Embora ainda vivamos em uma sociedade na qual 13 milhões de brasileiros não saibam ler e escrever, uma coisa podemos afirmar seguramente: com uma conexão em rede cada vez maior, há também uma quantidade cada vez maior de escritas e leituras – seja num simples bate-papo ou lendo um textão no Facebook.

Mesmo que os dados brasileiros quanto ao analfabetismo (e analfabetismo funcional) sejam alarmantes, não precisamos recorrer a dados estatísticos para perceber que, na internet, há uma notável resistência da escrita e da leitura. Além disso, é visível uma crescente quantidade de autores surgindo na rede (a ponto de autores antigos darem conselhos).

Ao visitar plataformas como Medium, Wattpad, Obvious e diversas outras, é notável um cada vez maior desejo pela escrita não só por parte dos autores, que pretendem cativar seu público e alçar novos voos. Também é perceptível que aqueles que antes eram apenas leitores, ao admirarem o que andam lendo, pretendem agora dar um passo além, transformando-se em novos escritores.

A verdade é que estou gostando de ver isso. Acredito quase religiosamente que, quanto mais escrevemos, mais tendemos a fazer mudanças realmente necessárias para a sociedade, tanto no que tange à nossa autocrítica e autoaprimoramento quanto ao fato de que, quando alguém escreve e atinge outras pessoas, mais pessoas tendem a também desejar a exposição de suas ideias – sendo de certa forma uma mimese, porém com a adição de suas características próprias.

Mas me parece que, à medida em que a tecnologia evolui (criando novas facilidades para que a escrita seja algo mais fluído e leve), ficamos cada vez mais familiarizados com uma falsa sensação de que saber dos processos envolvidos e não-relacionados diretamente à escrita seja algo desnecessário – afinal, para escrever na internet basta acessar uma plataforma e digitar.

Há alguns anos, se você quisesse ter uma voz na rede, você precisaria criar o seu blog (em plataformas de criação manual, como Blogspot e WordPress, por exemplo), preocupando-se não apenas com o conteúdo, mas com o design, a aparência, a elegância e os mínimos detalhes. Preocupando-se, na verdade, com a experiência dos seus leitores, ao visitarem o seu cantinho na rede. Não bastava saber escrever, era necessário saber gerenciar um sistema, mesclando conhecimentos técnicos à mensagem de como você gostaria de representar seu site, dando assim uma identidade à sua plataforma – algo que o definisse. Para o sucesso de seu projeto, era preciso não apenas ser um escritor como também alguém engajado em aprender sobre os processos que te permitem chegar aos leitores.

Isso acontecia (calma, ainda acontece) de forma que escrever para a internet não fosse tão somente uma questão de escrita, mas de ser um empreendedor com um projeto mais sólido, envolvendo esforços além dos impulsos criativos da elaboração textual. Você era obrigado a ter alguma noção mínima de HTML para que seu site tivesse algum diferencial e fosse atraente, por exemplo.

Porém, as coisas tendem a mudar cada vez mais. Não estamos mais dependentes da criação de um site para poder jogar algumas palavras na rede. A tendência é a tecnologia trabalhar ao nosso favor, sendo não apenas um suporte às nossas alçadas mas extensões de nós mesmos, sendo portanto facilitadoras de nossos esforços.

Tim Urban, por exemplo, em sua sensacional série sobre a inteligência artificial, evidencia que a tecnologia não apenas evolui como também sua evolução é cada vez mais veloz – o que acaba por nos alienar dos processos, pois nossa capacidade de compreensão do todo é muito limitada em comparação a um todo cada vez mais complexo (não à toa já estamos criando o que não conseguimos compreender). Nesse sentido, não ficamos apenas à parte do que compõe a plataforma em que dispomos nossos textos – dado o nosso desejo por produção, nós também não estamos mais interessados em saber.

Ao menos é o que está sendo estimulado atualmente.

Pensemos rapidamente no Medium, plataforma já universalizada e consolidada como referência na área de conteúdo escrito. Sua elegância minimalista busca propiciar ao leitor uma boa experiência de leitura, com fontes agradáveis aos olhos e sem, no entanto, exaltar publicidades (uma garantia após um financiamento de US$57 milhões). Sendo de uma simplicidade absurda, conseguiu fazer pulular qualidade textual e alavancar novos talentos.

Atento a isso, recentemente o Facebook (de longe a rede social dominante do mercado) espertamente percebeu essa tendência e o que o Medium representa para os novos tempos de escrita e leitura na internet. Destacando-se como a plataforma dos “textões”, o Facebook resolveu redesenhar a sua esquecida ferramenta “Notes”, procurando não ser mais apenas a atualização de status uma tendência em sua rede (algo que, embora popular, muitas vezes faz com que as atualizações se percam nas linhas do tempo de seus perfis), mas querendo também manter seus usuários ativos e tratando a rede social também como um blog, para evitar a evasão para o concorrente, evitando assim a evasão de conteúdo e participação.

O que podemos deduzir deste quadro – além de haver uma busca por monopólio de cada empresa – é que há tanta gente escrevendo e, principalmente, lendo, que uma plataforma destinada apenas à escrita e leitura já é avaliada em 400 milhões de dólares, a ponto de movimentar os interesses de outra, muito mais cotada e bilionária, a refazer o seu sistema para poder concorrer com aquela que poderia ignorar, não fosse a relevância que está ganhando na rede.

Mas o que há de tão notável no Medium para que seja uma tendência a ascensão dessa plataforma?

O fato é que tudo aponta para a evolução da tecnologia em função da conveniência humana. Do ICQ ao Telegram, as conversas têm se tornado mais dinâmicas, oferecendo possibilidades de conversação cada vez mais ímpares. Pela internet, podemos não apenas entrar em contato uns com os outros, como também escolher como queremos fazer isso. Você pode escolher entre enviar suas mensagens por áudio, vídeo ou (classicamente) via texto. Você pode inclusive utilizar sua internet para fazer ligações e conversar como se estivesse utilizando créditos de telefonia móvel (um avanço que feriu interesses do oligopólio brasileiro). No geral, todo e qualquer avanço tecnológico nos direciona a uma maior facilidade de acesso – mas, não sejamos ingênuos, também nos torna dependentes.

Justamente por isso, a aposta facilitadora do Medium, ouso afirmar, é a expressão máxima que temos no momento de um ambiente virtual no qual o usuário possa navegar, interagir e buscar expressar de forma livre e qualitativa seus pensamentos (porém sem o privilégio de ditar a aparência e a lógica de funcionamento da estrutura em que está inserido, como ocorre em sites e blogs privados). Já não mais desejamos fazer artesanalmente um ambiente nosso na rede, queremos ter tempo para tão somente criarmos conteúdo, sem nos preocuparmos em perder tempo com questões estéticas e logísticas – sem nos preocuparmos em aprender o que seja um código fonte ou um efeito cascata.

Se os fatos relativos às facilidades que estamos tendo para nos expressarmos em rede são, na verdade, uma evidência de que só evoluímos em termos de tecnologia porque queremos que ela contemple nossa preguiça, eu não sei afirmar. Mas sei que estamos deixando de dedicar nosso tempo estruturando um sistema para poder dedicá-lo fazendo o que desde o início queríamos fazer: ler e escrever. Sem pop-ups e plugins interativos, sem bugigangas suspensas em nossas telas. A mais pura e crua escrita e leitura, aquelas que dividiram o mundo entre história e pré-história.

E, como diria Carl Sagan,

carl sagan ciencia tecnologia
“Vivemos numa sociedade intensamente dependente da ciência e tecnologia, em que quase ninguém sabe algo sobre ciência e tecnologia.” – Carl Sagan

Pelo visto, a tendência é continuar.


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É graduando em Filosofia pela PUCRS, professor de ensino médio e faz vídeos para o Youtube (conheça aqui). E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.
  • Paulo Marcos F Maciel

    Relacionado ou não à publicação, meu comentário é uma crítica a experiência de leitura dentro do portal ano-zero.

    Tenho aversão ao lado direito da página ser completamente ocupado por barra fixa, torna a página poluída. Geralmente tenho lido os artigos no Pocket, justamente por proporcionar um visual mais limpo.

    Fica apenas uma sugestão pessoal: uma página mais limpa proporciona melhor experiência de leitura.

    • Olá, Paulo! Como vai?

      Pois é interessante como temos percepções diferentes (nada mais humano), pois quando decidimos fixar a barra lateral à direita estávamos entendendo que ela daria uma boa experiência de leitura ou em nada interferiria, à medida em que estaria aproveitando um espaço que ficaria totalmente vazio ao lado (caso não estivesse fixada), convidando o leitor às nossas redes sociais.

      O que temos notado é que quaisquer outros sites não costumam fixar barras laterais, sites que nós, editores, lemos. Mesmo assim, decidimos não seguir essa tendência pois, unanimemente, achamos um uso coerente e esteticamente atraente às nossas necessidades (ter um espaço para publicidade diz que precisamos de investimento financeiro para mantermos o site, e ter espaço para as redes sociais é necessário para a divulgação de nosso material).

      Agora, vale notar que, assim como você diz fazer, temos a opção de sermos lidos pelo celular. Vou além e te deixo uma opção talvez mais atraente (já que não pretendemos mudar nossa estética tão cedo): nosso site é totalmente responsivo, o que significa que ele se adapta às telas de celulares, computadores e outros dispositivos. Ou seja, se você der zoom na página, a página se adaptará à tela de seu computador, e assim, aos poucos, sumirá a barra lateral, permanecendo apenas a barra principal. Se essa for uma dica interessante para você, sugiro que a utilize.

      A sua leitura é muito importante para nós, e esperamos poder trabalharmos juntos de forma qualitativa aqui no AZ.

      Valeu tua participação, Paulo! Já encaminhei teu comentário aos outros editores, e saiba que agradecemos sua sugestão!

  • Rodrigo Lourenço

    Fala, Alysson! Beleza?

    Muito legal essa reflexão, e essa última ilustração casou bem demais. Lembro de um professor, uns 15 anos atrás, falando sobre isso: como, cada vez mais, estamos mais dependentes e menos conhecedores do que ele chamou de “mecanismos de funcionamento”.

    Nesse texto, apesar de enxergar elementos favoráveis e desfavoráveis desse processo, não consigo notar com clareza qual deles predomina pra você (também não sei se é essa mesmo a intenção).

    Em um outro texto do Victor citei uma coisa que me deixa reflexivo nesse processo: o afastamento dos clássicos. E nesse sentido, estou me referindo aos clássicos em áreas amplas da ciência – filosofia, arte, sociologia, cinema, literatura…

    Essa distância me deixa um pouco incomodado. Não conhecer aspectos impede uma “autolocalização” do indivíduo – minha opinião – e, perdido, as referências passam a ser esses “textos” aí espalhados pela rede. O resultado é um diálogo muitas vezes sofista e nada mais. Passa a ser um chumbo trocado de informações – essas sim, disponíveis em grande escala.

    Um exemplo é o típico embate “direita x esquerda” -coxinha, reaça, petralha, etc…- muito se sabe sobre informações (ontem o lula deu depoimento, o japonês da federal fez aquilo, o dirceu foi preso, o cunha tem conta no inferno…), mas o processo histórico, a ideologia que foi utilizada como equação social, quais os elementos determinantes ali…isso ninguém visita, nem é estimulado.

    Por outro lado, temos que agradecer essa liberdade da escrita…sem ela, essas nossas palavras não estariam por aqui! heheh

    Abraço!

    • Fala, Rodrigo! Beleza sim, e por aí? Espero que tudo certo.

      Cara, perdão a super demora em responder. Chega tantas mensagens diariamente em meu e-mail que eu acabo passando os olhos por cima das notificações do disqus.

      Enfim, bem interessante esse termo, “mecanismos de funcionamento”. Ele é bem abrangente e o desconhecimento quanto ao mesmo revela uma certa despreocupação para com os processos que regem o “ser” das coisas.

      Quanto a elementos favoráveis e desfavoráveis, não sei dizer se há uma predominância de um ou outro. O que consigo entender disso tudo, simplificadamente, é que há uma certa tendência das coisas serem como estão cada vez mais sendo, e que isso segue um curso aparentemente inevitável: a ascensão tecnológica dialoga e influencia nos costumes e hábitos dos usuários da tecnologia. Nesse sentido, esperar menos do que estamos vendo seria não considerar os fatores pelos quais as coisas estão sendo assim – e desmerecer os fatos para defender um “retorno ao que era antes” seria remar contra a maré.

      E sim, concordo que haja um afastamento dos clássicos derivado desse cultivo a esses novos hábitos – mais imediatistas, impulsivos e ansiosos. Essa escassa “autolocalização” (curti o termo, embora talvez esteja usando agora com uma noção distinta da sua) do indivíduo frente a uma maré de informações acaba por despertá-lo, caso queira manter certa “sobrevivência social”, a seguir as tendências: os clássicos tornam-se indispensáveis à medida em que não são mais úteis para se ter influência enquanto intelectual (muitos “filósofos de facebook” estão por aí, fazendo fama, afinal), e nesse sentido o indivíduo acaba por tornar-se mais uma célula de um monstruoso organismo em constante transformação, instigada pelas mudanças tecnológicas, sociais e comportamentais.

      E a questão que vejo surgir daí – já que não se pode evitar a instauração, mesmo que fugaz, dessa tendência – passa a ser: como formar o conhecimento?

      Com tanta informação disseminada, como fazer os links apropriados para que possamos, convictamente, dizer “eu sei, eu conheço”? Intelectualmente falando, ler clássicos não é mais um pré-requisito para uma condição pela qual se faz o conhecimento?

      Com tanta informação, temos ao que parece um novo conhecimento holístico sendo estimulado (todo mundo sabendo sobre tudo um pouco). E esse conhecimento é necessário, mas até que ponto ele não passa a ser nocivo? Afinal, saber um pouco sobre tudo é saber muito sobre nada – e, ao fim das contas, é querer “dar pitaco” sobre qualquer assunto, assim então exercendo a sua mais bela e limitada liberdade de expressão.

      Enfim, perdão o novo texto em resposta ao teu comentário. Às vezes a gente se empolga e fala demais, haha.

      Forte abraço!