Dia dos Mortos | Vida, diz uma anedota, é uma doença sexualmente transmissível que leva inevitavelmente à morte. As únicas certezas do Universo, pontifica um dito popular, são a morte e os impostos (alguns brasileiros miliardários parecem ter encontrado formas de escapar do Fisco, mas a Magra não parece sensível à propina).

A morte é o grande equalizador, o ponto onde todos acabaremos nos encontrando, o fim do tempo, onde todos os sonhos se tornam irrealizáveis, as ambições, irrelevantes e os arrependimentos, inúteis.

O dia em que morremos é o único dia de nossas vidas sem um amanhã. O que gera, é claro, a questão de como lidar com isso.

morte_enciclopedia-dia-dos-mortosMinha solução favorita é a sugerida por Epicuro: a morte não é um problema para o morto, porque existir é uma pré-condição para se ter problemas, e morrer é deixar de existir.

Essa não é, no entanto, uma solução popular: a vaidade humana, somada ao apelo intuitivo do princípio da indução — se todos os dias têm um amanhã, menos o último, é fácil supor que esse também terá –, gosta de fazer com que nos imaginemos eternos.

Não é só vaidade, por certo. Há também o egoísmo: não gostamos da ideia de que pessoas que são importantes para nós podem nos deixar de uma vez por todas. A ideia de que elas se mantêm disponíveis em algum outro lugar, mesmo depois de mortas, é reconfortante.

Então, a crença na vida após a morte é apenas uma mistura glorificada de vaidade e egoísmo?

Bom, essa é a minha opinião. Existem diversas outras por aí, a maioria delas levando a conclusões diametralmente opostas, e que são sustentadas por antigas tradições culturais e bibliotecas inteiras de tratados filosóficos.

E há também aqueles que, não satisfeitos com o pronunciamento de santos e sábios, apelem para a ciência.

 

Uma incursão científica no Dia dos Mortos

search-for-the-soul-dia-dos-mortosO fim do século 19 e as primeiras décadas do século 20 assistiram a um verdadeiro tsunami de testes científicos da chamada “hipótese da sobrevivência da alma”.

Foi uma onda gigante de entusiasmo que acabou quebrando contra o rochedo da realidade, produzindo muito mais espuma do que clareza: depois de descartadas as fraudes, os mal-entendidos e a autoilusão pura e simples (como a do chamado efeito ideomotor), os detritos que restaram sobre a praia não foram suficientes para convencer quem já não estivesse predisposto a tanto.

Não que não houvesse resultados intrigantes. Em seu livro Search for the Soul, o mágico americano Milbourne Christopher relata alguns episódios.

Em 1907, por exemplo, um médico do Hospital Geral de Massachusetts, Duncan McDougal, publicou um artigo em que afirmava ter conseguido detectar uma variação na massa do corpo humano no instante da morte — o que seria o diferencial causado pela partida da alma. Mas a integridade dos dados, das conclusões (e da ética) de McDougal revelou-se altamente questionável.

Em 1921, Hereward Carrington propôs o uso de uma câmara de nuvens, similar à usada por físicos para capturar a trajetória de partículas subatômicas, a fim de detectar o movimento da alma para fora do corpo de animais de teste.

Resultados iniciais aparentemente positivos, no entanto, logo foram explicados como a mera detecção dos gases da decomposição do animal, e não da “matéria intra-atômica” do espírito.

myth_afterlife-dia-dos-mortosA exposição das fraudes cometidas pela médium americana Mina Crandon — que buscava reconhecimento de seus poderes sobrenaturais pela revista Scientific American — por Harry Houdini e, depois, por um grupo de investigadores da Universidade Harvard pelo pai da parapsicologia, J.B. Rhine, na segunda metade da década de 20, pôs fim à era do grande interesse popular pelo estudo “científico” da vida após a morte.

Esse interesse seria revivido, décadas mais tarde, pelos relatos do médico Raymond Moody sobre “experiências de quase-morte”, mas o consenso científico logo decidiu que as experiências apontadas por Moody e seus seguidores podiam ser explicadas como meras alucinações.

Aliás, Near-Death Experiences Are Hallucinations é exatamente o título de um dos capítulos do livro The Myth of An Afterlife (“O Mito de uma Vida Após a Morte”).

Organizado pelo filósofo Michael Martin e pelo pesquisador Keith Augustine, o livro busca apresentar o “estado da arte” atual da ciência e da filosofia não-teológica a respeito da possibilidade da existência (e sobrevivência) da alma humana. O veredicto é negativo.

big_picture-dia-dos-mortosAlém de críticas ao trabalho de Moody e seus seguidores, os autores dos diferentes capítulos se debruçam sobre estudos a respeito de reencarnação, mediunidade e apresentam os resultados da neurociência atual que apontam que a atividade mental e a atividade cerebral têm uma conexão íntima e necessária — não se pode ter a segunda sem a primeira: se o cérebro morre, a mente vai junto.

Outras figuras eminentes do mundo científico apontam para a mesma conclusão: em seu mais recente livro, The Big Picture, o físico Sean Carroll afirma, logo na introdução, que a compreensão atual das ciências físicas permite excluir de vez coisas como “telecinese, astrologia e vida após a morte”.

O que tudo isso quer dizer?

Se você gosta de manter sua metafísica separada da sua ciência, não muita coisa. Se você gosta de invocar a ciência para justificar suas crenças pessoais, talvez um bocado.

E se você prefere manter suas crenças pessoais alinhadas ao consenso científico, talvez signifique um chamado a repensar algumas coisas e, quem sabe, um convite para estudar Epicuro.

strange-loop-dia-dos-mortosMas a mesma ciência que nos rouba a vida após a morte pode oferecer algo semelhante, um similar material, a nossos entes queridos.

Em seu livro I Am a Strange Loop, o pesquisador Douglas Hofstadter sugere que, se pensamentos são padrões de atividade cerebral, então quando tentamos pensar como outras pessoas — quando tentamos entender como elas sentiriam ou compreenderiam uma determinada situação — estamos, de um modo bem concreto, simulando suas mentes em nossos cérebros.

Se a mente é um padrão de atividade cerebral, ao recriar o padrão de outra pessoa em meu cérebro, estou recriando a mente dela, ou ao menos uma parte.

Os mortos ressuscitam quando nos lembramos deles e, com eles, compartilhamos nossos pensamentos.

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escrito por:

Carlos Orsi

Carlos Orsi é jornalista, divulgador de ciência e escritor. É autor das obras de não-ficção “O Livro dos Milagres”, “O Livro da Astrologia” e, em parceria com o físico Daniel Bezerra, “Pura Picaretagem”. Foi por duas vezes agraciado com o Prêmio Argos de melhor conto brasileiro de ficção científica, em 2013 e 2015. Seus contos já foram publicados em antologias e revistas nos EUA e no Reino Unido. Atualmente, mantém o blog carlosorsi.blogspot.com e edita a coluna “Telescópio” do Jornal da Unicamp.


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