Um amigo estava no metrô conversando sobre a vida com um colega. Não sei o conteúdo do diálogo, mas um homem sentado ao lado deles levantou-se abruptamente, afastou-se e, aos gritos, xingou os “viados”. O homem desceu na estação seguinte, visivelmente alterado. Meu amigo e seu colega seguiram viagem sem saber direito como poderiam ter reagido, se é que deveriam.

“Ah, mas isso não foi nada!”, alguém pode dizer. Ou talvez alguém sugira que eles estariam falando de coisas “impróprias”, ou alguma bobagem equivalente, como se houvesse um determinado tipo de palavra ou de assunto que desintegrasse a racionalidade humana num átimo.

Mas poderia ter sido mais do que ofensas gritadas. Poderia ter sido, como já foi comigo e pedradas, empurrões. Poderia ter sido, como já foi e é muito lembrado por quem anda na Avenida Paulista, em São Paulo, um golpe de lâmpada. É realmente necessário esperar um aumento absurdo na gravidade de um problema para começar a pensar sobre ele? O problema é um só e o mesmo: violência, o exercício direto de poder sobre outra pessoa com o efeito de causar dano físico, mental e/ou emocional.

Essa é uma questão que vai muito além das ameaças homofóbicas às quais estou sujeito cotidianamente. Ela perpassa a preocupação das minhas amigas mulheres ao saírem para a rua à noite; ela está implicada nos linchamentos de culpados e inocentes; ela é fundamental para pensar protestos e reações a protestos (inclusive, e especialmente, quando por forças do Estado).

A violência não é um problema individual. A forma de agir frente à violência não é uma solução pessoal. Eu agir mais machinho não é uma solução para a homofobia. Minha amiga não sair sozinha à noite não é uma solução para a misoginia. Pode ter resultado prático? Pode. Elimina o problema? Não.

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Assisti ao filme X-Men: Dias de um Futuro Esquecido e penso que o conflito entre os dois personagens mais marcantes da franquia é útil para o questionamento que trago aqui. Em resumo, os filmes e os quadrinhos propõem reflexões sobre o relacionamento entre mutantes (pessoas com poderes sobrenaturais) e os humanos “normais” (sem poderes, mas que constituem a maioria). Entre os mutantes, há dois posicionamentos divergentes, encabeçados por personagens poderosíssimos: a integração pacífica, proposta por Xavier e o enfrentamento, capitaneado por Magneto.

Xavier sugere que os humanos “normais” precisam ser ensinados a coexistir, educados a partir da convivência pacífica. Mesmo quando vitimizados por preconceitos, o dever dos mutantes seria o de acalmar os ânimos e mostrar que os humanos nada teriam a temer.

Magneto, por sua vez, defende que os mutantes entrem na vida humana sem pedir qualquer tipo de permissão, dada sua superioridade. A resposta à violência promovida pelos humanos contra os mutantes seria a retaliação, de modo a ensiná-los que pisar nos mutantes não é uma opção.

Agarrado a uma citação de Mahatma Gandhi, sempre achei que Xavier estivesse certo. Gandhi teria dito: “olho por olho e o mundo acabará cego”. De fato, considero que responder violência com violência apenas reproduz um sistema que é nocivo a todos os envolvidos.

Diferente dos mutantes, porém, as minorias sociais do mundo real não têm superpoderes para lidar com as opressões que sofrem. Quando pergunto “como agir frente à violência?”, atirar raios pelos olhos ou dominar mentes não são possibilidades.

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No mundo real, são os opressores e os violentos que têm poderes e privilégios. Afinal, a violência costuma vir acompanhada da covardia. Estou para ver nascer um homofóbico que, desarmado e sem treinamento marcial, se coloque a (tentar) bater em um grupo de homossexuais armados com paus e lâmpadas. A realidade nos mostra o contrário: ajuntamentos de sujeitos covardes que, graças à mentalidade de grupo, espreitam e violentam pessoas desprotegidas ou isoladas. A violência é um exercício de poder sobre o outro, o que obviamente, só acontece quando o opressor se percebe capaz de agir. Em geral, não se trata da expressão de uma autenticidade, um tipo de defesa quixotesca de uma crença, mas sim de pura imposição de brutalidade.

Aliás, como mencionei antes, a violência não é individual: ela é social e institucionalizada. O ataque a mulheres, homossexuais, negros, pobres e transexuais ocorre diariamente com a anuência dos poderes que, supostamente, deveriam proteger esses sujeitos. A quem recorrer quando policiais, juízes e políticos também estão implicados em atos contra segmentos inteiros da sociedade? A quem pedir ajuda quando policiais dizem que a mulher deveria se vestir melhor, juízes cancelam casamentos homoafetivos e políticos sugerem que determinados sujeitos não deveriam existir?

O que posso fazer quando um imbecil mais forte que eu e provavelmente acompanhado de outros imbecis decide que eu não mereço viver? O que eu posso fazer quando policiais declaram que homocídios homofóbicos são, na verdade, suicídios?

A doutrina de Xavier, e por extensão a de Gandhi, não me protege. Sim, tenho feito em minha vida um esforço para debater questões que julgo importantes e mostrar aos outros maneiras de viver que não incluam a destruição do outro. Será o suficiente? Pergunto isso porque, quando é o contrário, essa não é uma cortesia oferecida a mim.

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Diferente dos mutantes de Magneto, eu não posso responder com a mesma força. O “olho por olho” não é uma possibilidade – ou eu deveria malhar e treinar artes marciais, de modo a ter um mínimo de chance de revidar qualquer ataque?

Se a violência não é um produto do indivíduo, parece claro que a resposta a ela também não deve ser. Educar, informar, sugerir caminhos que abracem a diferença são respostas mais adequadas. Esse é um trabalho necessário e que, cada vez mais, precisa chegar a sujeitos com poder de influência dentro de instituições tipicamente opressoras, como as grandes empresas, as religiões monoteístas e o maquinário político. Esse é um trabalho contínuo e sempre em andamento, mas não preenche o imenso abismo que existe entre o universo ideal, em que as diversidades coexistiriam pacificamente, e a realidade cruel, em que as diferenças são objeto de intolerância e violência.

Nesse meio tempo entre o mundo que queremos e o mundo que temos, como agir frente à violência? Talvez a resposta não esteja presente na dicotomia entre o pacifismo de Xavier e a belicosidade de Magneto, presente em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, mas sim em outro filme da franquia (X-Men First Class), quando Xavier diz que o verdadeiro foco está em algum lugar entre a ira e a serenidade. Uma coisa é certa: o mundo não se transforma por meio da conformidade, mas o perigo da ira é o de responder violência com violência e acabarmos cegos de ódio.

escrito por:

Tales Gubes

Tales é uma raposa entre seres humanos. Escreve sobre escrever, sexualidade, educação e empreendedorismo. Criou o Ninho de Escritores para unir e ajudar outras criaturas que também curtem transformar experiências em palavras.


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