Pastafarianismo: a religião do Monstro do Espaguete Voador.


Se você já navegou por algum blog/vlog de ciência na internet no último ano, talvez essa “nova divindade” já faça parte de seu vocabulário, mas se você é aquele marujo de primeira viagem, esta entidade que paira sobre nossas cabeças deve lhe causar certa estranheza.

Ganhando cada vez mais status de religião, o Pastafarianismo já não parece tanto um HOAX e seu voraz crescimento tanto em redes sociais quanto no mundo real evidencia uma coisa: como aconteceu com este interlocutor, provavelmente você também irá se curvar aos ensinamentos que o Pastafarianismo tem a lhe propor, talvez não propriamente descritos em si, mas com tudo que está acontecendo, abre-se uma nova discussão em aspectos sociais, legais e religiosos. Mas antes o contexto…


Pastafa… O que? Pastafarianismo. Foi isso mesmo que você leu, a palavra surgiu da simples junção entre Pasta, em alusão ao macarrão e Rastafári, religião originada na Jamaica. O nome que é quase lúdico emergiu realmente como uma forma de protesto e foi fundado pelo físico norte-americano Bobby Henderson em 2005, e tudo começou como uma crítica à proposta de ensino criacionista disfarçada de ciência nas escolas, o famoso design inteligente. Primordialmente, a ideia era fazer uma alusão de que algo tão esdrúxulo, como um monstro de espaguete voador, pudesse ser aceito tanto quanto o criacionismo, já que a falta de evidências nos dois casos revela que uma crença poderia ser tão aceita quanto a outra.

O que começou como uma sátira e crítica logo chegou ao mainstream, ganhando status de religião. Dentre os adeptos criou-se um evangelho que até está disponível pra compra, e também 8 mandamentos que, lendo-os, é possível entender claramente como tudo virou um ativismo contra o que o extremismo religioso representa no mundo atual. Algumas de suas crenças acreditam em um paraíso com cerveja em abundância e um inferno com cerveja sem álcool e quente. Além de alguns mandamentos abertamente críticos:

– Realmente preferiria que você não andasse por aí contando às pessoas que eu falo com você. Você não é tão interessante. Cresça! Te disse que amasses ao teu próximo, você não entende as indiretas?

– Realmente preferiria que você não construísse igrejas/templos/mesquitas/santuários multimilionários à minha santidade macarrônica quando o dinheiro poderia ser melhor empregado em (a escolha é sua):

  • Terminar com a pobreza.
  • Curar enfermidades.
  • Viver em paz, amar com paixão e abaixar o preço da televisão a cabo.

Posso ser um ser onipresente de carboidratos complexos, mas desfruto das coisas simples da vida. Eu sei, por isso SOU O Criador.

Dada toda a construção da igreja, começou então uma luta para que o Pastafarianismo fosse reconhecido como uma religião oficial perante não somente a sociedade quanto perante a lei.

Mas o pastafarianismo é mesmo uma religião? Deveria ser reconhecido como tal? O que essas questões podem mudar na sociedade? Antes de responder a estas perguntas é hora de discutir os âmbitos em que elas vêm causando algum “estrago”.

 

Minha crença, minha fé, minha religião

Coexist: imagem 1 do artigo sobre o monstro do espaguete voador

Quantas vezes você parou pra pensar o que é religião? Sendo você ateu, cristão, judeu, espirita ou o que for, provavelmente você poderá até negar a veracidade de algo oposto àquilo que você acredita, mas em suma a maioria das religiões são baseadas nos mesmos pilares.

A natureza de Deus – É basicamente a descrição da divindade. Cria-se uma imagem personificada para os seguidores, seja ela mais abstrata ou concreta.

Criação – É a história de como tudo surgiu, a criação do mundo, dos homens e de todas as coisas.

Vida pós-morte – É a base para a elevação do físico para o místico, usada para descrever a transcendência entre o mundo real e o espiritual. Vale ressaltar que, em alguns casos, é usada como dogma de comportamento, tanto para a recompensa boa pós-morte quanto para o castigo.

Literatura sagrada – É a reunião de ensinamentos, histórias, “leis sagradas” etc. Serve como bibliografia base para se entender toda a religião em questão.

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Se formos nos ater a descrições, o dicionário resume em: “Serviço ou culto a Deus, ou a uma divindade qualquer, expresso por meio de ritos, preces e observância do que se considera mandamento divino.” Compare com os aspectos Pastafaris e até aqui tudo segue a mesma norma. Mas existe uma diferença que é alegada por grupos religiosos já estabelecidos, a de que se sabe bem como a religião em questão foi criada. Assim sendo seria fácil de refutar a veracidade do tal monstro divino.

O problema é que automaticamente o argumento cria um paradoxo, sabendo da origem do Pastafarianismo tem-se a deixa para o questionamento sobre o real e o imaginário, tanto quanto a obscuridade e falta de informações sobre tantas origens de tantas outras religiões criam o mesmo resultado. Duvida?

 

Perante a lei eu os declaro…

Juiz batendo o martelo: imagem 2 do artigo sobre o monstro do espaguete voador

Aqui que a coisa se complica um pouco. Para aqueles que cursaram Direito eis que surge o clichê profético para este caso, o famoso “depende”. Ok, pode ser que alguns juristas se incomodem com isso, mas no fim sempre teremos o fator humano na hora da avaliação de uma lei sobre uma situação, pelo menos neste caso com certeza é assim que ocorre. Não é por menos que só três países no mundo consideram o Pastafarianismo uma religião, Holanda, Polônia e Nova Zelândia. Porém não há algo que guie a decisão de tornar ou não uma crença em religião, os casos onde ela é ou não aceita são definidos a partir de como a lei trata as crenças individuais perante os direitos coletivos.

Assim é possível requerer a nossa legislação para situar-se até onde sua crença pode ir em relação a estes direitos.

Constituição Federal de 1988

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;

Existem inúmeras variações em como cada país descreve suas leis em relação à religião. Salvo alguns casos como na Carolina do Norte onde um dogma religioso restringiu um direito comum, na grande maioria a lei vigora semelhante ao Brasil.

Sendo assim ela garantiria culto religioso a todo tipo de crença, que pode ser representado tanto pelo casamento quanto por símbolos usados como expressão religiosa.

E na simbologia achamos mais exemplos de como a implementação da lei é interpretativa.

Carteira de motorista de Nevada: imagem 3 do artigo sobre o monstro do espaguete voador
Pastafári tendo seus direitos respeitados.

Como as leis garantem o respeito aos símbolos religiosos, alguns lugares estão permitindo o uso do escorredor de macarrão na cabeça para fotos oficiais, símbolo religioso do Pastafarianismo, igualmente ao crucifixo, quipá etc.

Porém situações como estas abrem espaço para usos que muitas vezes acabam por confundir até onde vai o direito e a interpretação.

Em um caso recente, um preso americano exigiu uma indenização de 5 milhões de dólares pela “profunda dor emocional, psicológica e espiritual” ao não ter permissão de praticar sua religião e pelos funcionários caçoarem e insultarem sua fé. Neste caso, é claro, o sujeito estava preso, e nenhuma prática infringia as normas de segurança da prisão. E aqui talvez você possa estar desprezando a situação e considerando que seja um ato para se aproveitar do momento, devido ao tamanho da indenização, e talvez não fosse para tanto mesmo.

Deixemos de lado a condição do acusador e pensemos sobre a acusação: imagine se neste caso estivéssemos falando de um cristão que não pudesse rezar, ou um judeu que fosse obrigado a comer algo que sua religião lhe restringe, e vale ressaltar que judeus possuem refeições diferentes dos demais em presídios norte-americanos, e mesmo alegando ser uma religião “falsa” a lei protege as crenças e não as religiões.

Devido à interpretação ambígua destes casos o juiz indeferiu seu pedido a ainda alegou: “Este caso é difícil, pois o Pastafarianismo, como uma paródia, é desenhado para parecer muito como uma religião”. Então ao mesmo tempo em que ele compara o Pastafarianismo a uma paródia, ele liga a religião como um todo a como o Pastafarianismo é desenhado, uma alusão clara de quanta névoa judicial existe sobre o que é ou não um direito religioso.

 

Então…

Cabeça cheia de dúvidas: imagem 4 do artigo sobre o monstro do espaguete voador

Ao final sobram as perguntas que lhes fiz, e se compararmos os Pastafaris a qualquer outra religião fica fácil de dizer que eles são uma religião. Mas deveriam ser reconhecidos como tal?

Segundo Clay Farris Naff, colunista do HuffPost US, “absolutamente e inequivocamente sim.” Ele também usa de um ótimo argumento quando diz que, no caso dos Estados Unidos, a constituição proíbe o governo de escolher qual religião eles gostem e qual não. Sem essa proibição, a liberdade religiosa não tem nenhum significado. E não deixarei de concordar, porém é preciso abrir espaço para outra visão.

Não, eles não deveriam se tornar uma religião.

E a explicação também é simples. Estamos tentando fazer o caminho contrário, e a lei parece apontar para este caminho também. Basta pensar no argumento usado ultimamente onde diz que, se um político cometeu um crime específico e não foi condenado, os outros também não devem ser – ao invés de, se um cometeu, todos devem ser punidos. Já basta de incoerências como esta, e é hora de repensar sobre isso. A permissão de atos nonsense em nome de uma crença, somente porque outras religiões têm o mesmo direito, não faz sentido.

É preciso rever como a sociedade se porta de forma irracional quando o assunto envolve direitos e religião. É preciso revogar benefícios coletivos às igrejas que ferem os direitos comuns, rever pautas educacionais, chapas políticas entre tantas outras coisas que prejudicam o coletivo maior e único, o da espécie humana.


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Referências bibliográficas:

  1. https://pt.wikipedia.org/wiki/Pastafarianismo#O_Capit.C3.A3o_Mosey_e_os_8_Condimentos
  2. http://www.theatlantic.com/politics/archive/2016/05/hb2-is-a-constitutional-monstrosity/482106/
  3. http://www.bbc.com/news/world-asia-36062126
  4. http://www.huffingtonpost.com/entry/pastafarian-colander-license-photo_us_56498e42e4b08cda34897b27
  5. http://journalstar.com/news/local/911/inmate-loses-lawsuit-to-worship-flying-spaghetti-monster/article_88202368-0930-5335-8921-6542e8d4bb04.html
  6. http://www.huffingtonpost.com/clay-naff/claiming-their-place-in-t_b_6027576.html
  7. http://time.com/4114369/pastafarian-colander-license-photo/
  8. http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=religi%E3o
  9. http://super.abril.com.br/historia/pilares-da-fe
  10. http://www.huffingtonpost.com/clay-naff/is-it-time-for-government_b_5815088.html
  11. http://www.huffingtonpost.com/isaac-fornarola/the-satirical-world-of-atheist_b_8912554.html
  12. http://spaghettimonster.com/pastafarianism/pastafarian-wik/
  13. http://www.atlasobscura.com/articles/pastafarianism-is-still-not-a-legally-recognized-religion-in-the-united-statesyet

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escrito por:

Luan Verone

Inquisidor de dogmas, vive em uma realidade paralela onde não acredita em problemas insolúveis. Publicitário e astrônomo, também flertou com cursos de ética, fotografia, filosofia e sociologia. Acredita que currículos não descrevem ninguém, mas sempre deixa claro que fez Harvard… Sua divindade é Einstein, seu guia para a vida passa pela A Origem das espécies e Philosophiae Naturalis Principia Mathematica. Sua religião é a ciência e não se incomoda de ser um pregador.


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