Por que gostamos tanto de nos drogar? | Sobre drogas psicodélicas e sua proibição.

Por que gostamos tanto de nos drogar?

Em Ciência por Rodrigo ZottisComentário

É fácil expli­car o apelo às dro­gas como heroína e cocaína, pois esti­mu­lam dire­ta­mente os cen­tros de pra­zer do cére­bro. O que é menos fácil de expli­car é o apelo às dro­gas psi­co­dé­li­cas como o LSD e a psi­lo­ci­bina, que pro­du­zem esta­dos alte­ra­dos de cons­ci­ên­cia.

Afi­nal, não há razão óbvia para que os padrões do pen­sa­mento e per­cep­ção — nor­mal­mente, os sin­to­mas de enve­ne­na­mento ou doença — sejam atra­en­tes. No entanto, as pes­soas não só pagam dinheiro para terem essas expe­ri­ên­cias, como elas ainda cor­rem o risco de serem pre­sas — ou pior — por isso. Por que isso acon­tece, afi­nal?

Uma res­posta é que essas dro­gas for­ne­cem ata­lhos para as expe­ri­ên­cias reli­gi­o­sas e trans­cen­den­tais que sem­pre desem­pe­nha­ram um papel impor­tante na evo­lu­ção humana. A lógica por trás dessa ideia se torna mais clara quando obser­va­mos como a cul­tura humana foi mol­dada por ideias reli­gi­o­sas.

Por algum tempo, os antro­pó­lo­gos têm argu­men­tado que as pes­soas reli­gi­o­sas são mais coo­pe­ra­ti­vas do que as não-reli­gi­o­sas. Para peque­nos gru­pos, o efeito da reli­gião é insig­ni­fi­cante ou mesmo nega­tivo. No entanto, de acordo com o aumento do tama­nho do grupo, parece que a reli­gião desem­pe­nha um papel cada vez mais impor­tante na cri­a­ção de laços entre estra­nhos.

Na ver­dade, alguns estu­dos suge­rem que o sur­gi­mento das pri­mei­ras cida­des-esta­dos no Ori­ente Médio, cerca de 12.000 anos atrás, tor­nou-se pos­sí­vel pela crença em “Gran­des Deu­ses”, que supos­ta­mente super­vi­si­o­nou toda ação humana e guiou todos os assun­tos huma­nos.

Por que a reli­gião torna as pes­soas mais coo­pe­ra­ti­vas? Por um lado, a crença de que um agente invi­sí­vel moral­mente pre­o­cu­pado está sem­pre atento a você, o torna menos pro­penso a que­brar regras para ganho pes­soal. Esse efeito é bas­tante pode­roso. Uma pes­quisa mos­tra que mesmo algo tão tri­vial como uma ima­gem de um par de olhos sobre uma gar­rafa é sufi­ci­ente para fazer com que as pes­soas paguem três vezes mais para com­prar a bebida.

cartela de LSD | Por que gostamos tanto de nos drogar?

Car­tela de LSD

Por outro lado, a reli­gião conecta as pes­soas com uma rea­li­dade maior do que elas mes­mas. Este pode ser o grupo social a que per­ten­cem, pode ser a vida após a morte, ou pode até mesmo ser o cos­mos como um todo. A liga­ção é impor­tante por­que torna as pes­soas mais dis­pos­tas a coo­pe­rar quando os resul­ta­dos de fazê-lo não são ime­di­a­ta­mente bené­fi­cos. Se eu acre­dito ser da minha “tribo”, da minha igreja ou do pró­prio uni­verso, é mais fácil de acei­tar que os outros rece­bam os bene­fí­cios do meu pró­prio tra­ba­lho.

É pro­va­vel­mente por causa desse segundo aspecto à coo­pe­ra­ção reli­gi­osa que se explica o apelo às dro­gas psi­co­dé­li­cas. Ao simu­lar os efei­tos da trans­cen­dên­cia reli­gi­osa, eles imi­tam esta­dos de espí­rito que desem­pe­nha­ram um papel evo­lu­ti­va­mente vali­oso, que tor­nou pos­sí­vel a coo­pe­ra­ção humana — e com isso, um maior número de des­cen­den­tes e sobre­vi­ven­tes.

Isso não sig­ni­fica que os huma­nos evo­luí­ram para tomar dro­gas psi­co­dé­li­cas. Isso sig­ni­fica que o uso de dro­gas psi­co­dé­li­cas pode ser expli­cado em ter­mos evo­lu­ci­o­ná­rios como um “hack” que per­mite esta­dos trans­cen­den­tais de mente a serem alcan­ça­dos rapi­da­mente.

Sistemas jurídicos não podem mudar a natureza humana

Se essa his­tó­ria é ver­da­deira, quais são suas impli­ca­ções?

Uma delas é que o uso de dro­gas psi­co­dé­li­cas não é dife­rente, em prin­cí­pio, de prá­ti­cas como can­tar, jejum, ora­ção e medi­ta­ção que as reli­giões cos­tu­mam usar para pro­vo­car esta­dos alte­ra­dos de cons­ci­ên­cia.

Os puris­tas podem se opor ao con­sumo de dro­gas por não haver a dis­ci­plina espi­ri­tual envol­vida em tais pro­ce­di­men­tos. Isto é ver­dade, mas pode­riam facil­mente argu­men­tar que a com­pra de um carro não tem a dis­ci­plina prá­tica de cons­truir um motor de com­bus­tão interna a par­tir do zero. E em qual­quer caso, há mui­tas reli­giões que usam subs­tân­cias psi­co­a­ti­vas em suas cerimô­nias.

A segunda impli­ca­ção é que as dro­gas psi­co­dé­li­cas podem desem­pe­nhar um papel posi­tivo na melho­ria da pers­pec­tiva men­tal. Já exis­tem resul­ta­dos pro­mis­so­res a res­peito dos efei­tos dos psi­co­dé­li­cos em pes­soas com depres­são e em doen­tes ter­mi­nais. Embora isso não seja garan­tia de que tais resul­ta­dos serão váli­dos para todos, nos dá moti­vos para pen­sar que há uma par­cela da popu­la­ção que usa/usou dro­gas psi­co­dé­li­cas, e nela foram pro­du­zi­dos efei­tos vali­o­sos.

Proi­bir dro­gas psi­co­dé­li­cas é sus­ce­tí­vel de ser con­tra­pro­du­cente. Assim como a proi­bi­ção de ati­vi­dade sexual não pára o desejo sexual, proi­bir dro­gas psi­co­dé­li­cas não faz nada para mudar a neces­si­dade inata de expe­ri­ên­cias trans­cen­den­tais.

Uma abor­da­gem jurí­dica sen­sata seria criar uma estru­tura que per­mite que as pes­soas usem dro­gas psi­co­dé­li­cas, mini­mi­zando os danos. O fato é que nenhum sis­tema legal ainda con­se­guiu mudar a natu­reza humana, e não há nenhuma razão para pen­sar que proi­bir dro­gas psi­co­dé­li­cas vai ser dife­rente.


Gos­tou? Então seja patrono do AZ para mais arti­gos como este.
CLIQUE AQUI e esco­lha sua recom­pensa.


Newsletter AZ | sabedoria budista


Você pode que­rer ler tam­bém:

Entenda a guerra às dro­gas em 5 minu­tos
A ver­da­deira ori­gem das dro­gas ilí­ci­tas

Rodrigo Zottis
Rapaz que só faz o que faz pois espera que um dia seu legado possa ser completamente auto-explicativo.

Compartilhe