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Por que desfazer amizades no Facebook é imaturo e contraprodutivo

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Derek BeresComentário

Você pro­va­vel­mente já viu isso: “se você não acre­dita em XXX, me exclua agora.” Remova o ‘não’ e um cená­rio seme­lhante acon­tece. Você pode pre­en­cher XXX com qual­quer coisa: vega­nismo; golpe; racismo; porte legal de armas. As ridi­cu­la­ri­za­ções diá­rias podem ser sufo­can­tes, ainda mais se você for inca­paz de geren­ciar as opi­niões dos outros além da sua.

Parte disso é com­pre­en­sí­vel. Todos nós temos for­tes con­vic­ções sobre qual­quer número de ques­tões. Mui­tas vezes, uma ou duas ques­tões assu­mem posi­ção supe­rior no nosso catá­logo men­tal de coi­sas para se pre­o­cu­par.

Algu­mas são irri­tan­te­mente benig­nas — gra­má­tica apro­pri­ada nas mídias soci­ais, por exem­plo. Outras são bas­tante rele­van­tes e poten­ci­al­mente peri­go­sas, tais como os efei­tos rever­be­ra­dos do racismo ou a pró­xima pes­soa a ser nome­ada pre­si­dente.

Con­teúdo é quase irre­le­vante aqui, no entanto. O que esta­mos dis­cu­tindo é a ati­tude de alguém que diz: se você não con­corda comigo, não quero ver ou ouvir de você nova­mente! Estes mimos têm sido bem docu­men­ta­dos em campi uni­ver­si­tá­rios nos últi­mos anos. Ainda esta men­ta­li­dade não é res­trita às uni­ver­si­da­des. A ati­tude é apa­rente em todos os luga­res.

O antro­pó­logo bri­tâ­nico e psi­có­logo evo­lu­ci­o­nista Robin Dun­bar é famoso por seu ‘número’, que é 150. Ele estima que esta é a exten­são das rela­ções que os seres huma­nos são capa­zes de acom­pa­nhar sem tri­bu­tar limi­tes cog­ni­ti­vos.

Em todos os luga­res ele olhou pro­vas garim­pa­das de fora: tri­bos neo­lí­ti­cas da Meso­po­tâ­mia; aldeias do século XI, no país de Gales; corpo do exér­cito romano antigo. Seu tama­nho médio de grupo era de 148, e para sim­pli­fi­car arre­don­dou para cima.

Den­tre as dobras de sua teo­ria encon­tra-se outra ideia, menos conhe­cida. Como os seres huma­nos evo­luí­ram de pri­ma­tas é uma ques­tão de longa data de con­ten­ção. Dun­bar acre­dita que a inte­ra­ção social é o prin­ci­pal con­du­tor.

Isto faz sen­tido, dado os outros can­di­da­tos: lin­gua­gem, uma comu­ni­ca­ção avan­çada que depende de outros para ouvir e falar; nutri­ção, que avan­çou enor­me­mente gra­ças à caça do grupo; tec­no­lo­gia, mesmo a sim­ples fer­ra­men­tas de pedra, que exige entra­das e debate.

Se o tama­nho médio da tribo é de 150 pes­soas, faz sen­tido que você queira se dar bem com todas elas — para pro­te­ção, com­par­ti­lha­mento, con­tar his­tó­rias, jogar. Claro, há sem­pre outras tri­bos com que se pre­o­cu­par, que é de onde se ori­gina o fenô­meno de unfri­en­ding.

Se você acre­dita em XXX, você não é nem humano — um sen­ti­mento nas raí­zes da cul­tura e da reli­gião para incon­tá­veis tempo. Nojo é uma emo­ção forte com van­ta­gem evo­lu­tiva. Aplicá-lo cega­mente não é útil, no entanto.

Quanto maior sua rede social, mais fra­cos seus laços. Cone­xões ínti­mas geral­mente são con­ta­das em uma, tal­vez duas, mãos. Geren­ciar meus cinco mil ami­gos no Face­book e milha­res de outras cone­xões de pági­nas? Não os reco­nhe­ce­ria se desse de cara com eles.

Mas — e isto é impor­tante — se eles men­ci­o­nam que esta­mos conec­ta­dos nas redes, é feita uma liga­ção emo­ci­o­nal. Há algum ponto de refe­rên­cia, não importa quão obs­curo, que ime­di­a­ta­mente nos empurra atra­vés de uma bar­reira de incer­teza. Pelo menos, ini­cia-se uma con­versa.

Nós somos soci­ais: dois ter­ços de todas as con­ver­sas é fofoca, sobre os pre­sen­tes ou sobre os que estão ausen­tes.

O pro­fes­sor de ges­tão de Whar­ton, Eric Fos­ter, des­co­briu que as mulhe­res fofo­cam não mais do que homens. Dada a quan­ti­dade de dis­cus­são que se ouve no ves­tiá­rio sobre este ou aquele trei­na­dor ou joga­dor, isto não é sur­pre­en­dente. Os homens sim­ples­mente esco­lhem outra pala­vra que não fofoca, mas isso não muda nada.

A mai­o­ria das dis­cus­sões sobre des­fa­zer ami­za­des é sobre por que você deve­ria fazer isso. Nesta ini­ci­a­tiva um tanto juve­nil, te man­dam se des­pe­dir de polí­ti­cos fala­do­res, pes­soas nega­ti­vas, caren­tes de aten­ção e, meu favo­rito, “quem te faz sen­tir real­mente mal sobre si mesmo.”

Isso é exa­ta­mente quan­tas pes­soas rea­gem a ideias dife­ren­tes das suas. Se um espe­lho é man­tido até que me faça ques­ti­o­nar algo sobre mim, pre­pare uma pedra. Jogue. Basta não olhar.

O que está sendo per­dido nesta era do unfri­en­ding é o debate. O que pode pare­cer senso-comum a você pode não ser assim para os outros. Ou eles podem ter uma opi­nião dife­rente.

Não espero que nenhuma crença minha seja com­par­ti­lhada por outras 7 bilhões de pes­soas neste pla­neta, nem mesmo entre meus 150 ami­gos mais pró­xi­mos. Dis­cus­são e diá­logo sin­cero nos torna mais for­tes.

Isso é impos­sí­vel quando você está cli­cando no botão de des­fa­zer ami­zade ao pri­meiro sinal de perigo.

Como eu escrevi sobre edu­ca­ção, nos­sos cére­bros são quase total­mente for­ma­dos pelos seis anos; demora outros vinte anos para se tor­na­rem total­mente mie­li­ni­za­dos — o farto iso­la­mento que conecta todas as regiões neu­rais como uma auto-estrada.

O que isto sig­ni­fica é que nosso cére­bro rep­ti­li­ano e emo­ci­o­nal não está con­ver­sando regu­lar­mente com nosso cór­tex pré-fron­tal, a sede da razão, uma região impli­cada na teo­ria das rela­ções soci­ais de Dun­bar. Pouco é mati­zado; Vamos ata­car o que nos frus­tra. Pior, pode­mos nos escon­der dele.

Ide­al­mente, a edu­ca­ção é uma busca ao longo da vida. Isto sig­ni­fica che­gar a um acordo com visões que desa­fiam a sua pró­pria.

Jun­tando-se com outras pes­soas de opi­niões dife­ren­tes, você pode ter seu ponto de vista refor­çado. Você pode se sen­tir neu­tro. Você ainda pode mudar de ideia, algo que tem o poten­cial de refor­mu­lar o curso da sua vida.

Nada disso acon­tece quando a sín­drome de des­fa­zer ami­za­des des­trói seus pen­sa­men­tos. Tal­vez alguns cére­bros este­jam muito mie­li­ni­za­dos — o iso­la­mento não está per­mi­tindo que todo o ar passe. Isso é uma ver­go­nha. O debate é um com­po­nente essen­cial da cons­tru­ção de uma comu­ni­dade. Quando está per­dido, bem, então é muito mais.


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Derek Beres
Derek Beres, um autor de Los Angeles, produtor musical e instrutor de ioga/fitness, olha um leque de questões que afetam várias comunidades espirituais do mundo em uma tentativa de peneirar hipérboles e encontrar soluções verdadeiramente universais para problemas prevalentes que a humanidade enfrenta no século XXI.

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