Walking Dead | A ciência por trás do Dia dos Mortos | Ano Zero

A ciência por trás do Dia dos Mortos

Em Ciência, Consciência, Religião por Carlos OrsiComentário

Dia dos Mor­tos | Vida, diz uma ane­dota, é uma doença sexu­al­mente trans­mis­sí­vel que leva ine­vi­ta­vel­mente à morte. As úni­cas cer­te­zas do Uni­verso, pon­ti­fica um dito popu­lar, são a morte e os impos­tos (alguns bra­si­lei­ros mili­ar­dá­rios pare­cem ter encon­trado for­mas de esca­par do Fisco, mas a Magra não parece sen­sí­vel à pro­pina).

A morte é o grande equa­li­za­dor, o ponto onde todos aca­ba­re­mos nos encon­trando, o fim do tempo, onde todos os sonhos se tor­nam irre­a­li­zá­veis, as ambi­ções, irre­le­van­tes e os arre­pen­di­men­tos, inú­teis.

O dia em que mor­re­mos é o único dia de nos­sas vidas sem um ama­nhã. O que gera, é claro, a ques­tão de como lidar com isso.

morte_enciclopedia-dia-dos-mortosMinha solu­ção favo­rita é a suge­rida por Epi­curo: a morte não é um pro­blema para o morto, por­que exis­tir é uma pré-con­di­ção para se ter pro­ble­mas, e mor­rer é dei­xar de exis­tir.

Essa não é, no entanto, uma solu­ção popu­lar: a vai­dade humana, somada ao apelo intui­tivo do prin­cí­pio da indu­ção — se todos os dias têm um ama­nhã, menos o último, é fácil supor que esse tam­bém terá –, gosta de fazer com que nos ima­gi­ne­mos eter­nos.

Não é só vai­dade, por certo. Há tam­bém o egoísmo: não gos­ta­mos da ideia de que pes­soas que são impor­tan­tes para nós podem nos dei­xar de uma vez por todas. A ideia de que elas se man­têm dis­po­ní­veis em algum outro lugar, mesmo depois de mor­tas, é recon­for­tante.

Então, a crença na vida após a morte é apenas uma mistura glorificada de vaidade e egoísmo?

Bom, essa é a minha opi­nião. Exis­tem diver­sas outras por aí, a mai­o­ria delas levando a con­clu­sões dia­me­tral­mente opos­tas, e que são sus­ten­ta­das por anti­gas tra­di­ções cul­tu­rais e bibli­o­te­cas intei­ras de tra­ta­dos filo­só­fi­cos.

E há tam­bém aque­les que, não satis­fei­tos com o pro­nun­ci­a­mento de san­tos e sábios, ape­lem para a ciên­cia.

 

Uma incursão científica no Dia dos Mortos

search-for-the-soul-dia-dos-mortosO fim do século 19 e as pri­mei­ras déca­das do século 20 assis­ti­ram a um ver­da­deiro tsu­nami de tes­tes cien­tí­fi­cos da cha­mada “hipó­tese da sobre­vi­vên­cia da alma”.

Foi uma onda gigante de entu­si­asmo que aca­bou que­brando con­tra o rochedo da rea­li­dade, pro­du­zindo muito mais espuma do que cla­reza: depois de des­car­ta­das as frau­des, os mal-enten­di­dos e a autoi­lu­são pura e sim­ples (como a do cha­mado efeito ide­o­mo­tor), os detri­tos que res­ta­ram sobre a praia não foram sufi­ci­en­tes para con­ven­cer quem já não esti­vesse pre­dis­posto a tanto.

Não que não hou­vesse resul­ta­dos intri­gan­tes. Em seu livro Search for the Soul, o mágico ame­ri­cano Mil­bourne Chris­topher relata alguns epi­só­dios.

Em 1907, por exem­plo, um médico do Hos­pi­tal Geral de Mas­sa­chu­setts, Dun­can McDou­gal, publi­cou um artigo em que afir­mava ter con­se­guido detec­tar uma vari­a­ção na massa do corpo humano no ins­tante da morte — o que seria o dife­ren­cial cau­sado pela par­tida da alma. Mas a inte­gri­dade dos dados, das con­clu­sões (e da ética) de McDou­gal reve­lou-se alta­mente ques­ti­o­ná­vel.

Em 1921, Hereward Car­ring­ton propôs o uso de uma câmara de nuvens, simi­lar à usada por físi­cos para cap­tu­rar a tra­je­tó­ria de par­tí­cu­las subatô­mi­cas, a fim de detec­tar o movi­mento da alma para fora do corpo de ani­mais de teste.

Resul­ta­dos ini­ci­ais apa­ren­te­mente posi­ti­vos, no entanto, logo foram expli­ca­dos como a mera detec­ção dos gases da decom­po­si­ção do ani­mal, e não da “maté­ria intra-atô­mica” do espí­rito.

myth_afterlife-dia-dos-mortosA expo­si­ção das frau­des come­ti­das pela médium ame­ri­cana Mina Cran­don — que bus­cava reco­nhe­ci­mento de seus pode­res sobre­na­tu­rais pela revista Sci­en­ti­fic Ame­ri­can — por Harry Hou­dini e, depois, por um grupo de inves­ti­ga­do­res da Uni­ver­si­dade Har­vard pelo pai da parap­si­co­lo­gia, J.B. Rhine, na segunda metade da década de 20, pôs fim à era do grande inte­resse popu­lar pelo estudo “cien­tí­fico” da vida após a morte.

Esse inte­resse seria revi­vido, déca­das mais tarde, pelos rela­tos do médico Ray­mond Moody sobre “expe­ri­ên­cias de quase-morte”, mas o con­senso cien­tí­fico logo deci­diu que as expe­ri­ên­cias apon­ta­das por Moody e seus segui­do­res podiam ser expli­ca­das como meras alu­ci­na­ções.

Aliás, Near-Death Expe­ri­en­ces Are Hal­lu­ci­na­ti­ons é exa­ta­mente o título de um dos capí­tu­los do livro The Myth of An After­life (“O Mito de uma Vida Após a Morte”).

Orga­ni­zado pelo filó­sofo Michael Mar­tin e pelo pes­qui­sa­dor Keith Augus­tine, o livro busca apre­sen­tar o “estado da arte” atual da ciên­cia e da filo­so­fia não-teo­ló­gica a res­peito da pos­si­bi­li­dade da exis­tên­cia (e sobre­vi­vên­cia) da alma humana. O vere­dicto é nega­tivo.

big_picture-dia-dos-mortosAlém de crí­ti­cas ao tra­ba­lho de Moody e seus segui­do­res, os auto­res dos dife­ren­tes capí­tu­los se debru­çam sobre estu­dos a res­peito de reen­car­na­ção, mediu­ni­dade e apre­sen­tam os resul­ta­dos da neu­ro­ci­ên­cia atual que apon­tam que a ati­vi­dade men­tal e a ati­vi­dade cere­bral têm uma cone­xão íntima e neces­sá­ria — não se pode ter a segunda sem a pri­meira: se o cére­bro morre, a mente vai junto.

Outras figu­ras emi­nen­tes do mundo cien­tí­fico apon­tam para a mesma con­clu­são: em seu mais recente livro, The Big Pic­ture, o físico Sean Car­roll afirma, logo na intro­du­ção, que a com­pre­en­são atual das ciên­cias físi­cas per­mite excluir de vez coi­sas como “tele­ci­nese, astro­lo­gia e vida após a morte”.

O que tudo isso quer dizer?

Se você gosta de man­ter sua meta­fí­sica sepa­rada da sua ciên­cia, não muita coisa. Se você gosta de invo­car a ciên­cia para jus­ti­fi­car suas cren­ças pes­so­ais, tal­vez um bocado.

E se você pre­fere man­ter suas cren­ças pes­so­ais ali­nha­das ao con­senso cien­tí­fico, tal­vez sig­ni­fi­que um cha­mado a repen­sar algu­mas coi­sas e, quem sabe, um con­vite para estu­dar Epi­curo.

strange-loop-dia-dos-mortosMas a mesma ciên­cia que nos rouba a vida após a morte pode ofe­re­cer algo seme­lhante, um simi­lar mate­rial, a nos­sos entes que­ri­dos.

Em seu livro I Am a Strange Loop, o pes­qui­sa­dor Dou­glas Hofs­tad­ter sugere que, se pen­sa­men­tos são padrões de ati­vi­dade cere­bral, então quando ten­ta­mos pen­sar como outras pes­soas — quando ten­ta­mos enten­der como elas sen­ti­riam ou com­pre­en­de­riam uma deter­mi­nada situ­a­ção — esta­mos, de um modo bem con­creto, simu­lando suas men­tes em nos­sos cére­bros.

Se a mente é um padrão de ati­vi­dade cere­bral, ao recriar o padrão de outra pes­soa em meu cére­bro, estou recri­ando a mente dela, ou ao menos uma parte.

Os mor­tos res­sus­ci­tam quando nos lem­bra­mos deles e, com eles, com­par­ti­lha­mos nos­sos pen­sa­men­tos.

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Con­tri­bua com a con­ti­nui­dade do Ano Zero aqui.


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Morte, o segredo desta vida
A Santa Cri­ança Morte

Carlos Orsi
Carlos Orsi é jornalista, divulgador de ciência e escritor. É autor das obras de não-ficção “O Livro dos Milagres”, “O Livro da Astrologia” e, em parceria com o físico Daniel Bezerra, “Pura Picaretagem”. Foi por duas vezes agraciado com o Prêmio Argos de melhor conto brasileiro de ficção científica, em 2013 e 2015. Seus contos já foram publicados em antologias e revistas nos EUA e no Reino Unido. Atualmente, mantém o blog carlosorsi.blogspot.com e edita a coluna “Telescópio” do Jornal da Unicamp.

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