Bola de baseball sendo injetada por substâncias químicas, simbolizando o doping.

O doping nos esportes deveria ser permitido?

Em Comportamento, Consciência, Filosofia por Gabriel AndradeComentário

Os Jogos Olím­pi­cos de 2016 no Rio de Janeiro pare­cem ter come­çado com o pé errado.

Em meio a uma crise polí­tica que remo­veu a Pre­si­dente Dilma Rous­seff do poder, em maio pas­sado, há ale­ga­ções gene­ra­li­za­das de que o Bra­sil não está pre­pa­rado para rea­li­zar um evento de tal impor­tân­cia. Pro­ble­mas de alo­ja­mento leva­ram atle­tas de mui­tas dele­ga­ções a se muda­rem para hotéis, ele­vando as recla­ma­ções.

No entanto, mesmo que os Jogos Olím­pi­cos fos­sem rea­li­za­dos em um país poli­ti­ca­mente está­vel, com ele­va­dos níveis de efi­ci­ên­cia, todos nós sem­pre espe­ra­mos o que já se tor­nou um ritual, ao obser­var este evento des­por­tivo a cada qua­tro anos: alguns atle­tas, em algu­mas com­pe­ti­ções, falham em tes­tes de doping.

Os Jogos Olím­pi­cos do Rio de Janeiro mal come­ça­ram, e antes mesmo já havia con­tro­vér­sia. O Comitê Olím­pico Inter­na­ci­o­nal con­si­de­rou seri­a­mente sus­pen­der a dele­ga­ção russa, ape­nas para reti­rar a proi­bi­ção no último minuto. No entanto, a con­tro­vér­sia con­ti­nua.

O fan­tasma da dopa­gem nos espor­tes e, espe­ci­al­mente, nas Olim­pía­das, real­mente come­çou a nos assom­brar com a sus­pen­são de Ben John­son nos Jogos Olím­pi­cos de Seul, em 1988.

Desde então, gran­des estre­las subi­ram e caí­ram (Lance Arms­trong, Marion Jones, Diego Mara­dona, Barry Bonds, e mui­tos outros), e agora parece que o gênio saiu da gar­rafa.

Na medida em que isso está se tor­nando um mons­tro, há a cres­cente per­cep­ção de que a proi­bi­ção do doping é muito aná­loga à guerra con­tra as dro­gas: um esforço inú­til que cria mais pro­ble­mas do que resolve.

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Eti­cis­tas têm dado aten­ção a este debate por algum tempo. O argu­mento padrão em favor da proi­bi­ção no esporte é bas­tante sim­ples: subs­tân­cias dopan­tes podem ser muito peri­go­sas, e esta é uma ladeira escor­re­ga­dia para a des­trui­ção de longo prazo em prol da satis­fa­ção ime­di­ata.

Há tam­bém a ques­tão da equi­dade: que­re­mos recom­pen­sar os atle­tas por sua dis­ci­plina, esforço e talento natu­ral? Ou recom­pen­sar empre­sas mul­ti­na­ci­o­nais e paí­ses pode­ro­sos que, em certo sen­tido, com­pram meda­lhas inves­tindo enor­mes quan­tias de dinheiro em pes­quisa bio­mé­dica, usando atle­tas como seus peões?

O filó­sofo de Har­vard Michael San­del aler­tou que há algu­mas coi­sas que o dinheiro não pode com­prar. Os espor­tes se tor­na­ram um empre­en­di­mento mer­can­til. Os crí­ti­cos recla­mam que even­tos espor­ti­vos não são mais sobre com­pa­nhei­rismo e exi­bi­ção de talen­tos natu­rais, mas uma máquina fria de pro­du­zir dinheiro.

Estando o doping per­mi­tido, San­del e outros crí­ti­cos argu­men­tam, ele agrava ainda mais o espí­rito des­por­tivo ori­gi­nal.

Além disso, San­del argu­menta que deve­mos acei­tar pre­sen­tes dados pela natu­reza. Por isso, ele quer dizer que a huma­ni­dade tem de reco­nhe­cer suas limi­ta­ções, reco­nhe­cendo que algu­mas coi­sas são e devem estar fora do nosso con­trole.

Em suas pala­vras:

Para reco­nhe­cer o talento da vida é pre­ciso reco­nhe­cer que os nos­sos talen­tos e pode­res não são total­mente de nossa pró­pria obra, nem total­mente nos­sos, ape­sar dos esfor­ços que gas­ta­mos para desen­volvê-los e exercê-los”.

Mas, como de cos­tume, nem todos os espe­ci­a­lis­tas em ética con­cor­dam. O filó­sofo de Oxford, Julian Sava­lescu, defen­deu a uti­li­za­ção de bio-tec­no­lo­gias, incluindo melho­rias no esporte.

A mai­o­ria dos espor­tes con­tem­po­râ­neos já con­tam com a ajuda de meios tec­no­ló­gi­cos. Sim­ples­mente não é ver­dade que, nos espor­tes, acei­ta­mos incon­di­ci­o­nal­mente pre­sen­tes da natu­reza.

A esco­lha do equi­pa­mento, dos for­ma­do­res e até mesmo as cirur­gias têm um papel sig­ni­fi­ca­tivo na deter­mi­na­ção de quem recebe uma meda­lha, e quem não. Parece arbi­trá­rio per­mi­tir supor­tes tec­no­ló­gi­cos e, ao mesmo tempo, proi­bir dro­gas esti­mu­lan­tes.

É uma queixa comum que isso aumen­ta­ria o fosso entre paí­ses ricos e pobres em com­pe­ti­ções des­por­ti­vas. Mas Sava­lescu acre­dita que pode­ria real­mente pro­du­zir o efeito oposto. Os paí­ses mais pobres já têm gran­des difi­cul­da­des com atle­tas em for­ma­ção, por­que as tec­no­lo­gias per­mi­ti­das dis­po­ní­veis não são aces­sí­veis para todos.

Per­mi­tir o doping, pelo con­trá­rio, seria uma opor­tu­ni­dade para as nações mais pobres terem mai­o­res chan­ces de ganhar, na medida em que esta­riam em con­di­ções de uti­li­zar tec­no­lo­gias de aper­fei­ço­a­mento que podem ser facil­mente comer­ci­a­li­za­das e dis­po­ni­bi­li­za­das a todos.

Quanto à segu­rança, Sava­lescu admite que, de fato, algu­mas dro­gas não são segu­ras. Mas não são mui­tas. Há sem­pre um grau de risco de subs­tân­cias, mas, na ver­dade, todos os espor­tes são sus­ce­tí­veis a lesões.

A regu­la­men­ta­ção cer­ta­mente seria neces­sá­ria. Mas, a fim de impor uma regu­la­ção efi­ci­ente, ape­nas as subs­tân­cias noci­vas real­mente deve­riam ser proi­bi­das.

Do con­trá­rio, o excesso de regu­la­men­ta­ção pode se tor­nar um obs­tá­culo, pois regu­la­do­res esta­riam pre­o­cu­pa­dos demais com um grande número de casos, mui­tos dos quais iriam pas­sar des­per­ce­bi­dos; um mer­cado negro iria sur­gir facil­mente, como já é o caso.

Ide­al­mente, não deve­ria haver escân­da­los de doping nos Jogos Olím­pi­cos do Rio. Rea­lis­ti­ca­mente, são pro­vá­veis. Vendo este grande evento espor­tivo, você pode muito bem se per­gun­tar: o que pode ser feito?

Como de cos­tume, as dis­cus­sões éti­cas não irão for­ne­cer uma res­posta ime­di­ata. Mas cer­ta­mente for­ne­ce­rão infor­ma­ções e refle­xão sufi­ci­ente, a fim de tomar a deci­são mais razoá­vel.


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Gabriel Andrade
Gabriel Andrade vive em Maracaibo, Venezuela. Ele leva a vida na Universidade de Zulia, e é anfitrião do programa "Ágora" na Rádio Luz 102,9 FM.

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