Poucos dias depois de entrar em vigor a Lei Antifumo, que proíbe, entre outras coisas, fumar em ambientes fechados públicos e privados, recebo uma ligação incrédula e indignada de minha amiga e companheira de fumo Sarah G., contando que estava ela no local onde fazemos estágio, como de costume, sentada num banquinho ao ar livre fumando um cigarro pra matar o tempo de espera, até ser abordada pelo guarda local que pediu que ela apagasse o cigarro pois, a partir daquela data estava proibido fumar naquele local e, em qualquer outro campus da universidade na qual atualmente estudamos. Eu fiquei tão indignada quanto ela e, nós ainda não sabemos como vamos lidar com nosso vício no semestre que está por vir, é provável que teremos que nos esconder para fumar caso não seja criada uma área especial para os fumantes, nós, os novos leprosos deste século.

De objeto fálico – sexy nos lábios pintados das divas do cinema e charmoso nas mãos de intelectuais – a produto de asco e repudio da geração “saúde”. Há que se pensar a respeito da demonização do cigarro.

“Desconfia dos que não fumam: esses não têm vida interior, não tem sentimentos. O cigarro é uma maneira sutil, e disfarçada de suspirar."
“Desconfia dos que não fumam: esses não têm vida interior, não tem sentimentos. O cigarro é uma maneira sutil, e disfarçada de suspirar.”

Alguns dirão, impacientes – PENSAR??? O cigarro mata, provoca câncer, infarto…Sim, todo fumante sabe disso. Todo fumante sabe que o objeto de seu vício possui mais de 4 mil substâncias tóxicas que penetrarão no seu corpo e causarão alguns danos, tantas substâncias tóxicas quanto o ar poluído que respiramos nas cidades, produzidos pelos milhares de carros apinhados no trânsito, fábricas que emanam gases e lixo que produzimos, todo fumante sabe que pode morrer de câncer ou infarto, assim como quem não fuma, apesar de no primeiro caso os riscos serem maiores, mas a morte é fenômeno inerente a vida de qualquer pessoa.

O cinzeiro d'Os Malvados.
O cinzeiro d’Os Malvados.

Não pretendo fazer apologia ao cigarro, mas deixar claro que defendo a liberdade de escolha individual de cada ser humano, algo que vem sendo assassinado por falsos ideais coletivos vendidos pelo sistema, como é o caso do estilo “ecolife” – posto como um modo sustentável e bonito de viver – comer orgânicos, praticar exercícios, ir ao supermercado com ecobag – programas de TV, revistas e blogs apontam isso como o modo correto de se viver – contudo, não mencionam o custo desse padrão de vida, mas eu posso garantir que pobre não compra orgânico não, mermão!

Nesse novo estilo de vida, têm algo que me chama muita atenção – seguir dietas, praticar exercícios, manter o corpo ativo e belo – exige que o sujeito introjete uma série de regras em seu dia-a-dia, e aqueles que não conseguem, não podem ou não querem aderir a essa dinâmica são vistos como fracos, descuidados, fora de padrão e com falta de amor próprio, assim é sentenciado o fumante – o anormal, o desviante, persona non grata.

“Gosto de fumar. O cigarro é como ...esquecer. Quando estive no fundo do poço, tudo o que tinha era acender, fumar e calar a boca. O cigarro esconde a merda... Cigarros me impedem de enlouquecer...isso me mantém viva até que eu morra”. Marie (do filme - AMORES IMAGINÁRIOS)
“Gosto de fumar. O cigarro é como …esquecer. Quando estive no fundo do poço, tudo o que tinha era acender, fumar e calar a boca. O cigarro esconde a merda… Cigarros me impedem de enlouquecer…isso me mantém viva até que eu morra”. Marie (do filme – AMORES IMAGINÁRIOS)

O fumante representa hoje a esquerda, a feiura que ataca a estética imposta por um novo modo de coação do qual muitos não se aperceberam – a higienização – do corpo, da pele e da língua – não me surpreenderá se no futuro as pessoas deixarem de fazer sexo.

Estão reprimindo o desejo repudiando nossas escolhas e colocando-as num local abjeto para que sintamos vergonha de assumi-las, estão limitando os locais em podemos circular e invadindo nossa privacidade. Há mecanismos interditores querendo acabar com o tesão, esmagar a libido, que é nossa força de vida e de ação. A abolição do prazer se tornou o novo modo de controle.

"E continuo fumando.Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando."
“E continuo fumando.Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.”

escrito por:

Bruna Regina

Usa batom vermelho. É formada em psicologia. Gosta de dias nublados. Tem um filho chamado Pedro e um gato chamado Fidalgo. Sua banda favorita é Velvet Underground.


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