platão grécia

E se Platão estiver certo?

Em Comportamento, Consciência, Filosofia, Sociedade por Rodolfo Dall'AgnoComentários

Con­forme vêm e vão os rumos da his­tó­ria, temos, de maneira cole­tiva, visões de mundo que nos guiam quanto ao jeito de lidar e enca­rar as coi­sas fun­da­men­tais da vida.  Por mais que a mai­o­ria de nós tal­vez nunca tenha parado para pen­sar nisso, há uma maneira pre­do­mi­nante pela qual enca­ra­mos os rela­ci­o­na­men­tos, a vida e a morte, a feli­ci­dade e outras tan­tas face­tas da vida humana. Não para­mos para pen­sar pro­va­vel­mente devido à falta de um con­traste, de algo para que pos­sa­mos com­pa­rar, e, por­tanto, de uma tomada de cons­ci­ên­cia, pois a cons­ci­ên­cia nasce do con­traste.

É difí­cil nos colo­car­mos em uma posi­ção sepa­rada de algo que está tão enrai­zado em nós, a ponto de mui­tas vezes quase con­fun­dir­mos nossa pró­pria iden­ti­dade com este algo que é a visão de mundo cole­tiva pre­do­mi­nante. Neces­si­ta­mos, por­tanto, de outra visão de mundo para então com­pa­rar, e quiçá ava­liar qual delas nos parece melhor, mais agra­dá­vel, mais justa, “mais ideal”.

Assim, a pro­posta deste texto é a de sele­ci­o­nar valo­res do mundo moderno, (como a igual­dade, a demo­cra­cia e a edu­ca­ção tra­di­ci­o­nal) e expli­car por que são injus­tos e erra­dos den­tro da visão de mundo platô­nica, a qual pos­sui pro­fun­dos con­tras­tes com o nosso jeito de pen­sar atual. O obje­tivo não é a sim­ples des­trui­ção ou des­cons­tru­ção, mas uma sin­cera busca pelo que seja ideal, justo e ver­da­deiro, dando a opor­tu­ni­dade de ques­ti­o­nar e refle­tir até mesmo sobre as coi­sas que atu­al­mente são con­si­de­ra­das mais jus­tas.

E mesmo que as noções platô­ni­cas não pare­çam pos­sí­veis de serem apli­ca­das cole­ti­va­mente nos dias de hoje, o sim­ples exer­cí­cio de bus­car aquilo que é mais justo, mais nobre e mais belo já basta em si mesmo para aque­les que amam e bus­cam a sabe­do­ria. Entre­tanto, pode­mos tor­nar o pla­to­nismo prá­tico quando o ten­ta­mos apli­car a nossa con­duta pes­soal coti­di­ana, embora seja difí­cil fazer isso de forma cole­tiva den­tro de uma men­ta­li­dade oci­den­tal moderna.

As origens do platonismo

O pla­to­nismo tal­vez não seja exa­ta­mente o pen­sa­mento de uma única pes­soa cha­mada Pla­tão. Arrisco a dizer que, na ver­dade, trata-se do pen­sa­mento das civi­li­za­ções arcai­cas, míti­cas, que na época em que Pla­tão escreve já esta­vam decaindo e abrindo espaço para novas for­mas de enca­rar o mundo – o que, para Pla­tão, pare­cia ser um grande pro­blema.

O pla­to­nismo é, por­tanto, a publi­ca­ção de toda uma tra­di­ção que não neces­si­tava estar escrita, pois estava arrai­gada nas pes­soas da mesma forma que nossa visão de mundo moderna está arrai­gada em nós. Assim, o “pla­to­nismo”, a visão de mundo dos povos míti­cos, na época de Pla­tão já não era mais moda (foi por isso que pre­ci­sou ser escrito), e o filó­sofo, por­tanto, fez o seu res­gate.

De fato, além da influên­cia de Sócra­tes e dos pré-socrá­ti­cos Herá­clito e Par­mê­ni­des, Pla­tão admi­rava muito a filo­so­fia de Pitá­go­ras (que dizem ter man­tido con­tato com os filó­so­fos ori­en­tais), e estu­dou a filo­so­fia da tra­di­ção egíp­cia em uma ou mais via­gens ao Egito (dado ques­ti­o­ná­vel, mas que é con­fir­mado por seu amigo Eurí­pe­des), além de uma ten­ta­tiva frus­trada de con­tato com os cha­ma­dos Magos do Fogo, na Pér­sia, que seriam dis­cí­pu­los e con­ti­nu­a­do­res da tra­di­ção do Zoro­as­trismo (ape­sar de não ter ocor­rido, pode­mos con­cluir que Pla­tão sabia e se inte­res­sava por estes sábios). Tudo isso em suas nume­ro­sas via­gens.

Assim, qua­tro de suas influên­cias (filó­so­fos pré-socrá­ti­cos, Pitá­go­ras e filó­so­fos ori­en­tais, tra­di­ção egíp­cia e magos pér­sios) são típi­cas repre­sen­tan­tes dessa tra­di­ção arcaica em que Pla­tão se ins­pira, res­gata e tra­duz em pala­vras escri­tas para que nunca mais a per­ca­mos.

O âmago do platonismo

A meta­fí­sica platô­nica é a raiz sobre a qual se apoi­ará todo o resto de sua filo­so­fia.

O grosso da coisa é o seguinte: aqui não é lugar para ser feliz. Aqui, no mundo onde cap­ta­mos as coi­sas com os sen­ti­dos, tudo não passa da mais pura ilu­são, uma som­bra imper­feita das Ideias per­fei­tas.

Platão, em fragmento da pintura A Escola de Atenas (1506-1510), de Rafael Sanzio

Pla­tão (esq), em frag­mento da pin­tura A Escola de Ate­nas (1506–1510), de Rafael San­zio

Vamos ana­li­sar por que isso é lógico com um pequeno exem­plo: se obser­va­mos que a água eva­pora, toda a infor­ma­ção que nos­sos sen­ti­dos nos dão é que uma coisa (água) está virando outra coisa (vapor d’água). Mas então, com a nossa cons­ci­ên­cia e inte­li­gên­cia, nome­a­mos isso tudo, seja por “água” ou “gasoso” ou “eva­po­ra­ção”, e com o sím­bolo que é essa nome­a­ção pas­sa­mos a fazer rela­ções entre eles e des­co­bri­mos que ao aque­cer a água, ela eva­pora.

Tudo isso foi feito com os nos­sos pro­ces­sos men­tais supe­ri­o­res. As infor­ma­ções dos nos­sos sen­ti­dos fun­ci­o­na­ram ape­nas como base para dar­mos o pri­meiro impulso para nos apro­xi­mar­mos de uma ver­dade maior sobre o que obser­va­mos. Assim, se a mente está mais pró­xima da ver­dade, logo, o que é mais mate­rial e con­creto é menos ver­da­deiro, mais imper­feito, mais impuro, bem como o que é mais sutil está mais pró­ximo da ver­dade, da per­fei­ção e da pureza.

Se obser­var­mos várias árvo­res vere­mos que, ape­sar de suas dife­ren­ças, há algo em todas elas que as colo­cam na cate­go­ria “árvore”, ou seja, na Ideia de árvore; essa, por sua vez, encon­tra-se por exem­plo den­tro da Ideia de plan­tas, que está den­tro da Ideia de vida, e assim por diante até che­gar­mos aos prin­cí­pios mai­o­res. Estes, Pla­tão chama de o Bom, o Belo e o Justo, e por trás deles have­ria ainda uma noção de Uni­dade que envolve e ins­pira tudo o que existe. Segundo Pla­tão, as coi­sas que se mani­fes­tam, ou seja, que exis­tem, não pas­sam de som­bras des­ses gran­des Ide­ais, e por­tanto, imper­fei­tas, pere­cí­veis e ilu­só­rias.

Eis um apa­rente grande para­doxo: tudo o que existe é ilu­só­rio, e tudo o que não existe, ou seja, o que É, é a rea­li­dade; pois a par­tir do momento que algo se mani­festa, que passa a exis­tir, este algo deixa de ser per­feito.

O des­tino do ser humano, e na ver­dade de tudo o que é existe, é enten­der isso e aban­do­nar a ilu­são, pois todas as coi­sas que­rem a sua tota­li­dade, que­rem ser per­fei­tas, ou, aris­to­te­li­ca­mente falando, serem feli­zes. Existe alguém (ou algo) que não queira ser feliz, no sen­tido pleno dessa pala­vra?

Por mais que tudo o que existe tenda a esta ple­ni­tude, a ple­ni­tude não é deste mundo, pois este mundo é um mundo de ilu­sões imper­fei­tas, e a ple­ni­tude é per­feita. Uma boa ana­lo­gia é a seguinte: por mais que o número 1 queira se apro­xi­mar do 2 com casas após a vír­gula, ele ape­nas ten­derá ao 2, mas jamais che­gará lá com esse método, pois o 2 não é do mundo do 1, ele já outra rea­li­dade.

Toda essa lógica meta­fí­sica é a base da visão de mundo platô­nica. A con­sequên­cia prá­tica em uma soci­e­dade que tem esses pres­su­pos­tos como base é a seguinte: busca-se, acima de tudo, e cada um  de nós ao seu tempo, a trans­cen­dên­cia das almas para aquele outro mundo — que Pla­tão chama Mundo das Ideias – ou a máxima apro­xi­ma­ção pos­sí­vel do mesmo, para que atin­ja­mos o mais alto grau de feli­ci­dade e ple­ni­tude pos­sí­vel.

Isso deve ocor­rer atra­vés de uma cópia no fun­ci­o­na­mento da soci­e­dade fiel ao da Soci­e­dade Ideal (com letra bem maiús­cula), e é por isso que Pla­tão tanto se dedica a des­vendá-la. Ele chega à algu­mas res­pos­tas que estão em grande parte em desa­cordo com as ideias que o pen­sa­mento moderno supõe jus­tas para uma soci­e­dade. E é disso que tra­ta­re­mos agora.

Contrastes de visões de mundo

Final­mente, ana­li­sa­rei aqui, infe­liz­mente de forma sucinta, algu­mas das prin­ci­pais ideias da visão de mundo moderna, colo­cando-as em con­traste com o pen­sa­mento platô­nico.

Os valo­res moder­nos têm sua base e ori­gem em even­tos como a Revo­lu­ção Fran­cesa e fun­da­men­tam-se em ide­o­lo­gias como o mate­ri­a­lismo dia­lé­tico e o exis­ten­ci­a­lismo. Colo­ca­rei em che­que, com o pen­sa­mento platô­nico, alguns dos prin­ci­pais valo­res e ide­o­lo­gias moder­nas.

Creio que o pro­vér­bio “de boas inten­ções o inferno está cheio” se fará muito pre­sente nessa aná­lise, pois o que colo­ca­rei serão ques­tões  geral­mente enca­ra­das como boas, nobres e ide­ais para o pen­sa­mento moderno, mas injus­tas para o pen­sa­mento platô­nico. Enfim, fala­rei sobre a igual­dade, a demo­cra­cia, e a edu­ca­ção con­ven­ci­o­nal.

1. A igualdade

Natu­ral­mente, há uma espé­cie de hie­rar­quia divina na soci­e­dade ideal do pen­sa­mento platô­nico (coisa muito seme­lhante à ideia ori­gi­nal das cas­tas indi­a­nas, hoje já detur­pada). Há aque­les seres que estão mais pró­xi­mos do Mundo das Ideias, e os que estão menos pró­xi­mos. Cha­ma­re­mos aqui os que lá che­ga­ram de sábios; os que lá que­rem che­gar de filó­so­fos (no sen­tido de amor/philos à sabedoria/sophia), e temos tam­bém os que não se inte­res­sam pela sabe­do­ria, que cha­ma­re­mos igno­ran­tes, no sen­tido de ignorá-la. Assim, as pes­soas não são iguais nesse sen­tido.

Porém, não há uma supe­ri­o­ri­dade de impor­tân­cia entre as clas­ses dessa hie­rar­quia, já que todas são neces­sá­rias para o fun­ci­o­na­mento da polis. A sepa­ra­ção ocorre em vir­tude da natu­reza das almas, base­ando-se em uma con­cep­ção de dever e voca­ção, pois é um dever natu­ral daquele que está mais pró­ximo do Mundo das Ideias o governo, e daquele que está menos pró­ximo, os afa­ze­res da maté­ria, do mundo dos sen­ti­dos. Todas as cri­an­ças vão para o mesmo pro­cesso edu­ca­tivo deno­mi­nado Pai­deia (que dis­cuto nesse texto aqui), em que fará com que des­cu­bra a sua natu­reza e a colo­que na classe a qual per­tence.

Os que estão mais próximos e os que estão menos próximos da verdadeira realidade.

Os que estão mais pró­xi­mos e os que estão menos pró­xi­mos da ver­da­deira rea­li­dade.

A igual­dade, na con­cep­ção moderna, diz res­peito à igual­dade de todos perante a lei, e à igual­dade de direi­tos e deve­res. Mas é justo que alguém que seja menos sábio tenha os mes­mos direi­tos e deve­res do que um sábio? Pla­tão define “jus­tiça” da seguinte forma: dar a cada um aquilo que lhe é devido. Ou seja, dar a cada um os direi­tos e deve­res que lhe são ade­qua­dos, pois tra­tar os desi­guais de maneira igual é injusto.

Na obra As Leis, ele é bas­tante prá­tico: os mais sábios e filó­so­fos, que são os que ocu­pam os car­gos mais impor­tan­tes na admi­nis­tra­ção da polis ideal, são os que devem sofrer as mai­o­res san­ções em caso de come­te­rem um des­lize, pois pos­suem um com­pro­misso com a sabe­do­ria ao bus­ca­rem-la e ama­rem-na, o que tam­bém pres­su­põe a res­pon­sa­bi­li­dade de honrá-la atra­vés da rea­li­za­ção dos mais essen­ci­ais ser­vi­ços à pólis (assim como no Egito Antigo, em que o faraó era res­pon­sá­vel até mesmo pelas cheias e secas do Nilo, já que ele era o elo entre os homens e os deu­ses). Os igno­ran­tes, jus­ta­mente por igno­ra­rem a sabe­do­ria, devem sofrer san­ções menos seve­ras, pois não sabem o que fazem. Da mesma forma, não devem ocu­par os car­gos mais impor­tan­tes, pois não teriam con­di­ções de tra­ba­lhar pela plas­ma­ção do Ideal na polis, já que nem sequer o bus­cam.

Não parece, assim, haver nada mais injusto e mais con­trá­rio à fra­ter­ni­dade e à liber­dade do que a igual­dade. Que os revo­lu­ci­o­ná­rios fran­ce­ses e os aca­dê­mi­cos atu­ais me per­doem.

2. A Democracia

A Demo­cra­cia é um dos mitos moder­nos mais pode­ro­sos. Está em milha­res de dis­cur­sos polí­ti­cos ou qual­quer tipo de movi­mento que bus­que dei­xar o mundo mais justo. Mas será a Demo­cra­cia um cami­nho para o justo e o ideal? Não no pen­sa­mento platô­nico.

Na obra A Repú­blica, Pla­tão traz um genial esquema de como ocorre o declí­nio polí­tico da polis. Ele deixa claro, fazendo jus a sua teo­ria, que tudo o que existe está sujeito a pere­cer, por mais fiel ao Ideal que seja. Assim, é muito natu­ral que essa deca­dên­cia polí­tica ocorra.

Ele chama o governo ideal de Aris­to­cra­cia (pala­vra cujo sig­ni­fi­cado mudou muito na Moder­ni­dade), ou seja, o governo de arethé, o governo em que os sábios gover­nam e pro­cu­ram fazer da cidade o mais fiel ao Ideal pos­sí­vel, e, por­tanto, fazendo seu povo viven­ciar o mais pró­ximo pos­sí­vel da feli­ci­dade suprema e da ple­ni­tude. Os gover­nan­tes não enca­ram esta tarefa como um exer­cí­cio de poder, mas sim de dever, pois caso não o façam, o cas­tigo é o de serem gover­na­dos por alguém infe­rior, menos sábio.

Não é natu­ral que os gover­nan­tes exi­jam para si o poder de gover­nar, mas sim que os gover­na­dos batam a porta dos sábios pedindo que gover­nem; assim como pro­cu­ra­mos um médico quando temos pro­ble­mas de saúde, ou um ele­tri­cista quando temos pro­ble­mas nas ins­ta­la­ções elé­tri­cas de casa, tam­bém pro­cu­ra­mos gover­nan­tes quando temos neces­si­dade.

Como todas as coi­sas mani­fes­ta­das são pere­cí­veis, o sis­tema de governo ideal dege­nere para a Timo­cra­cia e depois para a Oli­gar­quia, regi­mes de governo que não pre­ci­sam ser apro­fun­da­dos agora, para depois final­mente che­gar na Demo­cra­cia, e depois ao último estado, que se chama Tira­nia.

Em uma Oli­gar­quia, sis­tema de governo em que os ricos gover­nam os pobres, o povo começa a per­ce­ber que os gover­nan­tes lá estão não por sua vir­tude, mas sim sim­ples­mente por sua conta ban­cá­ria. Assim, per­ce­bendo-se iguais aos gover­nan­tes no que­sito da vir­tude, ocorre uma revo­lu­ção demo­crá­tica fun­dada em uma suposta liber­dade e na igual­dade (parece até que Pla­tão pre­viu a Revo­lu­ção Fran­cesa), sus­pen­dendo e con­si­de­rando errada qual­quer noção de hie­rar­quia. O pai iguala-se ao filho e o teme, o mes­tre ao dis­cí­pulo, o pro­fes­sor ao aluno, o homem à mulher (que eram na Anti­gui­dade desi­guais, mas com­ple­men­ta­res; sem uma pre­pon­de­rân­cia de algum dos gêne­ros como atu­al­mente). Irri­tam-se a menor impo­si­ção de auto­ri­dade e não a tole­ram.

Tal con­jun­tura anár­quica, sem chão ou valo­res para se apoiar, é um campo per­feito para a emi­nên­cia de um tirano. Pla­tão argu­menta que tudo o que vai a um extremo parece ten­der ao outro. Desta forma, tal excesso de liber­dade que con­duz à uma anar­quia, à uma liber­ti­na­gem, à falta de valo­res, e à into­le­rân­cia e ao des­prezo à qual­quer tipo de ordem, hie­rar­quia ou auto­ri­dade, fazem sur­gir aquele que sal­vará o povo da mal­dade auto­ri­tá­ria dos oli­gar­cas, este que acaba por se con­ver­ter em um tirano – e a Tira­nia é o último está­gio da degra­da­ção polí­tica.

A Escola de Atenas, completa, de Rafael Sanzio; retratando vários filósofos. E se fossem eles a nos governar?

A Escola de Ate­nas, com­pleta, de Rafael San­zio; retra­tando vários filó­so­fos. E se fos­sem eles a nos gover­nar?

É assim que, segundo Pla­tão, surge a Demo­cra­cia.

Mas ana­li­se­mos a Demo­cra­cia em si mesma. Será justo e inte­li­gente que um gover­nante governe sim­ples­mente pela quan­ti­dade de pes­soas que assim o que­rem? Deverá o voto de um sábio ter o mesmo valor que o voto de um igno­rante? Mas o mais fun­da­men­tal é o seguinte: se um cano em minha casa estoura, chamo um enca­na­dor ou faço uma com­pe­ti­ção de par­ti­dos para ele­ger aquele que me parece (note que não tenho nenhum conhe­ci­mento quanto a canos) ser quem melhor resol­verá o pro­blema? Como se gover­nar fosse uma tarefa fácil para qual­quer um. Como se não fosse neces­sá­rio qual­quer tipo de for­ma­ção ou habi­li­dade para tal.

A ver­dade é que não parece haver nada de bom, belo ou justo na Demo­cra­cia. O que há é liber­ti­na­gem. É muita decla­ra­ção de direi­tos huma­nos e pouca decla­ra­ção de deve­res huma­nos. Bem como a Tira­nia é o com­pleto oposto disso, em que a opres­são e a ser­vi­dão se tor­nam absur­dos. A Aris­to­cra­cia platô­nica é o justo meio entre esses extre­mos.

3. A educação convencional

É muito comum ouvir­mos dis­cur­sos por aí, mui­tas vezes em redes soci­ais, de pes­soas defen­dendo que a solu­ção para todos os pro­ble­mas soci­ais é o inves­ti­mento dos recur­sos públi­cos na edu­ca­ção. Tal­vez até seja uma solu­ção prá­tica e orga­ni­za­tiva, que garanta a manu­ten­ção e a sobre­vi­vên­cia da soci­e­dade e da men­ta­li­dade moderna por mais tempo, mas está longe de ser­vir àquele que busca o que seria ideal, inde­pen­den­te­mente de sua pos­si­bi­li­dade de apli­ca­ção atual.

Dedi­quei um artigo inteiro sobre essa ques­tão, mas agora vou rela­ci­oná-la com o pla­to­nismo e o que ele tem a dizer sobre isso.

sexta foto

Pode­mos sim­ples­mente ques­ti­o­nar o que um governo e uma soci­e­dade que tenha como meta prin­ci­pal a feli­ci­dade de seu povo ensi­na­ria em suas esco­las para as cri­an­ças: loga­rit­mos, regras de gra­má­tica, cál­cu­los de deter­mi­nan­tes de matri­zes (não me per­gunta o que isso é ou para que serve), cál­cu­los de oxir­re­du­ção e lite­ra­tura com­pli­cada escrita com a lin­gua­gem de três sécu­los atrás? O que parece ser mais inte­res­sante e útil às cri­an­ças e ado­les­cen­tes?

A edu­ca­ção platô­nica baseia-se em dois pila­res fun­da­men­tais: a música e a ginás­tica. Mas o que ele quer dizer com isso não tem nada a ver com o sig­ni­fi­cado atual des­sas pala­vras.

Música é rela­tivo às musas. Diz res­peito fun­da­men­tal­mente em fazer expres­sar e vir a tona o que há de mais belo e pro­fundo em cada ser. Já a ginás­tica tem a ver com a domi­na­ção, subor­di­na­ção e subli­ma­ção dos ins­tin­tos mais pri­mi­ti­vos, trans­for­mando-os em vir­tu­des. Tem muito a ver com o corpo tam­bém, o que é muito natu­ral devido ao desejo da cri­ança de dominá-lo e uti­lizá-lo para des­co­brir o mundo, con­cep­ção que está de acordo com a visão de psi­có­lo­gos moder­nos de renome como Jean Pia­get. Basta dar uma olhada em qual­quer recreio de qual­quer escola infan­til para notar o grande caos desor­de­nado que estão mani­fes­tando os cor­pos infan­tis.

Aquele que desen­volve em excesso a ginás­tica, rele­gando a música, se torna dema­si­ado rude e bruto. Já o que preza somente pela música, acaba por mani­fes­tar um cará­ter débil e indo­lente, exces­si­va­mente inte­lec­tual e teó­rico. A edu­ca­ção ideal é, por­tanto, um equi­lí­brio entre estes dois.

Pla­tão, com esses con­cei­tos, faz na ver­dade um res­gate do antigo pro­cesso de edu­ca­ção da Gré­cia antiga, a cha­mada Pai­deia. Nela, as cri­an­ças eram fun­da­men­tal­mente edu­ca­das pelo canto (a trans­for­ma­ção de urros e ber­ros em beleza e har­mo­nia), pela dança e espé­cies de artes mar­ci­ais (a trans­for­ma­ção de chu­tes e socos em esté­tica, har­mo­nia e fir­meza), e pelo mito (os pri­mei­ros des­per­ta­res da alma).

A edu­ca­ção platô­nica e a Pai­deia con­ti­nuam em outros pro­ces­sos que bus­cam pro­mo­ver a des­co­berta inte­rior de cada um e então ori­entá-los para exer­ce­rem sua voca­ção para a polis, de acordo com sua natu­reza. A edu­ca­ção con­ti­nua para o resto da vida, pois mesmo até para enfren­tar a morte ela é neces­sá­ria.

Cópia de busto de Platão feito por Silanião, em 370 a.C.

Cópia de busto de Pla­tão feito por Sila­nião, em 370 a.C.

Para concluir

Essas foram, enfim, as gran­des con­tra­ri­e­da­des entre as ideias do pla­to­nismo e os valo­res moder­nos.

A mim é par­ti­cu­lar­mente fas­ci­nante como algo que é con­si­de­rado bom e nobre em uma época possa ser con­si­de­rado errado em outra. Como ava­liar qual con­cep­ção está mais cor­reta quando nossa pró­pria per­so­na­li­dade é atra­ves­sada pelos valo­res do nosso tempo? Como colo­car-se além disso, em uma posi­ção dife­ren­ci­ada e des­vin­cu­lada para que pos­sa­mos jul­gar com a razão? Assim como era natu­ral ter ou ser um escravo no Bra­sil colô­nia ou matar judeus na época do nazismo, que coi­sas de nosso tempo serão con­si­de­ra­das absur­das para as gera­ções que virão?

De boas inten­ções o inferno está cheio” – diz o pro­vér­bio. Por mais forte que seja a frase, ela pode ter muito de ver­dade. Seja­mos humil­des e admi­ta­mos nossa peque­nez. Que os revo­lu­ci­o­ná­rios e ide­a­lis­tas que que­rem mudar o mundo tomem muito cui­dado com os seus ide­ais (pois eles podem ser com­ple­ta­mente injus­tos e erra­dos, sem que o per­ce­bam).


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Rodolfo Dall'Agno
Psicologia de formação, mas música e filosofia de coração. Participante do programa Empresa Viva. Buscador de essências.

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