Uma cidade composta de cidadãos alfabetizados e politizados é o sonho de qualquer civil, desde a concepção da República de Platão, em 300 A.C, até a atualidade.

O debate democrático entre cidadãos parece ser uma boa maneira para chegar a conclusões sobre a região em que vivem, muito melhor do que deliberadamente eleger figuras centralizadoras que tentarão resolver os problemas de terceiros.

As mudanças de micro para macro são mais lógicas do que administrar um local “de cima para baixo.” Mas a teoria não segue a prática, e a história carece de exemplos de administrações políticas de tal forma.

Milênios depois, em nosso mundo globalizado, isso ainda não é possível.

Desde que há registros, as sociedades estruturam-se através de concepções sociais que oprimiam a maior camada da população, com o objetivo de concentrar o poder em torno de poucos indivíduos, que (fingiam que) administravam uma região. A informação era privilégio, contestar era inadmissível e ser alfabetizado era um luxo.

Ao longo dos milênios, é factual a diluição da informação e nossa melhora democrática, contudo nada disso permite ainda a existência de uma “democracia direta”.

Com a globalização e tecnologias emergentes, estamos a cada dia mais perto desse cenário democrático direto, onde a informação tornou-se o bem mais barato e promissor, tornando a descentralização societária iminente.

Contraditoriamente, ainda estamos longe de ter uma população alfabetizada e politizada a ponto de realizar escolhas políticas certas.

 

VERGONHA ELEITORAL

A esmagadora parte da sociedade brasileira é alienada sobre a situação política e social de sua cidade e país. Por diversos motivos, não é um assunto interessante. Desde adultos e idosos apolíticos ou acomodados, a jovens que pretendem mudar o Brasil em alguns anos.

A política virou algo custoso, complexo e deficitário e que só serve para desfazer amizades. Nada muda, do que adianta se envolver?

Em nosso país, negada a participação popular na política durante quase um século, não é de nos surpreender que temos uma população mal acostumada a pesquisar e participar de processos políticos.

Com uma máquina estatal inchada e burocrática, entupida de partidos, a esfera pública torna-se nada atraente. Ora, aqueles que se interessam facilmente caem em hoax ou em teorias idealistas.

Com nossa pirâmide social, composta por analfabetos sem educação, uma gigantesca e estagnada classe média, alguns bens de vida e fartos burocratas, os cidadãos têm mais a se preocupar do que acompanhar a ladainha política, que raramente lhe traz algum benefício e afeta suas vidas diretamente (para melhor).

Isso leva a diversos “desastres” eleitorais, que vemos em todos os estados…

Domingo, dia 2, houve as eleições para prefeitos estaduais e vereadores. Os votos nulos e brancos foram a 2° ou 3° opção mais votada, em muitos estados.

Abstenções em São Paulo.

Votos nulos, brancos e não comparecimento no Rio de Janeiro.

O sistema eleitoral torna-se um pesadelo, ora mergulha o país em cenários de desastre econômico sem nenhuma ordem, ora governa apenas para um parcela da população às custas da outra.

O fato dos candidatos políticos parecerem personagens de reality show, também não ajuda.

 

POLÍTICOS, OS MELHORES PRODUTOS

Mesmo com a famosa “consciência na votação”, nos deparamos com candidatos a prefeitos ou vereadores que só estão lá para tirar o atual gestor que arruinou sua cidade. É usar o ruim para tirar o que já apodreceu. Assim fica difícil.

Slogans, frases corriqueiras utilizadas pelos candidatos, os transformam em um produto, onde sua imagem, carisma e o que simbolizam importa muito mais que sua competência administrativa.

Consequentemente, haverá uma parcela de eleitores que não será representada por ele, aderindo à oposição, igualmente utilizando as mesmas ferramentas: tendo ideologias representadas em si mesmos, como se sua visão ideal de mundo importasse muito mais que aquilo realmente necessário para a cidade sair de um cenário deficitário.

Dessa forma, a política deixa de ser um instrumento de realização de propostas concretas e transforma-se em um aglomerado de símbolos e visões projetadas. Os governantes tornam-se produtos para o nosso consumo, esculpindo sua personalidade de acordo com as soluções simplórias que demandamos.

Então, não é de nos surpreender que muitos candidatos proferem seus discursos sempre em terceira pessoa.

Muitos irão falar em nome de valores que representam, por exemplo, como liberdade e família, enquanto seus adversários falam de trabalhadores, negros e mulheres, como se representassem a exata opinião das pessoas adeptas a essas causas ou com tais características. E isso está longe de ser questão de representatividade.

Todos nós sabemos que não é preciso ser um CSI para encontrar um homossexual contra as medidas econômicas que estão atreladas à causa LGBT, ou um evangélico que seja contra o modelo político da bancada evangélica. Muitas vezes, políticos misturam a água ao óleo, e se surpreendem de como isso não se mescla na prática.

Com a necessidade de monopolizar certas pautas e características de um eleitorado e associá-las a uma ideologia, os próprios políticos conseguem transformar diversas propostas políticas, que não são opostas, em temas adversos, devido ao uso destas como instrumento de voto e a necessidade de um combate à oposição baseado em uma ideologia, e não na lógica.

Assim, os partidos tentam demonstrar que existe apenas uma maneira de levar progresso a uma nação e que os opositores, junto com suas reivindicações, devem ser combatidos.

Com a colisão de propostas, inicia-se o debate, mas não um debate técnico e factual, mas sim de ataques pessoais. Propostas políticas viram raridade, e quando surgem, a forma como serão implementadas em determinada cidade é completamente esquecida, pois é mais interessante ver governantes de personalidades simbólicas colidirem verbalmente.

Debate entre Donald Trump e Hillary Clinton.
Os Estados Unidos estão longe de ser referência de sucesso democrático. As políticas sociais do país diminuíram o poder de compra de muitos americanos, criando revoltosos, vulgo eleitores de Trump. O país que possui a maior dívida interna no mundo, e que semana passada assistiu a um espetáculo de ataques pessoais. Um exemplo foi Donald Trump ter dito que a ex miss Venezuela não deveria ser miss pois “tinha cara de empregada.”

Para Aristóteles, a participação civil na política é o que difere o ser humano de animais, pois somos capazes de fazer o uso da razão para fundamentar nossas ações. Contudo, cada vez mais parecemos animais, abdicando da lógica e preferindo distrações ou análises humorísticas superficiais sobre pautas políticas.

Se os discursos dos governantes são superficiais, consequentemente as medidas implementadas por eles também. Dessa forma, a esfera política vira um mundo imaginário, onde tudo parece ser possível de resolver com simples leis, sem plano de aplicação.

Os próprios eleitores não estão preocupados em analisar os problemas do país de forma técnica, muitos cederam seus votos pelo calor das palavras, por um ódio a uma oposição ou a um governo, e pela idealização de um país em que gostariam de morar.

É preferível votarmos em alguém que incorpora uma realidade que gostaríamos de acreditar e viver, do que refletir a realidade de sua cidade na política.

Alguns dos candidatos neste domingo, por exemplo, pronunciavam-se a favor da vida e contra bandidos, mas idolatram torturadores e assassinos, pelo simples fato que esses “combateram” uma ideologia semelhante de seus oponentes em algum momento de suas vidas – dando nomes aos bois: Eduardo Bolsonaro.

Outros são a favor de trabalhadores e na redução de diferenças sociais, mas seus governos causam desemprego em massa devido à falta de conhecimento econômico, extinguindo a preocupação com as classes mais baixas e acentuando as diferenças entre classes: Haddad.

Isso é a clara prova de que a lógica quase não possui espaço na política.

A política deveria ser vista como um negócio, com prazos, riscos e objetivos, onde o mais sensato e capaz deveria ser aquele apto a elevar a qualidade de vida em uma região, e não virar um representante de uma determinada população com determinada característica/viés político.

Sem nenhum requerimento de conhecimento econômico, legislativo, administrativo e outros, não é de se impressionar por que o setor público tornou-se um descaso da atualidade, um canal onde todos os representantes só precisam de votos para ingressarem no governo, podendo extrair dinheiro sem a previsão de retorno desse capital à sociedade.

Ora, da mesma forma que para consertar um carro você leva a um mecânico experiente, você não pode entregar um país para um analfabeto político, sejam políticos ou cidadãos.

“O que deveria ser feito agora então? Restringir a política aos mais aptos?” Você deve me perguntar. Mas calma, logo chegamos lá e você não vai gostar da resposta.

A questão é que essa é a nossa realidade.

Todos sabemos que isso não vai mudar sem educação, sem a capacidade da classe média ascender e do fruteiro da esquina não precisar ser fruteiro pelo resto da vida, podendo se preocupar com o mundo além das suas contas de casa.

O sistema está viciado. Sabemos disso.

Crises econômicas sempre terminam em crises democráticas. Quanto mais um povo prospera (fora de uma bolha inflacionária), maior o alfabetismo, a educação e o IDH. Mas sem políticos que facilitem esses processos, tudo piora.

 

DEMOCRACIA DIRETA?

Nos últimos meses, diversos plebiscitos ocorreram ao redor do mundo utilizando como “canetada final” a voz da população acerca de certos assuntos nacionais. Isso influenciou candidatos brasileiros a sugerir uma maior inclusão popular na política brasileira.

Algumas pessoas, contrárias a essa medida, justificam que isso seria muito perigoso, pois se aplicado em uma escala macro os resultados seriam desastrosos.

Os exemplos contra a democracia direta são vários.

O resultado da saída do Reino Unido da União Europeia através de um plebiscito tornou-se um empecilho, que vai atingir todos os moradores e os futuros imigrantes que agora terão de congelar a confecção de seus passaportes europeus – pois este pode não ter mais validade dentro do Reino Unido.

A votação sobre a negociação das FARC na Colômbia foi outro exemplo, que terminou com apenas 37% da população indo às urnas, vencendo o “não”, com menos de 1% de diferença do “sim” estendendo uma guerra que já tem 52 anos.

O apoio da população nas filipinas à execução de traficantes de drogas nas ruas sem nenhuma prova também é grave. Em um mês, duas mil pessoas morreram. E continuam morrendo.  

Mas, logicamente, não é possível aplicar a ideia de que “democracia direta não funciona em todos os lugares do mundo”.

O IDH de um país é equivalente a muitos fatores históricos, educacionais, econômicos e trabalhistas. Um país que prospera, normalmente, possui cidadãos mais conscientes, participativos, e uma política progressista bem gerida.

Um país com um histórico pobre e uma população à mercê de regimes ditatoriais e economia tumultuada, não oferecerá melhoria em um curto prazo com uma democracia direta, bem pelo contrário.

No caso, a população brasileira está longe de ser progressista. Pena de morte, suspensão de direitos humanos, criminalização do aborto, casamento apenas entre homem e mulher, apreensão de todos os usuários de drogas ilícitas; provavelmente seriam a vontade do “poder popular.”

Sou abertamente contra tudo que a maioria da população brasileira têm em suas pautas, e é por isso que sei que não estamos nem um pouco prontos para deixar nossos brasileirinhos colocar as mãos 100% nos processos políticos, mas isso está longe de ser justificativa para restringir política a alguns poucos, todos sabemos que a tirania emerge desse cenário.

Um diploma em ciências econômicas, jurídicas ou sociais, não filtra nenhum canalha. Os maiores bandidos estão engravatados. Então, essa é a democracia de Schrödinger, onde quem “tem conhecimento” pode fazer tanta besteira quanto quem não tem.

O problema, todos sabemos, são as pessoas. Não o governo, ou as multinacionais, mas sim quem está do seu lado. Afinal, as pessoas compõem as estruturas sociais.

Sim, o sistema é tirânico, mas ele só se mantém tirano porque somos ignorantes, dentro e fora da política, porque nos abstemos de debater sobre o nosso país e como pensar em melhorá-lo na prática.

A conclusão é que infelizmente não importa o quão negativas sejam as escolhas democráticas, isso não é justificativa para não realizá-las.

As abstenções estaduais sobre a votação destas eleições já preocuparam muitos eleitores que antes não davam importância a esse processo; a atual crise econômica e o maior escândalo de corrupção no Brasil já despertou interesses de jovens por economia e direito mais que qualquer figura política de influência.

Quantos jovens mais politizados surgiram desde os protestos de 2013? Eu sou um deles, jamais imaginaria que um dia história e economia sequer me interessariam. Você pode dizer que muitos deles são politicamente equivocados, mas extremistas surgem de todos os lugares.

Enquanto nenhum modelo melhor que o atual aparece, um voto faz diferença para reverter ou implementar diversas medidas, e por mais negativo que seja o resultado de diversos plebiscitos ao redor do mundo, eles são extremamente necessários.

Apenas dessa forma será despertado o interesse da população em se informar sobre política e assim modificar o nosso conturbado sistema eleitoral.


Este texto é uma simples tentativa de fazer com que as pessoas reflitam sobre qualquer discurso político do qual diferem, ou qualquer ação social que tomam.

A cidadania é um direito de qualquer civil, mas os ramos das ciências jurídicas e sociais existem principalmente para serem estudados, não apenas para servirem como uma ferramenta esporádica para sua insatisfação com a política atual.

É como se você pedisse para o piloto do avião lhe ceder os controles da nave, só porque “você quer experimentar” e, já que você está dentro do avião, é seu direito inalienável. Dessa forma, você estaria colocando a vida de centenas de pessoas da aeronave (inclusive a sua) em risco.

Sim, você pode pilotar o avião, mas é melhor assistir a umas aulas de aeronáutica primeiro.

Existem maneiras efetivas de melhorar o local onde você mora. A democracia direta parece algo lindo sim, e ela já acontece em micro escala. Com certeza existem diversos centros de mobilização política de moradores da sua cidade que cobram resultados da prefeitura, e você nem imagina.

É lógico que eu gostaria de viver cercado de pessoas politicamente inteligentes, sem ter que ouvir carros de som de dois em dois anos com jingles absurdos, mas é como aquele ditado diz: nem só de sonhos vive o homem.


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escrito por:

Rodrigo Zottis

Rapaz que só faz o que faz pois espera que um dia seu legado possa ser completamente auto-explicativo.


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