Capa do artigo "Estamos dormindo menos?", de Rodrigo Zottis. Na imagem, menina loira dorme sobre a mesa de aula, comlivros à sua frente.| Ano Zero

Estamos dormindo menos?

Em Ciência por Rodrigo ZottisComentário

Será que esta­mos real­mente dor­mindo menos?

A ilu­mi­na­ção elé­trica, a tele­vi­são, a inter­net e a cafeína podem ser cul­pa­das por redu­zir a quan­ti­dade de tempo que as pes­soas dor­mem em com­pa­ra­ção com a época antes de tais luxos exis­ti­rem. Essa suposta pri­va­ção do sono é mui­tas vezes res­pon­sá­vel por um aumento da obe­si­dade, trans­tor­nos de humor e outras doen­ças moder­nas. Ao menos é isso que escu­ta­mos.

O pro­blema com esse argu­mento é que nin­guém real­mente sabe quanto tempo as pes­soas dor­miam antes das lâm­pa­das, do café e da luz exis­ti­rem.

Dito isso, a ver­dade é que:

Não estamos dormindo menos

Um estudo recém-publi­cado na revista Cur­rent Bio­logy, por Jerome Sie­gel, da Uni­ver­si­dade da Cali­fór­nia (Los Ange­les), e Gandhi Yetish da Uni­ver­si­dade do Novo México, tenta dar uma res­posta a isso. Dr Sie­gel e o Sr. Yetish ana­li­sa­ram três gru­pos que vivem de for­mas pré indus­tri­ais (ou seja, sem ino­va­ções da soci­e­dade moder­nas), para des­co­brir se os seus padrões de sono são dife­ren­tes da soci­e­dade con­tem­po­râ­nea urbana. Para a sur­presa de todos, eles des­co­bri­ram que, em mui­tos aspec­tos, não há muita dife­rença entre as civi­li­za­ções.

Os gru­pos em ques­tão são os hadza, do norte da Tan­zâ­nia, os Ju / ‘hoansi San, do deserto de Kalahari, no sul da África, e os tsi­mane na Bolí­via. Todos vivem em grande parte da caça e coleta. Dr Sie­gel e o Sr. Yetish pedi­ram aos volun­tá­rios que usas­sem dis­po­si­ti­vos que regis­ta­vam o nível de seu meta­bo­lismo, moni­to­rando suas ati­vi­da­des cere­brais e seus níveis de sono.

Estamos dormindo menos? | Mulher tribal segurando seu bebê

Inte­gran­tes dos Ju / ‘hoansi San.

No total, os pes­qui­sa­do­res cole­ta­ram 1.165 dias de dados. Eles des­co­bri­ram que as pes­soas de todos os três gru­pos dor­miam por entre 5,7 e 7,1 horas por dia, com uma média que girava em torno de 6,5 horas. Longe de serem supe­ri­o­res às de um mora­dor da cidade. Esses valo­res estão inclu­sive abaixo da média de sono encon­trado em soci­e­da­des urba­nas. Uma média de 7,5 horas por noite é a nor­mal em soci­e­da­des urba­nas.

Nem os hadza, os Ju / ‘hoansi San ou os tsi­mane se reti­ra­vam para des­can­sar assim que o sol se punha. Em vez disso, eles fica­vam acor­da­dos por uma média de 3,3 horas após o anoi­te­cer, tanto quanto as pes­soas no mundo desen­vol­vido fazem. Seus horá­rios de dor­mir  eram regu­la­dos pela tem­pe­ra­tura em vez da luz do dia, pois leva várias horas após o sol se pôr para que a tem­pe­ra­tura se ame­nize.

O estudo tam­bém põe em che­que a ideia de que cochi­los são uma carac­te­rís­tica do com­por­ta­mento humano, que foi supri­mida (ou nem tanto) pelas novas tec­no­lo­gias. Os volun­tá­rios rara­mente cochi­la­vam no verão (faziam em cerca de um dia em cada cinco), e quase nunca no inverno.

Hou­ve­ram algu­mas dife­ren­ças. Os mem­bros caça­do­res-cole­to­res tive­ram uma maior vari­a­ção sazo­nal na quan­ti­dade de sono do que as pes­soas “moder­nas” dor­mem. Eles dor­miam quase uma hora a mais no inverno do que no verão. Tal­vez o fato mais intri­gante seja que eles não sofriam muito de insô­nia, uma queixa pre­va­lente em mais de 20% da popu­la­ção das soci­e­da­des indus­tri­ais.

Se aque­les que caçam e cole­tam têm algo a ensi­nar ao mundo moderno, isso é dis­cu­tí­vel. Um exame mais deta­lhado de suas vidas pode reve­lar for­mas de redu­zir a insô­nia. Mas na pró­xima vez que alguém afir­mar que o cochilo é algo natu­ral da vida humana, em vez de uma con­sequên­cia devido a uma festa durante a madru­gada, seja cético.


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Rodrigo Zottis
Rapaz que só faz o que faz pois espera que um dia seu legado possa ser completamente auto-explicativo.

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