É normal que os veículos de comunicação e sites como o AZ busquem agradar o público. Mas causa estranheza a ideia de que um veículo de comunicação ou site como o AZ explique à parte do público que, bem, sua visita não é bem-vinda.

Mas é uma questão de honestidade e, antes de tudo, integridade. Também de interesse comum: há visitas que não farão bem a ninguém, nem ao visitante nem ao projeto AZ.

Claro, estamos cientes da proposta, um tanto romântica, de que mesmo um nazista poderia se beneficiar do convívio entre os tolerantes. Mas por mais que acreditemos no potencial de evolução da natureza humana (e esse é um dos nossos princípios fundamentais), consideramos que tal visão não só peca pelo excesso: ela também é uma reminiscência da ingenuidade da criança, tão comovente e errada quanto a expectativa infantil pode ser. E estamos, aqui, falando de adultos.

É que o primeiro e mais fundamental passo de um adulto, principalmente daquele que busca sua própria evolução, é assumir a responsabilidade pelas ideias que escolhe adotar e por suas atitudes. Em palavras mais simples: nós, seres humanos, escolhemos certas formas de estupidez, e somos responsáveis pelas consequências.

Portanto, antes de ingressar em um espaço como o Ano Zero, que se propõe a coisas importantes e ambiciosas (como estimular o diálogo construtivo e gentil), o mínimo que se espera é que alguém faça seu dever de casa. Por exemplo, que o visitante, antes de ingressar no espaço do AZ, reduza um pouco o peso da bagagem de convicções que traz consigo, pois aqui é um espaço sim, para a esperança, mas também para a saudável dúvida. Que o visitante, antes de se apresentar em público, limpe suas orelhas para ser capaz de ouvir os outros, mesmo àqueles de quem discorda, com plena atenção e respeito, sem antecipar julgamentos, formular etiquetamentos e, pior de tudo, proferir ofensas.

"As convicções são piores inimigas da verdade que as mentiras." - NietzscheClaro que faria um bem enorme a determinadas pessoas acessarem o AZ mesmo que ainda não estejam preparadas para o convívio realmente civilizado. Mas abrir os braços para tais pessoas representaria para elas um prejuízo maior, pois seria tratá-las como crianças. Recebê-las, intolerantes e surdas como estão, seria tentar carregá-las no colo, impedindo que aprendam a caminhar sozinhas.

E nem se fale que, ao rejeitar a participação de certas mentalidades, estamos criando uma “câmara de eco” (um espaço fechado em que as pessoas só concordam entre si): queremos justamente é criar um espaço livre de todas as câmaras. Pois nossos critérios não dependem daquilo em que você acredita, mas sim de como você acredita.

Portanto, abaixo estão os leitores cuja visita não queremos no Ano Zero.

1 – Se você desqualifica toda e qualquer crítica ao capitalismo e à direita, ou à sua opinião nesses assuntos, como coisa de “esquerdista”, “comunista”, “petralha”, dispensamos sua visita.

2 – Se você desqualifica toda e qualquer crítica ao socialismo e à esquerda, ou à sua opinião nesses assuntos, como coisa de “direitoso”, “coxinha”, “alienado”, dispensamos sua visita.

3 – Se você rejeita o debate racional e aberto a opiniões divergentes sobre temas como aborto, legalização das drogas, casamento homoafetivo, gênero e outros em que há conflito entre questões religiosas/ideológicas e argumentos científicos, dispensamos sua visita.

4 – Se você é ateu e considera uma estratégia legítima ridicularizar a crença religiosa das outras pessoas, dispensamos sua visita.

5 – Se você é religioso e desqualifica de antemão todo e qualquer argumento de um ateu ou agnóstico apenas por não corresponder à sua crença, dispensamos sua visita.

6 – Se você desqualifica de antemão qualquer posicionamento conservador como “fascista” (ou congêneres) e qualquer posicionamento progressista como “esquerdista” (ou congêneres), dispensamos sua visita.

7 – Se você adota integralmente algum sistema de visão global de mundo, seja ele de natureza política, religiosa ou ideológica (tal como os sistemas definidos pelo sufixo “ismo”), estando mais preocupado em convencer os outros da sua verdade do que em construir diálogos abertos à divergência, dispensamos sua visita.

8 – Se você não está disposto a continuamente questionar suas próprias convicções e pressupostos de pensamento como uma medida mentalmente saudável e profilática, dispensamos sua visita.

9 – Se você acredita que a ironia, a caricaturização e a ofensa são formas legítimas de contra-argumentar, mesmo que em comentários em redes sociais, quando se depara com opiniões divergentes da sua, dispensamos sua visita.

10 – Se você acha que a cor da pele, a etnia, a orientação sexual e o gênero de um ser humano são decisivos para definir o valor de sua opinião ou argumento sobre qualquer tema, dispensamos sua visita.

11 – Se você acredita que sabe quem são e onde estão os “inimigos”, responsáveis pelo “grande Mal” (seja ele o que for), e considera que não merecem ser tratados com o mesmo respeito e dignidade que os demais seres humanos, dispensamos sua visita.

"Sou chamada de pessimista por rejeitar mentiras. Mas essa rejeição é uma forma de esperança: a esperança de que a verdade nos será útil." - Simone de BeauvoirA lista, como é fácil perceber, não constitui um sistema fechado e tampouco rigorosamente lógico (por exemplo, os itens 1 e 2 podem facilmente ser encaixados no item 9). Nosso objetivo foi mais transmitir uma ideia clara do tipo de mentalidade que dispensamos no AZ, inclusive mencionando as formas mais comuns de manifestação dessa mentalidade.

Na verdade, poderíamos resumir tudo dizendo três coisas: a primeira, que o AZ não é o espaço para aqueles predominantemente porco-espinhos, mas sim predominantemente raposas, na distinção de Isaiah Berlin; segundo, que o AZ não é o espaço para adeptos de qualquer forma de violência, inclusive e principalmente a comunicação violenta; terceiro e final, que o AZ é o espaço para aqueles dispostos a se questionarem continuamente, para aqueles abertos não só a ouvir argumentos racionais mas também a entender o contexto emocional em que estão inseridos seus interlocutores.

“As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”, disse Nietzsche. E, aqui no AZ, estamos em busca da verdade, pois acreditamos, como Simone de Beauvoir, que a verdade pode nos ser útil. Portanto, se você não carrega convicções em demasia, e está aberto a ouvir os outros, sua presença não é só bem-vinda no AZ: sua presença é necessária.

  • Mateus S. da Silva

    Vou dar uma observação sobre o 11.
    Se eu soubesse que a morte de uma pessoa faria um bem desproporcionalmente maior (e grande!) para a sociedade, eu ficaria na dúvida se a mataria.
    Então eu deixaria esse “X” da questão para como conseguir ter certeza disso. Apesar de eu acreditar veementemente que a maioria dos problemas nesse contexto são culturais. Eu acho que isso também não pode ser “algoritmizado”, aff tá me dando tilt aqui
    Obs.: É claro que é um procedimento excepcional, e só assim pode ser (ou talvez não possa, está aí a questão) levado em consideração.

    • Ariel L. Lázaro

      Mas acho que ele está se referindo a pessoas que colocam todo o mal em uma ideologia só, tipo o Nando Moura que diz: “Vamos lutar contra os esquerdistas, irmãos de batalha, eles que são a causa para o Brasil estar desmoronando” (ele realmente usa essas expressões, ênfase para a ridícula “irmãos de batalha”). Quando a pessoa não consegue enxergar os próprios defeitos das próprias ideias e acha que o mundo é divido entre Bem (minha ideologia) vs Mal (ideologia oposta).

    • Neder Diogo Junior

      Acho que a mensagem do item 11 é: o pensamento de que existe um grupo de pessoas responsável pelo “grande mal” da sociedade, está equivocado. O grande problema da sociedade é a sociedade, muito complexo para que o extermínio de um só grupo de pessoas fosse suficiente para a resolução de todos os problemas.

    • juliocesarprava

      O item não parece estar falando de alguém que sabe-se que causa dor e sofrimento como por exemplo algum ditador ou grupo extremista, ele soa mais como uma crítica direcionada a quem pensa de forma maniqueísta e cria grupos de inimigos para combater.

  • Gabriela Vergara

    Ótimo! Extremamente coerente e saudável! No entanto o item 11 eu discordo, porém repeito.

  • Curioso o item 11 ter gerado mais discordâncias. A maioria de nós é assim mesmo: nossa mente funciona dessa forma, gerando automaticamente vilões e mocinhos, nos dando a certeza de que sabemos que são. É difícil desfazer isso.

    Uma olhada com uma lente de aumento sobre qualquer problema torna um pouco nublada essa certeza maniqueísta de quem é o bom e quem é o mau. É sempre difícil atribuir culpas num cenários mais analítico assim.