Discordância política | Por Robert L. Leahy


Fico constantemente paralisado com a forma como as pessoas atacam e marginalizam aqueles que não compartilham de suas opiniões. É quase como se demandássemos validação total, completa concordância numa discussão.

Me permita dar um exemplo de duas curtas conversas que tive alguns anos atrás. Disse a um homem que eu acreditava que deveríamos banir armas de assalto — uma posição com a qual a maioria dos americanos concorda. Ele disse, “Bob, você é comunista? Você quer tirar o direito à propriedade privada das pessoas?” Algumas semanas depois, estava debatendo sobre o sistema de saúde (isso foi 12 anos atrás, antes de Obama). Disse que não achava que um plano de saúde nacionalmente socializado era o caminho certo a ser tomado, que preferia uma combinação entre assistência médica pública e privada (o que temos com o Obama-care). Ele disse “Não acredito nisso, Bob. Você parece um fascista. Deveria ter vergonha!”

Então, no período de poucas semanas, percorri todo o espectro político: de comunista à fascista.

Vou deixar claro que fui contra Trump desde que anunciou sua candidatura. Então, compartilho a tristeza e a raiva causadas por essa eleição. Mas também quero aprender com ela e ser capaz de manter minhas amizades e relações familiares. Isso ficou mais difícil nessa era de polarização.

 

Quem são essas pessoas que apoiaram Trump?

Agora, quando ouço as pessoas após as eleições, elas descrevem os 59 milhões que votaram em Trump das formas mais extremas possíveis.

Dizem que aqueles que votaram por Trump são preconceituosos, ignorantes, iletrados, raivosos, racistas, sexistas, homofóbicos, fascistas ou nazistas. Dizem “não sou capaz de conversar com ninguém que votou nele!” Queimam bandeiras, enforcam bonecos do recém eleito e ameaçam deixar o país e ir para o Canadá ou Islândia. Dizem “nós moramos num país racista” como se 325 milhões de pessoas fossem racistas.

Estou tão decepcionado quanto a maioria das pessoas que estão compreensivelmente irritadas com o resultado das eleições. De certo modo, a raiva e a tristeza vêem de uma boa intenção: elas se importam com justiça social, decência e com o futuro do país. Se fossem indiferentes ou tivessem valores cínicos, não haveria reação emocional.

Isso faz sentido e esse sentimentos poderiam ser usados de forma construtiva para ir atrás de justiça social, ajudar a educar os que não enxergam o mundo à sua maneira, trabalhar para proteger o meio-ambiente. Certamente, Trump não parece ser esse tipo de líder, mas não significa que suas opções se esgotaram.

Mas o que quero falar é da nossa tendência a caracterizar aqueles que discordam de nós como sendo horríveis, inferiores, falhos, estúpidos, racistas e sexistas. Isso faz sentido?

Concordo que há muito o que se fazer contra preconceito de todos os tipos. Mas é indiscutível que a América fez consideráveis avanços nos últimos 50 anos nessas áreas. Temos direitos dos homossexuais garantidos pela Suprema Corte, Afro-americanos sabem que o presidente é da mesma cor que eles e mulheres têm mais direitos do que jamais tiveram antes.

Sim, nós temos muito o que fazer e deveríamos perseguir esses valores, mas não estamos vivendo na era das trevas do passado.

Frequentemente, me pergunto o que significa dizer “Este é um país racista”, como se 325 milhões de pessoas fossem racistas. Não faz o menor sentido. Sim, pode haver atitudes racistas institucionais e individuais por partes de alguns, mas faz mais sentido diferenciar a vasta gama de opiniões e valores que as pessoas no país têm.

Os que votaram em Trump não são personagens mentalmente limitados que saíram de Deliverance, carregando uma bandeira da Confederação e uma foto de Adolf Hitler. Sim, alguns membros da KKK apoiam Trump, mas essa visão simplista das pessoas que discordam de nós é totalmente irracional. Há várias razões diferentes para as pessoas terem votado em Trump. Vejamos:

 

— O Americano Esquecido

O americano esquecido inclui milhões de pessoas que acreditam que seus interesses foram negligenciados por ambos os partidos. Por isso Bernie Sanders era popular — as pessoas acreditavam que ele representava suas preocupações. E muitas delas eram econômicas. O americano esquecido acreditava que as elites que controlam o governo e a mídia se esqueceram deles.

É comum para as pessoas nas costas leste e oeste pensarem na “América do meio” como “a América que se ignora”. Estereótipos simplistas de pessoas que não estão nas nossas proximidades geográficas ou políticas somam-se às perspectivas enviesadas e desrespeitosas que muitos têm por aqueles que votaram no candidato adversário. E os que se sentem esquecidos também sentem que foram alvo de desprezo.

Trump representa a chance de revidar e ser ouvido. Muitos desses eleitores teriam votado em Sanders.

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— O Candidato da Validação

Trump era o candidato da validação por várias razões. As pessoas entrevistadas diziam “ele fala o que eu penso”. Quando há raiva e frustração e sentimento de abandono, elas são atraídas por esse tipo de mensagem. Pessoalmente, acho que muito do que ele diz é revoltante, mas posso entender que muitas pessoas sentem como se não fossem ouvidas.

 

— O Candidato da Mudança

Trump representa a mudança para milhões de eleitores — talvez não o tipo de mudança que eu gostaria, mas essa é um grande questão para as pessoas. Mudança. E Clinton representava estabilidade e continuidade — o oposto da mensagem de campanha de Obama em 2008. Estabilidade não gera muita emoção, mas mudança — especialmente mudança ligada à raiva — motiva as pessoas.

 

— Lealdade ao Partido

Algumas pessoas votaram em Trump porque eram Republicanas — o que é sempre o caso para ambos os partidos em qualquer eleição. Você pode contar com 80 a 95% dos eleitores registrados a acompanharem os candidatos de seus partidos.

 

— Medo da Imigração

Alguns temem a imigração — com Trump jogando os problemas de criminalidade, drogas e postos de trabalho perdidos nessa conta. Embora muitos desses problemas sejam muito dramatizados, essa é uma preocupação que atinge e captura a atenção das pessoas.

Muitos de nós, que gozamos de alguns privilégios, podemos ter dificuldade em entender como os que estão mais à margem da economia veem imigrantes tomando empregos que poderiam ser deles. Raramente nos colocamos no lugar dessas pessoas. Esse era um dos apelos do Brexit que as pessoas na mídia e no governo ignoraram.

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— Potência de Segunda Grandeza

Alguns acreditam que a América se tornou uma potência de segunda grandeza e que estamos sendo deixados de lado e humilhados, tanto em acordos de comércio quanto em proeza bélica. Não é o meu ponto de vista, mas é um grande problema para muitas pessoas.

Se impor, se gabar, ser firme acena para o lado mais sombrio do zelo patriótico — mas que tem real importância para aqueles que pensam que estamos perdendo a dianteira.

 

— Problemas com o Obama-care

Algumas pessoas estavam insatisfeitas com o modo como o Obamacare funcionava — não poderiam manter as consultas médicas e as taxas subiriam 22% no ano seguinte —, em alguns estados elas subiriam mais de 100%.

As pessoas estavam furiosas com isso e muitas achavam que aceitaram um mau negócio. Isso irritou muitos americanos de classe média e os deixou nervosos com a perspectiva futura de não conseguirem pagar as contas com planos de saúde.

 

— Desconfiança de Clinton

Algumas pessoas desconfiavam de Hillary Clinton por causa do uso que fizera de um servidor privado de e-mails, os pagamentos exorbitantes de elites questionáveis e a natureza porosa de contribuições e favores feitos à Fundação Clinton e à Secretaria de Estado. Então esses eleitores votaram por desconfiança. Ela nunca foi capaz de descortinar essas questões, mesmo tendo sido inocentada pelo FBI.

 

O que há de errado com essas pessoas que não pensam como eu?!

Eu sei que é fácil para as pessoas tacharem aqueles que discordam delas como idiotas, racistas, sexistas, preconceituosos e horríveis. Talvez algumas pessoas correspondam, de fato, a esses adjetivos.

Mas acho que, se nós que votamos em Clinton olharmos para a outra metade de americanos e etiquetá-los, jamais os convenceremos dos valores nos quais acreditamos. Ninguém diz “Acho que você tem razão. Eu sou um idiota racista. Obrigado por me mostrar”.

Tentar fazer as pessoas se sentirem culpadas ou envergonhadas por suas posições políticas apenas leva a maior alienação. Xingar os outros para nos sentirmos moralmente superiores minará a credibilidade de nossa mensagem. Se você só é capaz de dialogar com aqueles que concorda, então você se tornará marginalizado e desinformado e perderá as eleições futuras.

Ao invés de odiar as pessoas que votaram no outro candidato, podemos tentar entender as várias razões que as pessoas têm para discordarem de nós. Não somos um grupo superior, com Deus ao nosso lado. Não somos pessoas melhores. Perseguimos nossas crenças e os outros perseguem as deles. E há várias razões para as pessoas terem votado em Trump.

Concordo com Hillary Clinton e Barack Obama. Temos que aprender a trabalhar e viver juntos. Queimar bonecos e castigar pessoas que discordam de nós só nos levará a uma maior polarização.

Se formos capazes de alcançar os americanos esquecidos, devemos ouvi-los.


Tradução de Igo Araujo dos Santos do texto original em inglês.


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