Não deve haver a cri­mi­na­li­za­ção das ideias em uma soci­e­dade bem orga­ni­zada. A liber­dade de filo­so­far deve ser aco­lhida por uma comu­ni­dade sau­dá­vel, segura e pací­fica, pois é o pres­su­posto do pro­gresso mate­rial e inte­lec­tual.

Espi­noza entende que há con­sequên­cias desa­gra­dá­veis decor­ren­tes do amplo res­peito às liber­da­des civis. Ocor­rem dis­pu­tas públi­cas e par­ti­da­ris­mos quando os cida­dãos são livres para expres­sa­rem suas opi­niões diver­gen­tes sobre ques­tões polí­ti­cas, soci­ais, morais e reli­gi­o­sas.

No entanto, isso é algo que decorre de qual­quer soci­e­dade sau­dá­vel, demo­crá­tica e tole­rante.


Considerações finais

Em 2012, quando um mem­bro da con­gre­ga­ção Por­tu­guês-judaica em Ams­terdã insis­tiu que era final­mente tempo de ana­li­sar a revo­ga­ção da here­sia imposta a Espi­noza, os líde­res da comu­ni­dade pro­cu­ra­ram advo­ga­dos exter­nos para rea­li­zar tal pro­ce­di­mento impor­tante.

Eles con­vo­ca­ram uma comis­são — que me incluía jun­ta­mente com três outros estu­di­o­sos — para res­pon­der a várias per­gun­tas sobre as cir­cuns­tân­cias filo­só­fi­cas, his­tó­ri­cas, polí­ti­cas e reli­gi­o­sas da proi­bi­ção de Espi­noza. Eles não nos pedi­ram para reco­men­dar qual­quer curso de ação — eles que­riam nos­sas opi­niões sobre quais pode­riam ser as van­ta­gens e des­van­ta­gens da sus­pen­são da con­de­na­ção.

Nós sub­me­te­mos nos­sos rela­tó­rios, e mais do que um ano se pas­sou sem qual­quer notí­cia. Final­mente, no verão de 2013, rece­be­mos uma carta infor­mando-nos de que a con­gre­ga­ção havia deci­dido que a here­sia não deve­ria ser revo­gada. Na opi­nião deles, Espi­noza foi real­mente um herege.

Na carta, a con­gre­ga­ção acres­cen­tou que, embora todos nós pos­sa­mos apre­ciar a liber­dade de expres­são no âmbito cívico, não há nenhuma razão para espe­rar que tal liber­dade seja con­ce­bida no mundo do judaísmo orto­doxo.

Além disso, a carta per­gun­tava, reto­ri­ca­mente: os líde­res da comu­ni­dade de hoje seriam mais sábios e mais bem infor­ma­dos sobre o caso de Espi­noza do que aque­les que o puni­ram?

Sem dúvida, Espi­noza teria achado todo esse assunto muito diver­tido. Se fosse per­gun­tado se gos­ta­ria de ser read­mi­tido pelo “povo de Israel’, ele pro­va­vel­mente res­pon­de­ria: “Faça o que qui­ser, eu não pode­ria me impor­tar menos com isso.”


Ensaio ori­gi­nal­mente publi­cado em Aeon, e tra­du­zido por Rodrigo Zot­tis.


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Steven Nadler
Steven Nadler é professor de filosofia na Universidade de Wisconsin-Madison. Seus livros incluem Spinoza: A Life (1999) e A Book Forged in Hell: Spinoza’s Scandalous Treatise and the Birth of the Secular Age (2011).

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