Seja você contra ou a favor do impeachment, há um motivo pelo qual Eduardo Cunha é admirável.


Há muitas brincadeiras nas redes sociais sobre as dificuldades que os historiadores do futuro enfrentarão para explicar a complexidade do atual cenário político. Tudo parece ambivalente, tudo parece ser objeto de disputa entre várias versões da oposição e dos governistas, tudo parece complexo e multifacetado demais.

Mas os historiadores do futuro encontrarão um alento, uma boia-de-salvação, algo que é o máximo de consenso possível entre todos os personagens dessa história, algo que não comporta versões, que não tem qualquer complexidade: Cunha, o atual Presidente da Câmara dos Deputados, é pura e simplesmente um dos principais canalhas que a história da República já conheceu. Seja a favor ou contra o governo, a favor ou contra o impeachment, é impossível não constatar, de olhos abertos, esse fato.

Eduardo Cunha ano-zero.com

Por isso, precisamos ter um pouco de distanciamento e, dando alguns passos atrás para termos perspectiva histórica, admirar o grande bandido que o Cunha é. E admirarmos de um ponto de vista, por assim dizer, literáriocinematográfico. É que raramente a história nos dá de presente um vilão tão típico, tão caricaturalmente detestável, como ele.

Todos sabemos que a grande feiúra física tem algo de admirável no sentido cênico. A grande feiúra moral também.

Somos testemunhas oculares, vivas, de um dos personagens sem dúvida mais repugnantes da história do Brasil. Alguém que, de cara lavada, com o olhar mais inocente do mundo, afirma em entrevista que é apenas o “inocente usufrutuário” de uma milionária conta na Suíça. Alguém que tenta se apropriar do nome de Cristo, e que efetivamente usa o nome de Deus para ludibriar seus eleitores evangélicos. Alguém que chantageia empresários, Presidentes da República e colegas deputados.

Até mesmo fisicamente Cunha é um típico vilão de filme de quinta categoria. Sua aparência já foi comparada a de um personagem caricato de um desenho animado norteamericano, o Mr. Burns d’Os Simpsons. Basta procurar por seu nome em mecanismos de pesquisas de imagens e teremos dezenas e dezenas de fotos de Cunha fazendo todo o tipo de careta estereotipada que malvadões de filmes infanto-juvenis fazem. Se não fosse uma grande tragédia ambulante, ele seria uma piada ambulante. É admirável.

Eduardo Cunha ano-zero.com

Neste momento, ele, esperto e inteligente, já deve saber que os livros de história o registrarão como um grande corrupto e manipulador inescrupuloso – mesmo porque o tempo tende a desvelar as operações ilícitas que ele por ventura até agora conseguiu acobertar. Como é viver assim??? Como é acordar de manhã, olhar-se no espelho e pensar “nossa, sou um dos grandes filha da putas da História do Brasil!”?

Roberto Jefferson, ele próprio um bandido que denunciou o escândalo do Mensalão, declarou em várias entrevistas que Cunha é seu “bandido predileto” nessa história toda. Um sujeito que “atira pelas costas”, “de emboscada”, “trapaceia no poker” (veja o vídeo abaixo). Para Jefferson, só um grande e ardiloso bandido, sem escrúpulos e pronto para qualquer traição, poderia fazer frente e derrubar outros bandidos que, sem encontrar adversários tão inescrupulosos quanto eles, têm se mantido no poder durante anos.

Isso é uma interpretação válida, mas não vou tão longe assim. Eu jamais deixaria o Cunha sequer levar a minha cachorra para passear, quem dirá presidir um procedimento de impeachment – seja contra ou a favor desse impeachment. Eu jamais o elegeria sequer como síndico de prédio. Na verdade acho que me recusaria até mesmo a ser vizinho do Cunha. Não gosto que roubem o meu jornal.

Mas ainda assim, do ponto de vista distanciado da história, não deixo de admirar de o destino ter colocado como peça chave da República um sujeito tão insidioso, tão corrupto, tão mentiroso, tão mau-caráter quanto Cunha. Tamanha podridão em um homem só, é algo incrível, coisa rara.

E há mais um motivo para admirarmos Cunha. Como todo típico e induvidoso vilão da história, como Hitler durante a Segunda Guerra, Cunha não faz só de si um grande personagem asqueroso. Ele também nos convida, quase que nos coage, a fazermos o papel de personagens heroicos. Cunha, como personagem, nos convoca a de uma vez por todas assumirmos a nossa responsabilidade enquanto nação e, juntos, petralhas, coxinhas e isentões, fazermos de tudo para que ele pague por cada um de seus crimes.

Eduardo Cunha ano-zero.com

Os olhos da posteridade, dos futuros historiadores, não estão apenas sobre Cunha. Estão também sobre nós. O que nós faremos com esse sujeito definirá também quem somos. Ou seremos reconhecidos pelas futuras gerações como uma geração de covardes omissos que passivamente se deixaram abusar por um canalha da pior espécie, ou seremos reconhecidos pela posteridade como uma geração que assume suas responsabilidades e trata grandes criminosos exatamente como eles merecem ser tratados.

Cunha é admirável, do ponto de vista histórico e literário, como retrato do pior que a política brasileira pode produzir. Mas, enquanto retrato, ele vai ficar melhor ainda quando estiver emoldurado por uma cela. Aí, enfim, poderemos admirá-lo em toda a sua feiura humana.


Seja patrono do AZ para mais artigos como este.
CLIQUE AQUI e escolha sua recompensa.


Newsletter AZ | sabedoria budista


Você pode querer ler também:

O Isentão, a nova caricatura da política brasileira
Tiburi e a banalização do feminismo a serviço da política

escrito por:

Victor Lisboa