proibido-fumar

É proibido fumar, diz o aviso que eu li

Em Comportamento, Consciência por Bruna ReginaComentário

Pou­cos dias depois de entrar em vigor a Lei Anti­fumo, que proíbe, entre outras coi­sas, fumar em ambi­en­tes fecha­dos públi­cos e pri­va­dos, recebo uma liga­ção incré­dula e indig­nada de minha amiga e com­pa­nheira de fumo Sarah G., con­tando que estava ela no local onde faze­mos está­gio, como de cos­tume, sen­tada num ban­qui­nho ao ar livre fumando um cigarro pra matar o tempo de espera, até ser abor­dada pelo guarda local que pediu que ela apa­gasse o cigarro pois, a par­tir daquela data estava proi­bido fumar naquele local e, em qual­quer outro cam­pus da uni­ver­si­dade na qual atu­al­mente estu­da­mos. Eu fiquei tão indig­nada quanto ela e, nós ainda não sabe­mos como vamos lidar com nosso vício no semes­tre que está por vir, é pro­vá­vel que tere­mos que nos escon­der para fumar caso não seja cri­ada uma área espe­cial para os fuman­tes, nós, os novos lepro­sos deste século.

De objeto fálico — sexy nos lábios pin­ta­dos das divas do cinema e char­moso nas mãos de inte­lec­tu­ais – a pro­duto de asco e repu­dio da gera­ção “saúde”. Há que se pen­sar a res­peito da demo­ni­za­ção do cigarro.

“Desconfia dos que não fumam: esses não têm vida interior, não tem sentimentos. O cigarro é uma maneira sutil, e disfarçada de suspirar."

Des­con­fia dos que não fumam: esses não têm vida inte­rior, não tem sen­ti­men­tos. O cigarro é uma maneira sutil, e dis­far­çada de sus­pi­rar.”

Alguns dirão, impa­ci­en­tes — PENSAR??? O cigarro mata, pro­voca cân­cer, infarto…Sim, todo fumante sabe disso. Todo fumante sabe que o objeto de seu vício pos­sui mais de 4 mil subs­tân­cias tóxi­cas que pene­tra­rão no seu corpo e cau­sa­rão alguns danos, tan­tas subs­tân­cias tóxi­cas quanto o ar poluído que res­pi­ra­mos nas cida­des, pro­du­zi­dos pelos milha­res de car­ros api­nha­dos no trân­sito, fábri­cas que ema­nam gases e lixo que pro­du­zi­mos, todo fumante sabe que pode mor­rer de cân­cer ou infarto, assim como quem não fuma, ape­sar de no pri­meiro caso os ris­cos serem mai­o­res, mas a morte é fenô­meno ine­rente a vida de qual­quer pes­soa.

O cinzeiro d'Os Malvados.

O cin­zeiro d’Os Mal­va­dos.

Não pre­tendo fazer apo­lo­gia ao cigarro, mas dei­xar claro que defendo a liber­dade de esco­lha indi­vi­dual de cada ser humano, algo que vem sendo assas­si­nado por fal­sos ide­ais cole­ti­vos ven­di­dos pelo sis­tema, como é o caso do estilo “eco­life” – posto como um modo sus­ten­tá­vel e bonito de viver – comer orgâ­ni­cos, pra­ti­car exer­cí­cios, ir ao super­mer­cado com eco­bag – pro­gra­mas de TV, revis­tas e blogs apon­tam isso como o modo cor­reto de se viver – con­tudo, não men­ci­o­nam o custo desse padrão de vida, mas eu posso garan­tir que pobre não com­pra orgâ­nico não, mer­mão!

Nesse novo estilo de vida, têm algo que me chama muita aten­ção – seguir die­tas, pra­ti­car exer­cí­cios, man­ter o corpo ativo e belo – exige que o sujeito intro­jete uma série de regras em seu dia-a-dia, e aque­les que não con­se­guem, não podem ou não que­rem ade­rir a essa dinâ­mica são vis­tos como fra­cos, des­cui­da­dos, fora de padrão e com falta de amor pró­prio, assim é sen­ten­ci­ado o fumante — o anor­mal, o des­vi­ante, per­sona non grata.

“Gosto de fumar. O cigarro é como ...esquecer. Quando estive no fundo do poço, tudo o que tinha era acender, fumar e calar a boca. O cigarro esconde a merda... Cigarros me impedem de enlouquecer...isso me mantém viva até que eu morra”. Marie (do filme - AMORES IMAGINÁRIOS)

Gosto de fumar. O cigarro é como …esque­cer. Quando estive no fundo do poço, tudo o que tinha era acen­der, fumar e calar a boca. O cigarro esconde a merda… Cigar­ros me impe­dem de enlouquecer…isso me man­tém viva até que eu morra”. Marie (do filme — AMORES IMAGINÁRIOS)

O fumante repre­senta hoje a esquerda, a feiura que ataca a esté­tica imposta por um novo modo de coa­ção do qual mui­tos não se aper­ce­be­ram – a higi­e­ni­za­ção – do corpo, da pele e da lín­gua – não me sur­pre­en­derá se no futuro as pes­soas dei­xa­rem de fazer sexo.

Estão repri­mindo o desejo repu­di­ando nos­sas esco­lhas e colo­cando-as num local abjeto para que sin­ta­mos ver­go­nha de assumi-las, estão limi­tando os locais em pode­mos cir­cu­lar e inva­dindo nossa pri­va­ci­dade. Há meca­nis­mos inter­di­to­res que­rendo aca­bar com o tesão, esma­gar a libido, que é nossa força de vida e de ação. A abo­li­ção do pra­zer se tor­nou o novo modo de con­trole.

"E continuo fumando.Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando."

E con­ti­nuo fumando.Enquanto o Des­tino mo con­ce­der, con­ti­nu­a­rei fumando.”

Bruna Regina
Usa batom vermelho. É formada em psicologia. Gosta de dias nublados. Tem um filho chamado Pedro e um gato chamado Fidalgo. Sua banda favorita é Velvet Underground.

Compartilhe