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Princípios para uma educação feminista

Em Comportamento, Consciência por Tales GubesComentário

As esco­las que temos hoje estão a ser­viço de uma lógica indus­trial, atra­sada e pre­con­cei­tu­osa. Os cul­pa­dos não são ape­nas os pro­fes­so­res, tam­pouco só os alu­nos ou as polí­ti­cas públi­cas para a edu­ca­ção. A culpa é de algo muito maior e mais difí­cil de mudar, de um pen­sa­mento entra­nhado e escon­dido nos mean­dros da nossa soci­e­dade: do machismo.

Alguém pode dizer que isso é boba­gem. Afi­nal, essa é a pri­meira carac­te­rís­tica daquilo que é invi­sí­vel: nós não acei­ta­mos sequer colo­car a ques­tão em debate. Qual a razão de dis­cu­tir­mos coi­sas que são por­que são, não é mesmo? O machismo é como uma lente atra­vés da qual obser­va­mos as coi­sas: ele dis­torce a vida de uma maneira espe­cí­fica, mas nós não vemos as len­tes, vemos ape­nas o que está depois delas.

Por meio do machismo, olha­mos nas esco­las e acha­mos que tudo bem os meni­nos serem mais agres­si­vos e as meni­nas mais deli­ca­das. O que não per­ce­be­mos é que nós mes­mos tor­na­mos isso uma rea­li­dade quando repre­en­de­mos meni­nas mais exal­ta­das e incen­ti­va­mos meni­nos a par­ti­ci­pa­rem ati­va­mente de espor­tes. Ou quando rele­va­mos res­pos­tas vio­len­tas de rapa­zes e só elo­gi­a­mos o capri­cho da cali­gra­fia das moças. Ou quando damos car­ri­nhos e armi­nhas para os meni­nos brin­ca­rem, mas ape­nas bone­cas e fogõe­zi­nhos para as garo­tas.

A dife­rença entre brin­que­dos para meni­nos e para meni­nas.

O machismo pres­su­põe a infe­ri­o­ri­dade das mulhe­res frente aos homens, o que por si só já é um grande pro­blema. Con­tudo, não é o único: o pres­su­posto biná­rio ins­ta­lado pelo machismo trans­borda para outras rela­ções que não são neces­sa­ri­a­mente medi­a­das pelo gênero: a meri­to­cra­cia, a con­quista indi­vi­dual como obje­tivo maior, os sis­te­mas de ava­li­a­ção base­a­dos em res­pos­tas cer­tas úni­cas, a figura do pro­fes­sor como deten­tor do conhe­ci­mento e do poder, o ensino de mode­los e prá­ti­cas des­co­nec­ta­dos da rea­li­dade, o pri­mor da raci­o­na­li­dade, a ten­ta­tiva de homo­ge­nei­za­ção dos sujei­tos e a men­ta­li­dade base­ada no acú­mulo de recur­sos e infor­ma­ções na mão de pou­cos.

Existe solu­ção? Sim, acre­dito que o cami­nho seja uma edu­ca­ção femi­nista que repu­die os meca­nis­mos cons­truí­dos após milê­nios de machismo e pro­po­nha um sis­tema com­ple­ta­mente novo. Infe­liz­mente, não é pos­sí­vel zerar um para­digma e come­çar outro como se nada tivesse acon­te­cido. O cami­nho, por­tanto, é mudar aos pou­cos.

A fim de imple­men­tar essa mudança, sugiro alguns prin­cí­pios sobre os quais deve­mos pen­sar. Eles não têm uma ordem espe­cí­fica, já que todos são impor­tan­tes e, cada um a seu modo, têm a inten­ção de redis­tri­buir pri­vi­lé­gios e con­fron­tar opres­sões.

Buscar a igualdade de gênero

Esta é a ban­deira maior do femi­nismo, e não pode­ria ser dife­rente. Em nossa cul­tura, os homens têm pri­vi­lé­gios sobre as mulhe­res. Reco­nhe­cer isso não sig­ni­fica igno­rar que nós homens tam­bém sofre­mos. Porém, deve­mos apu­rar que as pro­por­ções são bas­tante dife­ren­tes e as mulhe­res sofrem mais.

O exem­plo maior é a ame­aça cons­tante à qual as mulhe­res estão sujei­tas: o estu­pro, o abuso sexual. Como o olhar machista con­si­dera a mulher ape­nas um objeto de seus dese­jos, can­ta­das na rua, pas­sa­das de mão e tesões incon­tro­lá­veis ame­a­çam a segu­rança e a sani­dade das mulhe­res. Por causa disso, uma mulher sozi­nha na rua sem­pre corre perigo e ela sabe disso. Saber disso dói, pre­o­cupa, estressa, machuca. Não há dor seme­lhante, em perigo e pro­por­ção, para nós homens.

Uma edu­ca­ção femi­nista, por­tanto, tem a obri­ga­ção de inter­rom­per opres­sões de gênero. Lugar de mulher não é na cozi­nha: é onde ela qui­ser. Coisa de menino é aquilo que o menino qui­ser fazer e não o resul­tado de uma expec­ta­tiva ridí­cula de força e viri­li­dade.

Ah, mas não tem como negar que os homens são mais for­tes do que as mulhe­res, isso é bio­lo­gia”. Alguém ainda usa esse argu­mento? Seres huma­nos não têm asas e fize­mos aviões. Nós temos o poder de inter­fe­rir na natu­reza, então por que con­ti­nu­ar­mos pre­sos a coi­sas que não são de fato pro­ble­mas? “Ah, mas um homem vai ser melhor em coi­sas físi­cas”. E se for, qual é o pro­blema?

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Abandonar a meritocracia

O pen­sa­mento machista é tam­bém meri­to­crata: ele dá mais valor àque­les que, em teo­ria, têm mais qua­li­da­des. Evi­den­te­mente, esse é um raci­o­cí­nio pronto para bene­fi­ciar aos homens, que são con­si­de­ra­dos melho­res que as mulhe­res como que por desíg­nio divino (um argu­mento tão inó­cuo quanto o da bio­lo­gia).

No sis­tema edu­ca­ci­o­nal, por exem­plo, isso sig­ni­fica que pes­soas que tive­rem mais acer­tos em pro­vas serão pri­vi­le­gi­a­das frente às que erra­rem mais. Tam­bém sig­ni­fica que os melho­res cur­rí­cu­los cha­ma­rão mais aten­ção etc.

Há quem ache isso muito justo, mas não é. Cada pes­soa vem ao mundo equi­pada com um orga­nismo que tem far­tura de cer­tas habi­li­da­des e carece de outras. Ao mesmo tempo, cada sujeito sai de uma bar­riga dife­rente para um con­texto dife­rente: uns com mais con­di­ções finan­cei­ras, outros com fama ins­tan­tâ­nea, outros sem lugar para morar. Isso por­que ainda não fala­mos no gênero: nas­cer mulher implica em ter que lidar com uma série de bar­rei­ras que homens não enfren­tam.

A meri­to­cra­cia, por­tanto, é uma falá­cia, um mito que existe para invi­si­bi­li­zar as con­tra­di­ções soci­ais que nossa soci­e­dade e nosso sis­tema edu­ca­ci­o­nal aju­dam a per­pe­tuar. Se não há igual­dade de con­di­ções pré­vias – e não há –, é impos­sí­vel e hipó­crita falar em meri­to­cra­cia.

Repensar a avaliação

A meri­to­cra­cia é um pen­sa­mento que fun­ci­ona com base na ide­o­lo­gia da escas­sez: pou­cos podem estar em cima (para que mui­tos este­jam por baixo). Uma edu­ca­ção femi­nista, por sua vez, pre­cisa estar vin­cu­lada a uma ide­o­lo­gia da abun­dân­cia: há espaço para todos serem incluí­dos e par­ti­ci­pan­tes. Do con­trá­rio, esta­re­mos ape­nas encon­trando meios de subs­ti­tuir quem está por cima.

É nesse espí­rito que a ava­li­a­ção neces­sita ser repen­sada, de modo a con­si­de­rar as dife­ren­tes sub­je­ti­vi­da­des que entram nos espa­ços de edu­ca­ção e tra­zer o apren­di­zado para a rea­li­dade de quem estuda.

A escola é um espaço que não aco­lhe os estu­dan­tes, pois traz conhe­ci­men­tos que não ganham nenhum sig­ni­fi­cado além de “isso é para pas­sar no ves­ti­bu­lar”. Além de esse ser um pen­sa­mento meri­to­crata que supõe a facul­dade como um cami­nho neces­sá­rio para a cida­da­nia plena (por­tanto, feliz), ainda é deses­ti­mu­lante. Nós, seres huma­nos, somos movi­dos à base de cren­ças. Se não acre­di­ta­mos na escola ou na impor­tân­cia do que está sendo ensi­nado, o pro­pó­sito de estar na escola se esva­zia. Não é à toa que tan­tos pro­fes­so­res agem como palha­ços na sala de aula, ten­tando entre­ter os estu­dan­tes para que não per­ce­bam o quanto é sem sen­tido aquele pro­cesso.

"Não precisamos de outro herói."

Não pre­ci­sa­mos de outro herói.”

 

Reestruturar o papel do professor

Foi-se o tempo em que o acesso à infor­ma­ção e ao conhe­ci­mento era escasso. O pro­fes­sor já foi a cate­dral do saber, algo total­mente com­pre­en­sí­vel quando seus anos de estudo eram a única fonte pos­sí­vel de conhe­ci­mento para os alu­nos. Entre­tanto, a inter­net mudou o jogo e o fez de forma radi­cal, pegando todos de sur­presa.

Com alguns cli­ques, des­cu­bro as últi­mas novi­da­des da ciên­cia, tal­vez ques­tões até mais novas do aque­las sobre as quais o pro­fes­sor está ciente. A sala de aula é um espaço limi­tado para a cons­tru­ção de conhe­ci­mento – por­tanto, deve ser uti­li­zada para outros fins.

O pro­fes­sor que depo­sita conhe­ci­mento na cabeça dos alu­nos é uma figura ultra­pas­sada. Isso não sig­ni­fica que pro­fes­so­res não sejam impor­tan­tes. Ainda o são, mas a ques­tão é refle­tir sobre que tipo de lide­rança nós pre­ci­sa­mos: não alguém que nos ensine o que fazer, mas sim que nos auxi­lie a nave­gar neste mundo com­plexo e cheio de pos­si­bi­li­da­des. Em um mar vasto como a inter­net, por exem­plo, cabe a pre­sença de alguém nos gui­ando sobre como encon­trar conhe­ci­men­tos e, prin­ci­pal­mente, como pro­cessá-los de forma crí­tica e cons­tru­tiva. O que não cabe é per­der­mos horas enclau­su­ra­dos em uma sala de aula apren­dendo coi­sas que podem ser des­co­ber­tas em qual­quer livro ou site.

Desenvolver a autonomia no lugar de ensinar o modelo

Nossa escola atual ensina como fazer base­ada na ideia de que as res­pos­tas cer­tas são limi­ta­das. É como se fosse uma escola do não, na qual se aprende tudo aquilo que não pode­mos fazer, que não deve­mos ser, que não somos capa­zes. Isso faz todo sen­tido den­tro de um pen­sa­mento machista, que tam­bém é fun­da­men­tado no não: homens não podem cho­rar, não podem ser fra­cos e não podem ser femi­ni­nos; e mulhe­res não podem nada.

Quando tra­ba­lha­mos a auto­no­mia, com­pre­en­dendo e com­par­ti­lhando a noção de que, com res­peito ao pró­ximo, pode-se tudo, eli­mi­na­mos o res­peito cego a mode­los sem sen­tido. A auto­no­mia é crí­tica por natu­reza, ela demanda enten­der como são as coi­sas para que se possa modi­ficá-las, caso neces­sá­rio.

Nosso modelo de edu­ca­ção é hete­ronô­mico, ou seja, sujeita as pes­soas (estu­dan­tes) à von­tade de outras pes­soas. Depois de doze ou treze anos sendo ensi­na­dos assim, é muito difí­cil espe­rar que as cri­an­ças se tor­nem adul­tos autô­no­mos por von­tade pró­pria.
O desen­vol­vi­mento da auto­no­mia tam­bém inclui o enten­di­mento da liber­dade como carac­te­rís­tica fun­da­men­tal, pois não é pos­sí­vel ser autô­nomo sem liber­dade.

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Emocionar-se é parte de ser humano

Por sécu­los, a huma­ni­dade ele­vou a razão e igno­rou as emo­ções, como se o sen­tir fosse algo infe­rior. Hoje sabe­mos que não, que o sen­tir é parte fun­da­men­tal do todo com­plexo que forma os seres huma­nos. Nos­sas emo­ções não ape­nas inter­fe­rem nos pen­sa­men­tos, elas pos­si­bi­li­tam ou invi­a­bi­li­zam deter­mi­na­dos raci­o­cí­nios. Com­pre­en­der aquilo que sen­ti­mos, por­tanto, é essen­cial.

Nós, homens, temos o acesso às emo­ções negado desde sem­pre. A neces­si­dade de con­trole nos obriga a não demons­trar sen­ti­men­tos, salvo aque­les de ordem expres­sa­mente vio­lenta. As mulhe­res, por sua vez, são con­si­de­ra­das ins­tá­veis e emo­ci­o­nais, por­tanto infe­ri­o­res, inca­pa­zes de par­ti­ci­par do uni­verso con­tro­lado e raci­o­nal do mas­cu­lino.

Uma edu­ca­ção femi­nista não deve ser fria. Pelo con­trá­rio, ela se ali­menta do calor do con­tato e da coo­pe­ra­ção, esta­be­le­cendo vín­cu­los pode­ro­sos entre pes­soas e exer­cendo a pos­si­bi­li­dade da empa­tia como meio de cone­xão.

Pacificar as relações e abraçar as diferenças

Se que­re­mos modi­fi­car o modo como nos rela­ci­o­na­mos com os outros, a vio­lên­cia não é uma opção. Entre­tanto, abra­çar as dife­ren­ças não sig­ni­fica dizer que tudo é acei­tá­vel. Em um uni­verso pau­tado por um pen­sa­mento femi­nista, não há espaço para quem deseja sub­ju­gar o outro. Essa não é uma con­tra­di­ção, mas sim o limite da rela­ti­vi­za­ção. Há sujei­tos e ideias que colo­cam os outros em risco por vir­tude de sua base vio­lenta: esses sujei­tos e ideias pre­ci­sam ser reo­ri­en­ta­dos ou aco­mo­da­dos onde não cau­sem danos a outras pes­soas.

Con­forme apren­de­mos sobre comu­ni­ca­ção não vio­lenta, enten­de­mos que mui­tas vezes o ata­que ao outro nasce de pro­je­ções que faze­mos sobre como nós vemos o mundo. Se eu digo “esse teu dese­nho está uma merda”, isso é com­ple­ta­mente dife­rente e muito mais agres­sivo do que dizer “puxa, eu me senti con­fuso com esses tra­ços aqui”. Quando fala­mos, cos­tu­ma­mos igno­rar o nosso papel na con­versa, como se nos­sas ideias fos­sem uni­ver­sais ou per­ti­nen­tes enquanto base para ava­liar todo o resto.

O mundo não se limita ao nosso umbigo, mesmo que o pen­sa­mento machista nos ensine a piso­tear os outros sem­pre que pos­sí­vel, como maneira de garan­tir a inte­gri­dade do nosso ego e dos nos­sos pri­vi­lé­gios sobre os outros.

menina sozinha na parede

 

Compartilhar é mais importante do que acumular

Se pen­sa­mos o mundo sem­pre a par­tir das nos­sas neces­si­da­des e não em rela­ção às redes das quais faze­mos parte, cri­a­mos a ten­dên­cia de acu­mu­lar pos­si­bi­li­da­des e pri­vi­lé­gios. Esse é um pen­sa­mento de escas­sez. Se guar­da­mos para nós os recur­sos para ati­var deter­mi­na­dos pro­je­tos, mui­tas vezes na espe­rança de um dia even­tu­al­mente con­se­guir­mos fazer isso, tira­mos de outras pes­soas a chance de fazê-lo.

Quando com­par­ti­lha­mos, num espí­rito de abun­dân­cia, abri­mos mão de alguns pri­vi­lé­gios que são muito van­ta­jo­sos, mas tam­bém abri­mos espaço para que outras pes­soas cres­çam e se desen­vol­vam ao nosso lado. Todas as vidas acon­te­cem ao mesmo tempo, por­tanto não é pos­sí­vel que todos seja­mos pro­ta­go­nis­tas indi­vi­du­al­mente. A solu­ção é ele­var o pro­ta­go­nismo para a comu­ni­dade, para o cole­tivo.

Será tudo isso utópico demais?

Tal­vez seja um sonho louco espe­rar que o mundo mude. Afi­nal, essa é a lógica da maior parte das ins­ti­tui­ções pode­ro­sas. Porém, por milê­nios o machismo rei­nou inque­brá­vel como matriz cul­tu­ral e agora enfrenta rup­tu­ras. É um pro­cesso longo, mas pos­sí­vel.
Por onde come­çar? Empo­de­rando as pes­soas. Mulhe­res pre­ci­sam ser colo­ca­das em pé de igual­dade com os homens. Homos­se­xu­ais neces­si­tam dos mes­mos direi­tos e garan­tias legais que hete­ros­se­xu­ais. Negros não podem ser dis­cri­mi­na­dos. Defi­ci­en­tes físi­cos neces­si­tam de acesso espe­cí­fico a espa­ços públi­cos.

Sem acesso, não há mudança. Sem auto­no­mia, não há mudança. Sem cole­ti­vi­dade, con­ti­nu­a­re­mos lutando cada um por si, ape­nas na busca de seus direi­tos. Se vamos lutar por jus­tiça, lute­mos por todos, não por alguns. Jus­tiça pela metade é, afi­nal, uma tec­no­lo­gia machista.

Tales Gubes
Tales é uma raposa entre seres humanos. Escreve sobre escrever, sexualidade, educação e empreendedorismo. Criou o Ninho de Escritores para unir e ajudar outras criaturas que também curtem transformar experiências em palavras.

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