(Tradução autorizada do artigo original, escrito por Mark Manson em seu site. Se você quer acompanhar os novos artigos em língua inglesa, clique aqui e assine a newsletter de Mark)


Tem esse cara. Um bilionário mundialmente famoso. Gênio da tecnologia. Inventor e empresário. Com porte atlético, talentoso, bonito e com uma mandíbula tão bem talhada que é como se Zeus houvesse descido do Monte Olimpo e a tivesse moldado ele próprio.

Esse cara tem uma pequena frota de carros esportivos, alguns iates, e quando não está dando milhões de dólares para a caridade, ele está trocando a sua namorada supermodelo por outra como quem troca de meias.

O sorriso desse cara pode derreter a maldita sala inteira. Seu charme é tão tangível que você pode nadar nele. Metade de seus amigos foram escolhidos como “Homem do Ano” pela revista Time, e os que não foram nem se importam pois eles poderiam comprar a Time se quisessem. Quando esse cara não está circulando na alta sociedade ao redor do mundo ou apresentando a mais recente inovação tecnológica que salvará o planeta, ele gasta seu tempo ajudando os fracos, oprimidos e desamparados.

Esse homem é, como você deve ter imaginado, Bruce Wayne. Também conhecido por Batman. E (atenção, spoiler!) na verdade ele não existe. Ele é uma ficção.

É uma faceta interessante da natureza humana o fato de que parecemos ter uma necessidade de criar esse tipo de heróis ficcionais que incorporam a perfeição e tudo o que gostaríamos de ser. A Europa medieval tinha suas lendas sobre galantes cavaleiros que matavam dragões e resgatavam princesas. A Roma e Grécia clássicas tinham seus mitos sobre heróis que venciam guerras de mãos vazias e em alguns casos que enfrentaram os próprios Deuses. Todas as demais culturas também são repletas dessas histórias fantásticas.

E hoje em dia nós tempos as histórias em quadrinhos de super-heróis. Veja o Super-homem, por exemplo. O cara é basicamente um deus com um corpo humano usando um colante azul e uma cueca vermelha por cima. Ele é indestrutível e imbatível. E a única coisa tão inabalável quanto sua resistência física é sua firmeza moral. No mundo do Super-homem, a justiça é sempre preto/branco, e o Super-homem nunca titubeia em fazer o que é certo. Não importa as consequências.

Não acho que estarei sacudindo o mundo da psicologia ao sugerir que, como humanos, temos necessidade de conjurar esses heróis para nos ajudar a lidar com nosso sentimento de impotência. Há mais de 7,2 bilhões de pessoas neste planeta, e apenas cerca de 1.000 delas têm grande influência em todo o mundo a qualquer momento. Isso deixa os outros 7.199.999.000 + ou – de nós na situação de ter que lidar com o alcance limitado de suas vidas e com o fato de que a maior parte do que fazemos provavelmente não vai importar por muito tempo depois de nossa morte. Isso não é uma coisa divertida de se pensar nem aceitar.

Hoje, quero traçar um desvio de nossa cultura do “faça mais, consuma mais, foda mais” e defender os méritos da mediocridade, de ser um blasé chato e mediano. Não exatamente os méritos de buscar a mediocridade, atenção (porque todos nós devíamos tentar fazer o melhor que podemos) mas, antes, os méritos de aceitar a mediocridade quando nela caímos, apesar de nossos melhores esforços.

ATRÁS DA CURVA

Tudo na vida é um trade-off. Alguns de nós nascemos com uma alta aptidão para o aprendizado acadêmico. Outros nasceram com grandes habilidades físicas. Outros são atléticos. Outros são artísticos. Outros podem foder como coelhos e jamais derramar uma gota de suor. Em termos de talentos e habilidades, seres humanos são um grupo muito diversificado de criaturas fedorentas. Claro, o que acabamos realizando na vida, em última análise, depende da nossa prática e esforço, mas todos nós nascemos com diferentes aptidões e potencialidades.

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Este gráfico aí em cima é chamado de curva do sino. Qualquer um de vocês que teve aula de estatística e sobreviveu vai reconhecê-lo.

A curva do sino é bastante simples. Tome uma população de pessoas, como, por exemplo, pessoas que jogam golfe pelo menos uma vez por ano. O eixo horizontal representa o quão boas elas são no golfe. Mais à direita significa que são realmente boas, mais à esquerda significa que elas são realmente ruins.

Agora, observe que o gráfico fica muito fino nos extremos da curva. Isso significa que há algumas pessoas que são realmente, realmente boas no golfe. E algumas pessoas que são muito, muito ruins. A maioria cai no medíocre meio-termo.

Podemos aplicar uma “curva” como essa para zilhões de coisas em uma população. Peso. Altura. Maturidade emocional. Salários. A frequência com que fodem. E por aí vai1.

Por exemplo, esse é o Michael Jordan enterrando a bola de basquete na cesta:

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É notório que ele é um dos melhores que já fizeram isso. Portanto, ele está bem lá na extrema direita da curva do sino, melhor que 99,99% de todos os outros que alguma vez já enterraram uma bola de basquete. Poucos podem se comparara a ele.
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E aí você tem esse cara:

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Obviamente, ele não é um Michael Jordan. De fato, a probabilidade é que muitas pessoas lendo este artigo neste momento poderiam mandar muito melhor do que ele. Isso significa que ele possivelmente está no extremo inferior da curva do sino, no extremo lado oposto.

 

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Ficamos admirados com Michael Jordan porque ele é mais atlético que todos nós2. Rimos do cara do trampolim porque ele é menos atlético que a maioria de nós. Ambos são extremos opostos de uma curva do sino. E a maior parte de nós pertence á maioria que está no meio.

NÓS SOMOS BEM MEDIANOS NA MAIORIA DAS COISAS

Nós todos temos nossas forças e fraquezas. Mas o fato é que a maioria de nós está na bem na média da maioria das coisas que fazemos. Mesmo que você realmente seja excepcional em uma coisa (digamos matemática, ou pular corda, ou fazer dinheiro no mercado negro de armas), é provável que na maioria das outras coisas você esteja bem na média. Essa é simplesmente a natureza da vida. Para tornar-se realmente grandioso em alguma coisa, você tem que dedicar energia e tempo a isso. E porque todos nós temos energia e tempo limitados, poucos de nós se tornam realmente excepcionais em mais de uma coisa, se é que se tornam excepcionais em alguma coisa.

Podemos dizer que é uma total improbabilidade estatística que uma pessoa possa ter um desempenho extraordinário em todas as áreas de sua vida, ou mesmo em muitas áreas de sua vida. Bruce Wayne não existe. Isso simplesmente não acontece. Brilhantes homens de negócio estão com frequência fodidos em suas vidas pessoais. Atletas extraordinários são com frequência rasos e tão idiotas quanto pedras lobotomizadas. A maioria das celebridades está tão despreparada para a vida quando as pessoas que babam por elas e seguem cada movimento que fazem.

Nós todos somos, na maior parte do tempo, pessoas bem medianas. É nos extremos que ganhamos todas as atenções. Nós meio que intuitivamente sabemos disso, mas raramente pensamos e/ou falamos a respeito. A grande maioria de nós jamais será realmente excepcional em, bem, alguma coisa. E isso é OK.

O que nos leva a um ponto importante: a mediocridade, enquanto objetivo, é uma merda. Mas mediocridade, enquanto resultado, é OK.

Poucos de nós percebem isso. E poucos de nós aceitam isso. Pois surgem problemas (sério, o tipo de problema “ah meu Deus qual o sentido de viver?”) quando esperamos ser extraordinários. Ou pior, nós nos sentimos predestinados a ser extraordinários quando, na realidade, isso não é viável ou provável. Para cada Michael Jordan ou Kobre Bryant, há 10 milhões de manés jogando basquete em quadras amadoras… e perdendo. Para cada Picasso ou DaVinci há cerca de um bilhão de bobalhões brincando com o Paint Brush. E para cada Leo Filhadamãe Tolstoi há um bocado de, bem, pessoas como eu escrevendo e dando uma de escritor.

 

A tirania de uma cultura da excepcionalidade

Então aqui está o problema. Arrisco dizer que hoje em dia temos essa expectativa (ou esse sentimento de sermos predestinado) mais do que em qualquer outro momento da história. E a razão para isso está na natureza de nossa tecnologia e em nossos privilégios econômicos.

Ter a internet, o Google, o Facebook, o Youtube e acesso a centenas de canais de televisões é fantástico. Temos acesso a mais informação do que em qualquer outro momento da história.

Mas nossa atenção é limitada. Não há como processarmos o maremoto de informações que flui através da internet a todo momento. Portanto, as únicas peças informações que rompem essa torrente e capturam nossa atenção são aquelas verdadeiramente excepcionais, o que representa mais ou menos 99,9999% do total.

Todo dia, a cada dia somos inundados com o que é verdadeiramente extraordinário. O melhor do melhor. O pior do pior. As maiores proezas físicas. As piadas mais engraçadas. As mais perturbadoras notícias. As mais assustadoras ameaças. Sem parar.

Nossas vidas hoje estão repletas de informações que vêm dos extremos da curva do sino, pois no mundo da mídia é isso que atrai os olhares, e os olhares trazem dinheiro. Esse é o motivo. No entanto, a maior parte da vida ainda está no meio2.
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Tenho convicção de que esta enxurrada de informações extremas nos condicionou a acreditar que o “excepcional” é o novo normal. E uma vez que todos nós raramente somos excepcionais, todos nos sentimos muito muito ansiosos e desesperados em nos sentirmos “excepcionais” o tempo todo. E então temos de apelar. Alguns de nós fazem isso recorrendo a esquemas do tipo fique-rico-logo. Outros fazem isso cruzando o mundo para salvar bebês famintos na África. Outros fazem isso tendo desempenho excelente na faculdade e ganhando todas as láureas. Outros fazem isso dando tiros dentro de sua própria escola. Outros fazem isso tentando fazer sexo com qualquer coisa que fale e respire.

Há uma espécie de tirania psicológica na nossa cultura atual, um sentimento de que nós sempre precisamos provar que somos especiais, únicos, excepcionais o tempo todo, não importa como, apenas para que aquele momento de excepcionalidade nos escape na corrente de todas as outras excepcionalidades humanas que estão constantemente acontecendo.

Por exemplo, aqui temos cinco minutos de vídeo mostrando nada senão algumas das mais incríveis proezas que você poderia imaginar:

O mais incrível é que cada pessoa neste vídeo provavelmente gastou, para conseguir seus 5 segundos de imagem, anos e anos e anos praticando sua habilidade, assim como dúzias de horas de gravação.

E contudo esses anos de prática não nos são apresentados. Nem as horas de gravação monótona ou cheia de falhas. Apenas nos apresentam os mais absolutos melhores momentos de cada pessoa  – possivelmente os melhores momentos de suas vidas.

E daí vemos isso e esquecemos após alguns minutos. Porque já pulamos para a excepcionalidade seguinte. E depois para a próxima.

MA-MA-MAS, SE EU NÃO SEREI ESPECIAL OU EXTRAORDINÁRIO, QUAL O SENTIDO DE TUDO?

Acreditar que todos nós estamos destinados a fazer alguma coisa realmente extraordinária é um aspecto aceito de nossa cultura. As celebridades dizem isso. Os empresários mais ricos dizem isso. Os políticos dizem isso. Todos nós e cada um de nós pode ser extraordinário. Todos nós merecemos a grandeza.

O fato de que essa afirmação é inerentemente contraditória – afinal, se todo mundo é extraordinário, então por definição ninguém é extraordinário – não é percebido pela maioria das pessoas, e ao invés disso nós engolimos a mensagem e pedimos por mais.

Ser “mediano” tornou-se a nova modalidade de fracasso. O pior lugar em que você pode estar é bem no meio da matilha, no meio da curva do sino.

O problema é que, estatisticamente falando, a maioria de nós está no meio da curva do sino a maior parte do tempo, em quase todas as coisas que fazemos. Claro, você pode ser uma estrela do rock, mas daí você tem que ir para casa e ser um péssimo pai e se embrigar bebendo cerveja mais rápido do que 90% da população e mijar na cama de noite. Ou pior ainda, você pode ser o Lobão. Ninguém continua excepcional por muito tempo.

Muitas pessoas têm medo de aceitar a mediocridade porque elas acreditam que se aceitarem ser medíocres então elas jamais conquistarão coisa alguma, jamais evoluirão e daí suas vidas não terão importância.

Acho essa forma de pensar perigosa. Uma vez que você aceita a premissa de que sua vida somente valerá a pena se você for genuinamente notável e grande, você basicamente aceita o fato de que a maioria da população humana não vale nada e é inútil. E falando em termos éticos, esse é um lugar realmente escuro demais para você estar.

Mas a maioria das pessoas tem problemas em aceitar ser mediano por razões mais práticas. Elas se preocupam que “se eu aceitar que sou mediano, então jamais conquistarei algo de grande, não terei motivação nenhuma para evoluir ou fazer algo significativo; e se eu for mesmo um dos poucos excepcionais?”

Essa também é uma crença equivocada. As pessoas que se tornam realmente excepcionais em algo não chegam a isso por acreditarem que são excepcionais. Ao contrário, elas se tornam incríveis porque estão obsecadas em se tornarem melhores. E essa obsessão decorre de uma crença inarredável de que eles, de fato, não são nada excepcionais. De que são medíocres. De que são medianos. E de que podem se tornar muito melhores.

Essa é a maior ironia da ambição. Se você deseja ser mais inteligente e bem sucedido que todas as outras pessoas, você sempre vai se sentir um fracasso. Se você deseja ser a pessoa mais amada e popular, você sempre se sentirá sozinha. Se você deseja ser o mais poderoso e admirado, você sempre vai se sentir fraco e impotente.

Toda essa história de “todo mundo pode ser extraordinário e atingir a grandeza” é basicamente uma masturbação para seu ego. É uma merda empurrada para você a fim de que você se sinta bem por alguns poucos minutos e leve a semana sem se enforcar no seu local de trabalho. É uma mensagem que tem um gosto bom quando é engolida, mas na verdade não é nada do que calorias sem nutrientes e que fazem você emocionalmente obeso e inchado, o proverbial Big Mac para seu coração e cérebro.

O ticket para a saúde emocional, tal como a saúde física, vem de comer vegetais – ou seja, de aceitar as verdades sem gosto e mundanas da vida: uma leve salada de “você na verdade é bem mediano no grande esquema de todas as coisas” e um pouco de brócolis cozido de “a maior parte da sua vida será medíocre”. Isso tem gosto ruim no início. Bem ruim. E você tentará não comer.

Mas, uma vez ingerido, o seu corpo vai acordar sentindo-se mais potente e vivo. Afinal, a pressão constante de sempre ser alguém incrível, de ser a próxima grande novidade, será retirada de suas costas. O estresse e a ansiedade do sentimento de inadequação se dissipará. E o reconhecimento e a aceitação de sua existência mundana irá deixar você livre para realizar aquilo que você realmente deseja realizar, sem julgamentos e altas expectativas.

Você progressivamente apreciará as experiências básicas da vida. Você aprender a julgar a si mesmo de formas novas e mais saudáveis: o prazer de uma simples amizade, o prazer de criar algo, o prazer de ajudar uma pessoa em necessidade, o prazer de ler um bom livro, o prazer de rir junto a alguma pessoa importante para você.

Parece chato, não é? É porque essas coisas são medianas. Mas talvez elas sejam medianas por um motivo: porque elas são o que realmente importa.

Notas:

1. Essas curvas nem sempre são simétricas e podem variar de altura e comprimento, mas o conceito básico sempre se aplica.

2. Há uma ótima citação de Eric Hoffer que diz: “O jogo da história é de regra jugado pelos melhores e piores que passam por cima das cabeças da maioria que está no meio”.

 

 

escrito por:

Mark Manson