Deixe que lhe apresente uma tribo. Ela vive no Brasil, no Estado do Acre, em uma enorme reserva ambiental. Ali, há índios que vivem totalmente isolados de nossa civilização. Jamais entraram em contato com nossa sociedade.

São pessoas que não só vivem uma vida considerada primitiva por nós, mas que também têm uma concepção de mundo que julgamos “primitiva”. É possível que eles suponham que o mundo não vá muito além de sua floresta, ou que o mundo seja ele próprio uma enorme floresta. De qualquer forma, em algum momento essa concepção de mundo plano encontra um limite, uma borda, um obstáculo. Os mitos de seus ancestrais devem descrever algo que une este mundo ao firmamento e suas estrelas, e é isso.

Às vezes, um avião do órgão governamental responsável por cuidar da reserva passa por cima dessa tribo. É possível que os índios se assustem, talvez suponham ser um grande pássaro ou um ser mágico. De qualquer forma, o caso logo é esquecido, e os índios voltam a seus afazeres cotidianos.

Quando sobrevoam uma dessas tribos , os agentes governamentais tiram algumas fotos. Esta é uma das imagens, tirada em 2008. Você está nela:

Perdoe a brincadeira. É que contarei uma história para que você ajude na solução de um dilema. E, nessa história, você fará de conta que é um índio dessa tribo.

O DILEMA

Imagine que, dias depois dessa foto, você por algum motivo se perca do resto da sua tribo e se encontre com agentes governamentais que estão na floresta. E que, por alguma confusão quanto à regras burocráticas, os agentes se confundam e decidam levar você junto com eles. Na sede da repartição pública, você pega uma gripe e quase morre, pois não tem defesas contra o vírus da gripe. A partir desse ponto, o caso todo se transforma numa bagunça política, com interferência de entidades internacionais e da mídia. No fim, o governo decide que você deve ser introduzido à civilização imediatamente.

Quando você se dá conta, está visitando a capital do país e a seguir suas metrópoles, e logo depois atravessa, em uma viagem de avião, um enorme oceano jamais suspeitado para ir à Europa e depois à América do Norte. E assim, em pouco tempo, num intervalo de alguns meses, você observa os carros, os celulares, os computadores, a internet, os shoppings e os arranha-céus iluminados.

E cientistas bem intencionados lhe explicam o mundo. Eles contam sobre os continentes e os oceanos, mostram fotos da Terra esférica e azul, explicam o sistema solar, as galáxias e os buracos negros. Mostram-lhe o poder das armas nucleares e o falam da viagem à Lua. Por fim, contam sobre o transumanismo, a inteligência artificial e as pesquisas que esperam estender a vida humana indefinidamente.

Mas então, de repente, o governo cai. São eleitos os candidatos de outro partido, com diferente ideologia. Nos primeiros dias, as novas autoridades decidem que o mais recomendável é restituir você à origem. E isso é feito imediatamente.

De um dia para o outro, você é devolvido à floresta amazônica, numa clareira próxima à sua tribo.

Neste momento da nossa história, o dilema é complexo mas pode ser resumido assim: o que você faria? Você contaria o que viu? Ou se calaria sobre a proximidade de pessoas estranhas que portam vírus capazes de exterminar toda sua tribo? Mais ainda: como e o quanto você contaria? Por onde, afinal, iria começar?

UMA INVESTIGAÇÃO

Aqui será apresentada uma verdade muito mais assombrosa do que aquela que o índio de nossa história poderia contar a seus amigos e familiares. Mais do que assombrosa, essa verdade é poderosa, pois dá acesso a uma chave para a porta que revela todos os todos os segredos, uma chave capaz de transformar não só a você, mas ao mundo inteiro ao seu redor.

Essa sequência de textos é resultado de uma decisão que aposta na capacidade humana de investigar e aceitar a verdade, por mais contraintuitiva que ela seja. E assim é feito não para entreter ou assombrar uma plateia, mas para expor ao leitor, futuramente, os riscos que corre e os benefícios que pode obter do aprendizado da verdade.

Portanto, nada além do fundamental será revelado [1]Há outras coisas, mas não convém mencioná-las já que não colaboram para a compreensão do alerta final sobre o “vírus” para o qual a humanidade não tem defesas..

Para começar a explicar a verdade, nada melhor que deixar ao leitor perguntas que ele próprio deverá tentar responder, a fim de que aprenda a verdade por si próprio. Acompanhando a gradual revelação da verdade como detetive que junta as pistas de uma investigação, o leitor aos poucos se familarizará com uma realidade assombrosa demais para ser assimilada de uma só vez.

Imaginemos, assim, que vamos abrir os arquivos de um crime antigo que até agora permaneceu sem solução. Vamos examinar todas as pistas que os detetives recolheram sobre o caso. Apresentaremos essas pistas de forma didática e deixaremos que o leitor tenha uma semana para pesquisar e pensar por si próprio.

No próximo texto, apresentaremos a verdade.

Um detalhe importante: este texto e os subsequentes são, sem dúvida, os mais importantes textos já publicados na história e alguns dos mais importantes textos que você lerá em sua vida. Se necessário e facilitar a leitura, busque imprimi-lo. Como são várias as pistas, dedique-se a uma pista por dia, ou então dedique-se a apenas duas ou três dessas pistas: todas elas tratam da mesma verdade, mas de “perspectivas” diferentes.

Vamos, assim, às pistas da investigação que revelará a verdade.

AS PISTAS


PISTA UM: O CASO DA DUPLA FENDA

Em nossa investigação, inicialmente os detetives tentaram iluminar a cena do crime. Assim, eles colocaram em fila partículas de luz (fótons) e dispararam uma por vez em direção a um muro. Entre a fonte do disparo e o muro, há uma barreira, e na barreira há duas pequenas fendas equidistantes.

O que se espera é que muitas dessas partículas, quando disparadas, batam na barreira por todos os lados, inclusive entre as fendas, e jamais atinjam o muro. Tal como bolas de boliche ou bilhar.

As únicas partículas que chegarão ao muro, portanto, são aquelas que passarem por uma de suas duas fendas.

Dessa forma, após mil disparos, espera-se que o resultado no muro seja algo assim, um padrão correspondente às duas fendas:

Mas não é isso o que se obtém. O que se constata é que, aos poucos, os pontos vão formando um outro tipo de padrão, da seguinte forma:

Assim, após mil disparos de partículas, o resultado no muro é um padrão de listras:

O que está acontecendo? Parece que algo interfere com o caminho de cada partícula, “forçando-as” a mudar de trajetória e se aglomerar não em uma das duas regiões do muro que correspondem ao espaço das duas fendas, mas em uma região que, no conjunto com as demais partículas, forma um estranho padrão de listras. Não há como as partículas lançadas interferirem umas com as outras, pois são disparadas com um intervalo de tempo suficiente para garantir-se que não exista nenhuma influência de uma na trajetória de outras.

Os detetives propuseram uma teoria, e que chegou bem próxima da verdade por um caminho tortuoso. Segundo essa teoria, as partículas de luz ao mesmo tempo se comportavam como partículas e como ondas. De algum modo, uma partícula sai da fonte do disparo na forma de uma onda e acerta as duas fendas. E, de algum modo, essa onda e as restantes da série formam pontos que aos poucos constroem o padrão de listras. Algo mais ou menos assim:

É curioso que algo seja disparado como partícula, se propague como onda mas acabe deixando apenas um ponto no muro, como uma partícula. Mais curioso é que esse fenômeno não é exclusivo das partículas de luz, os fótons. Posteriormente descobriu-se que todas as partículas, mesmo átomos, comportam-se como onda e partícula.

E que tipo de ondas seriam essas? Afinal, a ondas que conhecemos no mundo macroscópico são vibrações que passam por um meio material, agitando-o. As ondas do mar são energia cinética agitando o meio que é a água, as ondas de som reverberam deslocando ar ou outro meio material. Mas se estamos investigando as partículas que compõem a própria matéria, não há meio dessa onda se propagar no vácuo, pois no vácuo não há nada.

Os detetives então responderam: “é uma onda de probabilidade”. E probabilidade de que? De a partícula estar em determinado lugar. Assim, foi introduzida a matemática estatística como instrumento para os detetives fazerem o retrato falado mundo das partículas que compõem você e tudo ao seu redor.

E foi assim que os detetives acertaram e ao mesmo tempo erram o alvo.

Em resumo, partículas são enfileiradas e disparadas uma por uma a certos intervalos e surge no muro um padrão de interferência que lembra uma onda, mas que pode não ser uma onda. É como se a partícula no momento em que é disparada estivesse recebendo a interferência de alguma coisa invisível, que muda a sua trajetória.

Os detetives ficaram confusos, e continuaram a buscar pistas.


 

PISTA DOIS: O CASO DA ESCOLHA ADIADA

Como vimos no Caso da Fenda Dupla, os detetives constataram que partículas lançadas em sequência acabam formando um padrão de listras, quando deveriam formar um padrão de pontos em duas regiões correspondentes às fendas.

A questão então, tem a ver com alguma forma de interferência na trajetória das partículas. Portanto, pensaram os detetives, se investigarmos a trajetória de cada partícula “fotografando” sua posição em momentos aleatórios de sua viagem até o muro, poderemos ter uma pista sobre o que que está interferindo nesse caminho.

Para começar, os detetives decidiram descobrir por qual das duas fendas cada partícula passa antes de atingir o muro e formar o padrão de listras. Saber isso já ajudaria a ter uma ideia do que está acontecendo. Se a mesma partícula fosse fotografada ao mesmo tempo passando pelas duas fendas, eles confirmariam que ela se comporta como uma onda que bate contra uma barreira.

Assim, decidiram tirar fotos simultâneas das duas fendas no exato momento em que cada partícula deveria passar por uma delas.

Feitos mil disparos, os detetives pegaram os resultados da detecção. Com as fotografias nas mãos, constataram que cada partícula passava apenas por uma fenda, e não pelas duas ao mesmo tempo. Isso não correspondia à teoria de que a partícula se comportava como uma onda. Algo estava errado.

Mas essa não foi a maior surpresa. É que ao erguerem seus olhos das fotografias e olharem para o muro, o padrão que os detetives viram foi esse:

Mas isso é estranho, pois uma simples fotografia, tirada a distância, não poderia interferir no experimento. Uma simples detecção não poderia afetar a presença do misterioso elemento ou fator que interfere na trajetória da partícula para que forme com as demais o padrão de listras.

Mas a pista fica mais confusa ainda. A seguir, os detetives se perguntaram: “E se criássemos um mecanismo no qual podemos a qualquer momento levantar o muro e colocar no seu lugar um detector que nos dirá de qual fenda a partícula veio? Assim, podemos acionar o mecanismo só depois que a partícula já passou pela fenda e completou toda a sua trajetória, e só nesse momento é que faremos a detecção.”

A escolha sobre se haverá detecção ou não é deixada para o último instante. Logo, não haveria possibilidade de a simples detecção interferir com trajetória da partícula.

O resultado foi assombroso: mesmo decidindo fazer a detecção no último momento, isso de alguma forma eliminava a “interferência invisível” e fazia com que a trajetória da partícula fosse a simples trajetória de uma “bola de boliche”.

A nenhum detetive racional (na verdade, a nenhum ser humano minimamente inteligente) pode escapar a conclusão do experimento: aparentemente, o ato de detectar a partícula no momento presente interfere no passado da partícula, alterando uma trajetória que já foi completada.

Esse experimento é ainda mais curioso, pois o mesmo resultado é constatado se as partículas forem emitidas por uma fonte situada a milhares de anos-luz de distância, como uma galáxia. Ou seja, se partículas de luz emitidas por uma galáxia muito distante atingirem um muro aqui na Terra, formarão o padrão de listras. Porém, se no último momento houver a detecção no muro (ou em qualquer local e momento), isso parece mudar toda a trajetória da partícula para trás, alterando o seu passado remoto, desde que foi emitida pela galáxia distante, de modo que o padrão de listras some.

O que está acontecendo? Tudo isso parece mágico, misterioso, mas não é. E quando você descobrir e entender a resposta, tudo ficará óbvio, e você se perguntará porque você e os detetives não pensaram nisso antes.


 

PISTA TRÊS: O CASO DE ZENÃO

Algo você precisa ter em mente já desde o começo: os detetives descobriram que as partículas que compõem o seu corpo e tudo o que você vê ao seu redor não existem em um ponto específico do espaço. Cada partícula existe, segundo os detetives, ao mesmo tempo em vários pontos do espaço, numa nuvem ou onda de probabilidades.

Essa multiplicidade de posições de uma mesma partícula possibilita inclusive que essa partícula ocupe duas posições no espaço que quase coincidem uma com a outra.

Uma só partícula está em sobreposição consigo mesma, portanto, ocupando várias posições no espaço ao mesmo tempo. É exatamente isso que ocorre, e os detetives têm um nome peculiar para descrever esse comportamento: uma partícula é uma “função de onda”, ou seja, uma onda de probabilidades de encontrarmos uma partícula em determinado lugar entre inúmeros lugares possíveis nos quais ela realmente está posicionada.

Mas os detetives tem como “fixar” uma posição específica para uma partícula ao medi-la, eliminando todas as outras possíveis posições que compõem sua nuvem de probabilidade. Nesse processo, eles precisam renunciar ao conhecimento sobre o “estado da energia” da partícula, mas isso aqui não importa: o que importa é que é possível reduzir toda essa sobreposição de partículas a uma só posição definida, fazendo uma medição que “fixa” sua localização, sua existência. Os detetives chamam isso de “colapso da função de onda”: a “nuvem” de possíveis posições ocupadas ao mesmo tempo pela partícula deixa de existir, e ela passa a ocupar uma só posição no espaço.

Inicialmente, quando foi descoberta a pista do Caso da Dupla Fenda, achava-se que apenas as partículas de luz tinham um comportamento dual, ao mesmo tempo sendo partícula e onda. Posteriormente, porém, constatou-se que toda a matéria tem esse comportamento. Tudo, inclusive a matéria que compõem o mundo inteiro ao seu redor, até o ar que você respira e seu corpo, comporta-se “como uma onda”, dizem os cientistas.

Várias funções de onda de um só elétron.

Mas como isso é possível? Como é possível que as coisas ao nosso redor existam, no mundo microscópico, em vários lugares ao mesmo tempo? Como é possível que as partículas fundamentais que compõem você e tudo ao seu redor existam na natureza enquanto probabilidade estatística, e não enquanto objetos reais? E como é possível fazer, em laboratório, uma dessas partículas entrar em colapso e ser definida em uma posição?

Só que o enigma não termina aí. É que, após uma partícula entrar em colapso e definir-se em uma só posição, ela espontaneamente tende a voltar com o tempo a ser uma onda de probabilidades, ocupando vários lugares ao mesmo tempo. A pista que analisamos aqui, chamada “Efeito de Zeno” ou “Efeito de Turing” (o “inventor” dos computadores modernos) é que a única forma de manter uma partícula em uma só posição definida ao longo do tempo é fazendo contínuas medições: o detetive mede a posição da partícula, logo depois mede novamente, e novamente, e novamente e assim por diante. Só assim consegue “fixar” a partícula no espaço.

Como isso ocorre? Se tais coisas ocorrem com todas as partículas que compõem absolutamente tudo o que vemos, como explicar que os objetos do mundo real não ocupam vários lugares ao mesmo tempo? Como esse tipo de constatação é feita no mundo microscópico, erroneamente pensa-se que esse tipo de coisa não é percebido no mundo macroscópico pois é algo muito “pequeno”, “minúsculo” para que possamos perceber. Mas não é assim, pois existe algo chamado “linearidade”: um conjunto de pequenas coisas que estão em vários lugares ao mesmo tempo (e em vários estados de energia ao mesmo tempo) não podem se combinar para formar coisas maiores que estão localizadas em um só lugar ao mesmo tempo. Essas coisas maiores também deveriam, numa escala macroscópica, serem percebidas como uma nuvem de probabilidades. Mas não é o que percebemos.

Os detetives decidiram juntar mais pistas.


 

PISTA QUATRO: O CASO DAS MOEDAS ENTRELAÇADAS

Toda partícula que forma o seu corpo e tudo ao seu redor tem uma propriedade fundamental relacionada ao magnetismo, e que os detetives batizaram de spin. Trata-se de algo muito mais importante do que esse minúsculo nome permite supor, mas por hora basta dizer que o estado de spin de uma partícula pode ter só dois valores bem definidos: ou é um, ou é outro. A esses valores os detetives deram o nome de “para cima” e “para baixo” (outra denominação equivocada, mas prossigamos).

É como se os detetives tivessem nas mãos um punhado de moedas, e cada moeda só pudesse cair com o lado cara ou o lado coroa voltado para cima. No mundo real, essas moedas estão sempre ao mesmo tempo cara e coroa, como se estivessem girando no ar após serem jogadas:

Mas em seu laboratório, os detetives conseguem fazer com que essas moedas caiam no chão, a fim de ver qual das faces ficou voltada para cima, se cara ou coroa. Esse ato de “jogar a moeda” para que caia com “uma das faces voltada para cima” é chamado de “medição”.

Outra coisa que os detetives podem fazer é entrelaçar duas ou mais moedas. O entrelaçamento é uma propriedade da matéria: partículas que interagem parecem se entrelaçar em um sistema no qual o estado de uma partícula nunca é individual e definido, mas existe apenas em relação ao estado das outras partículas.

Para efeitos didáticos, é como se os detetives juntassem duas moedas com uma estranha propriedade: embora não se saiba nunca de antemão qual a face de cada moeda ficará para cima após a queda, sabe-se que sempre que uma das duas moedas cair com a face cara para cima, a outra cairá com a face coroa. Estão entrelaçadas.

E é aí que as coisas ficam divertidas. Os detetives decidiram colocar as duas moedas em envelopes e as enviar para destinos diferentes: uma foi para a detetive Alice, que está em Amsterdã, e outra foi para o detetive Bob, que está em Bangladesh. Chegando a seus destinos, Alice e Bob simultaneamente jogam as duas moedas, e quando uma delas cai com a face cara virada para cima (spin no estado “para cima”) a outra, automaticamente, sem que nem mesmo um bilionésimo de segundo transcorra, fica com a face coroa virada para baixo (spin no estado “para baixo”).

Esse experimento é ainda mais curioso, pois o mesmo resultado será observado, instantaneamente, mesmo que uma partícula seja colocada em outra galáxia, a três milhões de anos-luz de distância.

Mas nada há de fantasmagórico, mágico e místico na explicação. A realidade, em toda sua força lógica, é mais assombrosa e surpreendente do que a imaginação dos homens.

 


 

PISTA CINCO: O CASO DO ENTRELAÇAMENTO ADIADO

Em 2011, detetives descobriram uma nova pista.

Vimos que os detetives conseguem entrelaçar duas moedas entre si. Em outras palavras, duas partículas entrelaçadas estão de tal forma relacionadas uma com a outra que o estado de uma delas determina instantaneamente o estado da outra.

Mas os detetives decidiram pegar quatro partículas e fazer um teste. Inicialmente, entrelaçaram as partículas em dois pares distintos. É como se pegassem dois pares de moedas, e fizessem que o par A ficasse entrelaçado entre si, e o par B também ficasse entrelaçado entre si. Entre os dois pares não há qualquer relação.

A seguir, os detetives colocam uma das moedas do par A num envelope e remetem para a detetive Alice, que mora em Amsterdã. E colocam uma das moedas do par B num outro envelope e enviam ao detetive Bob, que mora em Bangladesh. As duas moedas restantes, uma do par A e outra do par B (e que não estão entrelaçadas e nem em qualquer relação entre si), são enviadas para o detetive Calvin, que está na Califórnia.

Alice e Calvin são instruídos a jogar suas moedas e anotar com qual face cairão, enviando a seguir seus resultados num envelope também para Calvin. Da pista anterior, sabemos que se a moeda de Alice, pertencente ao par entrelaçado A, cair com a face cara para cima, necessariamente a moeda do par A enviada a Calvin estará coroa. O mesmo em relação a Bob e sua moeda do par B.

A diversão começa com o detetive Calvin. Ele está na Califórnia, com as duas moedas que recebeu, uma do par A e outra do par B, e chegaram também os envelopes que registram os resultados de Alice e Bob, sobre se suas moedas caíram cara ou coroa.

Lembre-se que as duas moedas enviadas para Calvin não tem qualquer relação uma com a outra: uma é do par A e outra é do par B – os pares A e B é que estão entrelaçados entre si. Mas Calvin pode decidir, depois de Alice e Bob já terem jogado suas moedas, se vai ou não entrelaçar aquelas moedas que recebeu, criando ou não um par entrelaçado “C” com elas e jogando-as para ver qual face cai para cima.

O surpreendente é que se Calvin decidir entrelaçar suas moedas num par C e jogá-las para ver quais faces ficaram voltadas para cima, ao abrir os envelopes descobrirá que os resultados obtido por Alice e Bob formam uma combinação que inclui a combinação do par C que foi criado depois de Alice e Bob jogarem suas moedas. Se Calvin decide não criar um entrelaçamento entre as moedas inicialmente independentes dos pares A e B que recebeu e jogá-las, os resultados informados por Alice e Bob apenas refletirão o entrelaçamento dos pares A e B, mas serão aleatórios, não relacionados entre si.

Dito de outra forma, se Calvin decidir entrelaçar as moedas que recebeu de modo que sempre caiam com faces opostas para cima, da mesa forma que as moedas de Alice e Bob, ao jogar seu par e abrir os envelopes enviados pelos outros dois detetives com os resultados verá que algo assim ocorreu:

A combinação de moedas registradas por Alice e Bob no passado, e em locais distantes da Terra, concordará com a decisão de Calvin feita no futuro.

Mas como isso é possível? Como Calvin pode alterar o passado e definir como as moedas de Alice e Bob caíram, a depender de sua decisão de entrelaçar ou não as moedas?

Na verdade, Calvin não altera o passado. É outra coisa que está acontecendo.

Os detetives continuaram a juntar pistas.


 

PISTA SEIS: O CASO DO BACKFLOW E DO TUNELAMENTO

É possível que uma bola de boliche, quando lançada por você, por vezes não siga na direção do lançamento, mas siga direção contrária, retornando até você sem que qualquer outra força atue sobre ela? É possível que uma bola de boliche lançada contra uma parede de concreto ultrapasse essa parede e chegue ao outro lado?

Os detetives descobriram duas pistas que revelam respostas positivas para essas duas perguntas, no mundo das partículas que compõem tudo o que existe ao nosso redor.

Por vezes, uma partícula arremessada para a direita toma o caminho inverso e segue para a esquerda, sem encontrar nenhuma outra força atuante. Esse é o Caso do Backflow.

Esse efeito é verificado na situação em que uma partícula é considerada uma onda de probabilidades, ou seja, uma “nuvem” de possíveis posições em que a partícula pode estar.

A seguir, essa onda ou nuvem de probabilidades é arremessada na direção de um detector, de modo que haja uma diferença de velocidade entre porções da nuvem. Ou seja: certas probabilidades de posição da partícula movem-se muito rapidamente para a direita. Nessa situação, os detetives constatam que parte dessa nuvem de probabilidades toma o sentido contrário, em uma velocidade menor. Como a partícula pode estar em qualquer dessas posições, às vezes ela estará realmente indo no sentido oposto ao que foi empurrado.

Da mesma forma, por vezes uma partícula arremessada contra uma barreira intransponível ultrapassa estranhamente essa barreira.

Claro, se você atirar uma bola de boliche com uma força sobre-humana, ela fará um buraco na barreira como uma bala que é disparada. E isso ocorre porque, nessa hipótese ,você deu muita energia à bola. Mas no caso observado pelos detetives, a partícula não possui essa energia, e nenhuma força perceptível impulsiona-a com força suficiente para que vença o obstáculo. E no entanto ela vence.

Esse é o Caso do Tunelamento, e é explicado também em termos de um comportamento semelhante ao de uma onda de probabilidades: há uma probabilidade, ainda que remota, de a partícula ultrapassar a barreira intransponível, e é isso o que às vezes acontece. Mais estranho ainda, por vezes os detetives detectam a partícula até mesmo dentro da barreira intransponível.

Uma pequena parte da onda de probabilidade que é uma partícula transpõe a barreira instransponível.

Mas tudo isso é muito estranho. Objetos da vida real não têm esse comportamento. Se você empurra um objeto, ele tende a seguir a direção na qual você empurrou, e não ir de encontro a você. Se um objeto encontra um obstáculo intransponível, ele não o ultrapassa. Porém, os detetives encontraram essas estranhas pistas, e ambas os deixam realmente confusos. Eles têm certeza de que acontece, têm o modelo matemático que descreve o que constataram, mas não sabem o motivo de as partículas se comportarem assim.

E assim terminamos a apresentação das pistas. Agora é sua vez de investigar.


 

DICAS PARA O DETETIVE AMADOR

Você tem pelo menos uma semana (ou quanto mais tempo quiser) para investigar essas pistas por si mesmo e tirar suas próprias conclusões. Mas faça sua investigação observando as seguintes orientações:

1) Fique afastado de explicações “místicas” ou “mágicas”.

Aqui nada há de místico, mágico ou “fantasmagórico”. Tudo é lógico, tudo é racional. A aparente irracionalidade tem origem na natureza contraintuitiva da verdade. Einsten, assim como todo o pesquisador sério, realmente cogitou que esses experimentos demonstravam que a realidade só existe quando a consciência humana está presente. E essa suposição foi a festa dos “espiritualistas” e “místicos”.

Mas o que é o “espiritual”, afinal, senão apenas uma palavra criada para suprir uma lacuna de entendimento, uma etiqueta que se coloca em algo que ainda não foi compreendido adequadamente? Há uma lacuna, mas não é de racionalidade, é de aceitação emocional. Existe um modelo matemático aclamado e reconhecido por toda a comunidade científica (a Equação de Wheeler-DeWitt-Schrödinger) que descreve tudo o que está acontecendo. O problema é que a compreensão do que está sendo desenhado por esse modelo matemático e pelos experimentos acima descritos tem implicações que contradizem a percepção que a tribo de índios têm sobre si próprios e sobre o mundo ao seu redor – eles ainda imaginam que o mundo é plano, tem bordas e é composto de uma enorme floresta.

2) Não se intimide com jargões e fórmulas matemáticas, nem confie na palavra de um especialista tão somente por tal pessoa ser uma “autoridade”.

Diante de uma opinião, mesmo de um especialista, tende descobrir o que basicamente está sendo dito pela pessoa, por trás de seus jargões e tecnicidades. Em suma, pense por você mesmo, com atenção.

Lembre o que o físico David Mermin disse sobre o comportamento da comunidade científica diante das pistas descritas acima. Ele constatou que essa comunidade se divide em dois grandes grupos: o minoritário, composto de pessoas que se realmente ficam perturbadas diante desses experimentos, e o majoritário, composto de pessoas que não ficam perturbadas; e quando se pergunta às pessoas desse grupo majoritário porque não ficam perturbadas, metade delas apresenta uma explicação que demonstra que não entenderam direito o problema, enquanto a outra metade não apresenta qualquer explicação.

Apesar de toda a parafernálica técnica, jargões e matemática, essencialmente os resultados são os descritos acima, e os cientistas estão tão perdidos quanto um leigo pode estar.

3) Tome cuidado com explicações precipitadas.

Lembre-se do índio daquela tribo. O índio que vê na praia um navio distanciar-se e sumir no horizonte tentará descrever o que viu em termos de o navio ter caído na borda extrema do mundo ou ter afundado. Ou seja, em sua explicação, ele usará comparações inadequadas e baseadas no seu mundo conceitual limitado, e isso pode tornar a compreensão dos fatos mais confusa ainda.

Portanto, atenção às conclusões precipitadas e às descrições que misturam os fatos observados com essas conclusões. Há vários vídeos na internet que ilustram o experimento das duas fendas por exemplo, e todos são úteis até certo ponto, mas cuidado ao definir onde terminam os fatos, as pistas, e onde começam as comparações precipitadas.

4) Lembre-se do Teorema de Bell.

Não é raro ouvir um detetive desavisado dizer: “calma, um dia, todas essas pistas estranhas serão explicadas dentro dos limites daquilo que conhecemos; no fundo, nada disso é como parece ser; falta só encontrarmos o criminoso que armou todas essas pistas desse jeito aparentemente absurdo só para nos confundir; quando isso acontecer, iremos reformular a investigação e poderemos dormir aliviados”. O “criminoso” tem um nome técnico – é chamado de “variável oculta”. Isso significa que muitos detetives acreditam que todos esses mistérios entrarão nos eixos da normalidade conceitual quando se descobrir alguma coisa ainda não identificada e que eliminará todos os mal-entendidos.

Mas o detetive John Bell demonstrou, de forma irrefutável, em 1964, que simplesmente não existe variável oculta capaz de explicar essas pistas. Não está faltando nenhuma peça no quebra-cabeça. Não há mistério no modelo matemático e nas observações – o mistério reside na radical diferença entre o mundo macroscópico que percebemos com nossos olhos (e julgamos ser a realidade) e o mundo microscópico que compõem tudo ao nosso redor.

Todos os experimentos acima foram realizados por pessoas perfeitamente capacitadas e com equipamentos perfeitamente capazes de recolher com precisão os resultados que foram obtidos. Ou seja, não há qualquer deficiência na compreensão das pessoas, não há qualquer deficiência nos limites do equipamento. Não há nenhuma peça faltando na realidade observada. A peça que falta está em nossa capacidade de compreender o cenário que estamos vendo.


 

Para terminar, convém mencionar algo importante: essas não são as únicas pistas existentes sobre a verdade a ser revelada. Há outras pistas, “macroscópicas” por assim dizer. Porém, quando essas pistas surgem, as tratamos como sendo outra coisa, diferente do que são. Mencioná-las aqui não é recomendável, e sequer seguro, além de ser absolutamente desnecessário para o aprendizado.

As pista apresentadas já são suficientes, e tudo o mais pode decorrer delas.

Prepare-se para descobrir que tudo o que você imaginava sobre você e o mundo estava errado. Mais ainda, prepare-se para o alerta que virá.

Notas   [ + ]