Já é sabido que os gregos antigos entenderam muito da vida num passado muito remoto.

Seus livros e pensamentos ainda possuem uma incrível expressão acadêmica e popular. E, apesar da primitividade técnica da época que, naturalmente, podemos compreender, a capacidade de observação e interpretação da realidade foram, sem dúvidas, geniais.

Então, sabendo da sapiência desses seres, por que será que grande parte notória dos seus escritos que carregam uma abundante bagagem de experiência, de cultura e de imaginação, consta a conclusão de que a vida é inerentemente trágica?

Vamos entender.

Finitude X Infinitude

Para tratarmos desse assunto teremos que abordar a nossa angústia sobre a nossa situação perene e efêmera.

A morte, apesar de ter se tornado um tabu hoje em dia no ocidente, no passado era amplamente discutida. Os sábios gregos tinham uma angústia enorme da morte. Essa realidade, irremediável para eles, era uma falta de misericórdia e algo sublime.

A mitologia nos mostra muito bem como pensavam na morte de uma forma comedida.

Vejamos.

Na Epopéia de Gilgamesh, após perder Enkidu, seu ente amado, por juntos terem matado a criatura dos deuses, Humbaba e o touro celeste, são punidos por atentarem a harmonia cósmica e pecarem por hybris, por agirem com arrogância desmedida.

Porém apenas Enkidu é condenado a morte. Gilgamesh se depara com a finitude e a fragilidade do homem e passa a desejar a imortalidade em virtude do medo que o afligia, não obstante de deter a mais invejável e imensurável força que todo homem sonhara.

A ganância de Gilgamesh e Enkidu, de se testarem sem limites buscando ações heroicas, insinuando sua finitude à história para se tornarem seres imortais, acabou provocando a ira dos deuses. Suas projeções no sentido de ser e ter foram demasiadamente imprudentes.

Esta é uma forma de interpretar a história. Podemos tirar várias outras conclusões.

Gilgamesh lamentando a morte de Enkidu. Posteriormente, passou a desejar a imortalidade.
Gilgamesh lamentando a morte de Enkidu. Posteriormente, passou a desejar a imortalidade.

Mas o que quero tirar desse raciocínio é que não importa o que fazemos, o que buscamos, o que ganhamos e o que somos, vamos sempre acabar morrendo.

”A angústia da morte arrasta para as vaidades; ela nos dá ilusão de que o dinheiro, as honrarias e a glória vão nos permitir manter o nosso fim distante.”

Porém, cabe a nós, mesmo assim, sabendo dessas infelizes circunstâncias, continuar a viver e abraçar todas as nossas atividades rotineiras fúteis, sabendo que não há propósito nenhum na perseverança da vida.

É um drama, de acordo com Aristóteles, em constante conflito com entidades superiores e ao nosso destino. Porém nunca resultando em um êxito satisfatório.

É essa luta insólita que os gregos perceberam que proporcionou uma substância trágica inerente à vida.

Concluindo isso, ainda nos resta alguns questionamentos a serem respondidos.

Por que a vida é um espetáculo? Vimos que nossa existência possui um teor obscuro, sutil e sublime, mas não entendemos ainda o porquê de a nossa vida ser um espetáculo. O que propriamente nos faz sermos uma peça, uma imitação ou representação de algo?

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Ontologia cósmica e a arte

Bom, para falarmos sobre esse assunto, teremos que trazer dois filósofos existencialistas que se engajaram profundamente na arte e na ontologia: Friedrich Nietzsche e Martin Heidegger.

Nietzsche, muito famoso atualmente, mas pouco compreendido, foi o pioneiro a associar a vida com a arte. Estudioso dos gregos antigos, sabia muito bem da ausência de significação do homem. Por isso, influenciado pelos gregos, Nietzsche também deu à vida uma conotação trágica, porém, agora designou-a puramente como um fenômeno estético.

O que o filósofo queria dizer com isso é que, já que a vida só possui um fim em si mesmo, a vida só tem expressão ao juízo do gosto. Unicamente exposto como um apelo à fealdade ou à beleza.

Mas não se engane, essa visão está de acordo com a vida. Nietzsche nunca foi contra esse mundo. Aprovava esse tipo de vida insólita e combatia as filosofias de mãos dadas à morte. O mundo era trágico para ele, mas, ao mesmo tempo, era uma arte! Onde deveríamos buscar por mais potência de poder e continuar nessa luta que é a vida.

É um assunto humano, demasiado humano. Mostra bem como temos que insistir em agir, a proclamar a vida: se perder, a cair, sofrer nas ambições, nos apegos, nos egoísmos e na vaidade.

Somos humanos e nos comportamos como seres do caos e do pecado numa necessidade de discordância com os deuses para, pelo menos, afirmarmos nossa existência nesse mundo.

Nossa busca é de uma Epopéia sem fim.

Histórias de Família - o teatro retrata a violência cotidiana. Algo muito humano, diriam os filósofos trágicos e pessimistas.
Histórias de Família – o teatro retrata a violência cotidiana. Algo muito humano, diriam os filósofos trágicos e pessimistas.

Por conseguinte, no âmbito ontológico há certas razões que fundamentam a ideia de que somos uma revelação estética de pura diversão para os deuses.

Heidegger foi um dos que designou à vida essa característica. Gênio na filosofia, o pensador, no entanto, se inclinou de maneira distorcida na política, colocando suas teorias e conceitos de maneira ruim.

Infelizmente, o filósofo foi um nazista porque tinha suas suspeitas do progresso técnico que o mundo estava passando. Para ele, caminhamos para o niilismo, uma realidade sem autenticidade, sem vigorosidade e sem fins para a busca de potência.

Esse pensador, numa nuance semelhante à de Nietzsche, percebia a vida como uma exibição estética agradável aos deuses. No entanto, de acordo com ele, a presunção e arrogância criou o achismo do homem como o ator principal tentando controlar todas as coisas.

Aos poucos, porém, acabou perdendo a autonomia de si (pouca, que já não temos por completo), tornando-se um instrumento de pura expansão. Esse era o progresso técnico que incomodava Heidegger.

Por isso, esse filósofo apela a ver a história como uma cristalização do ser. Dizendo que

”a formação histórica da capacidade de ser cunharam as coisas, ou proporcionaram a medida ou forma de acordo com as quais todas as coisas e todos os comportamentos humanos pudessem mostrar-se a si mesmos.”

A história do ser, então, se torna a história da formação do mundo.

É um espetáculo para os deuses, nas duas ideias dos dois filósofos, que acontece sem propósito algum. Apenas com enfoque na nossa luta de perseverança e, no fim, ganhamos de presente, descuidadosamente, a morte.

No filme Crepúsculo dos Deuses as situações humanas são claras, a confusão da vida como um espetáculo, uma metalinguagem de roteiros.
No filme Crepúsculo dos Deuses, as situações humanas são claras, a confusão da vida como um espetáculo, uma metalinguagem de roteiros.

 

Mas e aí, o que podemos tirar desse tipo de filosofia e literatura?

A priori, a percepção da nossa condição, de acordo com esse tipo de pensamento que acabamos de abordar, possui uma característica pessimista. A realidade trágica pode desamparar qualquer um e torná-lo um niilista sem vida.

Mas, apesar disso, lemos vários pensadores conscientes disso e que possuem uma postura de vigor e vitalidade em relação à vida.

A filosofia inventou várias maneiras de viver melhor.

Fugindo dessa ideia do homem trágico, os estoicos fizeram o máximo possível para não se iludirem nos apegos, nas esperanças e no futuro, desenvolvendo toda uma forma de vida lacônica e indiferente, longe das características que Nietzsche chamaria de humano.

Tudo isso, para fugir do doloroso sofrimento e levar a vida de forma mais inteligente. Há quem discorde e contrarie que isso não é viver.

Por isso, para uma vastíssima vertente da filosofia, viver é sofrer. É encarar os fatos insólitos, a absurdidade da nossa existência e falecer nas próprias angústias: o mundo trágico.

Para mim, a filosofia pura, sem atrelá-la a outra forma de categorização do conhecimento, começa sempre depois da situação de compreensão da nossa condição. A filosofia está aqui para isso, para nos ensinar a morrer.

Veja, como vimos até agora, você já pode viver de duas maneiras:

1 – de escapismo como os estoicos, fugindo dos sofrimentos, lidando, insipidamente, com as adversidades da vida, sendo um inteligente controlado;

2 – ou viver de catarse, nas oscilações brutais dos prazeres e dos sentimentos numa embriaguez lúcida.

Eu gosto das duas, ambas são chiques para mim.


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escrito por:

Victor Sado

Tem a impressão meio vaga de si, aqui e acolá é uma pessoa diferente. Não é muito estático por definição, mas tem medo de mudanças. Vê muita sabedoria em pessoas que agem conforme pensam e, sobretudo, daquelas que possuem um charme formal e vulgar na sua forma de estar. Aprecia, com muito prazer, café com chocolate depois do almoço. Escreve como fuga ou somente porque acha chique.