Não há como afirmar que a civilização já viveu dias de paz. Talvez nas sociedades pré-históricas do comunismo primitivo, ou atualmente, em países, regiões e tribos, isoladamente. Mas em termos gerais, as guerras são parte do processo histórico que, equivocadamente ou não, chamamos de progresso.

Atualmente, há inúmeros conflitos armados pelo mundo, as guerras da República Centro-Africana, do Sudão Sul e da Síria, as disputas no Iraque  e no Afeganistão são os exemplos mais conhecidos. Há tensões em diferentes direções. Um olhar rasteiro, infantil até, nos levaria a interpretar essas disputas como uma impossibilidade de vivenciar a diferença: religiosa, étnica, política. Também poderíamos afirmar que são interesses geopolíticos das grandes potências que financiam as guerras, sempre projetando o futuro de olho em produtos como petróleo, água, gás, territórios, mercados consumidores etc.

Pode ser.

Quando li a notícia da ofensiva israelense por terra na faixa de Gaza, refleti sobre isso. Tantos sensos comuns nos levam sempre para a guerra. Atitudes irrefletidas, obviamente, quase cotidianas. No entanto, essa nova invasão cruzou com uma leitura de Leopoldo Zea sobre filosofemas latino-americanos. Em algum momento, o autor diz que a ocidentalização do mundo é uma realidade: a herança do iluminismo, da ilustração, das declarações universais dos direitos humanos, do imperativo democrático burguês que acabou abrindo o mundo para o sistema global que conhecemos hoje. Expansão sociocultural levada à cabo também pelas expansões bélicas, das cruzadas às colonizações.

É certo que existem contextos culturais diferentes, modelos políticos e religiosos distintos, mais fechados, quase herméticos. Mas a cultura ocidental se universalizou com grande eficiência e potência no globo. Em seu nome, países como o Iraque são invadidos para cumprirem a ordem democrática, sanções por parte de organismos internacionais – pautados pelo modelo ocidental – são promovidas a título de humanização. O Homem Ilustrado reina, ainda que não absoluto, sobre a terra.

bansky

Para Leopoldo Zea, os intérpretes latinoamericanos assimilaram a visão ocidental ainda no início de sua expansão, foram alguns dos primeiros a tomar para si essa filosofia que, naquele momento (século XVI e XVII), se pretendia universalizar; de Descartes a Marx, do liberalismo ao socialismo. No entanto, por mais que o Homem universal tenha sido assimilado (antropofagicamente, talvez) ainda é uma abstração para os latino-americanos. Falamos em nome dele, mas não o colocamos em prática, não o alcançamos naquilo que propõe promover: bem-estar, igualdade, paz.

É esse o legado ocidental no oriente? Por que insistimos na ocidentalização dos povos se negamos seu direito de existirem concretamente como civilizações? Por que defendemos uma filosofia universal que não praticamos? Ou que não deixamos praticar?

A noção de direitos humanos é uma construção. É uma filosofia entre outras. E quando seus militantes usam da espada para defendê-la ou implantá-la a força, essa noção perde o sentido, é o eterno “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Assim como na América Latina, muitos pensadores árabes defendem os ideais da democracia, a liberdade do homem cosmopolita que iniciou sua consolidação no século XIX. No entanto, os direitos humanos não existem como filosofia abstrata, só podem ser pensados concretamente, em ato, quando apresentam-se como demanda.

Falar em nome da civilização ocidental, dos organismos de direitos humanos significa pouco ou quase nada diante de tantas barbáries cotidianas que presenciamos neste início de século. Sobretudo numa sociedade do conhecimento onde as versões oficiais competem com múltiplas interpretações dos fatos. A promessa revolucionária de “igualdade, liberdade e fraternidade” foi reconhecida, se disseminou, inspira filosofias, dialoga com outras interpretações sobre a humanidade: africanas, sul americanas, orientais; mas para maioria dos homens ainda não se cumpriu. Apesar da espada.

escrito por:

Felipe Gue Martini

JUNTE-SE À NOSSA NEWSLETTER
Junte-se a outros 2.000 visitantes que recebem nossa newsletter e garanta, semanalmente, artigos sobre ciência, filosofia, comportamento e sociedade diretamente em seu e-mail!
Nós odiamos spam. Seu e-mail não será vendido ou compartilhado com mais ninguém.