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Direitos Humanos à base da espada

Em Consciência, Sociedade por Felipe Gue MartiniComentário

Não há como afir­mar que a civi­li­za­ção já viveu dias de paz. Tal­vez nas soci­e­da­des pré-his­tó­ri­cas do comu­nismo pri­mi­tivo, ou atu­al­mente, em paí­ses, regiões e tri­bos, iso­la­da­mente. Mas em ter­mos gerais, as guer­ras são parte do pro­cesso his­tó­rico que, equi­vo­ca­da­mente ou não, cha­ma­mos de pro­gresso.

Atu­al­mente, há inú­me­ros con­fli­tos arma­dos pelo mundo, as guer­ras da Repú­blica Cen­tro-Afri­cana, do Sudão Sul e da Síria, as dis­pu­tas no Ira­que  e no Afe­ga­nis­tão são os exem­plos mais conhe­ci­dos. Há ten­sões em dife­ren­tes dire­ções. Um olhar ras­teiro, infan­til até, nos leva­ria a inter­pre­tar essas dis­pu­tas como uma impos­si­bi­li­dade de viven­ciar a dife­rença: reli­gi­osa, étnica, polí­tica. Tam­bém pode­ría­mos afir­mar que são inte­res­ses geo­po­lí­ti­cos das gran­des potên­cias que finan­ciam as guer­ras, sem­pre pro­je­tando o futuro de olho em pro­du­tos como petró­leo, água, gás, ter­ri­tó­rios, mer­ca­dos con­su­mi­do­res etc.

Pode ser.

Quando li a notí­cia da ofen­siva isra­e­lense por terra na faixa de Gaza, refleti sobre isso. Tan­tos sen­sos comuns nos levam sem­pre para a guerra. Ati­tu­des irre­fle­ti­das, obvi­a­mente, quase coti­di­a­nas. No entanto, essa nova inva­são cru­zou com uma lei­tura de Leo­poldo Zea sobre filo­so­fe­mas latino-ame­ri­ca­nos. Em algum momento, o autor diz que a oci­den­ta­li­za­ção do mundo é uma rea­li­dade: a herança do ilu­mi­nismo, da ilus­tra­ção, das decla­ra­ções uni­ver­sais dos direi­tos huma­nos, do impe­ra­tivo demo­crá­tico bur­guês que aca­bou abrindo o mundo para o sis­tema glo­bal que conhe­ce­mos hoje. Expan­são soci­o­cul­tu­ral levada à cabo tam­bém pelas expan­sões béli­cas, das cru­za­das às colo­ni­za­ções.

É certo que exis­tem con­tex­tos cul­tu­rais dife­ren­tes, mode­los polí­ti­cos e reli­gi­o­sos dis­tin­tos, mais fecha­dos, quase her­mé­ti­cos. Mas a cul­tura oci­den­tal se uni­ver­sa­li­zou com grande efi­ci­ên­cia e potên­cia no globo. Em seu nome, paí­ses como o Ira­que são inva­di­dos para cum­pri­rem a ordem demo­crá­tica, san­ções por parte de orga­nis­mos inter­na­ci­o­nais — pau­ta­dos pelo modelo oci­den­tal — são pro­mo­vi­das a título de huma­ni­za­ção. O Homem Ilus­trado reina, ainda que não abso­luto, sobre a terra.

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Para Leo­poldo Zea, os intér­pre­tes lati­no­a­me­ri­ca­nos assi­mi­la­ram a visão oci­den­tal ainda no iní­cio de sua expan­são, foram alguns dos pri­mei­ros a tomar para si essa filo­so­fia que, naquele momento (século XVI e XVII), se pre­ten­dia uni­ver­sa­li­zar; de Des­car­tes a Marx, do libe­ra­lismo ao soci­a­lismo. No entanto, por mais que o Homem uni­ver­sal tenha sido assi­mi­lado (antro­po­fa­gi­ca­mente, tal­vez) ainda é uma abs­tra­ção para os latino-ame­ri­ca­nos. Fala­mos em nome dele, mas não o colo­ca­mos em prá­tica, não o alcan­ça­mos naquilo que pro­põe pro­mo­ver: bem-estar, igual­dade, paz.

É esse o legado oci­den­tal no ori­ente? Por que insis­ti­mos na oci­den­ta­li­za­ção dos povos se nega­mos seu direito de exis­ti­rem con­cre­ta­mente como civi­li­za­ções? Por que defen­de­mos uma filo­so­fia uni­ver­sal que não pra­ti­ca­mos? Ou que não dei­xa­mos pra­ti­car?

A noção de direi­tos huma­nos é uma cons­tru­ção. É uma filo­so­fia entre outras. E quando seus mili­tan­tes usam da espada para defendê-la ou implantá-la a força, essa noção perde o sen­tido, é o eterno “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Assim como na Amé­rica Latina, mui­tos pen­sa­do­res ára­bes defen­dem os ide­ais da demo­cra­cia, a liber­dade do homem cos­mo­po­lita que ini­ciou sua con­so­li­da­ção no século XIX. No entanto, os direi­tos huma­nos não exis­tem como filo­so­fia abs­trata, só podem ser pen­sa­dos con­cre­ta­mente, em ato, quando apre­sen­tam-se como demanda.

Falar em nome da civi­li­za­ção oci­den­tal, dos orga­nis­mos de direi­tos huma­nos sig­ni­fica pouco ou quase nada diante de tan­tas bar­bá­ries coti­di­a­nas que pre­sen­ci­a­mos neste iní­cio de século. Sobre­tudo numa soci­e­dade do conhe­ci­mento onde as ver­sões ofi­ci­ais com­pe­tem com múl­ti­plas inter­pre­ta­ções dos fatos. A pro­messa revo­lu­ci­o­ná­ria de “igual­dade, liber­dade e fra­ter­ni­dade” foi reco­nhe­cida, se dis­se­mi­nou, ins­pira filo­so­fias, dia­loga com outras inter­pre­ta­ções sobre a huma­ni­dade: afri­ca­nas, sul ame­ri­ca­nas, ori­en­tais; mas para mai­o­ria dos homens ainda não se cum­priu. Ape­sar da espada.

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