discurso religioso e homossexualidade

O discurso religioso e a homossexualidade na sociedade brasileira atual

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Cesar FilhoComentário

Muito se tem deba­tido a res­peito de assun­tos como into­le­rân­cia reli­gi­osa e ques­tões de gênero na soci­e­dade bra­si­leira atual. É fun­da­men­tal, para que exista uma soci­e­dade demo­crá­tica, tole­rante, que se res­pei­tem as dife­ren­ças e a indi­vi­du­a­li­dade de cada um. Para tanto, é neces­sá­rio que sejam deba­ti­dos assun­tos polê­mi­cos como o da homos­se­xu­a­li­dade. É somente com o diá­logo que, aos pou­cos, pode­re­mos che­gar a um con­senso. A base da demo­cra­cia está no diá­logo e no res­peito às dife­ren­ças. Por­tanto, pro­po­nho-me aqui a tra­tar de um assunto fun­da­men­tal em nos­sos dias, a into­le­rân­cia reli­gi­osa e a homos­se­xu­a­li­dade.

Uma reli­gião, qual­quer que seja, torna-se peri­gosa quando os seus pra­ti­can­tes acre­di­tam que a ver­dade que sua reli­gião afirma é única e intrans­po­ní­vel, de modo a ima­gi­na­rem que devem impor o que acre­di­tam ao outro, ao dife­rente, ou àquele que não está con­forme com os padrões reli­gi­o­sos da sua crença. O pro­blema é que exis­tem outras ver­da­des que con­vi­vem con­co­mi­tan­te­mente com a ver­dade que cada reli­gião pra­tica. Por ver­dade entenda-se aqui uma maneira de se com­pre­en­der o mundo.

Os assas­si­na­tos con­tra homos­se­xu­ais no Ira­que nada mais são do que a impu­ta­ção de uma ver­dade a quem é dife­rente. Os assas­si­nos que pra­ti­cam esses cri­mes estão cegos em fun­ção da sua crença e não con­se­guem acei­tar que as pes­soas, quei­ram eles ou não, sejam dife­ren­tes umas das outras e que o mundo não é igual ao olhar de cada um.

Acho absur­da­mente peri­goso o modo como reli­gi­o­sos extre­mis­tas enca­ram as suas ver­da­des. No con­texto bra­si­leiro atual, por exem­plo, é visí­vel uma into­le­rân­cia por parte dos seus cida­dãos con­tra quem é dife­rente.

Não estou dizendo que todos os bra­si­lei­ros são into­le­ran­tes, de forma alguma. Entre­tanto, grande parte, sim, direta ou indi­re­ta­mente. Uns des­fe­rem o seu ódio con­tra as mino­rias escan­ca­ra­da­mente. Den­tre esses estão alguns polí­ti­cos da atu­a­li­dade. Outros, na hipo­cri­sia do dia a dia, fin­gem que com­pre­en­dem a dife­rença, mas jamais acei­ta­riam dois homos­se­xu­ais de mãos dadas à sua frente. Muito pelo con­trá­rio, esses repu­di­a­riam um ato simi­lar, taxando os gays que fizes­sem isso de imo­rais.

No entanto, as coi­sas estão em pro­cesso de mudança, em fun­ção dos movi­men­tos LGBTs que ocor­rem em força nesse momento. Isso é visí­vel no dia a dia, pela forma com que os homos­se­xu­ais estão se expres­sando em locais públi­cos. De mãos dadas, por exem­plo. Algo que não se via com tanta frequên­cia há dez, ou até mesmo há cinco anos.

O pro­cesso de mudança de para­dig­mas é sem­pre dolo­roso em uma soci­e­dade, pois os movi­men­tos que são sau­dá­veis numa dinâ­mica civi­li­za­tó­ria nunca são pací­fi­cos. Ao passo que um movi­mento novo, e, jus­ta­mente por ser novo, inco­moda o sta­tus quo, a força que afirma esse sta­tus, que teme pelo novo, e que vem a ser cha­mada de con­ser­va­dora, defende a sua ver­dade. Mui­tos dis­cur­sos reli­gi­o­sos, nes­ses momen­tos de mudança, cos­tu­mam pro­cla­mar, esca­to­lo­gi­ca­mente, o final dos tem­pos. Ora, isso não é novi­dade alguma, já que, his­to­ri­ca­mente, o mundo sofreu mudan­ças de para­dig­mas, seja com o advento da abo­li­ção da escra­va­tura, seja com o femi­nismo. Reli­gi­o­sos tam­bém recla­ma­ram, nes­sas épo­cas pas­sa­das, que o mundo estava pres­tes a aca­bar.

Mas não aca­bou.

Se mui­tos reli­gi­o­sos afir­mam que o mundo está se tor­nando mais gay e, jus­ta­mente por isso, está pró­ximo do fim, a inter­pre­ta­ção his­tó­rica do oci­dente vem a des­men­tir isso, já que, desde sem­pre, os gays exis­ti­ram (nem em maior nem em menor número que hoje). A única dife­rença é que até a alguns anos atrás, e durante sécu­los na era cristã, eles se man­ti­ve­ram coa­gi­dos, jus­ta­mente em fun­ção da repre­sá­lia social — como na Ingla­terra vito­ri­ana, que punia o ato de sodo­mia com a pri­são. (Oscar Wilde foi vítima de um estado que repre­en­dia os homos­se­xu­ais dessa maneira).

Algo inte­res­sante a ser des­ta­cado é que tanto o depu­tado Jair Bol­so­naro, ao colo­car que os gays mere­cem um “trato” por serem quem são, ou que as mino­rias devem se cur­var à mai­o­ria (já que, segundo Bol­so­naro, sem­pre foi assim), quanto o pas­tor Silas Mala­faia, ao demo­ni­zar os homos­se­xu­ais, jus­ti­fi­cando-se com a Bíblia, levam mui­tos, em seu dis­curso de ódio, a um rechaço aos gays a ponto de torná-los algo não dese­jado, que não deve­ria exis­tir.

No entanto, é sem­pre bom se escla­re­cer: os gays, ape­sar de serem con­si­de­ra­dos abo­mi­ná­veis, con­tri­buí­ram em peso para com o pen­sa­mento do mundo. Seja no âmbito da filo­so­fia, da soci­o­lo­gia, da arte etc.. Se o mundo, de alguma forma, cami­nhou para uma com­pre­en­são mais igua­li­tá­ria e demo­crá­tica, de maneira a favo­re­cer a TODOS na teia social, é por­que os gays tam­bém fize­ram a sua parte. Alguns exem­plos, den­tre pen­sa­do­res impor­tan­tes (e me per­doem as mulhe­res por, nesse momento, lis­tar somente homens), são Michel Fou­cault, Mário de Andrade, Roland Barthes, Mar­cel Proust, Oscar Wilde, Pier Paso­lini, Jean Coc­teau, Fer­nando Pes­soa (cor­rem estu­dos sobre a sua homos­se­xu­a­li­dade repri­mida) e, ora, vejam só, até Wil­liam Sha­kes­pe­are (tam­bém estu­dos inter­pre­tam a sua pos­sí­vel homos­se­xu­a­li­dade).

Após esse elenco citado, posso dizer que negar esses homens, e por fun­ção disso tam­bém a sua obra, após se saber o que lega­ram para a huma­ni­dade, é igno­rar a his­tó­ria, é negar a sua pró­pria his­tó­ria.

Um qua­dro polí­tico em que repre­sen­tan­tes soci­ais extre­mis­tas estão no senado é alar­mante. O polí­tico é uma figura pública que pode che­gar, por meio do seu dis­curso (embora o dis­curso dos extre­mis­tas quase sem­pre apre­sen­ta­rem lacu­nas que tor­nam fácil revi­dar com um bom conhe­ci­mento da his­tó­ria e do pen­sa­mento humano), a con­ven­cer facil­mente grande parte de uma nação que não cri­tica.

Ora, para que a popu­la­ção se torne crí­tica é neces­sá­rio haver um movi­mento que a faça deba­ter. É somente com o debate e com a lei­tura, seja nas esco­las, nas uni­ver­si­da­des, nas ruas ou na inter­net, que um qua­dro extre­mista e que impos­si­bi­lita o diá­logo pode ser rever­tido.

O debate e o diá­logo devem estar na base de toda a soci­e­dade. Um diá­logo em que cada um quer impor a todo o custo a sua ver­dade, de modo a debo­char da ver­dade do outro (isso se vê com muita frequên­cia no con­gresso bra­si­leiro atual), não é diá­logo, é bur­rice.

Penso que o papel do homos­se­xual, na soci­e­dade bra­si­leira atual, é o de bus­car escla­re­cer aquele que não lhe aceita na sua dife­rença. O bate boca não leva a lugar algum. O gay do século XXI deve, por meio do diá­logo, mos­trar que exis­tem manei­ras dife­ren­tes de se estar no mundo, de se com­pre­en­der o mundo e, con­tanto que uma con­duta indi­vi­dual não pre­ju­di­que a outrem, cada um deve ter o direito de viver a sua vida da maneira como é.

Se um homem hete­ros­se­xual não entende inte­gral­mente o que é ser uma mulher hete­ros­se­xual, por não estar no corpo de uma mulher, ou uma mulher não entende o que é ser um homem, por não estar no corpo de um homem, um hete­ros­se­xual tam­bém não pode com­pre­en­der inte­gral­mente o que é ser um homos­se­xual. No entanto, existe o que se chama de empa­tia, o colo­car-se no lugar do outro, mesmo que não se possa expe­ri­en­ciar da mesma forma que o outro a sua dor. Um homem pode ten­tar com­pre­en­der uma mulher tanto quanto um hete­ros­se­xual pode com­pre­en­der um gay, e vice-versa.

Os hete­ros­se­xu­ais não estão isen­tos de luta­rem pela causa dos gays, tanto quanto os homens não estão isen­tos de lutar pela causa das mulhe­res, ou os bran­cos pela causa dos negros.

Quando uma soci­e­dade aprende a civi­li­zar-se, a res­pei­tar as dife­ren­ças, todas as suas sea­ras apre­sen­tam uma melho­ria. A tole­rân­cia e a empa­tia fazem bem e são um dever de todos.

Um hete­ros­se­xual pode ima­gi­nar o que é para um gay neces­si­tar pro­te­ger-se coti­di­a­na­mente con­tra pos­sí­veis ata­ques, aten­ta­dos e xin­ga­men­tos con­tra a sua pes­soa, por conta do pre­con­ceito. Um hete­ros­se­xual pode ten­tar se colo­car na pele de um gay ao ima­gi­nar o que é para o último não poder expres­sar tran­qui­la­mente o seu afeto a quem ama — como dar um beijo de des­pe­dida na parada de ôni­bus ou segu­rar a mão do seu com­pa­nheiro ao cami­nhar na rua. Sem falar (e isso, por incrí­vel que pareça, ainda existe) na difi­cul­dade de encon­trar emprego, tam­bém por conta do pre­con­ceito. O peso social que um homos­se­xual pre­cisa car­re­gar em fun­ção de ser o que é, é jus­ta­mente o que o leva mui­tas vezes ao sui­cí­dio. Não é por­que os homos­se­xu­ais são doen­tes (como diz Marco Feli­ci­ano), em fun­ção da sua ori­en­ta­ção sexual (ele não uti­liza esse termo para se diri­gir aos gays), que eles aca­bam dando fim às suas vidas. Eles fazem isso em fun­ção da carga que his­to­ri­ca­mente levam con­sigo, por motivo da repres­são social que os obriga a vive­rem enjau­la­dos, com ver­go­nha de serem o que são.

Tenho, ao fim e ao cabo, um único ques­ti­o­na­mento ao hete­ros­se­xual que não aceita o homos­se­xual, seja por mera repe­ti­ção do pre­con­ceito entra­nhado na soci­e­dade, seja por pen­sar que o gay é gay por esco­lha:

Quando você esco­lheu ser hétero?


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