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Precisamos admirar o Cunha

Em Consciência, Política por Victor LisboaComentários

Seja você con­tra ou a favor do impe­a­ch­ment, há um motivo pelo qual Edu­ardo Cunha é admi­rá­vel.


Há mui­tas brin­ca­dei­ras nas redes soci­ais sobre as difi­cul­da­des que os his­to­ri­a­do­res do futuro enfren­ta­rão para expli­car a com­ple­xi­dade do atual cená­rio polí­tico. Tudo parece ambi­va­lente, tudo parece ser objeto de dis­puta entre várias ver­sões da opo­si­ção e dos gover­nis­tas, tudo parece com­plexo e mul­ti­fa­ce­tado demais.

Mas os his­to­ri­a­do­res do futuro encon­tra­rão um alento, uma boia-de-sal­va­ção, algo que é o máximo de con­senso pos­sí­vel entre todos os per­so­na­gens dessa his­tó­ria, algo que não com­porta ver­sões, que não tem qual­quer com­ple­xi­dade: Cunha, o atual Pre­si­dente da Câmara dos Depu­ta­dos, é pura e sim­ples­mente um dos prin­ci­pais cana­lhas que a his­tó­ria da Repú­blica já conhe­ceu. Seja a favor ou con­tra o governo, a favor ou con­tra o impe­a­ch­ment, é impos­sí­vel não cons­ta­tar, de olhos aber­tos, esse fato.

Eduardo Cunha ano-zero.com

Por isso, pre­ci­sa­mos ter um pouco de dis­tan­ci­a­mento e, dando alguns pas­sos atrás para ter­mos pers­pec­tiva his­tó­rica, admi­rar o grande ban­dido que o Cunha é. E admi­rar­mos de um ponto de vista, por assim dizer, lite­rá­riocine­ma­to­grá­fico. É que rara­mente a his­tó­ria nos dá de pre­sente um vilão tão típico, tão cari­ca­tu­ral­mente detes­tá­vel, como ele.

Todos sabe­mos que a grande feiúra física tem algo de admi­rá­vel no sen­tido cênico. A grande feiúra moral tam­bém.

Somos tes­te­mu­nhas ocu­la­res, vivas, de um dos per­so­na­gens sem dúvida mais repug­nan­tes da his­tó­ria do Bra­sil. Alguém que, de cara lavada, com o olhar mais ino­cente do mundo, afirma em entre­vista que é ape­nas o “ino­cente usu­fru­tuá­rio” de uma mili­o­ná­ria conta na Suíça. Alguém que tenta se apro­priar do nome de Cristo, e que efe­ti­va­mente usa o nome de Deus para ludi­briar seus elei­to­res evan­gé­li­cos. Alguém que chan­ta­geia empre­sá­rios, Pre­si­den­tes da Repú­blica e cole­gas depu­ta­dos.

Até mesmo fisi­ca­mente Cunha é um típico vilão de filme de quinta cate­go­ria. Sua apa­rên­cia já foi com­pa­rada a de um per­so­na­gem cari­cato de um dese­nho ani­mado nor­te­a­me­ri­cano, o Mr. Burns d’Os Simp­sons. Basta pro­cu­rar por seu nome em meca­nis­mos de pes­qui­sas de ima­gens e tere­mos deze­nas e deze­nas de fotos de Cunha fazendo todo o tipo de careta este­re­o­ti­pada que mal­va­dões de fil­mes infanto-juve­nis fazem. Se não fosse uma grande tra­gé­dia ambu­lante, ele seria uma piada ambu­lante. É admi­rá­vel.

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Neste momento, ele, esperto e inte­li­gente, já deve saber que os livros de his­tó­ria o regis­tra­rão como um grande cor­rupto e mani­pu­la­dor ines­cru­pu­loso — mesmo por­que o tempo tende a des­ve­lar as ope­ra­ções ilí­ci­tas que ele por ven­tura até agora con­se­guiu aco­ber­tar. Como é viver assim??? Como é acor­dar de manhã, olhar-se no espe­lho e pen­sar “nossa, sou um dos gran­des filha da putas da His­tó­ria do Bra­sil!”?

Roberto Jef­fer­son, ele pró­prio um ban­dido que denun­ciou o escân­dalo do Men­sa­lão, decla­rou em várias entre­vis­tas que Cunha é seu “ban­dido pre­di­leto” nessa his­tó­ria toda. Um sujeito que “atira pelas cos­tas”, “de embos­cada”, “tra­pa­ceia no poker” (veja o vídeo abaixo). Para Jef­fer­son, só um grande e ardi­loso ban­dido, sem escrú­pu­los e pronto para qual­quer trai­ção, pode­ria fazer frente e der­ru­bar outros ban­di­dos que, sem encon­trar adver­sá­rios tão ines­cru­pu­lo­sos quanto eles, têm se man­tido no poder durante anos.

Isso é uma inter­pre­ta­ção válida, mas não vou tão longe assim. Eu jamais dei­xa­ria o Cunha sequer levar a minha cachorra para pas­sear, quem dirá pre­si­dir um pro­ce­di­mento de impe­a­ch­ment — seja con­tra ou a favor desse impe­a­ch­ment. Eu jamais o ele­ge­ria sequer como sín­dico de pré­dio. Na ver­dade acho que me recu­sa­ria até mesmo a ser vizi­nho do Cunha. Não gosto que rou­bem o meu jor­nal.

Mas ainda assim, do ponto de vista dis­tan­ci­ado da his­tó­ria, não deixo de admi­rar de o des­tino ter colo­cado como peça chave da Repú­blica um sujeito tão insi­di­oso, tão cor­rupto, tão men­ti­roso, tão mau-cará­ter quanto Cunha. Tama­nha podri­dão em um homem só, é algo incrí­vel, coisa rara.

E há mais um motivo para admi­rar­mos Cunha. Como todo típico e indu­vi­doso vilão da his­tó­ria, como Hitler durante a Segunda Guerra, Cunha não faz só de si um grande per­so­na­gem asque­roso. Ele tam­bém nos con­vida, quase que nos coage, a fazer­mos o papel de per­so­na­gens heroi­cos. Cunha, como per­so­na­gem, nos con­voca a de uma vez por todas assu­mir­mos a nossa res­pon­sa­bi­li­dade enquanto nação e, jun­tos, petra­lhas, coxi­nhas e isen­tões, fazer­mos de tudo para que ele pague por cada um de seus cri­mes.

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Os olhos da pos­te­ri­dade, dos futu­ros his­to­ri­a­do­res, não estão ape­nas sobre Cunha. Estão tam­bém sobre nós. O que nós fare­mos com esse sujeito defi­nirá tam­bém quem somos. Ou sere­mos reco­nhe­ci­dos pelas futu­ras gera­ções como uma gera­ção de covar­des omis­sos que pas­si­va­mente se dei­xa­ram abu­sar por um cana­lha da pior espé­cie, ou sere­mos reco­nhe­ci­dos pela pos­te­ri­dade como uma gera­ção que assume suas res­pon­sa­bi­li­da­des e trata gran­des cri­mi­no­sos exa­ta­mente como eles mere­cem ser tra­ta­dos.

Cunha é admi­rá­vel, do ponto de vista his­tó­rico e lite­rá­rio, como retrato do pior que a polí­tica bra­si­leira pode pro­du­zir. Mas, enquanto retrato, ele vai ficar melhor ainda quando esti­ver emol­du­rado por uma cela. Aí, enfim, pode­re­mos admirá-lo em toda a sua feiura humana.


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Editor do site Ano Zero.

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