(Tradução da série de textos sobre Elon Musk autorizada por Tim Urban, autor do texto original em inglês publicado no site Wait But Why. Tradutor: Rodrigo Zottis. Revisor: Victor Lisboa)


Mês passado, recebi uma ligação.

Wait But Why - Elon Musk 1 Wait But Why - Elon Musk 1

Wait But Why - Elon Musk 3 Wait But Why - Elon Musk 4 Wait But Why - Elon Musk 5 Wait But Why - Elon Musk 6 Wait But Why - Elon Musk 7 Wait But Why - Elon Musk 8 Wait But Why - Elon Musk 9

 

Elon Musk, para aqueles que não estão familiarizados, é o homem mais radical do mundo.

Elon Musk faceVou usar este post para explorar como Elon Musk se tornou um bilionário no estilo Tony Stark do Iron Man. Mas, por enquanto, vou deixar Richard Branson explicar as coisas brevemente:

“O que os céticos disseram que não poderia ser feito, Elon Musk foi lá e tornou realidade. Lembra da década de 1990, quando tínhamos que ligar para estranhos e informar nossos números de cartão de crédito para fazermos compras? Elon Musk sonhou com uma pequena coisa chamada PayPal. Suas empresas Tesla Motors e SolarCity estão fazendo um futuro limpo e de energia renovável uma realidade. A SpaceX está reabrindo o caminho da exploração areoespacial. É um paradoxo o fato de que Elon Musk está trabalhando para melhorar nosso planeta, ao mesmo tempo em que esteja construindo uma espaçonave para nos ajudar a sair dele.”

Então não, aquele não era um telefonema que eu esperava receber.

Alguns dias depois, eu estava de pijama, andando freneticamente pelo meu apartamento, conversando pelo telefone com Elon Musk. Tivemos um papo sobre a Tesla, a SpaceX e as indústrias automotiva, aeroespacial e de energia solar, e ele me disse que o que pensava sobre essas coisas confundia cada vez mais as pessoas. Ele sugeriu que, se fossem tópicos sobre os quais eu estaria interessado em escrever, eu poderia ir à Califórnia e o encontrar pessoalmente para uma discussão mais longa.

Wait But Why - Elon Musk 10 Wait But Why - Elon Musk 11

Para mim, esse era um dos convites mais irrecusáveis da história. Não só porque Elon Musk é Elon Musk, mas porque reunia dois temas distintos que eu já havia anotado há algum tempo no meu documento “Temas para escrever no futuro” da seguinte forma:

– “Carro Elétrico vs. Híbrido vs. à gás, escrever sobre a Tesla e energia sustentável”

– “Spacex, Elon Musk, Marte?? Como aprender a fazer foguetes??”

Eu já queria escrever sobre esses temas pela mesma razão pela qual escrevi sobre Inteligência Artificial: porque eu sei que isso será extremamente importante no futuro. Mas eram assuntos sobre os quais eu não tinha um bom entendimento. E Elon Musk está liderando uma revolução em ambos os mundos.

Seria como se você planejasse escrever sobre o processo de atirar relâmpagos e, em seguida, Zeus te chamasse perguntando se você quer fazer algumas perguntas a ele.

E foi exatamente assim. A proposta era que eu fosse para a Califórnia ver as fábricas de Tesla e da SpaceX, conhecer alguns dos engenheiros de cada empresa e ter uma longa conversa com Elon Musk.

Fantástico.

O primeiro passo desse projeto foi entrar em pânico total. Eu não podia me encontrar com essas pessoas — engenheiros renomados mundialmente e grandes cientistas — sem saber quase nada sobre suas áreas de atuação. Eu tinha muito aprendizado rápido a fazer.

O problema com Elon Musk, porém, é que ele está envolvido em todas as seguintes indústrias:

• Automotiva;
• Aeroespacial;
• Energia solar;
• Armazenamento de energia;
• Satélites;
• Transporte terrestre de alta velocidade; e
• Uma expansão Multi-Planetária.

Zeus teria sido menos estressante.

Por isso, passei as duas semanas que antecederam a visita à Califórnia lendo mais e mais sobre esses assuntos, e ficou rapidamente claro que o projeto envolveria uma série de textos a serem escritos. Há muito conteúdo para abordar.

Então, nos próximos textos, vamos mergulhar profundamente nas empresas de Elon Musk e nas indústrias relacionadas. Mas hoje, vamos começar sabendo exatamente quem é esse cara e por que se fala tanto dele.

 

Os bastidores de Elon Musk

Nota: Há uma ótima biografia sobre Elon Musk, da autora de tecnologia Ashlee Vance. Consegui obter uma cópia antecipada, e isso foi uma fonte chave para reunir algumas informações que estão aqui. Vou fazer um breve resumo da vida dele a seguir — e se você quiser ver a história completa, é só adquirir a biografia.

Elon Musk nasceu em 1971 na África do Sul. Sua infância não foi grande coisa — ele tinha uma vida familiar difícil e nunca se encaixava bem na escola. Mas, como você costuma ler nas biografias de pessoas extraordinárias, desde cedo ele desenvolveu uma avidez pelo aprendizado. Seu irmão Kimbal disse que Elon Musk costumava ler cerca de 10 horas por dia — um monte de ficção científica e um monte de não-ficção também. Na quarta série, ele devorou a Enciclopédia Britânica.

Uma coisa que você aprenderá sobre Elon Musk ao ler este texto é que ele encara os seres humanos como se fossem computadores — o que, no seu sentido mais literal, realmente o são. O hardware humano é seu corpo físico e seu cérebro. O software é a maneira como ele aprende a pensar, seu sistema de valores, seus hábitos e sua personalidade. E aprender, para Musk, é simplesmente um processo de “baixar dados e algoritmos em seu cérebro”. Entre suas muitas frustrações com o aprendizado formal em sala de aula está a “velocidade de download ridiculamente lenta” de ir para a escola e ver um professor explicar coisas que, em grande parte, o próprio professor aprendeu através da leitura.

Elon Musk Time Magazine

Musk foi consumido por um segundo “vício” aos nove anos quando colocou as mãos no seu primeiro computador, o Commodore VIC-20. O computador veio com cinco kilobytes de memória e um manual de “como programar” que previa um prazo de seis meses para o usuário concluir o curso. Elon Musk, com seus nove anos, concluiu-o em três dias. Aos doze, ele usou suas habilidades para criar um videogame chamado Blastar, que ele me disse ser “um jogo trivial, mas melhor que Flappy Bird“. Mas em 1983, o game era bom o suficiente para ser vendido a uma revista de computador por US$ 500,00 (US$ 1.200,00 em dinheiro de hoje) — nada mal para um garoto de 12 anos.

Musk nunca sentiu muita conexão com a África do Sul — ele não se encaixava com a cultura branca Afrikaner e o país era um pesadelo para qualquer potencial empreendedor. Ele viu o Vale do Silício como a Terra Prometida, e com dezessete deixou a África do Sul para sempre. Começou no Canadá, que era um lugar mais fácil para imigrar, já que sua mãe é cidadã canadense, e alguns anos depois usou uma transferência de faculdade para a Universidade da Pensilvânia como um caminho para se estabelecer nos EUA.

Na faculdade, ele pensou sobre o que queria fazer com sua vida, usando como ponto de partida a pergunta: “O que mais afetará o futuro da humanidade nas próximas décadas?” A resposta era uma lista de cinco coisas: “a internet, a energia sustentável, a exploração espacial (em particular a extensão permanente da vida além da Terra), a inteligência artificial e reprogramar o código genético humano.”

Musk tinha dúvidas sobre o quão positivo seria o impacto dos dois últimos conceitos, e embora fosse otimista sobre cada um dos três primeiros, não considerou na época que algum dia estaria envolvido na exploração espacial. Isso deixou a internet e a energia sustentável como suas opções majoritárias.

Ele decidiu começar com energia sustentável. Depois de terminar a faculdade, Musk se matriculou em um programa de PhD na Universidade de Stanford para estudar os capacitores de alta densidade, uma tecnologia destinada a criar uma maneira mais eficiente de armazenar energia do que são as baterias tradicionais — e que, ele sabia, poderia ser a chave para um futuro de energia sustentável, inclusive acelerando o advento da indústria de carros elétricos.

Mas dois dias depois de começar o programa, ele desistiu, pois era 1995 e “não podia suportar apenas ver a internet passar — ele queria entrar nesse ramo e melhorá-lo”. Então, Musk resolveu tentar algo na área da internet.

Seu primeiro passo foi procurar um emprego no monstro da área nos anos de 1990, a Netscape. Sua tática para conseguir uma vaga foi entrar no saguão da empresa sem ser convidado, ficar embaraçosamente de pé, sendo muito tímido para falar com alguém, e sair.

Elon Musk se recuperou dessa nada impressionante tentativa de carreira começando por se unir a seu irmão Kimbal (que tinha seguido Elon Musk para os EUA) para iniciar sua própria empresa — a Zip2. Tratava-se de uma combinação primitiva de Yelp e Google Maps, muito antes de qualquer coisa desse tipo existir. O objetivo era fazer com que as empresas percebessem que estar nas Páginas Amarelas telefônicas ficaria desatualizado em algum momento e que era uma boa ideia entrar em um diretório on-line.

Os dois irmãos não tinham dinheiro, dormiam no escritório e tomavam banho na ACM local, e Elon, o programador principal, ficava sentado obsessivamente em seu computador trabalhando o tempo todo. Em 1995, era difícil convencer as empresas de que a Internet era importante (muitos lhes diziam que a publicidade na Internet soava como “a coisa mais estúpida de que já ouviram falar”), mas, eventualmente, eles começaram a acumular clientes e a empresa cresceu. Era a época do boom da Internet nos anos 90, período que empresas startups surgiram por todos os lados, e em 1999, a Compaq comprou a Zip2 por 307 milhões de dólares. Musk, que tinha 27 anos, ganhou US$ 22 milhões.

No que se tornaria um tema recorrente para Musk, ele terminou o empreendimento e mergulhou imediatamente em outro, mais difícil e complexo. Se ele seguisse o livro de regras do milionário comum, saberia que depois de atingir o sucesso durante o grande boom dos anos 90 o que deveria fazer era aposentar-se ou tornar-se um investidor anjo — ou, se você ainda tivesse alguma ambição, começar uma nova empresa com o dinheiro de outra pessoa.

Mas Musk não queria seguir as regras normais, e investiu três quartos do seu patrimônio líquido em sua nova ideia, um plano ousado para construir basicamente um banco online repleto de contas de cheques, poupança e corretagem — chamado X.com. Isso parece menos insano hoje em dia, mas em 1999, uma startup de internet tentando competir com os grandes bancos era algo inédito.

A X.com trabalhou no mesmo prédio com outra empresa de financiamento de Internet chamada Confinity, fundada por Peter Thiel e Max Levchin. Uma das muitas características do X.com era um serviço de transferência de dinheiro fácil e, mais tarde, a Confinity iria desenvolver um projeto similar. Ambas as empresas começaram a notar uma forte demanda pelo serviço de transferência de dinheiro, o que as colocou em concorrência súbita e furiosa uma contra a contra, e então finalmente decidiram se fundir no que hoje conhecemos como PayPal.

Isto fez egos e opiniões conflitantes colidirem-se. Musk agora era acompanhado por Peter Thiel e um monte de outras pessoas super bem-sucedidas da internet — e apesar da empresa crescer rapidamente, as coisas dentro do escritório não ocorriam muito bem. Os conflitos terminaram no final de 2000, e quando Musk estava no meio de uma viagem de arredação de fundos/lua de mel (com sua primeira esposa Justine), os profissionais “antiMusk” armaram nos bastidores um golpe e rebaixaram-no a CEO junto a Thiel. Musk lidou com isso surpreendentemente bem, e até hoje ele diz não concordar com essa decisão, mas entende por que fizeram isso. Ele permaneceu na equipe em um papel sênior, investindo na empresa e desempenhando um papel instrumental na sua venda para o eBay em 2002, por US$ 1,5 bilhão. Musk, o maior acionista da empresa, saiu com US$ 180 milhões (após desconto de impostos).

Se alguma vez existiu um livro de regras sobre como ter uma vida normal, Musk o jogou no fogo neste momento de sua vida — como um aluno de 31 anos de idade em 2002.

O que ele fez nos próximos 13 anos e até hoje é o que vamos explorar no resto deste texto — e dos seguintes. Por enquanto, aqui está a versão curta:

Em 2002, antes da venda do PayPal, Musk começou a ler vorazmente sobre tecnologia de foguetes, e mais tarde naquele ano, com US$ 100 milhões, começou um dos empreendimentos mais impensáveis e mal-aconselhados de todos os tempos: uma empresa de foguetes chamada SpaceX, cuja finalidade declarada era revolucionar o custo da viagem espacial, a fim de tornar os seres humanos uma espécie multiplanetária que colonizaria Marte com pelo menos um milhão de pessoas no planeta ao longo do próximo século.

Mmmmmm.

Então, em 2004, quando esse “projeto” estava apenas começando, Musk decidiu dar uma de multitarefa lançando a segunda aventura mais impensável e mal-aconselhada de todos os tempos: uma companhia de carros elétricos chamada Tesla, cujo objetivo declarado era revolucionar a indústria automobilística mundial, acelerando significativamente o advento de um mundo de carros elétricos — com o objetivo de fazer a humanidade dar um salto em direção a um futuro de energia sustentável. Musk financiou essa empresa com recursos pessoais, investindo em torno de US$ 70 milhões, apesar do pequeno detalhe de que a última vez em que houve uma startup bem sucedida no mercado automobilístico foi em 1925, com a Chrysler, e a última vez em que alguém começou uma empresa bem sucedida na produção de carros elétricos foi: nunca.

Wait But Why - Elon Musk 12

Alguns anos mais tarde, em 2006, ele investiu US$ 10 milhões para fundar, com seus primos, outra empresa chamada SolarCity, cujo objetivo era revolucionar a produção de energia criando um enorme sistema de distribuição e instalação de painéis solares na casa de milhões de pessoas, reduzindo drasticamente o consumo de eletricidade gerada a partir de combustíveis fósseis e, em última instância, “acelerando a adoção massiva de energia sustentável”.

Se você tivesse escutado tudo isso nos quatro anos seguintes à venda do PayPal, você pensaria que se tratava de uma história de fracassos. Um milionário iludido da internet, comicamente louco e com uma série de projetos impossíveis, fazendo tudo o que podia para desperdiçar sua fortuna — o que ele quase fez.

Em 2008, tudo parecia estar funcionando, mas não da melhor forma. A SpaceX descobriu como construir foguetes, mas não foguetes que funcionassem — havia tentado três lançamentos até aquele momento e os três foguetes explodiram antes de chegar à órbita. A fim de atrair qualquer investimento externo significativo ou contratos para a capitalização da empresa, a SpaceX teve que mostrar que poderia lançar um foguete com sucesso, mas Musk tinha fundos para apenas mais um lançamento. Se o quarto lançamento também falhasse, a SpaceX já era.

Enquanto isso, a Tesla também estava na merda. Eles ainda tinham que lançar seu primeiro carro — o Tesla Roadster — no mercado, algo que o mundo não olhava com bons olhos. O blog de fofocas do Vale do Silício, Valleywag, anunciou que o Tesla Roadster seria o primeiro produto tecnológico a falhar em 2007. Mas isso teria sido algo relativamente fácil de superar, se a economia global não tivesse de repente entrado em crise, atingindo a indústria automotiva de forma violenta e secando o fluxo de investimentos para as empresas do ramo, especialmente as novas e não consolidadas no mercado. E a Tesla estava ficando sem dinheiro rápido.

Durante essa dupla implosão de sua carreira, a única coisa que se manteve estável e forte na vida de Musk foi seu casamento de oito anos — isso se por estável e forte você entender o casamento desmoronar completamente em um divórcio complicado e dramático.

Fundo do poço.

Mas tem algo importante aqui — Musk não é um tolo, e ele não tinha construído empresas ruins. Ele havia construído empresas muito, muito boas. Só que a criação de um foguete confiável é algo inimaginavelmente difícil, assim como é o lançamento de uma empresa startup na indústria automobilística. E porque ninguém queria investir no que pareciam ser empreendimentos excessivamente ambiciosos e provavelmente condenados ao fracasso (especialmente durante uma recessão), Musk teve que recorrer novamente a seus próprios fundos pessoais. O PayPal tornou-o rico, mas não rico o suficiente para manter essas empresas a tona por muito tempo por conta própria. Sem dinheiro, tanto a SpaceX e a Tesla teriam uma vida curta. Então não é que SpaceX e Tesla fossem ruins — é que elas precisavam de mais tempo para ter sucesso, mas esse tempo não existia.

E então, na hora mais negra, tudo mudou.

Em primeiro lugar, em setembro de 2008, a SpaceX lançou seu quarto foguete — e último, caso não conseguisse colocar alguma carga em órbita da Terra — e foi bem-sucedida. De forma perfeita.

Isso foi suficiente para a NASA dizer “foda-se, vamos dar a esse tal de Musk uma chance”, e oferecer à SpaceX um contrato de US$ 1,6 bilhões para realizar 12 lançamentos a serviço da agência.

A SpaceX foi salva.

No dia seguinte, na véspera de Natal de 2008, quando Musk investiu na continuidade da Tesla o resto de dinheiro que tinha disponível para esse fim, os investidores da empresa concordaram relutantemente em aplicar um montante igual. A expectativa de vida da Tesla foi extendida. Cinco meses depois, as coisas começaram a acontecer, e outro investimento crítico de US$ 50 milhões foi feito.

A Tesla estava salva.

Definitivamente 2008 marcaria o fim dos solavancos na estrada, e o balanço geral dos próximos sete meses foi de sucesso crescente, tanto para Elon Musk quanto para suas empresas.

Desde seus três primeiros lançamentos falhados, a SpaceX efetuou mais 20 lançamentos — todos bem sucedidos. A NASA é agora um cliente regular, e um de muitos, uma vez que as inovações da SpaceX permitiram que empresas colocassem seus projetos e equipamentos em órbita pelo menor custo da história. Muitos desses 20 lançamentos foram de uma ou outra forma pioneiros para uma empresa de foguetes comerciais — e, até o momento, as quatro entidades na história que conseguiram lançar espaçonaves em órbita e devolvê-las à Terra são os EUA, a Rússia, a China e a SpaceX. A empresa está testando sua nova espaçonave, que levará seres humanos para o espaço, e seus engenheiros estão ocupados na construção de um foguete muito maior, que será capaz de levar 100 pessoas para Marte de uma só vez. Um investimento recente da Google e da Fidelity fez o valor da empresa ser estimado em US$ 12 bilhões.

Enquanto isso, na Tesla, o Modelo S tornou-se um grande sucesso, impulsionando a indústria automotiva com a mais alta classificação de análise de consumidor e a mais alta classificação de segurança na história da National Highway Safety Administration. Agora, a empresa está prestes a lançar no mercado seu verdadeiro modelo disruptivo, o Modelo 3, muito mais acessível, e o valor de mercado da Tesla é de pouco menos de US$ 30 bilhões. A companhia também está se tornando a maior empresa de baterias do mundo, dedicando-se a construir uma enorme “Gigafábrica” em Nevada, que irá mais do que dobrar a produção mundial de baterias de lítio.

Já a SolarCity abriu suas ações ao mercado em 2012, e agora tem uma capitalização de pouco menos de US$ 6 bilhões, tornando-se a maior instaladora de painéis solares dos EUA. Agora a empresa está construindo a maior fábrica de painéis solares do país, em Buffalo, e provavelmente fará parceria com a Tesla para utilizar em seus produtos a nova bateria doméstica da empresa-irmã, a Powerwall.

E como se isso não fosse suficiente, em seu tempo livre, Musk está empurrando o desenvolvimento de um novo meio de transporte – o Hyperloop.

Em alguns anos, quando suas novas fábricas estiverem completas, as três empresas de Musk empregarão mais de 30.000 pessoas. Depois que ele quase quebrou em 2008, dizendo a um amigo que ele e sua esposa talvez tivessem que “se mudar para o porão dos pais de sua esposa”, seu patrimônio pessoal atualmente gira em torno de US$ 12,9 bilhões.

Tudo isso fez de Musk um tipo de lenda viva. Após a construção de uma bem sucedida startup automotiva e sua rede mundial de estações para carregar carros elétricos, Musk foi comparado a visionários industriais como Henry Ford e John D. Rockefeller.

O trabalho pioneiro da SpaceX em tecnologia de foguetes levou a comparações com Howard Hughes, e muitos têm feito paralelos entre Musk e Thomas Edison por causa dos avanços em engenharia que Musk alcançou em todas as suas indústrias. Talvez mais frequentemente ele seja comparado a Steve Jobs, por sua habilidade notável para revolucionar enormes e consolidadas áreas da indústria com inovações que os clientes não desejavam e sequer imaginavam.

Alguns acreditam que ele será lembrado em uma classe própria. A escritora e biógrafa de Musk, Ashlee Vance, sugeriu que o que Musk está construindo

“tem o potencial de ser muito maior do que qualquer coisa que Hughes ou Jobs produziu. Musk pegou os setores aeroespacial e automotivo, que a América estava havia abandonando, e os reformulou de forma inovadora e fantástica.”

Assistindo entrevistas com Musk, você vê muitas pessoas fazendo perguntas similares às que Chris Anderson, que comanda a TED Talks, fez a ele, chamando-o de “o empreendedor mais notável do mundo”. Outros o conhecem como “o Homem de Ferro da vida real”, e não sem razão — Jon Favreau realmente enviou Robert Downey Jr. para passar um tempo com Musk na fábrica do SpaceX, antes de filmar o primeiro filme de Iron Man, para que pudesse inspirar-se em Musk ao modelar seu personagem. E Musk já esteve nos Simpsons, inclusive.

E este é o homem com quem eu estava conversando ao telefone, enquanto freneticamente andava de um lado para outro no meu apartamento, de pijama.

Durante a ligação, ele deixou claro que não estava me procurando para que divulgasse suas empresas — ele só queria me ajudar a explicar o que está acontecendo nas áreas em que atuam essas empresas e por que está envolvido com carros elétricos, produção de energia sustentável, viagens aeroespaciais e tudo o mais.

Ele parecia particularmente aborrecido com as pessoas gastando tempo escrevendo sobre ele. Musk sente que há tantas coisas de importância crítica acontecendo nas indústrias em que está envolvido que toda vez que alguém escreve a seu respeito ele deseja que estivessem escrevendo sobre o fornecimento de combustível fóssil, ou os avanços nas baterias, ou sobre a importância de tornar a humanidade multiplanetária (isto é especialmente claro na introdução da sua biografia, quando a autora explica como Musk não estava interessado em ver uma biografia a seu respeito).

Então, estou seguro de que este primeiro texto, cujo título é “Elon Musk: O Homem Radical do Mundo”, vai incomodá-lo.

Mas eu tenho razões. Para mim, há duas áreas dignas de exploração nesta série de textos:

1) Entender por que Musk está fazendo o que está fazendo. Ele acredita piamente que se envolveu com as causas mais prementes possíveis se quisermos garantir à humanidade um futuro melhor. Eu quero explorar essas causas com profundidade e os motivos pelos quais Musk está tão preocupado com elas.

2) Compreender por que Musk é capaz de fazer o que está fazendo. Há algumas pessoas em cada geração que mudam drasticamente o mundo, e essas pessoas valem a pena serem estudadas. Elas fazem as coisas de uma forma diferente de todas as outras — e acho que há muito a aprender com elas.

Assim, na minha visita à Califórnia, eu tinha dois objetivos em mente: compreender da melhor forma possível por que Musk e suas equipes de desenvolvimento estavam trabalhando tão febrilmente e por que isso importava tanto, e tentar entender o que faz dele alguém tão capaz de mudar o mundo.

 

Visitando as fábricas

A Tesla Factory (no norte da Califórnia) e a SpaceX Factory (no sul da Califórnia), além de serem enormes, têm muito em comum.

Ambas as fábricas são brilhantes e de estilo clean, pintadas de branco, com tetos muito altos. Ambas parecem mais como laboratórios do que com fábricas tradicionais. E em ambos os lugares, os engenheiros que fazem trabalhos de colarinho branco e os técnicos que fazem trabalhos de colarinho azul são colocados deliberadamente nos mesmos espaços, para que trabalhem em estreita colaboração e deem feedback uns aos outros — e Musk acredita que é crucial para aqueles que projetam máquinas estarem próximos a elas quando são fabricadas. E enquanto um ambiente de fábrica tradicional não seria ideal para um engenheiro em um computador e um ambiente de escritório tradicional não seria um bom local de trabalho para um técnico, um laboratório limpo e futurista parece bom para ambas as profissões. Quase não há escritórios fechados em qualquer fábrica — todos estão ao ar livre, expostos a todos.

Quando fui até a fábrica da Tesla, me espantei primeiramente com o tamanho — e quando pesquisei, não fiquei surpreso ao saber que ela tem a segunda maior área de base no mundo.

Empresa Tesla

A fábrica era anteriormente de propriedade conjunta da GM e da Toyota, e foi vendida para a Tesla em 2010. Começamos o dia com uma turnê completa pela fábrica — um mar de robôs vermelhos fazendo carros e outras loucuras:

Tesla 1

Tesla 2

Tesla 3

E outras coisas legais, como uma vasta seção da fábrica que faz a bateria do carro, e outra que armazena rolos de alumínio com 9 toneladas que são cortados, prensados e soldados até transformarem-se em Teslas.

Tesla 4

E esta gigante prensa, que custa US$ 50 milhões e comprime metal com 4.500 toneladas de pressão (a mesma pressão que você obteria se você empilhasse 2.500 carros em cima de algo):

Tesla 5

A fábrica da Tesla está trabalhando para aumentar sua produção de 30.000 carros por ano para 50.000 — cerca de 1.000 por semana. Eles pareciam estar fazendo carros incrivelmente rápido, mas então fiquei impressionado ao saber que a Toyota fazia em torno de 1.000 carros por dia, quando eles habitavam a fábrica.

Eu tive a chance de visitar o estúdio de design da Tesla (sem fotos permitidas), onde havia designers esboçando projetos de carros em telas em computadores e, do outro lado da sala, modelos de carros de tamanho normal feitos de barro. Uma versão de argila em tamanho real do próximo Modelo 3 estava cercada por especialistas que o esculpiam com pequenos instrumentos e lâminas, raspando frações de um milímetro para examinar a forma como a luz era refletida nas curvas. Havia também uma impressora 3D que poderia rapidamente “imprimir” um modelo 3D de um Tesla do tamanho de um sapato a partir de um desenho esboçado, para que um designer pudesse materializar seu projeto e olhar para o carro de diferentes ângulos. Deliciosamente futurista.

No dia seguinte visitaríamos a fábrica da SpaceX, o que teria sido ainda mais legal. Mas a fábrica contém tecnologia avançada de foguetes, o que o governo considera “tecnologia bélica” — e aparentemente blogueiros erráticos não estão autorizados a tirar fotos de tecnologia bélica.

De qualquer forma, após os passeios, tive a chance de me encontrar com vários engenheiros seniores e designers de ambas as empresas. Eles explicaram que eram especialistas em seus campos, e contei que tinha descoberto recentemente o quão grande um foguete deveria ser para transportar milhares de seres humanos, e assim nós começamos nossa conversa. Perguntei-lhes sobre o seu trabalho, seus pensamentos sobre a empresa em que trabalhavam sobre a indústria em geral, e então perguntei-lhes sobre sua relação com Elon Musk e como era trabalhar para ele. Sem exceção, todos pareciam pessoas realmente simpáticas, amigáveis e ridicularmente inteligentes — mas não de forma pretensiosa. Musk disse que tem uma estrita política de “não contratar idiotas”, e eu pude perceber isso nessas reuniões.

Então, como é Musk como um chefe?

Vamos começar por ver o que a internet diz — há um tópico no site Quora que aborda a questão: “Como é trabalhar com Elon Musk?”

A primeira resposta é de um antigo funcionário do SpaceX que não trabalha mais lá, que descreve o dia em que o terceiro lançamento falhou, e como foi um golpe devastador para a empresa e todas as pessoas que trabalharam há anos tentando torná-la um sucesso.

Ele descreve Elon Musk emergindo do comando da missão para dirigir-se aos funcionários e fazer um discurso animador. Ele se refere à “sabedoria infinita” de Elon Musk e diz:

“Acho que a maioria de nós o teria seguido até as portas do inferno depois disso. Foi a exibição mais impressionante de liderança que já testemunhei.”

Logo abaixo dessa resposta está outra resposta, de um anônimo engenheiro da SpaceX, que descreve o trabalho para Musk da seguinte forma:

“Você sempre pode dizer quando alguém saiu de uma reunião com Elon Musk: eles se sentem derrotados, pois nada que você faça será bom o suficiente, então você tem que acreditar em si mesmo, não contando com elogios à sua obviamente insuficiente carga de 80 horas de trabalho semanais.”

Lendo sobre Musk on-line e no livro de Vance, fiquei impressionado com o quão representativos ambos os comentários do post do Quora foram em relação a trabalhar para Musk. Ao falar sobre ele, ambos parecem provocar uma enorme quantidade de adoração e uma tremenda quantidade de exasperação, às vezes com um tom de amargura — e ainda mais estranhamente, às vezes você ouve os dois lados desta história expressa pela mesma pessoa. Por exemplo, um usuário no Quora uma vez fez o efusivo comentário de que

“trabalhar com ele não é uma experiência confortável, ele nunca está satisfeito consigo mesmo, assim como ele nunca está realmente satisfeito com alguém ao seu redor; o desafio diário é lidar com o fato de que ele é uma máquina e o resto de nós não é.”

E um frustrado comentarista anônimo, que disse algo algo bem parecido, mais tarde admite que o comportamento de Elon Musk é “compreensível”, dada a enormidade das tarefas que propõe, e que “é uma grande empresa e eu a amo”.

Minhas próprias conversas com engenheiros e designers de Musk revelaram uma história semelhante. Foi-me dito: “Elon sempre quer saber ‘Por que não vamos mais rápido?’. Ele sempre quer mais, melhor e mais rápido” pela mesma pessoa que poucos minutos depois enfatizava o quão sério e reflexivo Musk fica depois de despedir um empregado.

A mesma pessoa que me disse que ficar “muitas noites sem dormir” afirmou, logo a seguir, como sentia-se feliz em estar na empresa, e que esperava “nunca sair”.

Um executivo sênior descreveu a interação com Musk assim:

“Qualquer conversa é bastante envolvente porque ele é muito opinativo, e ele pode ir mais fundo do que você espera, mesmo se você não estiver preparado para isso. Quando você se comunica com ele parece que está fazendo um ato grandioso, especialmente quando você se depara com um desentendimento técnico.”

O mesmo executivo, que já havia trabalhado em uma grande empresa de tecnologia, também chamou Musk de “o bilionário mais sensato com quem já trabalhei.”

O que comecei a entender é que a explicação para ambos os lados da história (a admiração quase semelhante a uma forma de culto ao lado da conflituosa vontade de suportar o que parece ser um inferno) no fim das contas tem a ver com respeito. As pessoas que trabalham para Musk, não importa o que achem de seu modo de gestão, sentem um imenso respeito — pela sua inteligência, pela sua ética de trabalho, pela sua determinação e pela importância das missões que ele propõe, missões que fazem todos os outros trabalhos parecerem triviais e inúteis.

Muitas das pessoas com quem conversei também falaram de sua integridade. Uma forma pela qual essa integridade se manifesta é por sua coerência. Ele tem dito as mesmas coisas em entrevistas por uma década. Ele diz o que ele realmente quer dizer, não importa a situação — um funcionário íntimo de Musk me disse que depois de uma conferência de imprensa ou uma negociação de negócios, perguntaram a Musk qual era o seu ângulo real e o que ele realmente pensa. A resposta de Musk sempre é chata: “Eu acho exatamente o que eu disse.”

Algumas pessoas com quem falei referenciaram a obsessão de Musk com a verdade e a objetividade. Ele não tem problemas e é até receptivo com críticas negativas quando acredita que são objetivas, mas quando a imprensa publica algo equivocado sobre ele ou suas empresas, Musk faz questão de corrigi-las. Ele detesta frases vagas como “os estudos dizem” e “os cientistas discordam”, e recusa fazer anúncios publicitários para Tesla (algo sobre o qual a maioria das startups automotivas sequer pensaria duas vezes) pois considera a propaganda algo manipulador e desonesto.

Há até mesmo um tom de integridade nas exigências tirânicas de Musk em relação à procura de trabalhadores, porque embora possa ser um tirano, ele não é um hipócrita. Empregados pressionados a trabalhar 80 horas por semana tendem a ser menos amargos quando o seu chefe está também lá, trabalhando 100 horas ele próprio.

Falando de Musk, vamos comer um hambúrguer com ele.

 

MEU ALMOÇO COM ELON MUSK

Wait But Why - Elon Musk 13 Wait But Why - Elon Musk 14 Wait But Why - Elon Musk 15 Wait But Why - Elon Musk 16 Wait But Why - Elon Musk 17 Wait But Why - Elon Musk 18

Depois de cerca de sete minutos disso, consegui fazer uma primeira pergunta, sobre como ele pensava que o lançamento recente tinha sido (eles haviam tentado uma manobra de aterrissagem de foguete extremamente difícil — mais sobre isso no futuro texto sobre a SpaceX). Sua resposta incluiu as seguintes palavras: hipersônico, rarefeito, densificante, supersônico, Mach 1, Mach 3, Mach 4, Mach 5, vácuo, regimes, propulsores, nitrogênio, hélio, massa, impulso, balístico e reforço. Enquanto isso estava acontecendo, eu ainda me sentia meio atordoado com a surrealidade da situação, e quando voltei a mim, fiquei com receio de fazer perguntas sobre o que ele estava dizendo, pois ele podia ter explicado o ponto enquanto eu tinha estado quase inconsciente.

Eu finalmente recuperei a habilidade de manter uma conversa adulta e começamos aquilo que logo se transformou numa discussão interessante e envolvente de duas horas. Esse cara tem muito em mente sobre muitos tópicos. Neste único almoço, falamos de carros elétricos, mudanças climáticas, inteligência artificial, o paradoxo de Fermi, consciência, foguetes reutilizáveis, colonização de Marte, criar uma atmosfera em Marte, eleições em Marte, programação genética, seus filhos, declínio populacional, física versus Engenharia, Edison versus Tesla, energia solar, um imposto sobre o carbono, a definição de uma empresa, comprimir o espaço-tempo e como isso não é realmente algo que você pode fazer, nano-robôs em sua corrente sanguínea e como isso é algo difícil de fazer, Galileu, Shakespeare, os antepassados americanos, Henry Ford, Isaac Newton, satélites e eras glaciais.

Vou entrar em detalhes sobre o que ele tinha a dizer sobre muitas dessas coisas nos próximos textos, mas algumas notas por enquanto:

– Ele é um cara muito alto e corpulento. Realmente não parece assim nas fotos.

– Ele pediu um hambúrguer e comeu-o em duas ou três mordidas em um intervalo de cerca de 15 segundos. Eu nunca vi nada parecido.

— Ele está muito, muito preocupado com a questão da Inteligência Artificial (IA). Eu o citei em minhas postagens sobre IA, dizendo que Musk teme que o esforço para criar uma Superinteligência Artificial acabe resultando numa espécie de “invocação do demônio”, mas eu não sabia que ele pensava tanto assim sobre esse assunto. Ele disse que os riscos envolvendo a IA são uma das três coisas sobre as quais ele mais pensa — os outros dois tópicos são energia sustentável e nos tornar uma espécie multiplanetária, isto é, a Tesla e a SpaceX. Musk é um cara muito esperto, e ele sabe muito sobre IA, e sua preocupação com o tema me deixa com medo.

— O Paradoxo de Fermi também o preocupa. No meu post sobre o assunto, dividi os teóricos do Paradoxo de Fermi em dois campos — aqueles que pensam que não há nenhuma outra vida altamente inteligente por aí devido a algum Grande Filtro, e aqueles que acreditam que deve haver muita vida inteligente em outros planetas, mas nós não percebemos seus sinais por algum outro motivo.

Musk não tem certeza sobre qual teoria é mais provável, mas suspeita que pode haver um preocupante Grande Filtro ao longo do caminho. Ele acha que o paradoxo “simplesmente não faz sentido” e que isso “fica cada vez mais preocupante” à medida em que mais tempo passa. Supor que possamos ser uma rara civilização que já superou o Grande Filtro através de uma ocorrência peculiar que não percebemos faz com que ele se sinta ainda mais convicto sobre a missão do SpaceX:

“Se nós somos muito raros, é melhor chegar à situação multiplaneta rápido, porque se a civilização é tênue, então devemos fazer o que pudermos para garantir que a nossa já fraca probabilidade de sobreviver seja melhorada drasticamente.”

Mais uma vez, o medo de Musk em relação a esse assunto não me faz sentir bem.

— Um tópico com o qual discordei de Musk é sobre a natureza da consciência. Eu penso na consciência como um espectro suave. Para mim, o que experimentamos como consciência é exatamente o que é ser inteligente ao nível humano. Somos mais inteligentes e “mais conscientes” do que um macaco, que é mais consciente do que uma galinha, etc. E um alienígena muito mais inteligente do que nós seria, para nós, o mesmo que somos para um macaco (ou uma formiga) em todos os sentidos.

Nós conversamos sobre isso, e Musk parecia convencido de que a consciência de nível humano é uma coisa preto e branco — que é como um interruptor que vira em algum ponto no processo evolutivo e que nenhum outro animal compartilha. Ele não compara os seres no estilo “formigas : humanos / humanos : [alienígenas mais inteligentes]”, e acredita que os seres humanos são computadores fracos e que algo mais inteligente do que nós seria apenas um computador mais forte, e não uma consciência superior à nossa e cujo funcionamento sequer poderíamos conceber.

—Falei com ele um pouco sobre a reprogramação genética. Ele não acredita na eficácia dos esforços típicos da tecnologia antienvelhecimento, pois crê que os seres humanos têm datas de validade e nenhuma coisa pode impedir isso. Ele explicou:

“Todo o sistema está entrando em colapso. Você não vê alguém que tem 90 anos e é perfeitamente saudável, como um idoso que pode correr super rápido, mas sua visão é ruim. Todo o sistema está falhando. Para mudar isso de verdade, você precisaria reprogramar a genética ou substituir todas as células do corpo.”

Se fosse qualquer outra pessoa (literalmente qualquer outra pessoa) eu teria encolhido os ombros e concordado, já que eu tinha ouvido um bom argumento. Mas aquele era Elon Musk, e Elon Musk conserta tudo para a humanidade. Então o que eu falei foi:

Eu: Bem… mas isso não é importante o suficiente para tentar? Isso é algo para o qual você voltaria sua atenção?

Elon: O problema é que todos os geneticistas se comprometeram a não reprogramar o DNA humano. Então você tem que lutar não uma batalha técnica, mas uma batalha moral.

Eu: Você está lutando um monte de batalhas. Você poderia criar seu próprio projeto. Os geneticistas que estão interessados — você os traria aqui. Você cria um laboratório e poderia mudar tudo.

Elon: Sabe, eu chamo isso de o Problema de Hitler. Hitler falava sobre a criação do Übermensch e da pureza genética, então como você evitaria tocar no assunto do problema de Hitler? Eu não sei.

Eu: Eu acho que há uma maneira. Você já disse antes sobre Henry Ford que ele sempre acabava encontrando uma maneira de contornar qualquer obstáculo, e você faz a mesma coisa, você sempre encontra um caminho. E eu só acho que isso é algo tão importante e ambicioso como as outras coisas em que você está envolvido, e acho que vale a pena lutar por uma forma de contornar, de algum modo, as questões morais e outros aspectos do problema.

Elon: Quero dizer, acho que há… para resolver fundamentalmente muitos desses problemas, teremos que reprogramar nosso DNA. Essa é a única maneira de fazê-lo.

Eu: E no fundo, o DNA é apenas um material físico.

Elon: [Ele balança a cabeça em concordância e, em seguida, olha por cima do meu ombro em devaneio e responde:] É um software.

Comentários:

1) É muito engraçado pressionar Elon Musk para assumir uma outra tarefa aparentemente insuperável e expressar desapontamento por ele não estar fazendo algo, já que ele está fazendo mais pela humanidade do que literalmente qualquer outra pessoa no planeta já fez.

2) É também super divertido tocar casualmente em questões morais em torno da programação genética dizendo “eu acho que há uma maneira”, e referir-se ao DNA (a substância mais pequena e mais complexa de todas) como “apenas um material físico”, quando eu não tenho absolutamente nenhuma ideia do que estou falando. Porque essas coisas são problemas que ele precisa resolver, e não eu.

3) Creio que eu tenha plantado com êxito uma semente. Se Musk assumir o desafio da reprogramação genética humana daqui 15 anos e por causa disso todos nós vivermos até os 250 anos, todos vocês me deverão uma bebida.


Assistindo as entrevistas com Musk, você vê um monte de gente fazendo variações dessas perguntas que Chris Anderson fez a ele na conferência 2013 do TED:

Como você fez isso? Esses projetos (PayPal, SolarCity, Tesla, SpaceX) são tão espetacularmente diferentes. São projetos de escala tão ambiciosa. Como na Terra uma pessoa foi capaz de inovar dessa maneira? O que há com você? Podemos ter um pouco dessa poção secreta?

Há um monte de coisas sobre Musk que o tornam tão bem sucedido, mas eu acho que há uma “poção secreta” que coloca Musk num time diferente daquele a que pertencem outros bilionários renomados de nosso tempo. Tenho uma teoria sobre o que é essa poção, e tem a ver com a forma como Musk pensa, o jeito como ele lida com os problemas, e o modo como ele enxerga o mundo. À medida em que você ler esta série de textos, pense sobre isso, e vamos discutir mais sobre o assunto no último texto.

Por ora, vou deixar você com Elon Musk segurando um Monstro de Pânico.

Elon Musk e monstro do Pânico | Wait But Why


Wait But Why publica uma vez por semana. Nós enviamos cada post por email para mais de 140.000 pessoas – informe seu email aqui e colocaremos você na lista (nós mandamos apenas um e-mail por semana). Você pode também seguir Wait But Why no Facebook e no Twitter.


Quer ajudar o Ano Zero a traduzir mais conteúdo sensacional como este? Contribua com a gente, seja um patrão do AZ. Clique aqui.

escrito por:

Tim Urban

Formado em Ciências Políticas pela Harvard University, é autor do site Wait But Why e fundador da ArborBridge.


JUNTE-SE À NOSSA NEWSLETTER
Junte-se a outros 2.000 visitantes que recebem nossa newsletter e garanta, semanalmente, artigos sobre ciência, filosofia, comportamento e sociedade diretamente em seu e-mail!
Nós odiamos spam. Seu e-mail não será vendido ou compartilhado com mais ninguém.