Na quinta passada, dia 9 de abril de 2015, dois fatos aparentemente sem conexão ocorreram.

No primeiro, o Sr. Eduardo Motta, vulgo “Ed Motta”, influenciado por bebida, baseado ou pura idiotia (não importa), decidiu gastar toda uma tarde livre de sua vida comprando briga com metade do povo no Facebook. É gente pra caralho.

No segundo fato, o Sr. Márcio Martins de Oliveira, anônimo funcionário da Câmara dos Deputados, decidiu soltar hamsters, gerbos (ou “esquilos-da-mongólia”) e ratos comuns no meio de todos os parlamentares que estavam no plenário da CPI da Petrobrás. É ratazana demais reunida.

O Sr. Márcio Martins (que vamos chamar de MM a partir de agora pra simplificar) expressou a indignação de toda a sociedade com parlamentares que, ironicamente, ela própria colocou no poder.

Ed Motta (que vamos chamar de “Eduardinho” a partir de agora só para privá-lo do estrangeirismo “Ed” e aplicar um tipicamente português sufixo “inho”) expressou seu desprezo pelo público brasileiro que, ironicamente, foi quem impulsionou sua carreira muito pouco meteórica.

Apesar de parecer que eles têm em comum apenas o contraditório caráter brasileiro, ambos os fatos estão intimamente conectados.

Para perceber isso, vamos usar um recurso bíblico, a parábola. Precisamos então supor que a escolha dos roedores soltos no Congresso não foi aleatória. Nesse caso, MM não pretendia apenas fazer uma associação entre os parlamentares e os ratos. Seu objetivo, segundo essa teoria, seria transmitir uma mensagem a todos os brasileiros. Ao selecionar determinadas espécies de roedores, MM pretendeu mostrar a nós o mais claro retrato de quem somos.

Recaptulemos. Hamster, gerbos e ratos, certo?

Vamos começar pelos

HAMSTERS 

hamster

A origem da palavra é o alemão hamstern, que significa “acumulador”. São aqueles que acumularam algum patrimônio, o que é muito difícil de se realizar num país subdesenvolvido (ou, na versão gourmet, “país em desenvolvimento”). Estamos falando, claro, da classe média e média-alta tradicionais, composta por filhos de pais também de classe média e média-alta, com fácil acesso a uma formação cultural medíocre mas de alguma substância, e muitas vezes com certo verniz de primeiro-mundismo esnobe e atrasado.

Nesse nicho de hamsters, cabem tanto roedores de esquerda quanto de direita, pois ambos, originários da classe média, tratam o andar de baixo, o “povo”, como ignorante e despreparado. Para os hamsters de esquerda, o “povo” precisa ser conduzido à luz, precisa ser orientado para que reconheça sua situação de oprimido e passe a combater seu opressor, seja ele quem for – o mercado, o grande capital, a elite. Já para os hamsters de direita, o “povo” é uma massa ignorante, seduzida com o bolsa-família pelo PT e seu projeto bolivariano de implantar o comunismo no Brasil.

Os hamsters costumam votar segundo a ideologia, seja lá diabos o que significa isso. Tendem, portanto, a se identificar com esse ou aquele partido, ou contra esse ou aquele partido. É dessa turma que surgem os petistas (quem construiu o PT foram os filhos da classe média tradicional, servidores públicos, líderes universitários, artistas, acadêmicos) e os anti-petistas viscerais, que compõem a maior parte daqueles que participam dos protestos políticos de 2015.

Acontece que os hamsters entram em crise de identidade nos últimos anos. Seus espaços estão sido invadidos. Seus símbolos de distinção social – viagens ao exterior, roupas de marca, relógios caros, tênis importados – têm sido usurpados por outra turma: aqueles que os hamsters denominam “povo”.

A população de classe baixa/média baixa teve certa ascensão durante a maior parte do governo de Lula, e incomodou muitos hamsters ao ver seu habitat  invadido por outra espécime: uma que ostenta nos trajes e bens materiais os troféus de sua bombadinha financeira, e com todo o direito de fazer isso. De aeroportos a planos de saúdes, não faltaram protestos explícitos daqueles hamsters mais sem noção.

A manifestação cretina e arrogante de Eduardinho, reclamando dos brasileiros que vão a shows no exterior, denominando-os de “pedreiros”, de “caipiras”, de pessoas que “curtem pagode” e “bebem cerveja barata”, de “crianças esfomeadas de escola pública” que nada entendem (e ele seria o professor dessas crianças), é apenas mais um desabafo de uma classe média e média-alta despreparada para lidar com o desenvolvimento econômico do andar de baixo. Ciosos demais dos sinais de pertencimento a uma sub-elite, essa turminha mesquinha fica perturbada quando alguém que não está familiarizado com os códigos de conduta de sua classe trata-o como um igual.

aeroporto
Professora da PUC-RJ ridicularizou “estivador” no aeroporto.

 

E já que estamos também falando deles, vamos incluir na nossa parábola os outros roedores soltos no Congresso. Eles são os

GERBOS

gerbo

Nome engraçado né? Também são conhecidos como esquilos-da-mongólia, mas o seu outro nome significa algo como “soldado com garras”. Portanto, antes de tudo eles são considerados soldados, peões num jogo maior.

Logo, os gerbos soltos no plenário da CPI são essa população de classe baixa e média-baixa que o andar de cima chama de “povo” e trata como se fosse um menor incapaz: alguém que é ou oprimido pelas forças do capital internacional ou é iludido pelos arquitetos do socialismo chavista.

Diferente dos membros da classe média tradicional, os hamsters, essa turma não tem um histórico familiar de acesso às universidades, e apresenta um desenvolvimento cultural muitas vezes deficiente, salvo respeitosas exceções. A razão disso é muito simples: são pessoas que precisam despender todo o seu tempo trabalhando e prestando serviços aos hamsters, para assim garantir o sustento do mês, pagar toda as suas dívidas e economizar com o objetivo de adquirir seu primeiro imóvel. Sua educação é em geral recebida de instituições públicas e o tempo de lazer é usufruído por um corpo ou mente extenuados. 


São operosos e decididos. Levam nas costas o país inteiro, e por isso esperam obter resultados práticos a partir de seus atos e escolhas. Apesar de o pouco acesso a cultura limitar alguns de seus horizontes, não são de modo algum ignorantes ou iludidos – ao contrário, compreendem a realidade de uma forma muito mais complexa e realista do que os filhos da classe média tradicional. 

Por isso o protesto de ontem passou batido para essa parte da população. Eles não costumam participar de manifestações mais à esquerda, como os protestos de 2013, e nem simpatizam com manifestações mais à direita, como os protestos de 2015. Todas elas, afinal, são organizadas por representantes da classe média tradicional, seja na forma universitários de instituições públicas (as universidades públicas são ninhos de hamsters) seja na forma de famílias e empresários conservadores.

Nas manifestações de 2013 e de 2015 estão em movimentos interesses ideológicos e disputas partidárias, e essa classe brasileira não se ilude com tais coisas – ela vota em quem lhe apresentar a melhor solução prática para suas necessidades concretas. Podem ter votado no Fernando Henrique quando ele controla a hiper-inflação em 1994 e reeleito Lula quando ele mantém o bolsa-família. São muito mais coerentes em seu pragmatismo do que o andar de cima.

Doutrinas ideológicas de esquerda ou direita, o ódio por esse ou aquele partido, nada dessa comédia de erros em que a classe média tradicional luta consigo própria interessa à classe baixa e média-baixa. Milhares de jovens universitários podem organizar protestos contra cartéis dos transportes públicos; milhares de famílias da classe média tradicional podem ir as ruas pedir a derrubada do governo petista: nada disso interessa aos outros milhares de brasileiros que trabalham demais e são mal remunerados, que aspiram legitimamente atingir uma qualidade de vida até pouco tempo atrás proibida, mas cuja provinha tiveram lá atrás durante parte do governo Lula.

Mas não se enganem: como realmente deve ser, seu compromisso não é com esse ou aquele candidato ou partido, e sim com a sua justíssima pretensão de conseguir segurança para o futuro dos seus filhos e algum nível de conforto material que até pouco tempo atrás só percebiam pelas janelas e calçadas dos bairros nobres das grandes cidades. Tratam políticos como devem ser tratados: como temporários depositários de suas expectativas práticas, descartáveis pelo processo democrático, e não como salvadores da pátria ou ou vilões com um plano diabólico de conquista.

Como já vimos, houve alguma ascensão desse pessoal a espaços antes reservados apenas a classe média e média-alta. Ocorre que essa população dá uma grande banana para o que pensa ou incomoda os hamsters. Os espaços da classe média tradicional serão invadidos, e com todo o direito, por aqueles que se cansaram de viver à margem da sociedade de consumo.

É bom lembrar da segunda parte do seu nome: os gerbos possuem garras para alcançar seus interesses a agarrar-se a eles. O olhar esnobe e irônico de quem teve acesso a uma rala educação superior não intimidará aqueles que desejam comprar e exibir uma camisa ou relógio de marca após muito esforço e sacrifício, cumulando jornada de trabalho excessiva com os estudos noturnos. Eles parcelarão as viagens a Paris, e em shows de músicos brasileiros pedirão para ouvir a doce língua de que têm saudades. Eles ostentarão sinais visíveis de sua saúde econômica, pois ela tem valor para quem dela se viu privado e para quem a obteve arduamente. Eles não acreditam em políticos, pois crença é coisa de religião – eles querem dos políticos os resultados materiais daquilo que prometeram.

E eis que chegamos a última espécie:

O RATO COMUM

rato

O rato cinza, ou rato-do-campo ou simplesmente “rato”, dispensa qualquer pesquisa etimológica para definir seu papel na parábola. Estamos falando de uma classe que existe para além da divisão econômica entre classes baixa, média e alta – ela é, na verdade, uma espécie de parasita dessas classes. Como um rato, invade as despensas das duas primeiras, roubando suas economias e provisões através de toda espécie de tributo.

Como um rato, trabalha feito animal adestrado para a classe alta, irrigando com dinheiro público o patrimônio particular de empreiteiras, empresários e banqueiros, que lhes oferecem as migalhas do que então consomem.

Estamos, claro, falando da classe política tradicional. Ela é composta por grupos de ratos que disputam cargos eleitorais e recebem gordos valores durante suas campanhas. Com frequência as empresas que financiaram suas campanhas são beneficiadas em toda espécie de esquema de corrupção, caso eleitos.

É um erro supor que não havia ratos durante a ditadura militar. Essas ratazanas da classe política sempre estarão presentes quando houver tráfego de interesses e dinheiro público envolvido, independentemente do regime ser democrático ou não. Eles vicejam no congresso brasileiro, mas também estavam presentes nas pastas ministeriais da ditadura brazuca e no politiburo soviético.


Esse tipo de praga, portanto, não é exterminado com golpes ao regime democrático. Essa especie de rato só é eliminada com reforma política e eleitoral, aliada necessariamente ao um maior amadurecimento de nossa consciência sobre o que é ser cidadão. 

Tal desenvolvimento da cidadania é que poderia, além de eliminar os ratos, dissipar a cegueira que parte da população brasileira, os hamsters tem em relação a outra parte dessa mesma população, os gerbos. Enquanto não amadurecermos nossa consciência sobre o que é ser um brasileiro pertencente a um projeto coletivo de nação e mundo, sempre haverá um roedor como o Eduardinho, fartando-se no queijo prato da sub-celebridade, mas arrotando camembert em redes sociais.

escrito por:

Victor Lisboa

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