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Encontre seus ancestrais (todos eles)

Em Ciência por Tim UrbanComentário

(Tra­du­ção auto­ri­zada por Tim Urban, autor do texto ori­gi­nal em inglês, publi­cado no site Wait But Why)


No iní­cio da lei­tura deste artigo, vamos lis­tar algu­mas per­gun­tas que faz tempo que você não faz a si mesmo:

- Por que eu existo?

- Por que tenho essa apa­rên­cia?

- De onde vie­ram os genes que me fazem ser quem sou? Se eu ras­trear a ori­gem des­ses genes, as coi­sas come­çam a ficar incri­vel­mente estra­nhas, tão estra­nhas que uma série de dese­nhos infan­tis no estilo do Wait But Why pre­ci­sa­rão ser fei­tos?

Para che­gar ao fundo das coi­sas, vamos come­çar no pre­sente e abrir nosso cami­nho até o pas­sado, ras­tre­ando nos­sos gen­tes em lar­gos pas­sos ao longo do cami­nho.

Vamos come­çar com você. Eu não conheço você, mas eu posso dizer que você se parece mais ou menos assim:

youPara man­ter tudo sim­ples, vamos nos ater a sua linha­gem paterna, a linha­gem mas­cu­lina do seu DNA.

Então dando um passo para trás, temos seu pai:

fatherPara man­ter tudo sim­ples, vamos nos ater a sua linha­gem paterna, a linha­gem mas­cu­lina do seu DNA.

Então che­ga­mos a seu bisavô, taravô, e ine­vi­ta­vel­mente a seu tata­ravô, que pro­va­vel­mente nas­ceu entre 1825 e 1875. Ele era assim:

img3Seu tata­ravô viveu a maior parte de sua vida sem água enca­nada e ele­tri­ci­dade, e ele pro­va­vel­mente era mais pre­con­cei­tu­oso do que você é. Você nunca o encon­trou, mas sem ele, você não exis­ti­ria.

Agora que fomos de seu pai para seu avô, de seu avô para o bisavô e assim por diante, vamos pular 22 gera­ções para seu tara20avô (sendo a quan­ti­dade de “taras” indi­cada pelo número potên­cia):

im4Seu tara20avô não brin­cava em ser­viço. Quando ele não estava tor­tu­rando alguém, ele estava tor­tu­rando a si mesmo. Se ele não fosse con­ta­mi­nado pela Peste Negra e mor­resse, iria mas­sa­crar mulhe­res e cri­an­ças nas Cru­za­das. E estra­nha­mente, ele pode ter tido o mesmo sobre­nome que você.

Se ele pudesse encon­trar você, ele fica­ria sur­preso ao ver essa sua atual vida de coxi­nha. Mas não fica­ria tão sur­preso quanto o seu tara500avô fica­ria.

5Seu tara500avô não pas­sou anos diva­gando sobre qual a pro­fis­são que expres­sa­ria seus pro­pó­si­tos mais ínti­mos. Ele caçava ani­mais, bata­lhava con­tra outras tri­bos e de alguma forma con­se­guiu dar um jeito de engra­vi­dar alguém antes de mor­rer pouco após com­ple­tar 30 anos. Se não tivesse con­se­guido, você e alguns milhões de outras pes­soas vivas hoje em dia não exis­ti­riam.

6Agora che­ga­mos a uma época antes de os seres huma­nos serem intei­ra­mente huma­nos, e uma época em que um ani­mal muito espe­cial viveu. Os cien­tis­tas cha­mam-no de Adão Y-cro­mos­so­mial. O Adão Y-cro­mos­so­mial é o ancens­tral mais recente dos ances­trais dos quais todos os huma­nos atu­al­mente vivos decen­dem — em outras pala­vras, ele não é ape­nas seu tara14.000avô, ele é o tara14.000avô de todo mundo no pla­neta neste momento, e foi o último dos ances­trais comuns a todos nós.

E como o Adão Y-cro­mos­so­mial se pare­cia? Ele era um homem hor­ro­roso e alta­mente desa­gra­dá­vel que pro­va­vel­mente estu­prou gente. Mas a boa notí­cia para todos nós é que ele exis­tiu e sobre­vi­veu o sufi­ci­ente para trans­fe­rir seus genes. Se ele não tivesse feito isso, pro­va­vel­mente a raça humana teria sobre­vi­vido, mas o mudo atual pode­ria ser com­ple­ta­mente dife­rente de como é e nenhum de nós exis­ti­ria.

7Certo, a par­tir daqui é que as coi­sas ficam estra­nhas. Três milhões de anos atrás, não havia huma­nos. Nos­sos ances­trais daquela época eram um híbrido de macaco e humano cha­mado Aus­tra­lo­pi­te­cus. Seu tara220.000 avô não era um homem sofis­ti­cado — seu cére­bro tinha 35% do tama­nho de um cére­bro humano — e ele não era atra­ente. Mas ele foi um dos pri­mei­ros de nos­sos ances­trais que era bípede, ou seja ele podia ficar de pé — isso per­mi­tia que ele usasse suas mãos para outras coi­sas, como fazer e uti­li­zar fer­ra­men­tas, o que fez os mais inte­li­gen­tes pros­pe­ra­rem, impul­si­o­nando a rápida evo­lu­ção dos cére­bros mai­o­res.

8Seu tara550.000avô era um macaco muito impor­tante. Não ape­nas ele é o ances­tral de todos os seres huma­nos vivos, ele é o ances­tral de todos os chi­pan­zés vivos tam­bém. Esse é o mais recente momento na his­tó­ria em que com­par­ti­lha­mos um ances­tral com os chim­pan­zés — cien­tis­tas acre­di­tam que há 6 milhões de anos atrás a tribo dos homi­ní­deos sepa­ra­ram-se em dois ramos que futu­ra­mente resul­ta­riam em huma­nos e chim­pan­zés. Isso sig­ni­fica que por essa época exis­tiu um macaco que teve um filho que pros­se­guiu e se tor­nou o ances­tral de todos os seres huma­nos, e outro filho que pros­se­guiu e se tor­nou o ances­tral dos chi­pan­zés.  

9Dife­rente da mai­o­ria dos seus des­cen­ten­tes, seu tara15.000.000avô tinha um pés­simo senso de timing e coe­xis­tiu com os dinos­sau­ros. Até o gigan­tesco aste­roide levar os dinos­sau­ros a extin­ção há mais ou menos 66 milhões de anos atrás, os mamí­fe­ros eram peque­nos, cida­dãos de segunda classe con­fi­na­dos prin­ci­pal­mente às árvo­res. Esse sujeito des­pre­ten­si­oso é um ances­tral comum a todos os pri­ma­tas moder­nos.

10Quero que você relaxe e assi­mile o fato de que seu tara55.000.000avô era um roe­dor. Mais espe­ci­fi­ca­mente, ele era um Euthe­rian — o pri­meiro mamí­fero com pla­centa e o pai de todos os mamí­fe­ros ao lado dos mar­su­pi­ais e oví­pa­ros. Então se existe uma baleia em um site como esse pla­ne­jando escre­ver um artigo como esse, ras­trear seus ances­trais o levará a esse ponto, e a par­tir daqui ele pode sim­ples­mente copiar este artigo pois ele se apli­cará às baleias tam­bém.

11Ao invés de gri­tar ao ver uma cen­to­peia e ten­tar esmagá-la com um chi­nelo e cor­rer como uma pes­soa nor­mal, seu tara125.000.000avô a come­ria. Ele era um rép­til recente, o pri­meiro em nossa linha­gem com genuí­nos bra­ços e per­nas e um sis­tema ner­voso avan­çado — e ele é o momento mais recente em que mamí­fe­ros, rep­teis e aves com­par­ti­lha­ram um ances­tral em comum. (em algum momento entre ele e nosso ances­tral roe­dor houve um híbrido bizarro — o pri­meiro dos mamí­fe­ros, que depo­si­tava ovos, como o atual orni­tor­rinco).

12Seu tara160.000.000avô odi­ava a vida. O pri­meiro mem­bro de nossa linha patri­ar­cal a aven­tu­rar-se pelo oce­ano, ele é o equi­va­lente evo­lu­ci­o­ná­rio dos moder­nos huma­nos que imi­gram para um novo país, dei­xando para trás tudo o que conhe­ciam para come­çar em um ter­ri­tó­rio total­mente novo por­que essa era a melhor opor­tu­ni­dade para a famí­lia a longo prazo. “Cami­nhar” é um termo gene­roso para o que seu tara160.000.000avô fazia durante suas excur­sões pela terra seca — ele empur­rava seu corpo mise­ra­vel­mente pela lama, esfor­çando-se para res­pi­rar, tudo isso para que um dia você pudesse viver fora do inferno que é o frio e tre­voso oce­ano.

Seu nome era Acanthos­tega — e ele foi o pio­neiro de vários recur­sos moder­nos, inclu­sive dos pul­mões além das brân­quias e ossos nas nada­dei­ras, ino­va­ções que resul­ta­ram em bra­ços e per­nas em seus des­cen­den­tes.

13Seu tara220.000.000avô era um peixe. Olhe para seus bra­ços e per­nas, e agora olhe para a ima­gem acima — seus mem­bros são só uma ver­são mais desen­vol­vida daquele par de peque­nas e frá­geis bar­ba­ta­nas. Se esse peixe pré-his­tó­rico hou­vesse se adap­tado de forma dife­rente para equi­li­brar-se nas cor­ren­tes dos oce­a­nos, o corpo humano teria uma forma total­mente dife­rente hoje. A outra carac­te­rís­tica que torna esse sujeito uma cele­bri­dade é ter sido a pri­meira cri­a­tura com uma man­dí­bula — os ances­trais ante­ri­o­res ape­nas tinham um buraco de suc­ção.

14Se seu tara255.000.000avô parece uma pla­ná­ria desen­gon­çada, é por­que isso é exa­ta­mente o que ele é — mas ele merece cré­dito pela inven­ção do cére­bro e por ser o pri­meiro ani­mal bila­te­ral (tinha uma parte fron­tal e outra tra­seira).

15Não sei bem como dizer isso, mas esse ser acima é parte da sua linha­gem.

Eu quero que você pause e só con­si­dere por um segundo que eu não estou inven­tando uma merda maluca aqui — se você pegar seu pai, e o pai de seu pai, e fizer isso 435.000.000 vezes, você vai che­gar em uma água-viva. A evo­lu­ção é algo bizarro.

Mas não vamos pros­se­guir sem dar o devido cré­dito à água-viva por duas gran­des ino­va­ções — ner­vos e mús­cu­los. Os olhos sur­gi­ram pela pri­meira vez nesse período tam­bém, o que uma teo­ria afirma ter sido o fator deter­mi­nante para a explo­são popu­la­ci­o­nal Cam­bri­ana, quando a vida ani­mal repen­ti­na­mente explo­diu em diver­si­dade.

16Se seu tara555.000.000avô era uma esponja e pas­sou toda sua vida ente­di­ado pra cara­lho.

Ele tem um grande trunfo, a razão pela qual é o pri­meiro ani­mal do mundo. Até essa época, toda a vida exis­tente con­sis­tia em orga­nis­mos uni­ce­lu­la­res, e ele foi a pri­meira cri­a­tura feita de múl­ti­plas célu­las.

E não, essas plan­tas não exis­tiam então e não deve­riam estar no dese­nho. Mas eu só per­cebi isso agora, e estou orgu­lhoso de fazer esse dese­nho, então vou deixá-las ali.

17Nós tive­mos de pas­sar por um bocado de gera­ções para che­gar ao seu tara100.000.000.000avô, uma com­plexa célula euca­ri­onte.

Ele pode não pare­cer grande coisa, mas ele é tanto o ances­tral de todo o reino ani­mal como o inven­tor do sexo. Ele tam­bém é sim­pá­tico.

18Retro­cen­dendo muito muito mesmo até che­gar ao iní­cio da exis­tên­cia da terra, nós encon­tra­mos seu tara850.000.000.000avô, uma infe­liz e sim­ples bac­té­ria com muito pouco carisma. Sua prin­ci­pal con­quista é a inven­ção da fotos­sín­tese, o que encheu a atmos­fera com oxi­gê­nio e pavi­men­tou o cami­nho para a vida do pre­sente exis­tir.

19Retro­cen­dendo 1.150.000.000.000 gera­ções e cerca de 3,8 bilhões de anos, nós che­ga­mos ao fim da sua linha­gem — a pri­meira par­tí­cula viva e a fun­da­dora de toda a vida na Terra. Para come­çar, não esta­mos muito cer­tos de como ele come­çou a viver — essa é uma das gran­des ques­tões cien­tí­fi­cas de nosso tempo. Há diver­sas teo­rias, incluindo a gera­ção espon­tâ­nea, a emer­gên­cia de uma sopa pri­mor­dial e alguns até mesmo suge­rem que ele che­gou à Terra vindo de algum lugar no espaço. Seja qual for a teo­ria, nós deve­mos muita coisa a esse cara, e nós deve­ría­mos dedi­car um ins­tante para apre­ciar esse soli­tá­rio momento da vida há 3,8 bilhões de anos atrás que resul­tou em tudo o que conhe­ce­mos hoje.

Ao con­cluir­mos nossa via­gem, temos duas coi­sas para refle­tir:

1) Como é rica a his­tó­ria de nos­sos genes. Seus genes tive­ram uma longa jor­nada, pas­sa­ram por tri­lhões de outros orga­nis­mos, e foram sub­me­ti­dos a uma insana quan­ti­dade de muta­ções oti­mi­za­do­ras para final­mente che­ga­rem empa­co­ta­dos jun­tos em seus cro­mos­so­mas. Você é do jeito que é por causa de coi­sas que ocor­re­ram com aquela água-viva, aquele lagarto, aquele macaco e a forma como cada um deles se adap­tou ao meio ambi­ente ao longo de bilhões de anos.

Eu li que quando solu­ça­mos, isso é um rema­nes­cente de um impulso pré-his­tó­rico dos pei­xes — quando seu corpo faz algo ou sente algo, há uma janela na sua pro­funda e entre­la­çada cone­xão com todas essas outras espé­cie com a his­tó­ria da vida.

2) Quão incri­vel­mente impro­vá­vel é que você exista. Retro­ce­dendo até a pri­meira par­tí­cula da vida, encon­tra­mos mais de um tri­lhão de pais e de pais de pais que aca­ram cul­mi­nando naque­les que con­ce­be­ram você. E se qual­quer um des­ses pais (ou mães) tivesse mor­rido antes de se repro­du­zir — se um dos milhões de pei­xes em sua linha­gem tivesse sido pre­ma­tu­ra­mente comido, se um dos milhões de roe­do­res em sua linha­gem tivesse sido esma­gado enquanto bebê por uma árvore que esti­vesse caindo, você não exis­ti­ria. Tal­vez exis­tisse alguém pare­cido com você — mas não você.

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Fon­tes

– Toth, Nicho­las and Schick, Kathy (2005). “Afri­can Ori­gins” em The Human Past: World Prehis­tory and the Deve­lop­ment of Human Soci­e­ties (Edi­tor: Chris Scarre). Lon­don: Tha­mes and Hud­son. Página 60.

– Richard Daw­kins 2004 The Ancestor’s Tale, pági­nas 136, 250, e 289.

A Juras­sic euthe­rian mam­mal and diver­gence of mar­su­pi­als and pla­cen­tals http://dx.doi.org/10.1038/nature10291

– Eckhart L, Valle LD, Jae­ger K, et al. (Novem­ber 2008). Pro­ce­e­dings of the Nati­o­nal Aca­demy of Sci­en­ces of the Uni­ted Sta­tes of Ame­rica 105 (47): 18419–23.

– http://web.archive.org/web/20090319201312/http://www.uhh.hawaii.edu/~ronald/392/Homol-Gill-Jaw.JPG

– http://www.ucmp.berkeley.edu/protista/proterospongia.html

– Muito da Wiki­pe­dia, claro, mas já que isso seria “pouco pro­fis­si­o­nal”, nós sim­ples­mente fin­gi­mos que não fez parte deste artigo.

Uma nota sobre como eu cal­cu­lei o número de “tata­ras” em cada caso:

Fiz isso atra­vés de esti­ma­ti­vas apro­xi­ma­das do tempo de dura­ção de cada gera­ção com base na típica expec­ta­tiva de vida e idade da matu­ri­dade repro­du­tiva das várias espé­cies ao longo do cami­nho. Come­cei com 25 anos para as gera­ções huma­nas, depois 13 anos para o Aus­tra­lo­pi­te­cus e pri­ma­das desen­vol­vi­dos, 5 anos para os pri­ma­tas mais anti­gos, 2 anos para os roe­do­res, lagar­tos, pei­xes e ver­mes, 2 meses para as água-vivas e espon­jas, e um dia para orga­nis­mos uni­ce­lu­la­res.


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Tim Urban
Formado em Ciências Políticas pela Harvard University, é autor do site Wait But Why e fundador da ArborBridge.

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