Dedos sendo apontados para mulher empreendedora. | A criminalização do empreendedorismo brasileiro

A criminalização do empreendedorismo brasileiro

Em Consciência, Economia, Política, Sociedade por Rafael RossetComentários

Supo­nha comigo que você tem 35 anos, R$ 500.000,00 no banco e um Q.I. acima da média. O que fazer? Você pode abrir uma empresa. É o que jovens com esse per­fil e boas ideias cos­tu­mam fazer em paí­ses mais civi­li­za­dos, por exem­plo.

Na ver­dade, esse é o obje­tivo de vida mais cobi­çado em luga­res como EUA, Ingla­terra e Aus­trá­lia: abrir uma empresa, ganhar MUITO dinheiro e, no pro­cesso de ficar podre de rico, empre­gar deze­nas ou cen­te­nas de pes­soas e gerar bens e ser­vi­ços que vão ele­var a qua­li­dade de vida de todos.

Mas vamos supor que você viva no Bra­sil. A média de lucro (a mais valia clás­sica, o retorno sobre o inves­ti­mento do capi­ta­lista) vai de 3% a 5% (varejo), 6% (far­má­cias e dro­ga­rias), 10% (pos­tos de gaso­lina) 11% a 13% (ali­men­ta­ção e ser­vi­ços), pra citar alguns exem­plos.

Isso quando o empre­sá­rio não opera no ver­me­lho, pagando do pró­prio bolso pra man­ter o negó­cio e, com ele, os empre­gos de seus fun­ci­o­ná­rios.

Claro que não é só. Você vai gas­tar em média 2.600 horas/ano não fazendo o que você se propôs a fazer (pro­du­zindo bens ou pres­tando ser­vi­ços) mas pra reco­lher os impos­tos, que vão inci­dir sobre o seu inves­ti­mento ANTES que você tenha qual­quer lucro.

Em média, 40% do seu inves­ti­mento vai pro governo; 24% vai pros tra­ba­lha­do­res; e, des­con­tada a parte do banco (capi­tal de giro, des­conto de rece­bí­veis, etc), a você será per­mi­tido ficar com ape­nas 7% do que gerou.

Você será tra­tado como cri­mi­noso pela soci­e­dade, será cul­pa­bi­li­zado por tudo o que der errado no país, e será cons­tan­te­mente fis­ca­li­zado e espo­ra­di­ca­mente autu­ado por conta do des­cum­pri­mento de alguma obri­ga­ção aces­só­ria que nem seu advo­gado sabia que exis­tia, mas que lhe ren­derá uma multa de 150%, além de juros de 1% ao mês e cor­re­ção mone­tá­ria.

E claro, oca­si­o­nal­mente seus fun­ci­o­ná­rios o pro­ces­sa­rão, ainda que você tenha pago todos os direi­tos e obri­ga­ções, e sabe-se lá o que vai deci­dir o juiz do tra­ba­lho, que está lá na pre­sun­ção de que você é um con­tra­ven­tor e o seu fun­ci­o­ná­rio é um anjo.

Depois de 3 anos, há 80% de chance de você estar falido, e com sua casa, carro e o que quer que tenha sobrado de seu capi­tal ini­cial ame­a­çado por exe­cu­ções fis­cais e tra­ba­lhis­tas.

Não parece um pros­pecto muito bom.

Mas feliz­mente você vive no Bra­sil, e tem opções.

Você pode empres­tar aque­les seus R$ 500.000,00 ao governo, por exem­plo. Uma apli­ca­ção no Tesouro Direto inde­xada ao IPCA rende hoje pouco mais de 18% ao ano, com liqui­dez semes­tral. Des­con­ta­dos os impos­tos, ainda sobra uns 14% lim­pos.

Bem melhor do que os 3% a 11% que você obtém empre­en­dendo, e com risco pra­ti­ca­mente zero: ao con­trá­rio do que se dá com o empre­en­de­dor, o governo te tra­tará como rei, por­que o governo é inca­paz de gas­tar menos do que arre­cada, e sem­pre vai pre­ci­sar de gente como você para finan­ciar o défi­cit endê­mico.

Ao final de 3 anos, você terá somado cerca de R$ 200.000,00 ao seu capi­tal de R$ 500.000,00 (aju­dado pela mágica dos juros capi­ta­li­za­dos).

Bem melhor, não?

Ou então você pode empre­gar esse seu cére­bro pri­vi­le­gi­ado e estu­dar para um con­curso público.

Salá­rios de R$ 30.000,00, que a ini­ci­a­tiva pri­vada só paga a altos exe­cu­ti­vos que tenham resul­ta­dos pra apre­sen­tar e que este­jam acos­tu­ma­dos a viver sob intensa pres­são, não são inco­muns no fun­ci­o­na­lismo, com o bônus de que você nunca será demi­tido, ainda que faça ape­nas o mínimo exi­gido, e, depen­dendo da car­reira que esco­lher, será inclu­sive obri­ga­to­ri­a­mente pro­mo­vido.

É essa a flora exó­tica na qual vive­mos: tudo a todo momento grita pra que você não crie, não empre­enda, não empre­gue. Se acu­mu­lou algum capi­tal, seja ren­tista. Se tem uma boa edu­ca­ção, seja fun­ci­o­ná­rio público.

Vai dar certo sim, ami­gos.


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Rafael Rosset
Paulistano, 35 anos, advogado mas legal, tem um cachorro vira latas chamado Smirnoff que curte Iggy Pop e que sabe que rock nacional não é rock.

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