Homem sentado com uma máscara na face, em preto e branco.

A vida é um espetáculo trágico?

Em Consciência, Filosofia por Victor SadoComentário

Já é sabido que os gre­gos anti­gos enten­de­ram muito da vida num pas­sado muito remoto.

Seus livros e pen­sa­men­tos ainda pos­suem uma incrí­vel expres­são aca­dê­mica e popu­lar. E, ape­sar da pri­mi­ti­vi­dade téc­nica da época que, natu­ral­mente, pode­mos com­pre­en­der, a capa­ci­dade de obser­va­ção e inter­pre­ta­ção da rea­li­dade foram, sem dúvi­das, geni­ais.

Então, sabendo da sapi­ên­cia des­ses seres, por que será que grande parte notó­ria dos seus escri­tos que car­re­gam uma abun­dante baga­gem de expe­ri­ên­cia, de cul­tura e de ima­gi­na­ção, consta a con­clu­são de que a vida é ine­ren­te­mente trá­gica?

Vamos enten­der.

Finitude X Infinitude

Para tra­tar­mos desse assunto tere­mos que abor­dar a nossa angús­tia sobre a nossa situ­a­ção perene e efê­mera.

A morte, ape­sar de ter se tor­nado um tabu hoje em dia no oci­dente, no pas­sado era ampla­mente dis­cu­tida. Os sábios gre­gos tinham uma angús­tia enorme da morte. Essa rea­li­dade, irre­me­diá­vel para eles, era uma falta de mise­ri­cór­dia e algo sublime.

A mito­lo­gia nos mos­tra muito bem como pen­sa­vam na morte de uma forma come­dida.

Veja­mos.

Na Epo­péia de Gil­ga­mesh, após per­der Enkidu, seu ente amado, por jun­tos terem matado a cri­a­tura dos deu­ses, Hum­baba e o touro celeste, são puni­dos por aten­ta­rem a har­mo­nia cós­mica e peca­rem por hybris, por agi­rem com arro­gân­cia des­me­dida.

Porém ape­nas Enkidu é con­de­nado a morte. Gil­ga­mesh se depara com a fini­tude e a fra­gi­li­dade do homem e passa a dese­jar a imor­ta­li­dade em vir­tude do medo que o afli­gia, não obs­tante de deter a mais inve­já­vel e imen­su­rá­vel força que todo homem sonhara.

A ganân­cia de Gil­ga­mesh e Enkidu, de se tes­ta­rem sem limi­tes bus­cando ações heroi­cas, insi­nu­ando sua fini­tude à his­tó­ria para se tor­na­rem seres imor­tais, aca­bou pro­vo­cando a ira dos deu­ses. Suas pro­je­ções no sen­tido de ser e ter foram dema­si­a­da­mente impru­den­tes.

Esta é uma forma de inter­pre­tar a his­tó­ria. Pode­mos tirar várias outras con­clu­sões.

Gilgamesh lamentando a morte de Enkidu. Posteriormente, passou a desejar a imortalidade.

Gil­ga­mesh lamen­tando a morte de Enkidu. Pos­te­ri­or­mente, pas­sou a dese­jar a imor­ta­li­dade.

Mas o que quero tirar desse raci­o­cí­nio é que não importa o que faze­mos, o que bus­ca­mos, o que ganha­mos e o que somos, vamos sem­pre aca­bar mor­rendo.

”A angús­tia da morte arrasta para as vai­da­des; ela nos dá ilu­são de que o dinheiro, as hon­ra­rias e a gló­ria vão nos per­mi­tir man­ter o nosso fim dis­tante.”

Porém, cabe a nós, mesmo assim, sabendo des­sas infe­li­zes cir­cuns­tân­cias, con­ti­nuar a viver e abra­çar todas as nos­sas ati­vi­da­des roti­nei­ras fúteis, sabendo que não há pro­pó­sito nenhum na per­se­ve­rança da vida.

É um drama, de acordo com Aris­tó­te­les, em cons­tante con­flito com enti­da­des supe­ri­o­res e ao nosso des­tino. Porém nunca resul­tando em um êxito satis­fa­tó­rio.

É essa luta insó­lita que os gre­gos per­ce­be­ram que pro­por­ci­o­nou uma subs­tân­cia trá­gica ine­rente à vida.

Con­cluindo isso, ainda nos resta alguns ques­ti­o­na­men­tos a serem res­pon­di­dos.

Por que a vida é um espe­tá­culo? Vimos que nossa exis­tên­cia pos­sui um teor obs­curo, sutil e sublime, mas não enten­de­mos ainda o porquê de a nossa vida ser um espe­tá­culo. O que pro­pri­a­mente nos faz ser­mos uma peça, uma imi­ta­ção ou repre­sen­ta­ção de algo?

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Ontologia cósmica e a arte

Bom, para falar­mos sobre esse assunto, tere­mos que tra­zer dois filó­so­fos exis­ten­ci­a­lis­tas que se enga­ja­ram pro­fun­da­mente na arte e na onto­lo­gia: Fri­e­drich Nietzs­che e Mar­tin Hei­deg­ger.

Nietzs­che, muito famoso atu­al­mente, mas pouco com­pre­en­dido, foi o pio­neiro a asso­ciar a vida com a arte. Estu­di­oso dos gre­gos anti­gos, sabia muito bem da ausên­cia de sig­ni­fi­ca­ção do homem. Por isso, influ­en­ci­ado pelos gre­gos, Nietzs­che tam­bém deu à vida uma cono­ta­ção trá­gica, porém, agora desig­nou-a pura­mente como um fenô­meno esté­tico.

O que o filó­sofo que­ria dizer com isso é que, já que a vida só pos­sui um fim em si mesmo, a vida só tem expres­são ao juízo do gosto. Uni­ca­mente exposto como um apelo à feal­dade ou à beleza.

Mas não se engane, essa visão está de acordo com a vida. Nietzs­che nunca foi con­tra esse mundo. Apro­vava esse tipo de vida insó­lita e com­ba­tia as filo­so­fias de mãos dadas à morte. O mundo era trá­gico para ele, mas, ao mesmo tempo, era uma arte! Onde deve­ría­mos bus­car por mais potên­cia de poder e con­ti­nuar nessa luta que é a vida.

É um assunto humano, dema­si­ado humano. Mos­tra bem como temos que insis­tir em agir, a pro­cla­mar a vida: se per­der, a cair, sofrer nas ambi­ções, nos ape­gos, nos egoís­mos e na vai­dade.

Somos huma­nos e nos com­por­ta­mos como seres do caos e do pecado numa neces­si­dade de dis­cor­dân­cia com os deu­ses para, pelo menos, afir­mar­mos nossa exis­tên­cia nesse mundo.

Nossa busca é de uma Epo­péia sem fim.

Histórias de Família - o teatro retrata a violência cotidiana. Algo muito humano, diriam os filósofos trágicos e pessimistas.

His­tó­rias de Famí­lia — o tea­tro retrata a vio­lên­cia coti­di­ana. Algo muito humano, diriam os filó­so­fos trá­gi­cos e pes­si­mis­tas.

Por con­se­guinte, no âmbito onto­ló­gico há cer­tas razões que fun­da­men­tam a ideia de que somos uma reve­la­ção esté­tica de pura diver­são para os deu­ses.

Hei­deg­ger foi um dos que desig­nou à vida essa carac­te­rís­tica. Gênio na filo­so­fia, o pen­sa­dor, no entanto, se incli­nou de maneira dis­tor­cida na polí­tica, colo­cando suas teo­rias e con­cei­tos de maneira ruim.

Infe­liz­mente, o filó­sofo foi um nazista por­que tinha suas sus­pei­tas do pro­gresso téc­nico que o mundo estava pas­sando. Para ele, cami­nha­mos para o nii­lismo, uma rea­li­dade sem auten­ti­ci­dade, sem vigo­ro­si­dade e sem fins para a busca de potên­cia.

Esse pen­sa­dor, numa nuance seme­lhante à de Nietzs­che, per­ce­bia a vida como uma exi­bi­ção esté­tica agra­dá­vel aos deu­ses. No entanto, de acordo com ele, a pre­sun­ção e arro­gân­cia criou o achismo do homem como o ator prin­ci­pal ten­tando con­tro­lar todas as coi­sas.

Aos pou­cos, porém, aca­bou per­dendo a auto­no­mia de si (pouca, que já não temos por com­pleto), tor­nando-se um ins­tru­mento de pura expan­são. Esse era o pro­gresso téc­nico que inco­mo­dava Hei­deg­ger.

Por isso, esse filó­sofo apela a ver a his­tó­ria como uma cris­ta­li­za­ção do ser. Dizendo que

”a for­ma­ção his­tó­rica da capa­ci­dade de ser cunha­ram as coi­sas, ou pro­por­ci­o­na­ram a medida ou forma de acordo com as quais todas as coi­sas e todos os com­por­ta­men­tos huma­nos pudes­sem mos­trar-se a si mes­mos.”

A his­tó­ria do ser, então, se torna a his­tó­ria da for­ma­ção do mundo.

É um espe­tá­culo para os deu­ses, nas duas ideias dos dois filó­so­fos, que acon­tece sem pro­pó­sito algum. Ape­nas com enfo­que na nossa luta de per­se­ve­rança e, no fim, ganha­mos de pre­sente, des­cui­da­do­sa­mente, a morte.

No filme Crepúsculo dos Deuses as situações humanas são claras, a confusão da vida como um espetáculo, uma metalinguagem de roteiros.

No filme Cre­pús­culo dos Deu­ses, as situ­a­ções huma­nas são cla­ras, a con­fu­são da vida como um espe­tá­culo, uma meta­lin­gua­gem de rotei­ros.

 

Mas e aí, o que podemos tirar desse tipo de filosofia e literatura?

A pri­ori, a per­cep­ção da nossa con­di­ção, de acordo com esse tipo de pen­sa­mento que aca­ba­mos de abor­dar, pos­sui uma carac­te­rís­tica pes­si­mista. A rea­li­dade trá­gica pode desam­pa­rar qual­quer um e torná-lo um nii­lista sem vida.

Mas, ape­sar disso, lemos vários pen­sa­do­res cons­ci­en­tes disso e que pos­suem uma pos­tura de vigor e vita­li­dade em rela­ção à vida.

A filo­so­fia inven­tou várias manei­ras de viver melhor.

Fugindo dessa ideia do homem trá­gico, os estoi­cos fize­ram o máximo pos­sí­vel para não se ilu­di­rem nos ape­gos, nas espe­ran­ças e no futuro, desen­vol­vendo toda uma forma de vida lacô­nica e indi­fe­rente, longe das carac­te­rís­ti­cas que Nietzs­che cha­ma­ria de humano.

Tudo isso, para fugir do dolo­roso sofri­mento e levar a vida de forma mais inte­li­gente. Há quem dis­corde e con­tra­rie que isso não é viver.

Por isso, para uma vas­tís­sima ver­tente da filo­so­fia, viver é sofrer. É enca­rar os fatos insó­li­tos, a absur­di­dade da nossa exis­tên­cia e fale­cer nas pró­prias angús­tias: o mundo trá­gico.

Para mim, a filo­so­fia pura, sem atrelá-la a outra forma de cate­go­ri­za­ção do conhe­ci­mento, começa sem­pre depois da situ­a­ção de com­pre­en­são da nossa con­di­ção. A filo­so­fia está aqui para isso, para nos ensi­nar a mor­rer.

Veja, como vimos até agora, você já pode viver de duas manei­ras:

1 — de esca­pismo como os estoi­cos, fugindo dos sofri­men­tos, lidando, insi­pi­da­mente, com as adver­si­da­des da vida, sendo um inte­li­gente con­tro­lado;

2 — ou viver de catarse, nas osci­la­ções bru­tais dos pra­ze­res e dos sen­ti­men­tos numa embri­a­guez lúcida.

Eu gosto das duas, ambas são chi­ques para mim.


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Victor Sado
Tem a impressão meio vaga de si, aqui e acolá é uma pessoa diferente. Não é muito estático por definição, mas tem medo de mudanças. Vê muita sabedoria em pessoas que agem conforme pensam e, sobretudo, daquelas que possuem um charme formal e vulgar na sua forma de estar. Aprecia, com muito prazer, café com chocolate depois do almoço. Escreve como fuga ou somente porque acha chique.

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