Conforme vêm e vão os rumos da história, temos, de maneira coletiva, visões de mundo que nos guiam quanto ao jeito de lidar e encarar as coisas fundamentais da vida.  Por mais que a maioria de nós talvez nunca tenha parado para pensar nisso, há uma maneira predominante pela qual encaramos os relacionamentos, a vida e a morte, a felicidade e outras tantas facetas da vida humana. Não paramos para pensar provavelmente devido à falta de um contraste, de algo para que possamos comparar, e, portanto, de uma tomada de consciência, pois a consciência nasce do contraste.

É difícil nos colocarmos em uma posição separada de algo que está tão enraizado em nós, a ponto de muitas vezes quase confundirmos nossa própria identidade com este algo que é a visão de mundo coletiva predominante. Necessitamos, portanto, de outra visão de mundo para então comparar, e quiçá avaliar qual delas nos parece melhor, mais agradável, mais justa, “mais ideal”.

Assim, a proposta deste texto é a de selecionar valores do mundo moderno, (como a igualdade, a democracia e a educação tradicional) e explicar por que são injustos e errados dentro da visão de mundo platônica, a qual possui profundos contrastes com o nosso jeito de pensar atual. O objetivo não é a simples destruição ou desconstrução, mas uma sincera busca pelo que seja ideal, justo e verdadeiro, dando a oportunidade de questionar e refletir até mesmo sobre as coisas que atualmente são consideradas mais justas.

E mesmo que as noções platônicas não pareçam possíveis de serem aplicadas coletivamente nos dias de hoje, o simples exercício de buscar aquilo que é mais justo, mais nobre e mais belo já basta em si mesmo para aqueles que amam e buscam a sabedoria. Entretanto, podemos tornar o platonismo prático quando o tentamos aplicar a nossa conduta pessoal cotidiana, embora seja difícil fazer isso de forma coletiva dentro de uma mentalidade ocidental moderna.

As origens do platonismo

O platonismo talvez não seja exatamente o pensamento de uma única pessoa chamada Platão. Arrisco a dizer que, na verdade, trata-se do pensamento das civilizações arcaicas, míticas, que na época em que Platão escreve já estavam decaindo e abrindo espaço para novas formas de encarar o mundo – o que, para Platão, parecia ser um grande problema.

O platonismo é, portanto, a publicação de toda uma tradição que não necessitava estar escrita, pois estava arraigada nas pessoas da mesma forma que nossa visão de mundo moderna está arraigada em nós. Assim, o “platonismo”, a visão de mundo dos povos míticos, na época de Platão já não era mais moda (foi por isso que precisou ser escrito), e o filósofo, portanto, fez o seu resgate.

De fato, além da influência de Sócrates e dos pré-socráticos Heráclito e Parmênides, Platão admirava muito a filosofia de Pitágoras (que dizem ter mantido contato com os filósofos orientais), e estudou a filosofia da tradição egípcia em uma ou mais viagens ao Egito (dado questionável, mas que é confirmado por seu amigo Eurípedes), além de uma tentativa frustrada de contato com os chamados Magos do Fogo, na Pérsia, que seriam discípulos e continuadores da tradição do Zoroastrismo (apesar de não ter ocorrido, podemos concluir que Platão sabia e se interessava por estes sábios). Tudo isso em suas numerosas viagens.

Assim, quatro de suas influências (filósofos pré-socráticos, Pitágoras e filósofos orientais, tradição egípcia e magos pérsios) são típicas representantes dessa tradição arcaica em que Platão se inspira, resgata e traduz em palavras escritas para que nunca mais a percamos.

O âmago do platonismo

A metafísica platônica é a raiz sobre a qual se apoiará todo o resto de sua filosofia.

O grosso da coisa é o seguinte: aqui não é lugar para ser feliz. Aqui, no mundo onde captamos as coisas com os sentidos, tudo não passa da mais pura ilusão, uma sombra imperfeita das Ideias perfeitas.

Platão, em fragmento da pintura A Escola de Atenas (1506-1510), de Rafael Sanzio
Platão (esq), em fragmento da pintura A Escola de Atenas (1506-1510), de Rafael Sanzio

Vamos analisar por que isso é lógico com um pequeno exemplo: se observamos que a água evapora, toda a informação que nossos sentidos nos dão é que uma coisa (água) está virando outra coisa (vapor d’água). Mas então, com a nossa consciência e inteligência, nomeamos isso tudo, seja por “água” ou “gasoso” ou “evaporação”, e com o símbolo que é essa nomeação passamos a fazer relações entre eles e descobrimos que ao aquecer a água, ela evapora.

Tudo isso foi feito com os nossos processos mentais superiores. As informações dos nossos sentidos funcionaram apenas como base para darmos o primeiro impulso para nos aproximarmos de uma verdade maior sobre o que observamos. Assim, se a mente está mais próxima da verdade, logo, o que é mais material e concreto é menos verdadeiro, mais imperfeito, mais impuro, bem como o que é mais sutil está mais próximo da verdade, da perfeição e da pureza.

Se observarmos várias árvores veremos que, apesar de suas diferenças, há algo em todas elas que as colocam na categoria “árvore”, ou seja, na Ideia de árvore; essa, por sua vez, encontra-se por exemplo dentro da Ideia de plantas, que está dentro da Ideia de vida, e assim por diante até chegarmos aos princípios maiores. Estes, Platão chama de o Bom, o Belo e o Justo, e por trás deles haveria ainda uma noção de Unidade que envolve e inspira tudo o que existe. Segundo Platão, as coisas que se manifestam, ou seja, que existem, não passam de sombras desses grandes Ideais, e portanto, imperfeitas, perecíveis e ilusórias.

Eis um aparente grande paradoxo: tudo o que existe é ilusório, e tudo o que não existe, ou seja, o que É, é a realidade; pois a partir do momento que algo se manifesta, que passa a existir, este algo deixa de ser perfeito.

O destino do ser humano, e na verdade de tudo o que é existe, é entender isso e abandonar a ilusão, pois todas as coisas querem a sua totalidade, querem ser perfeitas, ou, aristotelicamente falando, serem felizes. Existe alguém (ou algo) que não queira ser feliz, no sentido pleno dessa palavra?

Por mais que tudo o que existe tenda a esta plenitude, a plenitude não é deste mundo, pois este mundo é um mundo de ilusões imperfeitas, e a plenitude é perfeita. Uma boa analogia é a seguinte: por mais que o número 1 queira se aproximar do 2 com casas após a vírgula, ele apenas tenderá ao 2, mas jamais chegará lá com esse método, pois o 2 não é do mundo do 1, ele já outra realidade.

Toda essa lógica metafísica é a base da visão de mundo platônica. A consequência prática em uma sociedade que tem esses pressupostos como base é a seguinte: busca-se, acima de tudo, e cada um  de nós ao seu tempo, a transcendência das almas para aquele outro mundo – que Platão chama Mundo das Ideias – ou a máxima aproximação possível do mesmo, para que atinjamos o mais alto grau de felicidade e plenitude possível.

Isso deve ocorrer através de uma cópia no funcionamento da sociedade fiel ao da Sociedade Ideal (com letra bem maiúscula), e é por isso que Platão tanto se dedica a desvendá-la. Ele chega à algumas respostas que estão em grande parte em desacordo com as ideias que o pensamento moderno supõe justas para uma sociedade. E é disso que trataremos agora.

Contrastes de visões de mundo

Finalmente, analisarei aqui, infelizmente de forma sucinta, algumas das principais ideias da visão de mundo moderna, colocando-as em contraste com o pensamento platônico.

Os valores modernos têm sua base e origem em eventos como a Revolução Francesa e fundamentam-se em ideologias como o materialismo dialético e o existencialismo. Colocarei em cheque, com o pensamento platônico, alguns dos principais valores e ideologias modernas.

Creio que o provérbio “de boas intenções o inferno está cheio” se fará muito presente nessa análise, pois o que colocarei serão questões  geralmente encaradas como boas, nobres e ideais para o pensamento moderno, mas injustas para o pensamento platônico. Enfim, falarei sobre a igualdade, a democracia, e a educação convencional.

1. A igualdade

Naturalmente, há uma espécie de hierarquia divina na sociedade ideal do pensamento platônico (coisa muito semelhante à ideia original das castas indianas, hoje já deturpada). Há aqueles seres que estão mais próximos do Mundo das Ideias, e os que estão menos próximos. Chamaremos aqui os que lá chegaram de sábios; os que lá querem chegar de filósofos (no sentido de amor/philos à sabedoria/sophia), e temos também os que não se interessam pela sabedoria, que chamaremos ignorantes, no sentido de ignorá-la. Assim, as pessoas não são iguais nesse sentido.

Porém, não há uma superioridade de importância entre as classes dessa hierarquia, já que todas são necessárias para o funcionamento da polis. A separação ocorre em virtude da natureza das almas, baseando-se em uma concepção de dever e vocação, pois é um dever natural daquele que está mais próximo do Mundo das Ideias o governo, e daquele que está menos próximo, os afazeres da matéria, do mundo dos sentidos. Todas as crianças vão para o mesmo processo educativo denominado Paideia (que discuto nesse texto aqui), em que fará com que descubra a sua natureza e a coloque na classe a qual pertence.

Os que estão mais próximos e os que estão menos próximos da verdadeira realidade.
Os que estão mais próximos e os que estão menos próximos da verdadeira realidade.

A igualdade, na concepção moderna, diz respeito à igualdade de todos perante a lei, e à igualdade de direitos e deveres. Mas é justo que alguém que seja menos sábio tenha os mesmos direitos e deveres do que um sábio? Platão define “justiça” da seguinte forma: dar a cada um aquilo que lhe é devido. Ou seja, dar a cada um os direitos e deveres que lhe são adequados, pois tratar os desiguais de maneira igual é injusto.

Na obra As Leis, ele é bastante prático: os mais sábios e filósofos, que são os que ocupam os cargos mais importantes na administração da polis ideal, são os que devem sofrer as maiores sanções em caso de cometerem um deslize, pois possuem um compromisso com a sabedoria ao buscarem-la e amarem-na, o que também pressupõe a responsabilidade de honrá-la através da realização dos mais essenciais serviços à pólis (assim como no Egito Antigo, em que o faraó era responsável até mesmo pelas cheias e secas do Nilo, já que ele era o elo entre os homens e os deuses). Os ignorantes, justamente por ignorarem a sabedoria, devem sofrer sanções menos severas, pois não sabem o que fazem. Da mesma forma, não devem ocupar os cargos mais importantes, pois não teriam condições de trabalhar pela plasmação do Ideal na polis, já que nem sequer o buscam.

Não parece, assim, haver nada mais injusto e mais contrário à fraternidade e à liberdade do que a igualdade. Que os revolucionários franceses e os acadêmicos atuais me perdoem.

2. A Democracia

A Democracia é um dos mitos modernos mais poderosos. Está em milhares de discursos políticos ou qualquer tipo de movimento que busque deixar o mundo mais justo. Mas será a Democracia um caminho para o justo e o ideal? Não no pensamento platônico.

Na obra A República, Platão traz um genial esquema de como ocorre o declínio político da polis. Ele deixa claro, fazendo jus a sua teoria, que tudo o que existe está sujeito a perecer, por mais fiel ao Ideal que seja. Assim, é muito natural que essa decadência política ocorra.

Ele chama o governo ideal de Aristocracia (palavra cujo significado mudou muito na Modernidade), ou seja, o governo de arethé, o governo em que os sábios governam e procuram fazer da cidade o mais fiel ao Ideal possível, e, portanto, fazendo seu povo vivenciar o mais próximo possível da felicidade suprema e da plenitude. Os governantes não encaram esta tarefa como um exercício de poder, mas sim de dever, pois caso não o façam, o castigo é o de serem governados por alguém inferior, menos sábio.

Não é natural que os governantes exijam para si o poder de governar, mas sim que os governados batam a porta dos sábios pedindo que governem; assim como procuramos um médico quando temos problemas de saúde, ou um eletricista quando temos problemas nas instalações elétricas de casa, também procuramos governantes quando temos necessidade.

Como todas as coisas manifestadas são perecíveis, o sistema de governo ideal degenere para a Timocracia e depois para a Oligarquia, regimes de governo que não precisam ser aprofundados agora, para depois finalmente chegar na Democracia, e depois ao último estado, que se chama Tirania.

Em uma Oligarquia, sistema de governo em que os ricos governam os pobres, o povo começa a perceber que os governantes lá estão não por sua virtude, mas sim simplesmente por sua conta bancária. Assim, percebendo-se iguais aos governantes no quesito da virtude, ocorre uma revolução democrática fundada em uma suposta liberdade e na igualdade (parece até que Platão previu a Revolução Francesa), suspendendo e considerando errada qualquer noção de hierarquia. O pai iguala-se ao filho e o teme, o mestre ao discípulo, o professor ao aluno, o homem à mulher (que eram na Antiguidade desiguais, mas complementares; sem uma preponderância de algum dos gêneros como atualmente). Irritam-se a menor imposição de autoridade e não a toleram.

Tal conjuntura anárquica, sem chão ou valores para se apoiar, é um campo perfeito para a eminência de um tirano. Platão argumenta que tudo o que vai a um extremo parece tender ao outro. Desta forma, tal excesso de liberdade que conduz à uma anarquia, à uma libertinagem, à falta de valores, e à intolerância e ao desprezo à qualquer tipo de ordem, hierarquia ou autoridade, fazem surgir aquele que salvará o povo da maldade autoritária dos oligarcas, este que acaba por se converter em um tirano – e a Tirania é o último estágio da degradação política.

A Escola de Atenas, completa, de Rafael Sanzio; retratando vários filósofos. E se fossem eles a nos governar?
A Escola de Atenas, completa, de Rafael Sanzio; retratando vários filósofos. E se fossem eles a nos governar?

É assim que, segundo Platão, surge a Democracia.

Mas analisemos a Democracia em si mesma. Será justo e inteligente que um governante governe simplesmente pela quantidade de pessoas que assim o querem? Deverá o voto de um sábio ter o mesmo valor que o voto de um ignorante? Mas o mais fundamental é o seguinte: se um cano em minha casa estoura, chamo um encanador ou faço uma competição de partidos para eleger aquele que me parece (note que não tenho nenhum conhecimento quanto a canos) ser quem melhor resolverá o problema? Como se governar fosse uma tarefa fácil para qualquer um. Como se não fosse necessário qualquer tipo de formação ou habilidade para tal.

A verdade é que não parece haver nada de bom, belo ou justo na Democracia. O que há é libertinagem. É muita declaração de direitos humanos e pouca declaração de deveres humanos. Bem como a Tirania é o completo oposto disso, em que a opressão e a servidão se tornam absurdos. A Aristocracia platônica é o justo meio entre esses extremos.

3. A educação convencional

É muito comum ouvirmos discursos por aí, muitas vezes em redes sociais, de pessoas defendendo que a solução para todos os problemas sociais é o investimento dos recursos públicos na educação. Talvez até seja uma solução prática e organizativa, que garanta a manutenção e a sobrevivência da sociedade e da mentalidade moderna por mais tempo, mas está longe de servir àquele que busca o que seria ideal, independentemente de sua possibilidade de aplicação atual.

Dediquei um artigo inteiro sobre essa questão, mas agora vou relacioná-la com o platonismo e o que ele tem a dizer sobre isso.

sexta foto

Podemos simplesmente questionar o que um governo e uma sociedade que tenha como meta principal a felicidade de seu povo ensinaria em suas escolas para as crianças: logaritmos, regras de gramática, cálculos de determinantes de matrizes (não me pergunta o que isso é ou para que serve), cálculos de oxirredução e literatura complicada escrita com a linguagem de três séculos atrás? O que parece ser mais interessante e útil às crianças e adolescentes?

A educação platônica baseia-se em dois pilares fundamentais: a música e a ginástica. Mas o que ele quer dizer com isso não tem nada a ver com o significado atual dessas palavras.

Música é relativo às musas. Diz respeito fundamentalmente em fazer expressar e vir a tona o que há de mais belo e profundo em cada ser. Já a ginástica tem a ver com a dominação, subordinação e sublimação dos instintos mais primitivos, transformando-os em virtudes. Tem muito a ver com o corpo também, o que é muito natural devido ao desejo da criança de dominá-lo e utilizá-lo para descobrir o mundo, concepção que está de acordo com a visão de psicólogos modernos de renome como Jean Piaget. Basta dar uma olhada em qualquer recreio de qualquer escola infantil para notar o grande caos desordenado que estão manifestando os corpos infantis.

Aquele que desenvolve em excesso a ginástica, relegando a música, se torna demasiado rude e bruto. Já o que preza somente pela música, acaba por manifestar um caráter débil e indolente, excessivamente intelectual e teórico. A educação ideal é, portanto, um equilíbrio entre estes dois.

Platão, com esses conceitos, faz na verdade um resgate do antigo processo de educação da Grécia antiga, a chamada Paideia. Nela, as crianças eram fundamentalmente educadas pelo canto (a transformação de urros e berros em beleza e harmonia), pela dança e espécies de artes marciais (a transformação de chutes e socos em estética, harmonia e firmeza), e pelo mito (os primeiros despertares da alma).

A educação platônica e a Paideia continuam em outros processos que buscam promover a descoberta interior de cada um e então orientá-los para exercerem sua vocação para a polis, de acordo com sua natureza. A educação continua para o resto da vida, pois mesmo até para enfrentar a morte ela é necessária.

Cópia de busto de Platão feito por Silanião, em 370 a.C.
Cópia de busto de Platão feito por Silanião, em 370 a.C.

Para concluir

Essas foram, enfim, as grandes contrariedades entre as ideias do platonismo e os valores modernos.

A mim é particularmente fascinante como algo que é considerado bom e nobre em uma época possa ser considerado errado em outra. Como avaliar qual concepção está mais correta quando nossa própria personalidade é atravessada pelos valores do nosso tempo? Como colocar-se além disso, em uma posição diferenciada e desvinculada para que possamos julgar com a razão? Assim como era natural ter ou ser um escravo no Brasil colônia ou matar judeus na época do nazismo, que coisas de nosso tempo serão consideradas absurdas para as gerações que virão?

“De boas intenções o inferno está cheio” – diz o provérbio. Por mais forte que seja a frase, ela pode ter muito de verdade. Sejamos humildes e admitamos nossa pequenez. Que os revolucionários e idealistas que querem mudar o mundo tomem muito cuidado com os seus ideais (pois eles podem ser completamente injustos e errados, sem que o percebam).


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Rodolfo Dall'Agno
Psicologia de formação, mas música e filosofia de coração. Participante do programa Empresa Viva. Buscador de essências.
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  • pablomartinsbalieiro

    Confrontar duas realidades distantes/distintas e afirmar que o que é tido como verdade em uma é automaticamente também verdade em outra é, no mínimo, descuido, e, no máximo, má índole. Não há dever natural, há tendências.
    Uma sociedade justa deixa que o indivíduo determine o seu caminho, mas também lhe deixa BEM CLARO todas as possibilidades, seus prós e contras. Só assim se pode tomar uma decisão justa quanto ao rumo que devemos tomar.
    Boas intenções lotam o inferno e são usadas de muletas para proferir sucintamente uma leva absurda de impropérios elegantes, adornados como se fossem sabedoria.

  • Gunther Schwarzbold

    Interessante o seu artigo amigo – para compreender o platonismo que às vezes temos absorvido, mas que muitas vezes não temos tempo de sintetizar. No entanto, gostaria de saber, e desculpe minha ignorância, pois para mim ficou confuso, mas como a escolha destes sábios seria feita (e acredito que é isso que você está propondo e defendendo)? Pergunto porque, visto o caráter idealista – e dualista – da filosofia platônica, de um ponto de vista mais prático, não consigo entender quem faria a escolha destes sábio que controlariam o poder – ou eles se apresentariam, ou simplesmente tomariam o poder? Para mim é confuso porque a Igreja Católica, através dos séculos, na Europa, depositou a sabedoria no clero, e os resultado foram desastrosos, queimando vivas pessoas que seguiam outras religiões. Da mesma maneira os aiatolás no islã xiita, que são os sábios, mas que defendendo sua maneira – ou à maneira religiosa – usam da violência para promover sua visão de estado. Ou até mesmo os nazistas, que deturparam as ideias do evolucionismo, acreditavam que eram uma raça superior que deveriam ser tomados como sábios. O resultado não é preciso comentar. Concordo com você em dois pontos do seu texto, é dizer, acredito que não possa haver essa igualdade em relação a todos e acredito que a lei (pelo menos foi isso do seu texto) deva estar acima de todos. Contudo, como é feita a escolha desses sábios, se não pelo método democrático?

    • Rodolfo

      Olá Gunther! Fico feliz que tenha gostado!
      Gostei muito dos seus questionamentos. Realmente são coisas importantíssimas para se perguntar ao depararmo-nos com as ideias de Platão. Creio que terei que fazer praticamente um texto novo se quiser respondê-las – ou, pelo menos, elucidá-las um pouco.

      Algo que eu acredito que deveria ter enfatizado no texto e que agora me arrependo um pouco é que essas ideias de Platão não funcionam como uma espécie de fórmula que possa ser aplicada aqui e agora, do jeito que entendemos hoje. Creio fortemente que não é inteligente fazer alguma espécie de revolução para implementarmos um “estado aristocrático platônico governado por sábios”.

      Principalmente o século XX, existe uma ideia de trabalhar com as massas, identificando as pessoas com números, estatísticas, amostras… Se formos trabalhar com as ideias de Platão com essa mentalidade, elas são incompreensíveis em um elevado grau, e, além de ineficazes, perigosas – e temos como exemplo tudo o que você disse.

      O próprio Platão, na República, fala que o modelo de sociedade é consequência dos indivíduos que nela se encontram, e não o contrário. Assim, só poderemos entender como seriam escolhidos os sábios que governariam a cidade se tivéssemos uma sociedade de indivíduos que reconheçam um princípio maior dentro de si mesmos que governaria o seu mundo interno. Tal princípio já foi chamado de razão, de espírito, de alma imortal, etc.

      Os sábios seriam nada menos que as pessoas que mais teriam contato com esse princípio, e portanto, as mais qualificadas para governar. Trata-se de um reflexo micro e macrocósmico. Se o indivíduo de uma sociedade aristocrática platônica é aquele que reconhece esse princípio e o faz o governante de si mesmo, também a cidade será governada pelo que há de mais elevado dentro dela.

      Se todos assim veem as coisas, então será fácil escolher os sábios, pois seria como um grupo de encanadores que escolhe o melhor dentre eles para cuidar dos canos mais difíceis.
      Aqui está o cerne da questão mais complicada que você colocou, a de como saber quem é sábio, como reconhecer um sábio. Pois muitos que foram tidos com esse título – como você disse: clero, muçulmanos radicais e nazistas – provaram não serem dignos dessa honra.

      Dessa forma, o que está errado não é o modelo utilizado pelos católicos, muçulmanos e nazistas, mas sim o seu JULGAMENTO daqueles que são sábios e daqueles que não são. E como aprimorar esse julgamento se não for por uma educação que desperte o potencial e as virtudes humanas ao invés da simples decoreba atual? O segredo está no desenvolvimento interior do homem.

      Na obra O Político, Platão diz que o melhor sistema de governo é o que o melhor de todos governa (Monarquia) e o pior é quando o pior de todos governa (Tirania). Veja que os dois podem ser postos a governar sob o pretexto de serem sábios, entretanto há de se ter um julgamento muito preciso para discernir. E esse medo do nosso potencial de julgamento, baseado em nossas experiências recentes, como as que você referiu, faz-nos divinizar a democracia e o relativismo. Entretanto, se buscarmos no passado anterior à Idade Média, encontraremos muitas evidências que temos sim essa condição, se tivermos uma educação para tal.

      Implementar as ideias platônicas “à força”, trabalhando com as massas, como tem sido com as utopias políticas nos últimos anos, é muito perigoso. Eu não vejo outro método de aplicar isso na realidade do que nós mesmos tentarmos ser cada vez melhores e virtuosos, tentar cada vez mais fazer com que esse princípio seja o governante de nós mesmos, buscar uma “aristocracia ou monarquia interior”; para que então, quem sabe, isso possa contagiar os demais também.

      Sem pressa pra não se atrasar. Vamos exercitar o altruísmo e trabalhar pelos que virão depois de nós. Talvez daqui a centenas ou milhares de anos.