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Vale do Silício declara guerra ao envelhecimento

Em Ciência por Equipe Ano ZeroComentário

Em Palo Alto, no cora­ção do Vale do Silí­cio, o ges­tor de fun­dos Joon Yun está fazendo cál­cu­los em um guar­da­napo. De acordo com dados de segu­rança social dos EUA, diz ele, a pro­ba­bi­li­dade de alguém de 25 anos mor­rer antes de seu 26º ani­ver­sá­rio é de 0,1%.

Se pudés­se­mos man­ter esse risco cons­tante ao longo da vida ao invés de subi-lo devido a doen­ças rela­ci­o­na­das com a idade, a pes­soa média vive­ria – esta­tis­ti­ca­mente falando – 1.000 anos. Yun acha essa pers­pec­tiva ten­ta­dora e inclu­sive crí­vel.

No ano pas­sado, Yun lan­çou um prê­mio de U$ 1 milhão desa­fi­ando cien­tis­tas a “hac­kear o código da vida” e for­çar a vida humana a alcan­çar o seu apa­rente máximo de cerca de 120 anos (a expec­ta­tiva de vida mais longa conhecida/confirmada foi de 122 anos).

Yun acre­dita que é pos­sí­vel “resol­ver o enve­lhe­ci­mento” e levar as pes­soas a viver, sau­da­vel­mente, mais ou menos inde­fi­ni­da­mente. Seu prê­mio de lon­ge­vi­dade de Palo Alto, que até agora conta com 15 equi­pes cien­tí­fi­cas, será con­ce­dido em pri­meira ins­tân­cia para quem res­tau­rar a vita­li­dade e esten­der a vida de ratos em 50%.

Mas Yun tem bol­sos pro­fun­dos e pre­tende colo­car mais dinheiro para fei­tos cada vez mai­o­res.

Ele diz que essa é uma mis­são moral, ao invés de pes­soal. Nos­sas vidas e a soci­e­dade estão pre­o­cu­pa­das com o número cres­cente de entes que­ri­dos per­di­dos por doen­ças rela­ci­o­na­das à idade e perío­dos de sofri­mento pro­lon­gado de decre­pi­tude, que está cus­tando eco­no­mias.

Yun tem uma impres­si­o­nante lista de quase 50 con­se­lhei­ros, incluindo cien­tis­tas de algu­mas das melho­res uni­ver­si­da­des da Amé­rica.

A busca de Yun – uma ver­são moderna do sonho antiquís­simo de encon­trar a fonte da juven­tude – é emble­má­tica do atual entu­si­asmo em per­tur­bar a morte, que toma conta do Vale do Silí­cio. Bili­o­ná­rios e empre­sas estão oti­mis­tas sobre o que eles podem alcan­çar.

Em setem­bro de 2013 a Goo­gle anun­ciou a cri­a­ção da Calico — uma abre­vi­a­ção de Cali­for­nia Life Com­pany. Sua mis­são é rever­ter, por enge­nha­ria, a bio­lo­gia que con­trola o tempo de vida e “con­ce­ber a inter­ven­ção que per­mita que as pes­soas levem uma vida mais longa e mais sau­dá­vel”.

Ape­sar de muito mis­té­rio envol­ver a nova empresa de bio­tec­no­lo­gia, ela parece estar em parte desen­vol­vendo dro­gas que com­ba­tam a idade.

Em abril de 2014 recru­ta­ram Cynthia Kenyon, uma cien­tista acla­mada pelo tra­ba­lho que incluía enge­nha­ria gené­tica em lom­bri­gas para vive­rem até seis vezes mais que o nor­mal, e quem falou do sonho de apli­car suas des­co­ber­tas em pes­soas.

Calico tem dinheiro para fazer quase qual­quer coisa que qui­ser”, diz Tom John­son, um antigo pio­neiro no campo que tra­ba­lha agora na Uni­ver­si­dade do Colo­rado, sendo o pri­meiro a encon­trar um efeito gené­tico na lon­ge­vi­dade em um verme.

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A fisi­cul­tu­rista Ernes­tine Shepherd, de 78 anos, atri­bui sua apa­rên­cia jovem à dieta e exer­cí­cio. Mas os cien­tis­tas agora dizem que em breve serão capa­zes de fazer muito mais com dro­gas. Foto: Lynn Goldsmith/Rex

Em março de 2014, o bió­logo ame­ri­cano pio­neiro e tec­nó­logo Craig Ven­ter, jun­ta­mente com o empre­sá­rio fun­da­dor da X Prize Foun­da­tion, Peter Dia­man­dis, anun­ci­a­ram uma nova empresa cha­mada Human Lon­ge­vity Inc.

Ela não visa desen­vol­ver dro­gas anti­en­ve­lhe­ci­mento ou com­pe­tir com a Calico, diz Ven­ter. Mas tem pla­nos de criar um banco de dados gigante de 1 milhão de sequên­cias de genoma humano até 2020, incluindo de ‘super­cen­te­ná­rios’.

Ven­ter diz que os dados devem lan­çar impor­tante luz sobre o que faz uma vida mais longa e mais sau­dá­vel, e espera que outras pes­soas que tra­ba­lham pela exten­são de vida usem seu banco de dados.

Nossa abor­da­gem pode aju­dar imen­sa­mente a Calico e, se sua abor­da­gem for bem-suce­dida, pode me aju­dar a viver mais tempo” explica Ven­ter. “Espe­ra­mos ser o cen­tro de refe­rên­cia no meio de tudo.”

Em um escri­tó­rio não muito longe da sede da Goo­gle em Moun­tain View, com uma barba quase alcan­çando o umbigo, Aubrey de Grey está des­fru­tando o novo bur­bu­ri­nho sobre como der­ro­tar o enve­lhe­ci­mento.

Por mais de uma década, ele esteve em uma cru­zada ins­pi­rando o mundo a embar­car em uma mis­são cien­tí­fica para eli­mi­nar o enve­lhe­ci­mento e esten­der a vida útil sau­dá­vel inde­fi­ni­da­mente (ele está na dire­to­ria do prê­mio de lon­ge­vi­dade de Palo Alto).

É um tra­ba­lho difí­cil por­que ele con­si­dera que o mundo esteja em um “transe pró-enve­lhe­ci­mento”, feliz em acei­tar que o enve­lhe­ci­mento é ine­vi­tá­vel, quando na rea­li­dade é sim­ples­mente um “pro­blema médico” que a ciên­cia pode resol­ver.

Assim como um carro antigo pode ser man­tido em bom estado inde­fi­ni­da­mente com manu­ten­ção pre­ven­tiva perió­dica, não há razão alguma por que, em prin­cí­pio, o mesmo não pode ser ver­dade do corpo humano, pensa de Grey. Nós somos, afi­nal, máqui­nas bio­ló­gi­cas, ele diz.

Suas rei­vin­di­ca­ções sobre as pos­si­bi­li­da­des (ele disse que a pri­meira pes­soa que viverá mil anos pro­va­vel­mente já está viva), e algu­mas ideias não con­ven­ci­o­nais e não com­pro­va­das sobre a ciên­cia por trás do enve­lhe­ci­mento, com o tempo fize­ram de Grey impo­pu­lar no mains­tream aca­dê­mico estu­dante do enve­lhe­ci­mento.

Mas o sur­gi­mento da Calico e outros sugere que o mundo tal­vez fique do seu lado, ele diz.

Há um número cres­cente de pes­soas per­ce­bendo que o con­ceito de medi­cina anti-enve­lhe­ci­mento, que fun­ci­ona de ver­dade, será a maior indús­tria que exis­tiu, de longe, e que isso só pode ser pre­vi­sí­vel.”

Desde 2009, de Grey é dire­tor cien­tí­fico da pró­pria cari­dade, a Stra­te­gies for Engi­ne­e­red Negli­gi­ble Senes­cence (Sens) Rese­arch Foun­da­tion.

Com uma con­tri­bui­ção anual (cerca de U$ 600.000 por ano) de Peter Thiel, um capi­ta­lista bili­o­ná­rio do Vale do Silí­cio que usu­frui do dinheiro da sua pró­pria herança, ele finan­cia cerca de U$ 5 milhões em pes­qui­sas anu­al­mente. Algu­mas são fei­tas em casa, o resto é patro­ci­nado em ins­ti­tui­ções exter­nas (até mesmo seus crí­ti­cos dizem que ele faz um bom finan­ci­a­mento da ciên­cia).

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Aubrey de Grey é dire­tor cien­tí­fico da sua pró­pria ins­ti­tui­ção de cari­dade, a Stra­te­gies for Engi­ne­e­red Negli­gi­ble Senes­cence (Sens) Rese­arch Foun­da­tion. Ele finan­cia cerca de U$ 5 milhões em pes­qui­sas por ano. Foto: Tim E White/Rex

Mas De Grey não é a única pes­soa a ver um novo flo­res­ci­mento na inves­ti­ga­ção anti-enve­lhe­ci­mento.

Uma radi­cal exten­são da vida não é mais dele­gada para o ‘reino dos capri­chos’ e a escri­to­res de fic­ção cien­tí­fica,” diz David Masci, pes­qui­sa­dor do Pew Rese­arch Cen­ter, que recen­te­mente escre­veu um rela­tó­rio sobre o tema, olhando para as dimen­sões cien­tí­fi­cas e éti­cas da exten­são de vida radi­cal. “Pes­soas sérias estão fazendo pes­qui­sas nesta área e pen­sa­do­res sérios estão pen­sando sobre isso.”

Ape­sar das pro­mes­sas de finan­ci­a­mento terem sido bai­xas em com­pa­ra­ção às expec­ta­ti­vas ini­ci­ais, bili­o­ná­rios – não ape­nas da indús­tria de tec­no­lo­gia – com o tempo apoi­a­ram pes­qui­sas em bio­lo­gia do enve­lhe­ci­mento.

No entanto, a maior parte foi des­ti­nada a alar­gar a saúde, os anos em que você está livre de fra­gi­li­dade ou doença, ao invés da lon­ge­vi­dade, embora um efeito óbvio seja que ela tam­bém seria esten­dida (pes­soas sau­dá­veis vivem mais tempo).

Se uma con­sequên­cia do aumento da saúde é que a vida será esten­dida, isso é uma coisa boa, mas a parte mais impor­tante é man­ter as pes­soas sau­dá­veis, tanto quanto pos­sí­vel”, diz Kevin Lee, dire­tor da Elli­son Medi­cal Foun­da­tion, fun­dada em 1997 pelo bili­o­ná­rio da tec­no­lo­gia Larry Elli­son, e que tem sido o maior finan­ci­a­dor pri­vado do campo, gas­tando 45 milhões de dóla­res anu­al­mente. (A Paul F Glenn Foun­da­tion para pes­quisa médica é outra).

Con­si­de­rando que muita pes­quisa bio­mé­dica con­cen­tra-se na ten­ta­tiva de curar doen­ças indi­vi­du­ais, como cân­cer, os cien­tis­tas neste pequeno campo caçam algo maior. Eles inves­ti­gam os deta­lhes do pro­cesso de enve­lhe­ci­mento, com vista a encon­trar manei­ras de evitá-lo em sua raiz, cor­tando o monte de doen­ças que vêm junto com o enve­lhe­ci­mento.

A expec­ta­tiva de vida aumen­tou nos paí­ses desen­vol­vi­dos — de cerca de 47, em 1900, para cerca de 80 anos, hoje -, em grande parte devido aos avan­ços na cura de doen­ças da infân­cia.

Mas essas vidas mais lon­gas vêm com sua par­cela de sofri­mento. Doen­ças crô­ni­cas rela­ci­o­na­das à idade, tais como doen­ças car­día­cas, cân­cer, aci­dente vas­cu­lar cere­bral e a doença de Alzhei­mer são mais pre­va­len­tes do que nunca.

A abor­da­gem médica padrão – curar uma doença de cada vez – só faz pio­rar, diz Jay Olshansky, um soció­logo da facul­dade de saúde pública da Uni­ver­si­dade de Chi­cago, que dirige um pro­jeto cha­mado Lon­ge­vity Divi­dend Ini­ti­a­tive, que toma o caso de finan­ci­a­mento de pes­quisa do enve­lhe­ci­mento para aumen­tar a saúde por razões econô­mi­cas. Ele diz:

Gos­ta­ria de ver uma cura para a doença car­díaca ou cân­cer, mas isso leva­ria a um aumento dra­má­tico na pre­va­lên­cia da doença de Alzhei­mer.”

O biólogo e tecnólogo americano Craig Venter, cuja empresa Human Longevity Inc planeja criar um banco de dados de um milhão de sequências do genoma humano em 2020.

O bió­logo e tec­nó­logo ame­ri­cano Craig Ven­ter, cuja empresa Human Lon­ge­vity Inc. pla­neja criar um banco de dados de um milhão de sequên­cias do genoma humano até 2020. Foto: Mike Blake/Reuters

Ao com­ba­ter o enve­lhe­ci­mento em sua raiz eles pode­riam ser tra­ta­dos como um só, redu­zindo a fra­gi­li­dade e defi­ci­ên­cia, redu­zindo todos os ris­cos de doen­ças rela­ci­o­na­das com a idade, simul­ta­ne­a­mente, diz Olshansky.

As evi­dên­cias estão agora com uma abor­da­gem mais ousada, em que a intro­du­ção do atraso da idade pode­ria fun­ci­o­nar. Os cien­tis­tas já, com sucesso, inter­vi­e­ram no enve­lhe­ci­mento de uma vari­e­dade de espé­cies ani­mais, e pes­qui­sa­do­res dizem que não há razão para acre­di­tar que isso não pode­ria ser alcan­çado em pes­soas.

Nós real­mente vira­mos uma esquina”, diz Brian Ken­nedy, dire­tor do Buck Ins­ti­tute for Rese­arch on Ageing, acres­cen­tando que há cinco anos o con­senso cien­tí­fico era de que a pes­quisa do enve­lhe­ci­mento é inte­res­sante, mas impro­vá­vel que leve a algo prá­tico.

Esta­mos agora no ponto onde é fácil esten­der a vida útil de um rato. Isso não é mais a ques­tão; a ques­tão é se pode­mos fazer isto em seres huma­nos. E não vejo qual­quer razão para que não pos­sa­mos”, diz David Sin­clair, um pes­qui­sa­dor de Har­vard.

A razão para o oti­mismo vem após várias abor­da­gens dife­ren­tes que têm ren­dido resul­ta­dos pro­mis­so­res. Algu­mas dro­gas exis­ten­tes, tais como a droga de dia­be­tes met­for­min, têm exi­bido efei­tos que desa­fiam a idade, por exem­plo.

Vários medi­ca­men­tos em desen­vol­vi­mento imi­tam os meca­nis­mos que cau­sam, a ani­mais de labo­ra­tó­rio ali­men­ta­dos cui­da­do­sa­mente com die­tas de res­tri­ção caló­rica, um viver mais tempo. Outros copiam os efei­tos de genes que ocor­rem em pes­soas que vive­ram bas­tante.

Um medi­ca­mento já em ensaios clí­ni­cos é a rapa­mi­cina, que nor­mal­mente é usada para aju­dar em trans­plan­tes de órgãos e tra­tar can­cros raros. Ele mos­trou esten­der a vida de ratos em 25% — a maior por­cen­ta­gem alcan­çada até agora com uma droga -, e pro­tegê-los con­tra as doen­ças do enve­lhe­ci­mento, incluindo cân­cer e neu­ro­de­ge­ne­ra­ção.

Um recente ensaio clí­nico pela Novar­tis, em volun­tá­rios ido­sos e sau­dá­veis da Aus­trá­lia e Nova Zelân­dia, encon­trou que uma vari­ante da droga refor­çou sua res­posta à vacina con­tra a gripe em 20% – nossa imu­ni­dade à gripe é algo que declina com a idade. Diz Ken­nedy:

[Foi] o pri­meiro [teste] com uma droga sus­peita de retar­dar o enve­lhe­ci­mento, exa­mi­nando se retarda ou inverte uma pro­pri­e­dade do enve­lhe­ci­mento em indi­ví­duos mais velhos e sau­dá­veis.”

Outras dro­gas a serem tes­ta­das em seres huma­nos são com­pos­tos ins­pi­ra­dos pelo res­ve­ra­trol, um com­posto encon­trado no vinho tinto. Alguns cien­tis­tas acre­di­tam que está por trás do “para­doxo fran­cês” o fato de que os fran­ce­ses têm uma baixa inci­dên­cia em doen­ças car­día­cas, ape­sar de suas die­tas serem com­pa­ra­ti­va­mente ricas.

Em 2003, Sin­clair publi­cou evi­dên­cias de que altas doses de res­ve­ra­trol esten­dem a vida sau­dá­vel de célu­las de leve­dura. Depois de a Sir­tris, uma empresa co-fun­dada por Sin­clair, ter mos­trado que com­pos­tos ins­pi­ra­dos em res­ve­ra­trol tinham efei­tos favo­rá­veis em camun­don­gos, isso foi com­prado pela gigante de dro­gas Gla­xoS­mith­Kline, por U$ 720 milhões em 2008.

Embora o desen­vol­vi­mento tenha se reve­lado mais com­pli­cado do que se pen­sava, GSK está pla­ne­jando um grande ensaio clí­nico ainda este ano, diz Sin­clair. Ele agora está tra­ba­lhando em outra droga que tem uma maneira dife­rente de ati­var o mesmo cami­nho.

Uma das abor­da­gens mais inco­muns sendo tes­ta­das é usar o san­gue de jovens para revi­go­rar os velhos. A ideia foi cor­ro­bo­rada em expe­ri­men­tos que mos­tra­ram o plasma de san­gue de ratos jovens res­tau­rando capa­ci­da­des men­tais de velhos ratos.

Um pro­cesso humano em curso é tes­tar se os paci­en­tes do Alzhe­mier que rece­bem trans­fu­sões de san­gue de jovens expe­ri­men­tam um efeito seme­lhante.

Tony Wyss-Coray, pes­qui­sa­dor da Stan­ford que está con­du­zindo o tra­ba­lho, diz que se isso fun­ci­o­nar ele pre­tende iso­lar fato­res no san­gue que diri­gem o efeito e, em seguida, ten­tar ela­bo­rar uma droga que faça algo seme­lhante.

(Desde a publi­ca­ção de seu tra­ba­lho com ratos, mui­tas “pes­soas sau­dá­veis, muito ricas” con­ta­ta­ram Wyss-Coray, que­rendo saber se ele pode­ria ajudá-las a viver por mais tempo).

James Kir­kland, um pes­qui­sa­dor que estuda o enve­lhe­ci­mento na Mayo Cli­nic, diz que ele sabe de cerca de 20 dro­gas agora – mais de seis das quais tinha sido escrito em revis­tas cien­tí­fi­cas – que esten­dem a expec­ta­tiva de vida ou de saúde de ratos.

O obje­tivo é come­çar tes­tes em huma­nos, mas estu­dos clí­ni­cos do enve­lhe­ci­mento são difí­ceis por causa do com­pri­mento das nos­sas vidas, embora exis­tam manei­ras de con­tor­nar isso como tes­tar as dro­gas con­tra con­di­ções úni­cas em paci­en­tes ido­sos e pro­cu­rando sinais de melho­rias em outras con­di­ções ao mesmo tempo.

Bom, o que será a pri­meira droga, e o que ela fará, não está claro. Ide­al­mente, você pode tomar um único com­pri­mido que irá atra­sar o enve­lhe­ci­mento em todas as par­tes do seu corpo. Mas Ken­nedy observa que, em camun­don­gos tra­ta­dos com rapa­mi­cina, alguns efei­tos rela­ci­o­na­dos com a idade, como cata­rata, não dimi­nuem.

Eu não sei de medi­ca­mento algum que vá fazer tudo”, ele diz. Quanto a quando você poderá come­çar o tra­ta­mento, Ken­nedy ima­gina que no futuro você pode­ria come­çar em algum momento entre os 40 e 50 anos “por­que te man­tém sau­dá­veis mais de 10 anos”.

Com tra­ta­men­tos numa fase tão pre­coce, pal­pi­tes sobre quando che­ga­rão ou quão longe eles esten­de­rão a lon­ge­vi­dade humana só podem ser isso mesmo, pal­pi­tes. Mui­tos pes­qui­sa­do­res se recu­sam a espe­cu­lar.

Mas Kir­kland diz que a ambi­ção infor­mal em seu campo é aumen­tar a qua­li­dade de vida por dois a três anos na pró­xima década ou mais. (A União Euro­peia tem uma meta ofi­cial de adi­ci­o­nar dois anos até 2020).

Além disso, os efei­tos que essas dro­gas podem ter sobre a exten­são de nos­sas vidas sau­dá­veis é ainda mais difí­cil de pre­ver. Um rela­tó­rio recente do UK Human Lon­ge­vity Panel, um corpo de cien­tis­tas con­vo­cado pelo segu­ra­dor legal e geral do Reino Unido, espe­ci­a­li­zado em entre­vis­tas com as prin­ci­pais figu­ras no campo, disse:

Houve desa­cordo sobre até que ponto a lon­ge­vi­dade máxima pode­ria aumen­tar, com alguns espe­ci­a­lis­tas acre­di­tando que havia um limite máximo que não pode ser esti­cado muito mais do que os atu­ais 120 anos, e outros acre­di­tando que não havia limite.”

Nir Bar­zi­lai, dire­tor do Ins­ti­tute for Ageing Rese­arch do Albert Eins­tein Col­lege of Medi­cine, é um dos pes­si­mis­tas.

Base­ado na bio­lo­gia que conhe­ce­mos hoje, em algum lugar entre 100 e 120 anos há um telhado em jogo e eu desa­fio que pos­sa­mos ir além dele.”

Ven­ter é um dos oti­mis­tas. “Não vejo qual­quer limite bio­ló­gico abso­luto na idade humana”, diz ele, argu­men­tando que a imor­ta­li­dade celu­lar – em vigor ao reló­gio andar para trás – deve ser pos­sí­vel.

Pode­mos espe­rar pro­ces­sos bio­ló­gi­cos para final­mente nos livrar dos anos. Se isto acon­te­cerá neste século, ou não, eu não posso dizer.”

Essas ideias são ape­nas espe­cu­la­ção por enquanto. Mas John Troyer, que estuda a morte e tec­no­lo­gia no Cen­tre for Death and Soci­ety na Uni­ver­si­dade de Bath, diz que pre­ci­sa­mos levar a sério.

Você quer pen­sar nisso agora, antes que esteja no meio de uma enorme con­fu­são.”

O que acon­te­ce­ria se todos vivês­se­mos 100, 110, 120 anos ou mais? A soci­e­dade come­ça­ria a ficar muito dife­rente. Diz Troyer:

As pes­soas que tra­ba­lham e vivem mais tempo podem tor­nar mais difí­cil para uma nova gera­ção entrar na força de tra­ba­lho ou encon­trar casas.”

E, com o enve­lhe­ci­mento retar­dado, quan­tas cri­an­ças seriam neces­sá­rias para medir­mos uma famí­lia nor­mal?

Há uma forte pro­ba­bi­li­dade de haver um impacto em coi­sas como estru­tu­ras fami­li­a­res.”

Um pre­si­dente ame­ri­cano de 2003, do Coun­cil on Bio­ethics, rela­tou olhar para algu­mas des­tas ques­tões, suge­rindo que pode haver reper­cus­sões na psi­co­lo­gia indi­vi­dual, tam­bém.

Uma das “vir­tu­des da mor­ta­li­dade” é que ela pode incu­tir o desejo de fazer cada dia valer a pena. Saber que você pode viver mais dimi­nui­ria a sua dis­po­si­ção para fazer acon­te­cer durante a maior parte da sua vida?

De Grey reco­nhece poten­ci­ais desa­fios prá­ti­cos mas ale­gre­mente diz que a soci­e­dade se adap­ta­ria, por exem­plo tendo menos filhos e com as pes­soas capa­zes de deci­dir quando ter­mi­nar suas vidas.

São tam­bém urgen­tes per­gun­tas sobre quem se bene­fi­ci­a­ria se e quando estas inter­ven­ções se tor­na­rem dis­po­ní­veis. Serão ape­nas os super ricos ou haverá incen­ti­vos comer­ci­ais – quem não ia que­rer isso? — para cus­tos de envio e tra­ta­mento aces­sí­vel?

Segu­ra­do­ras de saúde da Grã-Bre­ta­nha ou de outros paí­ses paga­rão por dro­gas que esten­dem a vida das pes­soas? O custo médico de cui­dar de pes­soas em seus anos cre­pus­cu­la­res cairá se elas per­ma­ne­ce­rem mais sau­dá­veis, mas o enve­lhe­ci­mento retar­dado tam­bém sig­ni­fi­cará mais pes­soas soli­ci­tando pen­sões e bene­fí­cios do Estado.

Mas defen­so­res dizem que esses desa­fios não negam o impe­ra­tivo moral. Se o período de vida sau­dá­vel pode ser esten­dido, então esta é a coisa huma­ni­tá­ria a fazer, diz Nick Bos­trom, dire­tor da Oxford’s Future of Huma­nity Ins­ti­tute.

Parece não haver argu­mento moral algum para não fazê-lo,” ele diz. Troyer con­corda, mas per­gunta se viver sig­ni­fica neces­sa­ri­a­mente ser mais sau­dá­vel – o que sig­ni­fica “sau­dá­vel” ou “sadio” neste con­texto? Ele per­gunta.

Futuro dis­tante à parte, há desa­fios para os novos ope­ra­do­res de tec­no­lo­gia.

A Calico pode ter sido des­vi­ada para a pes­quisa básica, pre­o­cupa-se de Gray; A abor­da­gem de Ven­ter pode levar anos para dar fru­tos por causa das ques­tões acerca dos dados que coleta, pensa Bar­zi­lai; enquanto o dinheiro na oferta do prê­mio Palo Alto é uma soma insig­ni­fi­cante para o resul­tado exi­gido e poten­cial de impacto social, diz John­son.

Ainda assim, a his­tó­ria nos lem­bra, mesmo que eles não con­si­gam nós pode­mos ainda nos bene­fi­ciar.

O avi­a­dor Char­les Lind­bergh ten­tou enga­nar a morte ao con­ce­ber for­mas de subs­ti­tuir órgãos huma­nos por máqui­nas. Ele não foi bem suce­dido, mas uma das suas enge­nho­cas desen­vol­veu a máquina do cora­ção — hoje tão cru­cial para uma cirur­gia.

Na busca para der­ro­tar o enve­lhe­ci­mento, até mesmo os fru­tos da falha podem ser abun­dan­tes.

Bilionários da tecnologia que querem fazer o envelhecimento e a morte serem eletivos

Por que mul­ti­mi­li­o­ná­rios da tec­no­lo­gia esco­lhem finan­ciar a inves­ti­ga­ção da exten­são da vida? Três razões são con­si­de­ra­das por Patrick McCray, um his­to­ri­a­dor da tec­no­lo­gia moderna, da Uni­ver­si­dade da Cali­fór­nia, em Santa Bar­bara.

Pri­meiro, se tivesse muito dinheiro você não gos­ta­ria de viver mais tempo para se diver­tir? Depois disso, há o dinheiro que pode ser feito a par­tir dessa ini­ci­a­tiva aos mon­tes. Por último, e o que ele pensa ser o cerne da ques­tão, é a ide­o­lo­gia.

Se o seu negó­cio e o mundo social é ori­en­tado em torno da pre­missa de “tec­no­lo­gias dis­rup­ti­vas”, o que pode­ria ser mais dis­rup­tivo do que abran­dar ou “der­ro­tar” o enve­lhe­ci­mento? Diz ele:

Aco­plado a isso está a ideia de que, se você tiver feito seus bilhões de dóla­res em um setor indus­trial que se baseia no con­trole pre­ciso do cui­dado de 0s e 1s, por que não ima­gi­nar que você pode­ria esten­der isto para o con­trole de áto­mos e molé­cu­las?”

Peter Thiel

Peter Thiel, 47 anos, co-fun­da­dor do Pay­Pal e o pri­meiro inves­ti­dor do Face­book, disse recen­te­mente à Blo­om­berg Tele­vi­sion que tomou hormô­nio de cres­ci­mento humano (HGH) como parte do seu regime para atin­gir os 120 anos (não há pro­vas de que fun­ci­ona, e pode até cau­sar dano).

Ele tam­bém segue uma dieta Paleo, não come açú­car, bebe vinho tinto e corre regu­lar­mente. Ele doou mais de U$ 6 milhões para a Aubrey de Grey’s Sens Foun­da­tion, dedi­cada a esten­der a vida humana.

Em uma recente entre­vista, ele iden­ti­fi­cou três manei­ras essen­ci­ais de abor­dar a morte.

Você pode aceitá-la, pode negá-la ou você pode lutar con­tra ela. Acho que nossa soci­e­dade é domi­nada por pes­soas que estão em nega­ção ou acei­ta­ção, e eu pre­firo com­batê-la.”

 

Sergey Brin

O co-fun­da­dor da Goo­gle, Ser­gey Brin, de 41 anos, é conhe­cido por seu amor a pro­je­tos espe­ci­ais como o Goo­gle Glass, e o CEO da empresa, Larry Page, lhe tem cre­di­tado por aju­dar a tra­zer sua nova empresa de bio­tec­no­lo­gia Calico à frui­ção.

Nós com­ba­te­mos o enve­lhe­ci­mento, um dos mai­o­res mis­té­rios da vida”, diz o site da empresa de pes­quisa e desen­vol­vi­mento, lan­çado em 2013 e que, em setem­bro de 2014, se jun­tou com a empresa bio­far­ma­cêu­tica Abb­Vie para des­pe­jar até U$ 1,5 bilhões em uma ins­ta­la­ção de pes­quisa focada em com­bate a doen­ças rela­ci­o­na­das à idade.

Uma razão extra para o inte­resse de Brin pode ser que ele des­co­briu, em 2008, que ele car­rega uma muta­ção gené­tica que lhe dá uma maior pro­ba­bi­li­dade de desen­vol­ver a doença de Par­kin­son. A esposa de Bryn é co-fun­da­dora da empresa par­ti­cu­lar genô­mica 23andMe.

 

Larry Ellison

Larry Elli­son, co-fun­da­dor da empresa de infor­má­tica Ora­cle, disse ao seu bió­grafo Mark Wil­son:

Como pode uma pes­soa estar lá e depois desa­pa­re­cer, não estar mais lá?”

Elli­son, de 70 anos, criou a Elli­son Medi­cal Foun­da­tion em 1997 para apoiar a inves­ti­ga­ção de enve­lhe­ci­mento e gas­tou mais de U$ 335 milhões, embora tenha anun­ci­ado em 2013 que já não finan­ci­a­ria mais sub­sí­dios na área.

Elli­son resiste mor­dendo os lábios sobre o porquê, mas há rela­tos de que, com o sur­gi­mento da Calico, ele tenha feito a sua parte.

 

Craig Venter

Muita gente gasta a última década de sua vida em dor e sofri­mento, lutando con­tra doen­ças” diz Craig Ven­ter, bió­logo pio­neiro de San Diego, além de empre­sá­rio bili­o­ná­rio que dis­pu­tou a sequen­ci­a­ção do genoma humano.

Acho que é pos­sí­vel come­çar­mos a fazer mais do que temos feito.”

Ven­ter, de 68 anos, anun­ciou a sua nova empresa, a Human Lon­ge­vity, que busca pro­mo­ver o enve­lhe­ci­mento sau­dá­vel, uti­li­zando avan­ços genô­mi­cos e tera­pias de célu­las-tronco desde março de 2014.

Se Ven­ter gos­ta­ria de ven­cer a morte?

Não tenho cer­teza de que nosso cére­bro e nossa psi­co­lo­gia este­jam pron­tos para a imor­ta­li­dade, [mas] se posso con­tar com viver até os 100 anos sem gran­des doen­ças debi­li­tan­tes, eu acei­ta­ria essa bar­ga­nha faus­ti­ana agora mesmo.”

 

Dmitry Itskov

Uma cópia digi­tal do seu cére­bro que se trans­forma em um ava­tar de baixo custo, tal como a vida, que não enve­lhece. Essa é a visão de Dmi­try Its­kov, um russo de trinta e pou­cos anos multi-mili­o­ná­rio e mag­nata da inter­net, que fun­dou a empresa de mídia on-line New Media Stars.

Sua ‘ini­ci­a­tiva de 2045’, cha­mada assim por conta do ano que ele espera com­pletá-la, pre­tende “criar tec­no­lo­gias per­mi­tindo a trans­fe­rên­cia de per­so­na­li­dade de um indi­ví­duo para uma trans­por­ta­dora não-bio­ló­gica mais avan­çada que aumenta sua vida útil, a ponto de imor­ta­li­dade”.

Embora não sendo ele mesmo do Vale do Silí­cio, suas ideias con­tras­tam com aque­las de Ray Kurzweil, um pro­e­mi­nente futu­rista, dire­tor de enge­nha­ria da Goo­gle. Kurzweil pre­viu que os cien­tis­tas um dia encon­tra­rão uma maneira de trans­fe­rir a cons­ci­ên­cia humana, não neces­si­tando de nos­sos cor­pos.


Tra­du­ção e revi­são: Alys­son Augusto


Man­te­nha a equipe Ano Zero tra­du­zindo con­teúdo que importa aqui.


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