Hoje é assim: cai um alfinete e ouve-se o estrondo de uma bomba. Ficou assim em boa medida em decorrência das redes, com sua dinâmica de amplificação caótica e causalidades complexas. Mas também porque vivemos impregnados e sedentos de informações: tudo circula rapidamente e se acumula com facilidade, forçando a que cada um ponha algo para fora como se estivesse moralmente obrigado a se posicionar sobre tudo, muitas vezes sem ter noção exata das coisas.

É uma espécie de vitória do impressionismo, da postura crítica sustentada pelas emoções e pela captura de flashes imediatos.

Somos impelidos a falar de temas e problemas que nem sempre dominamos, de que conhecemos somente a casca e dos quais imaginamos desdobramentos hipotéticos.

É um problema que traz consigo uma vantagem: na medida em que formos sendo capazes de domesticar nossos impulsos, vamos aperfeiçoando nossa bagagem cívica, intelectual e política, nossos conhecimentos e habilidades, ficamos melhores como personagens da democracia. Mas nos estressamos e nos desgastamos, não sendo incomum que amizades se desfaçam e se traduzam em conflitos insuperáveis.

Há mais. Temos de saber o que é certo e melhor em uma infinidade de questões, algumas que nos dizem respeito diretamente e outras que são de interesse geral mas nos magnetizam como se estivessem a ocorrer em nosso próprio quintal. Nem sempre dispomos de dados confiáveis ou conhecemos as reais intenções dos agentes envolvidos. Mesmo assim, metemos bronca.

Sem querer, ajudamos a que se formem novelos sucessivos de narrativas e manifestações retóricas, que ficam flutuando na esfera pública. Depois de um tempo, os novelos são deslocados para a margem e substituídos por outros, devidamente turbinados por nossa colaboração. Poucos deles encontram tradução política ou se convertem em causas públicas efetivas.

O prefeito de São Paulo, por exemplo, em seu primeiro mês no cargo, pôs na mesa dois temas que estão a gerar polêmica, protestos e comoção. Mandou “limpar” a cidade de pichações e aumentou a velocidade dos automóveis nas Marginais.

Com a primeira medida, foram também apagados alguns grafites e murais, por todos considerados formas de intervenção artística que embelezam e personalizam a cidade. Choveram protestos. O prefeito foi acusado de querer deixar cinza a cidade.

João Dória pagou pelo açodamento e pelo amadorismo. Qualquer decisão de gestão urbana repercute intensamente, mesmo quando o prefeito goza de popularidade, o que não é propriamente o caso. Ao agir de modo atabalhoado e unilateral, fez com que as águas encrespassem. Decidiu sem consulta, na calada da noite, sem avisos prévios, acompanhado de declarações bombásticas, jogos de cena e bateção de cabeças com os auxiliares. Foi tudo tão inadequado que muita gente achou que o prefeito estaria querendo desviar a atenção da população para temas periféricos e deixar em banho-maria as questões fundamentais. Operação midiática, em suma. Não faltou quem dissesse que Dória deveria deixar os pichadores para lá e cuidar de coisas mais importantes.

A polêmica permaneceu mesmo quando Dória voltou atrás e declarou que sua “guerra” é contra os pichadores, os vândalos, comprometendo-se a criar um “Museu de Arte de Rua” para valorizar a atuação de grafiteiros e muralistas. Não teve trégua. Ficou claro que terá dificuldades para reabrir o diálogo com essa área, especialmente se insistir em demarcar e limitar os locais em que os artistas poderão fazer suas intervenções, algo que vai contra a ideia mesma do grafite.

No debate que se armou, pouca atenção se deu a alguns pontos essenciais para uma boa discussão democrática.

(a) Não ficaram claras as razões que levaram o prefeito a se comportar de forma voluntariosa e a falar em diálogo só depois das primeiras reações: teria sido a cristalização de um estilo gerencial ou se tratou tão-somente de um descuido?

(b) Também são enigmáticos os fundamentos das reações: teriam sido elas a manifestação de um amor à arte e de respeito à liberdade de criação dos cidadãos, ou foram apenas a manifestação de um desejo de oposição ao prefeito?

(c) Pouco se esclareceu a distinção entre pichação e grafite: quais as fronteiras entre um e outro? A competição entre os pichadores para saber quem é o mais audacioso deve ser tratada como atitude de protesto ou não passa de um jogo entre pessoas pouco preocupadas com a qualidade da cidade em que vivem?

(d) Não se deu qualquer atenção ao que pensam os cidadãos em seu conjunto: querem os paulistanos uma cidade mais “limpa” e sem garatujas incompreensíveis, ou para eles tanto faz? Acham que grafites e murais ajudam a embelezar a cidade e a torná-la mais agradável e alegre, ou algo assim? Estão dispostos a arcar com os custos para que o embelezamento urbano se faça ou acham que isso não lhes diz respeito?

Houve muita movimentação e muita gritaria, mas pouco desfecho, ao menos até agora.

Algo parecido também ocorre com a questão da velocidade nas Marginais. O prefeito decidiu comprar briga com a gestão anterior e com uma legião de técnicos em tráfego urbano para quem a experiência internacional mostra que menores velocidades levam a menos acidentes e melhor fluxo.

Dória aumentou em 20% a velocidade média das Marginais, até atingir 90 km/h na pista expressa. Muitos aplaudiram, sem nem sequer calcular o real impacto que a maior velocidade terá no tempo que se gasta em deslocamentos e na busca por um trânsito mais civilizado e defensivo.

[vídeo-simulação de como o aumento da velocidade no trânsito congestiona as vias públicas]

Outros tantos vaiaram, acusando o prefeito de dar importância desmedida aos automóveis e não valorizar a vida humana. Uns e outros saíram à cata de dados para “provar” suas posições, agarrados a verdades absolutas e se estapeando por 10 km/h a mais ou a menos. Ninguém demonstrou disposição para esperar os resultados das novas velocidades e compará-los com os resultados anteriores. Melhorará mesmo o tráfego? O tempo ganho será expressivo? Haverá mais segurança, os acidentes com mortes aumentarão?

Aumentar a velocidade é um equívoco: obriga o motorista a ficar mais tenso, cria nele a impressão de que ganhará tempo e provoca cansaço, faz com que os automóveis se sintam donos das ruas, amedronta, machuca e cerceia os pedestres. No caso de acidentes, causa sim maior mortalidade. Independentemente de outras considerações, isso deveria bastar para desestimular os apressados. Nem deveria ser preciso tanto bate-boca. Mas a época é de velocidade e ser “rápido” ganha valor (injustificável) sobretudo em São Paulo, cidade educada e viciada em achar que “não pode parar”. Dória vai na onda.

Retorno ao ponto inicial. Ao sermos obrigados a nos manifestar sobre essas e tantas outras questões, o fazemos com os dados de que dispomos e com a paixão de que somos capazes. Entramos no território da política, no qual a informação técnica é importante ainda que não resolva tudo. Ficamos sem encontrar, porém, os condutores de nossa indignação e de nosso empenho reflexivo. Faltam uma esfera pública e uma sociedade civil suficientemente estruturadas para impulsionar e coordenar nossas visões e perplexidades.

Fica no ar a impressão de que pouco se pode de fato fazer. O desejo de falar, debater e participar, no entanto, permanece, mantendo acesa uma chama.

Marco Aurélio Nogueira
Duvidar sempre. Desistir jamais. Cientista político por profissão e por paixão. A política liberta, mas também pode ser uma prisão. Democrata e gramsciano por convicção, socialista por derivação. Corintiano de raiz. Atualmente, coordena o Núcleo de Estudos e Análises Internacionais-NEAI da UNESP. Seu livro mais recente é As Ruas e a Democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo (Contraponto/FAP, 2013).
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