As escolas que temos hoje estão a serviço de uma lógica industrial, atrasada e preconceituosa. Os culpados não são apenas os professores, tampouco só os alunos ou as políticas públicas para a educação. A culpa é de algo muito maior e mais difícil de mudar, de um pensamento entranhado e escondido nos meandros da nossa sociedade: do machismo.

Alguém pode dizer que isso é bobagem. Afinal, essa é a primeira característica daquilo que é invisível: nós não aceitamos sequer colocar a questão em debate. Qual a razão de discutirmos coisas que são porque são, não é mesmo? O machismo é como uma lente através da qual observamos as coisas: ele distorce a vida de uma maneira específica, mas nós não vemos as lentes, vemos apenas o que está depois delas.

Por meio do machismo, olhamos nas escolas e achamos que tudo bem os meninos serem mais agressivos e as meninas mais delicadas. O que não percebemos é que nós mesmos tornamos isso uma realidade quando repreendemos meninas mais exaltadas e incentivamos meninos a participarem ativamente de esportes. Ou quando relevamos respostas violentas de rapazes e só elogiamos o capricho da caligrafia das moças. Ou quando damos carrinhos e arminhas para os meninos brincarem, mas apenas bonecas e fogõezinhos para as garotas.

A diferença entre brinquedos para meninos e para meninas.

O machismo pressupõe a inferioridade das mulheres frente aos homens, o que por si só já é um grande problema. Contudo, não é o único: o pressuposto binário instalado pelo machismo transborda para outras relações que não são necessariamente mediadas pelo gênero: a meritocracia, a conquista individual como objetivo maior, os sistemas de avaliação baseados em respostas certas únicas, a figura do professor como detentor do conhecimento e do poder, o ensino de modelos e práticas desconectados da realidade, o primor da racionalidade, a tentativa de homogeneização dos sujeitos e a mentalidade baseada no acúmulo de recursos e informações na mão de poucos.

Existe solução? Sim, acredito que o caminho seja uma educação feminista que repudie os mecanismos construídos após milênios de machismo e proponha um sistema completamente novo. Infelizmente, não é possível zerar um paradigma e começar outro como se nada tivesse acontecido. O caminho, portanto, é mudar aos poucos.

A fim de implementar essa mudança, sugiro alguns princípios sobre os quais devemos pensar. Eles não têm uma ordem específica, já que todos são importantes e, cada um a seu modo, têm a intenção de redistribuir privilégios e confrontar opressões.

 

Buscar a igualdade de gênero

Esta é a bandeira maior do feminismo, e não poderia ser diferente. Em nossa cultura, os homens têm privilégios sobre as mulheres. Reconhecer isso não significa ignorar que nós homens também sofremos. Porém, devemos apurar que as proporções são bastante diferentes e as mulheres sofrem mais.

O exemplo maior é a ameaça constante à qual as mulheres estão sujeitas: o estupro, o abuso sexual. Como o olhar machista considera a mulher apenas um objeto de seus desejos, cantadas na rua, passadas de mão e tesões incontroláveis ameaçam a segurança e a sanidade das mulheres. Por causa disso, uma mulher sozinha na rua sempre corre perigo e ela sabe disso. Saber disso dói, preocupa, estressa, machuca. Não há dor semelhante, em perigo e proporção, para nós homens.

Uma educação feminista, portanto, tem a obrigação de interromper opressões de gênero. Lugar de mulher não é na cozinha: é onde ela quiser. Coisa de menino é aquilo que o menino quiser fazer e não o resultado de uma expectativa ridícula de força e virilidade.

“Ah, mas não tem como negar que os homens são mais fortes do que as mulheres, isso é biologia”. Alguém ainda usa esse argumento? Seres humanos não têm asas e fizemos aviões. Nós temos o poder de interferir na natureza, então por que continuarmos presos a coisas que não são de fato problemas? “Ah, mas um homem vai ser melhor em coisas físicas”. E se for, qual é o problema?

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Abandonar a meritocracia

O pensamento machista é também meritocrata: ele dá mais valor àqueles que, em teoria, têm mais qualidades. Evidentemente, esse é um raciocínio pronto para beneficiar aos homens, que são considerados melhores que as mulheres como que por desígnio divino (um argumento tão inócuo quanto o da biologia).

No sistema educacional, por exemplo, isso significa que pessoas que tiverem mais acertos em provas serão privilegiadas frente às que errarem mais. Também significa que os melhores currículos chamarão mais atenção etc.

Há quem ache isso muito justo, mas não é. Cada pessoa vem ao mundo equipada com um organismo que tem fartura de certas habilidades e carece de outras. Ao mesmo tempo, cada sujeito sai de uma barriga diferente para um contexto diferente: uns com mais condições financeiras, outros com fama instantânea, outros sem lugar para morar. Isso porque ainda não falamos no gênero: nascer mulher implica em ter que lidar com uma série de barreiras que homens não enfrentam.

A meritocracia, portanto, é uma falácia, um mito que existe para invisibilizar as contradições sociais que nossa sociedade e nosso sistema educacional ajudam a perpetuar. Se não há igualdade de condições prévias – e não há –, é impossível e hipócrita falar em meritocracia.

Repensar a avaliação

A meritocracia é um pensamento que funciona com base na ideologia da escassez: poucos podem estar em cima (para que muitos estejam por baixo). Uma educação feminista, por sua vez, precisa estar vinculada a uma ideologia da abundância: há espaço para todos serem incluídos e participantes. Do contrário, estaremos apenas encontrando meios de substituir quem está por cima.

É nesse espírito que a avaliação necessita ser repensada, de modo a considerar as diferentes subjetividades que entram nos espaços de educação e trazer o aprendizado para a realidade de quem estuda.

A escola é um espaço que não acolhe os estudantes, pois traz conhecimentos que não ganham nenhum significado além de “isso é para passar no vestibular”. Além de esse ser um pensamento meritocrata que supõe a faculdade como um caminho necessário para a cidadania plena (portanto, feliz), ainda é desestimulante. Nós, seres humanos, somos movidos à base de crenças. Se não acreditamos na escola ou na importância do que está sendo ensinado, o propósito de estar na escola se esvazia. Não é à toa que tantos professores agem como palhaços na sala de aula, tentando entreter os estudantes para que não percebam o quanto é sem sentido aquele processo.

"Não precisamos de outro herói."
“Não precisamos de outro herói.”

 

Reestruturar o papel do professor

Foi-se o tempo em que o acesso à informação e ao conhecimento era escasso. O professor já foi a catedral do saber, algo totalmente compreensível quando seus anos de estudo eram a única fonte possível de conhecimento para os alunos. Entretanto, a internet mudou o jogo e o fez de forma radical, pegando todos de surpresa.

Com alguns cliques, descubro as últimas novidades da ciência, talvez questões até mais novas do aquelas sobre as quais o professor está ciente. A sala de aula é um espaço limitado para a construção de conhecimento – portanto, deve ser utilizada para outros fins.

O professor que deposita conhecimento na cabeça dos alunos é uma figura ultrapassada. Isso não significa que professores não sejam importantes. Ainda o são, mas a questão é refletir sobre que tipo de liderança nós precisamos: não alguém que nos ensine o que fazer, mas sim que nos auxilie a navegar neste mundo complexo e cheio de possibilidades. Em um mar vasto como a internet, por exemplo, cabe a presença de alguém nos guiando sobre como encontrar conhecimentos e, principalmente, como processá-los de forma crítica e construtiva. O que não cabe é perdermos horas enclausurados em uma sala de aula aprendendo coisas que podem ser descobertas em qualquer livro ou site.

Desenvolver a autonomia no lugar de ensinar o modelo

Nossa escola atual ensina como fazer baseada na ideia de que as respostas certas são limitadas. É como se fosse uma escola do não, na qual se aprende tudo aquilo que não podemos fazer, que não devemos ser, que não somos capazes. Isso faz todo sentido dentro de um pensamento machista, que também é fundamentado no não: homens não podem chorar, não podem ser fracos e não podem ser femininos; e mulheres não podem nada.

Quando trabalhamos a autonomia, compreendendo e compartilhando a noção de que, com respeito ao próximo, pode-se tudo, eliminamos o respeito cego a modelos sem sentido. A autonomia é crítica por natureza, ela demanda entender como são as coisas para que se possa modificá-las, caso necessário.

Nosso modelo de educação é heteronômico, ou seja, sujeita as pessoas (estudantes) à vontade de outras pessoas. Depois de doze ou treze anos sendo ensinados assim, é muito difícil esperar que as crianças se tornem adultos autônomos por vontade própria.
O desenvolvimento da autonomia também inclui o entendimento da liberdade como característica fundamental, pois não é possível ser autônomo sem liberdade.

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Emocionar-se é parte de ser humano

Por séculos, a humanidade elevou a razão e ignorou as emoções, como se o sentir fosse algo inferior. Hoje sabemos que não, que o sentir é parte fundamental do todo complexo que forma os seres humanos. Nossas emoções não apenas interferem nos pensamentos, elas possibilitam ou inviabilizam determinados raciocínios. Compreender aquilo que sentimos, portanto, é essencial.

Nós, homens, temos o acesso às emoções negado desde sempre. A necessidade de controle nos obriga a não demonstrar sentimentos, salvo aqueles de ordem expressamente violenta. As mulheres, por sua vez, são consideradas instáveis e emocionais, portanto inferiores, incapazes de participar do universo controlado e racional do masculino.

Uma educação feminista não deve ser fria. Pelo contrário, ela se alimenta do calor do contato e da cooperação, estabelecendo vínculos poderosos entre pessoas e exercendo a possibilidade da empatia como meio de conexão.

Pacificar as relações e abraçar as diferenças

Se queremos modificar o modo como nos relacionamos com os outros, a violência não é uma opção. Entretanto, abraçar as diferenças não significa dizer que tudo é aceitável. Em um universo pautado por um pensamento feminista, não há espaço para quem deseja subjugar o outro. Essa não é uma contradição, mas sim o limite da relativização. Há sujeitos e ideias que colocam os outros em risco por virtude de sua base violenta: esses sujeitos e ideias precisam ser reorientados ou acomodados onde não causem danos a outras pessoas.

Conforme aprendemos sobre comunicação não violenta, entendemos que muitas vezes o ataque ao outro nasce de projeções que fazemos sobre como nós vemos o mundo. Se eu digo “esse teu desenho está uma merda”, isso é completamente diferente e muito mais agressivo do que dizer “puxa, eu me senti confuso com esses traços aqui”. Quando falamos, costumamos ignorar o nosso papel na conversa, como se nossas ideias fossem universais ou pertinentes enquanto base para avaliar todo o resto.

O mundo não se limita ao nosso umbigo, mesmo que o pensamento machista nos ensine a pisotear os outros sempre que possível, como maneira de garantir a integridade do nosso ego e dos nossos privilégios sobre os outros.

menina sozinha na parede

 

Compartilhar é mais importante do que acumular

Se pensamos o mundo sempre a partir das nossas necessidades e não em relação às redes das quais fazemos parte, criamos a tendência de acumular possibilidades e privilégios. Esse é um pensamento de escassez. Se guardamos para nós os recursos para ativar determinados projetos, muitas vezes na esperança de um dia eventualmente conseguirmos fazer isso, tiramos de outras pessoas a chance de fazê-lo.

Quando compartilhamos, num espírito de abundância, abrimos mão de alguns privilégios que são muito vantajosos, mas também abrimos espaço para que outras pessoas cresçam e se desenvolvam ao nosso lado. Todas as vidas acontecem ao mesmo tempo, portanto não é possível que todos sejamos protagonistas individualmente. A solução é elevar o protagonismo para a comunidade, para o coletivo.

Será tudo isso utópico demais?

Talvez seja um sonho louco esperar que o mundo mude. Afinal, essa é a lógica da maior parte das instituições poderosas. Porém, por milênios o machismo reinou inquebrável como matriz cultural e agora enfrenta rupturas. É um processo longo, mas possível.
Por onde começar? Empoderando as pessoas. Mulheres precisam ser colocadas em pé de igualdade com os homens. Homossexuais necessitam dos mesmos direitos e garantias legais que heterossexuais. Negros não podem ser discriminados. Deficientes físicos necessitam de acesso específico a espaços públicos.

Sem acesso, não há mudança. Sem autonomia, não há mudança. Sem coletividade, continuaremos lutando cada um por si, apenas na busca de seus direitos. Se vamos lutar por justiça, lutemos por todos, não por alguns. Justiça pela metade é, afinal, uma tecnologia machista.

escrito por:

Tales Gubes

Tales é uma raposa entre seres humanos. Escreve sobre escrever, sexualidade, educação e empreendedorismo. Criou o Ninho de Escritores para unir e ajudar outras criaturas que também curtem transformar experiências em palavras.