Estamos na era do vício na indignação | Mark Manson

Estamos na era do vício na indignação

Em Comportamento, Consciência, O MELHOR DO AZ, Sociedade por Mark MansonComentário

(Esta é a tra­du­ção auto­ri­zada do artigo ori­gi­nal, escrito por Mark Man­son em seu site. Se você quer acom­pa­nhar os novos arti­gos em lín­gua inglesa, cli­que aqui e assine a news­let­ter de Mark)


Era o inverno de 2015 nos EUA. As ruas esta­vam cheias da ale­gria fes­tiva habi­tual. As lojas foram ilu­mi­na­das com enfei­tes e luzes, e toca­vam as músi­cas irri­tan­te­mente fami­li­a­res de Natal, tra­zendo fami­li­a­ri­dade e ale­gria a todos aque­les que pas­se­a­vam por ali.

No entanto, pou­cos sabiam do desas­tre que estava pres­tes a acon­te­cer.

Em uma manhã desse inverno, Joshua Feu­ers­tein parou no seu Star­bucks local para com­prar café. Ele disse “Olá” para o barista e fez seu pedido habi­tual com um sor­riso. Mas, ao rece­ber o café, ele notou que algo estava seri­a­mente errado.

Onde dia­bos estava Jesus?

Não, é sério, eles cos­tu­ma­vam colo­car uma ima­gem de Jesus na sua xícara de café e agora não colo­ca­vam mais. E em vez disso — que dia­bos é essa frase hip­pie pagã dese­jando “Boas fes­tas”?

Boas fes­tas” ao invés de “Feliz Natal”??? Sim, ami­gos: Star­bucks, o mega­con­glo­me­rado do café, o impé­rio do mal da cafeína, a praga cor­po­ra­tiva que inva­diu todos os can­tos do globo, final­mente tinha ido longe demais.

Eles tinham insul­tado o Natal (e, eu acho, Jesus).

Mas, feliz­mente para nós, Feu­ers­tein não era fácil de lidar. Não, ele era o tipo de homem cora­joso que está dis­posto a defen­der o que é certo, que está dis­posto a sacri­fi­car-se para a melho­ria da nossa grande soci­e­dade, que não para­ria por nada para pro­te­ger o que é mais sagrado e que­rido ao nosso cora­ção.

É isso mesmo, Joshua Feu­ers­tein foi para casa e fez um vídeo para o You­Tube:

No vídeo, ele esbra­ve­jou sobre como a Star­bucks tinha ade­rido à “Guerra con­tra o Natal” e como cris­tãos pre­ci­sa­vam se unir para lutar con­tra esse patro­cí­nio cor­po­ra­tivo ao paga­nismo.

E o que era o seu plano de bata­lha? Todos os cris­tãos, se diri­jam a um Star­bucks e peçam seu café como sem­pre, mas quando eles lhe per­gun­ta­rem seu nome, ao invés de dizer seu ver­da­deiro nome, digam “Feliz Natal”. Dessa forma, eles TERÃO que escre­ver “Feliz Natal” nos seus copos. Não um dis­curso orwel­li­ano do tipo “Boas Fes­tas”.

É um gênio, eu sei.

Satis­feito con­sigo mesmo e com sua capa­ci­dade de dedi­car-se a tudo o que é bom, justo e santo, Feu­ers­tein fez o upload do vídeo para o You­Tube, onde foi visto mais de 12 milhões de vezes. Mais tarde, tor­nou-se maté­ria do The Washing­ton Post, New York Times e The Atlan­tic, enquanto essas publi­ca­ções refi­na­das se esfor­ça­vam para expor “todos os lados do debate sobre o copo.”

Ape­nas algu­mas gera­ções atrás, quando meu avô tinha seus 20 anos de idade, ele estava num barco cheio de sol­da­dos nas praias da Europa, no melhor estilo “O Res­gate do Sol­dado Ryan”, onde ele assis­ti­ria à mai­o­ria dos homens que havia conhe­cido no ano ante­rior serem mor­tos den­tro de alguns minu­tos. Cerca de 10 anos antes disso, meu tio-avô, perto dos 20 anos, se ofe­re­ceu para tra­ba­lhar e sus­ten­tar dois de seus irmãos mais novos, por­que seus pais esta­vam lutando para criar seis filhos no período his­tó­rico da Grande Depres­são ame­ri­cana.

As lutas de hoje não são dife­ren­tes, é claro. Hoje, as pes­soas com 20 anos lutam para encon­trar “espa­ços segu­ros” no cam­pus, onde elas não têm que ouvir alguém com um ponto de vista oposto, ou cole­gas que cau­sa­ram nelas micro­trau­mas por levan­ta­rem a mão e dis­cor­da­rem deles em aula, ou pro­fes­so­res que se atre­vem a suge­rir que fan­ta­sias de Hal­loween não são real­mente pre­con­cei­tu­o­sas.

A indig­na­ção está em toda parte hoje, na esquerda polí­tica e na direita, com os ido­sos e os jovens, nas pes­soas de todas as raças e clas­ses econô­mi­cas. Pode­mos estar vivendo no pri­meiro período da his­tó­ria humana onde todo mundo sente que está sendo de alguma forma vio­lado e viti­mado. Isso começa com os bili­o­ná­rios que de alguma forma se con­ven­ce­ram de que sua carga fis­cal de 15% é sim­ples­mente opres­siva e vai até as “cri­an­ças” da facul­dade, que pulam can­ce­las e gri­tam ame­a­ças para as pes­soas por­que os seus pon­tos de vista polí­ti­cos são dife­ren­tes dos seus.

A mai­o­ria das pes­soas acre­dita que as pes­soas estão cada vez mais pola­ri­za­das. De acordo com as pes­qui­sas, atu­al­mente isso não é ver­dade. As cren­ças polí­ti­cas das pes­soas não são dife­ren­tes do que eram há algu­mas déca­das. O que está mudando, os dados indi­cam, é a forma como lida­mos com os pon­tos de vista que nos tra­zem des­con­for­tos.

todo mundo que discorda de mim é Hitler - Ano Zero | era da indignação | Mark Manson

Não é que as nos­sas cren­ças muda­ram, é a maneira como nos sen­ti­mos sobre as pes­soas que não con­cor­dam conosco que mudou.

Em suma, as pes­soas tor­na­ram-se menos tole­ran­tes com opi­niões opos­tas. E suas rea­ções a essas opi­niões tor­na­ram-se mais emo­ci­o­nais e insul­tan­tes.

 

O paradoxo da conectividade

Na década de 1990, houve um grande oti­mismo sobre a inter­net. A ideia de que pode­ria reu­nir todas as infor­ma­ções e todos os pon­tos de vista jun­tos em uma rede trouxe a espe­rança de que as pes­soas se tor­na­riam mais tole­ran­tes, acei­tando e apre­ci­ando umas às outras.

Mas em mui­tos casos têm sido bem o con­trá­rio. Na ver­dade, parece que quanto mais conec­ta­mos pes­soas dife­ren­tes e mos­tra­mos-lhes pon­tos de vista dife­ren­tes, mais tem­pes­tu­o­sos se tor­nam esses dife­ren­tes pon­tos de vista. Como resul­tado, você tem um dis­tan­ci­a­mento maior entre pes­soas com opi­niões dife­ren­tes, e a pró­pria tec­no­lo­gia que foi pro­je­tada para apro­xi­mar as pes­soas empurra-as para longe como nunca antes na his­tó­ria.

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A inter­net faz isso de três manei­ras dife­ren­tes:

  1. É mais fácil encon­trar apoio à sua opi­nião. É mais fácil do que nunca pro­cu­rar e encon­trar a infor­ma­ção que con­firma suas cren­ças ou sen­ti­men­tos pré-exis­ten­tes. Então, se você sen­tir que é injusto que Ber­nie San­ders esteja per­dendo as pri­má­rias demo­cra­tas, haverá sem­pre his­tó­rias e “notí­cias” a um cli­que de dis­tân­cia que podem con­fir­mar essa sen­sa­ção. Ou se você sen­tir que a mídia é injusta fazendo você ver Donald Trump como um palhaço, então há sem­pre infor­ma­ções de apoio a um cli­que de dis­tân­cia. Ou se você se sen­tir que a mudança cli­má­tica pode não estar acon­te­cendo, há infor­ma­ções de apoio ime­di­a­ta­mente disponíveis.Tudo está ime­di­a­ta­mente dis­po­ní­vel para você, refor­çando suas cren­ças e supo­si­ções pré-exis­ten­tes e tor­nando mais difí­cil ques­ti­oná-las. E sem a capa­ci­dade de ques­ti­o­nar suas cren­ças, coi­sas tais como o cres­ci­mento, tole­rân­cia e maior com­pre­en­são real­mente tor­nam-se mais difí­ceis de alcan­çar.
  2. As infor­ma­ções são sele­ci­o­na­das pela rea­ção emo­ci­o­nal que des­per­tam. As fon­tes de mídia na inter­net são enco­ra­ja­das a encon­trar as infor­ma­ções mais sen­sa­ci­o­na­lis­tas e escan­da­lo­sas pos­sí­veis por­que esta é a infor­ma­ção que corta todo o ruído e viaja mais longe den­tro do mer­cado da aten­ção. As infor­ma­ções são sele­ci­o­na­das não por terem vali­dade, impor­tân­cia ou pre­ci­são fática, mas por des­per­ta­rem uma res­posta emo­ci­o­nal. Uma parte disso é cons­ci­en­te­mente feita pelas publi­ca­ções dos usuá­rios das redes soci­ais. Outra parte é feita pelo pró­prio algo­ritmo das redes soci­ais, que valo­riza a res­posta e a inte­ra­ção ime­di­ata.
  3. A dis­tân­cia física deturpa a inter­pre­ta­ção das opi­niões. As pes­soas estão agora mais afas­ta­das daque­las que não con­cor­dam com elas ou que vêem o mundo de forma dife­rente. Lem­bre-se do tempo quando a única maneira de se comu­ni­car era cara-a-cara: se você olhasse para alguém que não con­cor­dava com você, você era capaz de ver micro expres­sões como ento­na­ção e lin­gua­gem cor­po­ral por trás dessa dis­cor­dân­cia. Você era pro­va­vel­mente capaz de ver que a dis­cor­dân­cia foi bem-inten­ci­o­nada e que a pes­soa em desa­cordo com você não era um indi­ví­duo ter­ri­vel­mente depra­vado, mas ape­nas alguém que via o mundo um pouco dife­rente de você.Mas hoje as pes­soas são ape­nas per­so­na­gens em uma tela. Elas são tão dis­tan­tes de você e as nuan­ces de suas cren­ças e suas expres­sões são per­di­das para os bits que via­jam de uma tela para outra. Como resul­tado, temos a ten­dên­cia de ima­gi­nar o pior sobre o outro, trans­for­mando as pes­soas que não con­cor­dam com a gente em cari­ca­tu­ras e este­reó­ti­pos que ape­nas nos enfu­re­cem ainda mais.

O vício da indignação

Não só parece haver mais indig­na­ção acon­te­cendo em todos os seto­res da soci­e­dade, mas (como você já deve ter per­ce­bido) isso parece estar aumen­tando cada vez mais.

As pes­soas que se quei­xa­vam há 10 anos de que não mais havia árvo­res de Natal no shop­ping agora estão afir­mando que há uma “guerra con­tra o Natal” e uma vasta cons­pi­ra­ção secular/ateia para extin­guir o cris­ti­a­nismo da soci­e­dade. Pes­soas que pen­sa­vam que carne ver­me­lha tal­vez cau­sasse alguns pro­ble­mas de saúde há algu­mas déca­das agora estão afir­mando que os médi­cos estão secre­ta­mente retendo a cura do cân­cer para que pos­sam tirar mais dinheiro das pes­soas. Pes­soas que cos­tu­ma­vam recla­mar do aumento de impos­tos vêem agora qual­quer aumento de imposto como um sinal do comu­nismo, fas­cismo ou qual­quer coisa que tem a ver com Hitler.

Parte do pro­blema aqui é que a indig­na­ção vicia.

Nós ado­ra­mos sen­tir uma certa supe­ri­o­ri­dade moral sobre os outros. Nós ado­ra­mos sen­tir como se esti­vés­se­mos no lado certo da his­tó­ria e que temos uma sig­ni­fi­ca­tiva guerra moral para lutar. E nesse sen­tido, há um estra­nho e satis­fa­tivo pra­zer com a raiva. Mesmo que essas bata­lhas morais nos per­tur­bem, ali­men­tam nosso senso cres­cente de jus­ti­fi­ca­ção: a sen­sa­ção de que nós mere­ce­mos um mundo melhor e que nós não o esta­mos obtendo, de que somos de alguma forma melho­res do que a vida que tem nos sido dada.

E quando você tem todos em todos os lados sen­tindo que têm tanto direito e que são todos viti­ma­dos, jun­ta­mente com um supri­mento infi­nito de infor­ma­ções para refor­çar a pró­pria bolha ide­o­ló­gica com o cli­que de um mouse, então as coi­sas se com­pli­cam.

 

E VOCÊ, INTERNET?

Até agora, na his­tó­ria humana, a tec­no­lo­gia tem sido a sal­va­dora da nossa espé­cie. Tem sido res­pon­sá­vel por sal­tos quân­ti­cos de pro­du­ti­vi­dade, infra­es­tru­tura, medi­cina e qua­li­dade de vida. A mai­o­ria das pes­soas não tra­ba­lha firme como os cam­po­ne­ses da era feu­dal, menos pes­soas do que nunca são escra­vi­za­das, há mais edu­ca­ção e igual­dade de tra­ta­mento para as mulhe­res, mino­rias e pobres do que em qual­quer outro momento da his­tó­ria humana. E tudo isso pode ser devido aos exce­den­tes bene­fí­cios pro­por­ci­o­na­dos pela ino­va­ção tec­no­ló­gica.

Mui­tas pes­soas acre­di­tam que a tec­no­lo­gia con­ti­nu­ará a nos liber­tar e nos sal­var dos pro­ble­mas do mundo. Pes­soas como Mark Zuc­ker­berg falam aber­ta­mente do ideal de “conec­tar o mundo”, como se os bene­fí­cios dessa ideia fos­sem auto­ex­pli­ca­ti­vos.

Mas e se a tec­no­lo­gia está avan­çando para além do ponto de nossa capa­ci­dade humana de apro­vei­tar e se bene­fi­ciar dela? E se des­pe­jar infor­ma­ções infi­ni­tas para a huma­ni­dade, em vez de ilu­miná-la, nos reduz às nos­sas pio­res ten­dên­cias?

E se nós sim­ples­mente não tiver­mos a capa­ci­dade psi­co­ló­gica neces­sá­ria para lidar com as novas fron­tei­ras que esta­mos cru­zando?

O tempo dirá, é claro. Todos os sal­tos tec­no­ló­gi­cos trou­xe­ram um novo sub­con­junto de pro­ble­mas com eles. Mas enquanto com a imprensa, a tele­vi­são e o rádio tive­mos gera­ções para adap­tar­mos e mol­dar­mos nos­sas iden­ti­da­des para se ajus­tar a esses novos meios de comu­ni­ca­ção, agora temos meros anos, senão meses, para nos adap­tar­mos à mar­cha cada vez mais ace­le­rada do bit.

Pode­rão nos­sos velhos cére­bros alcan­çar isso?


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