Este texto apresenta realmente a descoberta mais importante da humanidade. E não apresenta com o fim superficial de satisfazer a curiosidade do leitor. A meta é preparar terreno, remodelando a noção do leitor sobre o que é realidade, onde ele realmente está e e quem ele realmente é, para que, futuramente, possam ser apresentadas implicações práticas e importantes para seu futuro e o futuro da humanidade.

Considerando isso, este texto não é longo. Considerando isso, é razoável esperar do leitor paciência, atenção e tempo para uma leitura cuidadosa. Nesta sociedade, muito tempo de vida é desperdiçado em assuntos banais e distrações fúteis. Mas não é possível assimilar toda a potência e grandiosidade da descoberta mais importante da humanidade em uma leitura aos saltos e às pressas. Quem teria tempo para aprender uma verdade transformadora? A pressa e a precipitação são a norma nesta sociedade.

Se você decidir não ler este texto com atenção e paciência, por favor, prive-se de emitir opinião precipitada. Se ler, assimile as ideias por alguns dias, e medite antes de chegar a uma conclusão. A ignorância em si não é um erro, é o pressuposto do aprendizado, mas a ignorância que se expressa em opiniões precipitadas é motivo de vergonha.

O PRINCÍPIO

Ficou famosa a história dos dois jovens peixes que, numa manhã, passam por um velho peixe. O velho peixe cumprimenta-os, “bom dia, como está a água?”, e segue caminho. Os dois jovens peixes continuam a nadar por algum tempo em silêncio, até que um pergunta ao outro:

“O que é água?”.

Essa fábula foi contada por um triste escritor, que mais tarde cometeu suicídio, diante de uma plateia de jovens formandos em maio de 2005. E, nos anos seguintes, a fábula ficou célebre. Afinal, ela reflete a situação em que a humanidade se encontra.

Muitos pressentem, no seu íntimo, que há algo bem diante de seus olhos que não conseguem perceber. Algo importante sobre suas próprias vidas que lhes escapa, embora esteja sempre presente. Como a água para os dois jovens peixes.

Quando os detetives encontraram as pistas descritas no texto anterior, eles se depararam com os primeiros indícios de algo que está bem diante de nós, algo em que todos nós estamos “imersos”, mas não percebemos.

Vamos, a partir de agora, desvendar todos os mistérios. Vamos solucionar metodicamente as pistas, e revelar a natureza da água em que você nada.

PISTA UM: O CASO DA DUPLA FENDA

Recapitulando, o Caso da Dupla Fenda é observado ao emitirem-se partículas de luz (fótons) em sequência, na direção de uma barreira com duas fendas.

Disso resulta um padrão de listras no muro que está outro lado da fenda, quando se esperava, naturalmente, um padrão de “duas fendas” (as partículas que passam por uma das fendas incidiram, em uma trajetória em linha reta, até um ponto mais ou menos paralelo à fenda).

Vamos analisar o enigma raciocinando a partir do senso comum, sem intervenção da matemática ou do jargão científico. Quando se analisa a situação, parece que há algo que interfere no caminho de cada fóton lançado, mudando sua trajetória. Por exemplo, no ponto “X” vermelho indicado  na ilustração acima, na imagem da esquerda vemos que ele deveria ser atingido por um fóton. Porém isso não ocorre em laboratório, como demonstra a imagem da direita.

Então temos a primeira dedução, elementar:

1 – Algo interfere na trajetória do fóton.

Mas o que é esse algoÉ como se uma outra partícula viesse da outra fenda e encontrasse em determinado ponto de sua trajetória o fóton, e ambas as partículas se chocassem e mudassem sua trajetória antes que o fóton atingisse X. Como duas bolas de bilhar.

Porém, um fóton é lançado por vez, e o estranho padrão surge também quando o experimento é feito no vácuo.

Assim, a primeira suposição é de que o fóton, de algum modo, divide-se e passa ao mesmo tempo pelas duas fendas. A partir daí, as duas metades do fóton tomam trajetórias convergentes e chocam-se antes de chegarem ao muro, nenhum deles atingindo o ponto X.

Mas, ao colocar-se duas câmeras junto às fendas para verificar se o fóton passa por ambas ao mesmo tempo, constata-se que ele passa apenas por uma das fendas (também se observa que o padrão de listras some, mas explicaremos a razão disso mais tarde). Portanto, a hipótese de um fóton dividir-se e chocar-se consigo mesmo está descartada.

Por outro lado, sabemos que o fenômeno da misteriosa interferência ocorre quando há duas fendas (com uma, há apenas certa difração). Mas e se aumentarmos o número de fendas? Ao colocarmos uma terceira fenda na barreira, ainda temos um padrão de listras, mas diferente daquele com duas fendas. Colocando quatro fendas, o padrão de listras ainda está presente, mas novamente é diferente do padrão que surge com duas ou três fendas.

E quando temos três ou quatro fendas, mas direcionamos o lançador de fótons para apenas duas delas, temos o retorno do padrão original de listras característico de duas fendas. Portanto, podemos concluir que esse algo que interfere na trajetória do fóton tem a mesma origem do fóton: o lançador de partículas.

Acrescentamos mais uma conclusão:

1 – Algo interfere no caminho do fóton;
2 – Esse algo tem a mesma origem que o fóton.

Outro fenômeno que se observa é que, ao colocarmos diante de uma das fendas algum material que seja impenetrável mas que permite a passagem de luz, como placas feitas de vidro ou mesmo do mais resistente diamante, o padrão de listras ainda aparece. Porém, quando colocamos diante de uma das fendas algo que pode ser penetrado por qualquer coisa menos pela luz, como fumaça escura, o padrão de listras não aparece.

Assim, podemos acrescentar mais uma conclusão:

1 – Algo interfere no caminho do fóton;
2 – Esse algo tem a mesma origem que o fóton;
3 – Esse algo parece ter as mesmas propriedades do fóton.

Assim, tem-se que aquilo que interfere na trajetória do fóton é algo que tem as mesmas propriedades do fóton, exceto que é totalmente invisível, não é detectável. Só supomos sua existência pela mudança da trajetória da partícula. Portanto, pode-se descartar a hipótese de que esse algo seja algum tipo de “antimatéria”, pois a antimatéria é detectável.

1 – Algo interfere no caminho do fóton;
2 – Esse algo tem a mesma origem que o fóton;
3 – Esse algo parece ter as mesmas propriedades do fóton;
4 – Esse algo é totalmente invisível, só é percebido pela sua interação com o fóton.

Do fato de que o padrão de listras se modifica quando acrescentamos três ou quatro fendas, podemos concluir ainda outra coisa: se esse algo consistisse numa só partícula, novas fendas não alterariam o padrão de listras. Afinal, nesse caso, esse algo ainda continuaria a passar por só uma das fendas. Trata-se, então, de algo que passa por tantas fendas quantas forem colocadas, alterando a trajetória do fóton de forma diferente a depender do número de fendas existentes.

Logo, seja o que for, é como uma onda ou uma quantidade considerável de partículas, que tem a mesma origem do fóton e passa por todas as fendas.

1 – Algo interfere no caminho do fóton;
2 – Esse algo tem a mesma origem que o fóton;
3 – Esse algo parece ter as mesmas propriedades do fóton;
4 – Esse algo é totalmente invisível, só é percebido pela sua interação com o fóton.
5 – Esse algo não é constituído por uma única partícula, mas por um tipo de onda ou uma multidão de partículas.

Nesta etapa, quase ficamos tentados a dizer que esse algo também são fótons – uma considerável quantidade de fótons que atravessa todas as fendas e de modo a interagir com o fóton visível do outro lado da barreira, antes que ele atinja o muro. Mas, nesse caso, seriam fótons com uma natureza peculiar, pois são totalmente invisíveis, não são detectáveis de forma alguma por qualquer instrumento. Poderíamos chamá-los de “fótons fantasmas”, em homenagem a Einstein, que falou de efeitos “fantasmagóricos” que envolvem nosso enigma.

Vamos pausar a análise do Caso da Dupla Fenda por aqui, para entreter essas noções na mente por um tempo, tomando maior familiaridade com elas. Mais tarde, retomaremos o Caso Dupla Fenda, para solucionarmos o mistério. Antes, vamos pular para a terceira pista, o Caso de Zenão.

Mas antes, convém lembrar que a experiência da dupla fenda não se limita aos fótons. Ela pode ser feita com qualquer outra partícula e até com átomos inteiros. Ou seja, em todos esses casos, há algo “fantasma” que interfere na trajetória da partícula ou do átomo, tem a mesma origem e possui as mesmas propriedades da partícula ou do átomo. Mas é invisível.

PISTA TRÊS: O CASO DE ZENÃO

1. Função de onda e colapso.

Na investigação do Caso da Dupla Fenda, renunciamos à matemática. Agora, porém, vamos tomar uma abordagem diferente, mais técnica. Mas nenhum cálculo será feito, o que nos interessa aqui é a história de uma equação.

Na terceira pista, o Caso de Zenão, vimos que cada partícula subatômica parece não existir em um só lugar ao mesmo tempo, mas em vários lugares ao mesmo tempo, dentro de certos limites. É como se cada partícula fosse uma nuvem, e essa nuvem fosse composta por todas as probabilidades de a partícula ser encontrada em determinado local, dentre tantos outros locais possíveis.

Vimos que é possível, porém, determinar uma localização específica para a partícula através de um procedimento chamado de medição. Isso, porém, dura muito pouco tempo. Logo a seguir, a partícula volta a comportar-se como algo que está em vários lugares ao mesmo tempo. Assim, para que uma partícula permaneça em um só lugar, é preciso realizar uma medição atrás da outra, incessantemente.

Esse processo no qual a partícula fica em uma posição específica após a medição, e não em várias ao mesmo tempo, é chamado de “colapso“.

Para usar um linguajar mais técnico, diz-se que uma partícula é uma “função de onda” (uma onda de probabilidades de estar em certas posições e estados) e que a medição produz o “colapso” dessa função de onda em uma só posição.

2. O matemático que pintava a paisagem com números.

Esse é o sentido da célebre história do Gato de Schrödinger, em que um gato está morto e vivo ao mesmo tempo dentro de uma caixa, e que só fica definitivamente morto ou definitivamente vivo quando a caixa é aberta. Considere “morto” e “vivo” como qualquer condição da partícula: sua existência e não existência em determinado ponto do espaço, o estado de sua energia, seu momentum, etc.

A caixa e o gato morto-vivo é uma metáfora da função de onda. Nessa situação, a partícula realmente está ao mesmo tempo em vários estados contraditórios entre si. A partícula apenas “se fixa” em um só desses estados quando uma pessoa abre a caixa, ou seja, quando é feita a medição. Ao abrir-se a caixa, o gato fica inteiramente morto, ou inteiramente vivo.

No senso comum, porém, a metáfora falha. Em geral, nesse exemplo, as pessoas assumem que o gato já está vivo ou morto dentro da caixa, e que, ao abri-la, o pesquisador elimina sua ignorância e finalmente descobre a verdade. Não. Isso é uma percepção incorreta da metáfora. Enquanto a caixa estiver fechada, o gato realmente está ao mesmo tempo vivo e morto. As partículas ao nosso redor realmente existem e não existem ao mesmo tempo em determinados pontos do espaço.

Há um modelo matemático que descreve a evolução da função de onda ao longo do tempo, ou seja, como se comporta ao longo do tempo esse complexo caixa-gato-vivo-e-morto. Tal modelo consegue prever com perfeição, dada uma determinada nuvem de probabilidades de uma só partícula existir em vários locais, qual será a forma dessa nuvem dentro um minuto, como se ela fosse uma onda fluindo ao longo do tempo.

Esse modelo matemático é consistente, coeso e aclamado pela comunidade científica. Suas previsões foram confirmadas reiteradas vezes em experimentos. Jamais qualquer refutação teve sucesso em invalidá-lo. Ele é conhecido como Equação de Schrödinger, em homenagem a Erwin Schrödinger, que o elaborou em 1926 e a publicou em 1927.

E eis um ponto que não será exagerado reforçar: matematicamente, não há nenhum mistério a ser resolvido, absolutamente nenhum. O mistério reside não no cenário que está sendo desenhado pelo modelo matemático, mas na forma como a mente humana tenta assimilar esse cenário. O modelo matemático consegue, com perfeito sucesso, descrever um gato que está morto e vivo simultaneamente, uma partícula que é e não é ao mesmo tempo. Nossa mente é que não consegue, num primeiro momento, descrever o que isso significa em termos da realidade em que vivemos.

E isso é dito neste momento por uma razão importante. Os pesquisadores, ao menos até 1957, tinham por hábito acompanhar a evolução da função de onda da partícula usando a perfeita e consistente Equação de Schrödinger só até certo momento. A partir desse ponto, decidiam ignorá-la e não mais usar a equação para descrever a evolução da função de onda. Esse momento era o da medição que resultava no colapso.

Ou seja, no momento em que havia a medição em laboratório a fim de “fixar” uma posição específica para a partícula, jogava-se a Equação de Schödinger pela janela. Mas essa decisão era arbitrária, não decorria necessariamente do modelo matemático.

E porque isso era feito? Percebam a resistência emocional (e não científica) na resposta que era dada: “faz-se isso para traçar a linha divisória que separa a matemática das coisas muito pequenas e a matemática das coisas grandes que observamos ao nosso redor”.

Por trás dessa resposta, há um problema que cai do céu em nossas mãos quando constatamos que uma só partícula é uma função de onda, ou seja, uma nuvem de possíveis estados coexistentes e contraditórios. O nome do problema é linearidade.

3. Linearidade: assim acima, como embaixo.

A linearidade é algo simples de entender: é uma regra que diz que o todo corresponde à soma de suas partes. Se você constrói uma casa com tijolos de pedra, não terá uma casa feita de vento; se você constrói um castelo de areia, não terá ao fim um castelo de ouro.

Essa linearidade está presente na Equação de Schröndiger, e é mais ou menos traduzida no lema dos antigos alquimistas: “o que é em abaixo, também é acima”. Trata-se de uma decorrência natural de como as coisas simplesmente são.

Logo, quando se constatou que o mundo das partículas se comportava como ondas de probabilidade, ou seja, como coisas que existem e não existem em determinado ponto ao mesmo tempo, a linearidade fez todos se perguntarem: por que então o mundo macroscópico, das coisas que vemos no dia a dia, não é assim?

Como explicar que o mundo, todo ele formado por essas mesmas partículas, não é uma grande nuvem de probabilidades que existem e não existem ao mesmo tempo? Por que as coisas ao nosso redor, embora todas formadas de microscópicas funções de onda que se expressam em probabilidades matemáticas, existem de forma tão clara, sólida e certa? Por que não vemos gatos vivos e mortos ao mesmo tempo andando pelas ruas?

A resposta (emocional) foi que, quando há um medição (e medição não passa de uma forma de observação), aquelas incontáveis probabilidades de uma partícula estar em vários lugar entram em colapso, e a partícula define-se em uma posição determinada no espaço. Respondido de outra forma: a observação produz o colapso da função de onda; a partir daí, podemos esquecer da Equação de Schrödinger e usar os modelos matemáticos que descrevem o mundo macroscópico ao nosso redor, sempre sólido e certo.

E isso foi a festa de místicos e supersticiosos de toda espécie. Começou a disseminar-se a ideia de que a consciência humana é que cria a realidade.

Para começar, como definir o que é uma “medição”? É preciso que um ser humano observe a medição feita pelo equipamento do laboratório para que o colapso ocorra? Ou a medição pode ser feita pela máquina antes da participação de qualquer ser humano que isso já resultará no colapso? O olhar de um sapo pode resultar no colapso?

Em segundo lugar, onde está exatamente essa linha divisória que separa o mundo das coisas muito pequenas e o mundo das coisas que vemos ao nosso redor? Afinal, com o passar do tempo, novos experimentos em laboratório demonstraram que a Equação de Scrödinger não funcionava apenas com partículas subatômicas. Ela também funcionava com objetos maiores, macroscópicos. Então, onde está essa linha?

Essa resposta revela uma falha, e a persistência nessa falha mostra como a verdade é tão contraintuitiva que instintivamente não queremos nos aproximar dela. Preferimos supor (como disse Einstein) que a lua só existe quando olhamos para ela. O quadro pintado pela Equação de Schrödinter estava disponível para ser desenvolvido e revelar a o cenário total da realidade, mas ninguém ousava completar o desenho até o final.

Ao menos até 1957.

4. A equação que jamais termina.

Há vários motivos para essas perguntas não terem sido enfrentadas por muito tempo, mas o fundamento de todas elas o mesmo: somos seres humanos, e seres humanos têm grande dificuldades de aceitar verdades que sejam extremamente contraintuitivas, ou seja, que não correspondam às nossa percepção mais fundamental sobre como as coisas devem ser, com base em nossa experiência animal.

É como a fábula da Roupa Nova do Rei. Mas o rei, em nosso caso, é a realidade, e os súditos continuaram a enxergar a roupa no rei nu não por medo do monarca ou da opinião pública, mas porque era simplesmente inconcebível (e, portanto, absurdo) que o rei estivesse mesmo nu.

Mas, em 1957, um sujeito chamado Hugh Everett III fez a pergunta definitiva: que cenário veremos, se prosseguirmos pintando o quadro com as pinceladas da Equação de Schrödinger até o fim? Como a realidade em que vivemos será retratada?

O cenário final do desenhado pela Equação de Schrödinger é tão contraintuitivo que, num primeiro momento, Everett não teve coragem de mencioná-lo expressamente em seu trabalho. Ele levou um ano para decidir-se a falar com franqueza.

Para traçar esse cenário, é preciso começar compreendendo dois pontos.

O primeiro ponto é que a noção de “colapso” como resultado da medição não deriva da Equação de Schödinger. Não há nada parecido com isso no modelo matemático. A função de onda está sempre lá, e embora seja possível aumentar muito a probabilidade de uma partícula existir em determinado local e momento, essa partícula nunca deixa de ser uma onda de probabilidades, podendo existir em outros lugares naquele exato momento.

O segundo ponto é que não há qualquer motivo para limitar a Equação de Schrödinger ao mundo das minúsculas partículas subatômicas. A equação pode descrever qualquer sistema, mesmo objetos macroscópicos, como uma cadeira, uma casa e até mesmo você. E, como já dito, de fato ficou comprovado que o comportamento de moléculas pode ser previsto utilizando a equação.

Estabelecidos esses dois pontos, vimos que a Equação de Schrödinger descreve a evolução da função de onda (termo técnico para descrever a nuvem de probabilidades de uma só partícula existir em diversos lugares e de diversas formas simultaneamente) ao longo do tempo. O que Everett fez foi não abandonar a equação no momento em que a partícula passa pela medição. Ele foi além. Prosseguiu calculando e descrevendo a partícula também no momento em que foi medida.

E o resultado foi que, no lugar de um “colapso”, havia uma outra coisa. Algo estranho, totalmente diferente de tudo que já vimos.

No momento da medição, há uma interação entre a função de onda da partícula observada e o equipamento usado na observação, como se fossem duas funções de onda que se relacionassem uma com a outra. E a equação não termina descrevendo apenas a relação entre a partícula e o equipamento no instante. Ela prossegue, já que não possui ponto final, abrangendo também o laboratório em que está ocorrendo a medição. E ela continua ainda mais longe, descrevendo a interação entre os pesquisadores que estavam no laboratório, o mundo em que vivem, e por fim, o universo inteiro [1]Claro, nunca chegou-se a tanto, pois não há computador capaz de fazer isso. Mas sabe-se que a equação pode prosseguir indefinidamente..

O desenho delineado pela equação sugere que para cada probabilidade de a partícula estar em determinado lugar, o equipamento faz uma medição informando aquele lugar. Há medições sobrepostas, coexistentes, no mesmo equipamento, informando várias localizações da mesma partícula. Da mesma forma, o cientista que faz o experimento registra, no seus globos oculares, todas essas medições ao mesmo tempo, e seu cérebro processa e transmite à sua consciência todos esses registros simultâneos, contraditórios e sobrepostos em seus globos oculares.

Porém, não é isso que vemos quando ocorre a medição concreta em um laboratório. Não vemos o medidor informando todas as posições, mas apenas uma. Por isso é que concluímos, erroneamente, que com a observação houve o colapso em uma só posição. Por isso é que jogamos a Equação de Schödinger pela janela neste momento: porque o que ela passa a descrever é algo que não vemos com nossos olhos.

Mas não há colapso. A equação revela que, com a medição, houve uma interação entre a função de onda da partícula e o sistema equipamento-pesquisador-laboratório-mundo, de forma que, para cada posição possível da partícula, emergiu naquele momento uma realidade distinta das demais, contendo um sistema equipamento-pesquisador-laboratório-mundo.

Em outras palavras, o prosseguimento da equação delineia um cenário em que não somente as partículas são função de onda. O universo inteiro também é uma gigantesca função de onda, contendo todas as demais funções de onda, que interagem continuamente umas com as outras, produzindo contínuas tramas de realidades, expressando infinitas combinações possíveis de tudo existir.

Mas isso parece muito estranho. Por causa desse estranhamento, esse é o momento em que deixamos a terceira pista de nossa investigação e retornamos à primeira, ao Caso da Dupla Fenda. Podemos, enfim, lançar uma nova luz sobre aquele “algo” invisível.

O CASO DA DUPLA FENDA REVISITADO

Deixamos o Caso da Dupla Fenda no momento em que chegamos às seguintes conclusões sobre cada fóton que, ao ser disparado em sequência com outros, resulta num estranho padrão de listras:

1 – Algo interfere no caminho do fóton;
2 – Esse algo tem a mesma origem que o fóton;
3 – Esse algo parece ter as mesmas propriedades do fóton;
4 – Esse algo é totalmente invisível, só é percebido pela sua interação com o fóton.
5 – Esse algo não é constituído por uma única partícula, mas por um tipo de onda ou uma multidão de partículas.

No primeiro texto, vimos que os pesquisadores e teóricos logo cogitaram que esse algo seria exatamente o mesmo fóton. E como isso ocorreria? Ele se comportaria como uma onda, não uma partícula. Dessa forma, o fóton-onda teria um comportamento mais ou menos assim após passar pelas duas fendas:

Que onda seria essa? Do que seria feita? Não é feita de água ou de qualquer substância material. Estamos no mundo das subpartículas, não há meio material para uma onda se propagar. Como vimos, seria uma onda de outra tipo, uma onda de probabilidade.

Mas isso é incompatível com o fato de que, quando um fóton é disparado, ele deixa apenas uma marca em um ponto específico do muro. Se fosse uma onda, é natural supor que um só fóton, emitido sozinho, deixaria todo um padrão de listras no muro.

Além disso, dizer que algo é uma nuvem de probabilidades é refugiar-se na abstração matemática. É tomar a metáfora (o modelo matemático) pela realidade que ela tenta descrever.

Precisamos observar mais atentamente o que está acontecendo.

Podemos supor, como já fizemos ao usarmos o senso comum, que esse algo, que em tudo tem as mesmas propriedades do fóton lançado e também a mesma origem, é na verdade uma multidão de outros fótons. Essa multidão seria formada por fótons “fantasmagóricos”, não detectáveis, cuja existência só suspeitamos pois, ao passarem também pela dupla fenda, alteram a trajetória do fóton “visível”.

Por outro lado, do ponto de vista da matemática da Equação de Schrödinger, esse mesmo fóton é uma onda de probabilidade. Mas do que são exatamente compostas essa probabilidade? Qual é sua substância? Sua substância é uma só coisa: o mesmo fóton; mais exatamente, uma multidão de versões possíveis do mesmo fóton.

A Equação de Schrödinger talvez possa nos dizer algo sobre o que está acontecendo. Essa equação, quando levada a suas últimas consequências, nos diz que mesmo no ambiente restrito de um laboratório, quando o experimento da dupla fenda é feito, emergem inúmeras realidades alternativas, sobrepostas umas às outras, coexistindo simultaneamente. Há tantas realidades quantas forem as possíveis interações entre cada provável posição da partícula e o equipamento de medição.

Não se tratam, portanto, de “fótons fantasmas”, mas do mesmo fóton que foi lançado uma só vez. Cada “fóton fantasma” é o mesmo fóton seguindo uma das inúmeras trajetórias possíveis até a barreira. A própria barreira é uma convergência de várias barreiras existentes, uma em cada realidade. Ao chegar do outro lado, esses outros fótons situados em outras realidades encontram o fóton da nossa realidade, e alteram a sua trajetória:

Com sua trajetória alterada, o fóton pertencente a esta realidade segue seu caminho em direção ao muro e, nesta realidade, deixa a marca de apenas um ponto.

E quando é que um fóton vincula-se a uma realidade dentre todas as realidades possíveis? A resposta será dada com detalhes quando analisarmos a segunda pista, o Caso da Escolha Adiada. Por hora, basta dizer que isso ocorre no momento da primeira interação. E, no Caso da Dupla Fenda, a primeira interação é o muro.

Por hora, temos uma pergunta mais urgente a responder.

Partindo de dois caminhos distintos, chegamos a um mesmo lugar. Seja da abordagem do senso comum sobre o fenômeno da Dupla Fenda, seja da abordagem matemática sobre a Função de Onda, chegamos a um só cenário da realidade.

Mas tudo isso parece absurdo. Se há versões distintas do mesmo fóton coexistindo em realidades paralelas, porque não os vemos? E por que não percebemos a existência dessas realidades paralelas? Porque há uma só lua que orbita uma só Terra e que jamais se choca com outra lua de outra realidade? Porque o mundo prossegue sendo tão consistente, com eventos se sucedendo de forma tão exata e previsível?

Em outras palavras, se há múltiplas realidades alternativas, porque parece haver uma só realidade?

Nossa quarta pista, o Caso das Moedas Entrelaçadas, responde a essa pergunta. Após analisá-la, por fim poderemos descrever a maior descoberta da humanidade.

PISTA QUATRO: O CASO DAS MOEDAS ENTRELAÇADAS

Nesse famoso caso, Einstein tentou demonstrar que o modelo matemático que descreve a realidade em termos de função de onda não era correto. Ele expôs com perfeição que, se fosse correto, teria por consequência uma situação absurda, impossível. E, como argumentou ao concluir, “não se pode esperar que nenhuma definição de realidade permita que esse tipo de resultado ocorra“.

Mas o resultado ocorre. Como mais tarde foi comprovado, a realidade não só permite esse tipo de situação absurda, como ela está ocorrendo em todos os lugares do universo neste exato momento. Na verdade, essa situação absurda é um dos fundamento da própria existência da realidade. Ou, melhor dizendo, das realidades.

No caso conhecido como Paradoxo EPR, constatou-se que duas partículas podem ser vinculadas uma a outra de forma que o “estado de ser” (eigenstate)de uma só pode ser definido enquanto complemento do “estado de ser” da outra.

As partículas são como moedas que sempre estão com as faces cara e coroa voltadas para todas as direções mesmo tempo. 

Porém, essas moedas podem, em laboratório, ser jogadas no chão de modo a ficar apenas com uma das faces voltadas para cima. E duas moedas podem ser “entrelaçadas” de forma que ambas sempre caiam com faces opostas voltadas para cima.

Não importa se ambas uma estiver em Marte e outra em Júpiter, toda vez que uma delas estiver com a face cara para cima, a outra estará com a face coroa na mesma posição. E isso ocorrerá instantaneamente, sem que nenhum bilionésimo de segundo transcorra. O estado de ser de uma partícula parece, magicamente e de imediato, determinar o estado de ser de outra.

Parece que há uma “ação fantasmagórica” que transmite o estado de uma partícula para a outra instantaneamente, mesmo a galáxias de distância.

Mas isso é apenas uma ilusão. O que ocorre é que, em cada realidade alternativa, as partículas ficaram entrelaçadas. A partícula caída com a face cara para cima está entrelaçada, na mesma realidade, com a outra partícula com a face coroa voltada para cima.

E quando uma dessas moedas cai com a face cara no chão em Marte, com toda certeza podemos dizer que a moeda em Júpiter estará com a face coroa para cima. Ambas estão assim, como faces opostas, na realidade em que se entrelaçaram. Não há “ação fantasmagórica” que altera a posição de uma moeda quando a outra muda sua posição. As realidades em que está o observador (ou melhor, as versões do mesmo observador) é que são definidas, emergindo de uma mesma realidade e de um mesmo observador.

O entrelaçamento não é uma figura pitoresca de laboratório. O entrelaçamento é ubíquo, está ocorrendo em todos os objetos macroscópicos do universo neste exato momento. Na verdade, futuramente a humanidade descobrirá que o entrelaçamento é um dos fundamentos da própria estrutura do universo.

Todas as partículas entrelaçadas em uma só realidade vinculam-se umas às outras. E esse entrelaçamento se dá entre todas as possíveis formas de existir de cada uma dessas partículas. E, num universo de infinitas realidades coexistentes (um universo que é uma gigantesca função de onda), o entrelaçamento é o que permite a interação apenas dos seres e objetos que pertencem a uma só realidade.

A gravidade nos ajuda a compreender essa característica do entrelaçamento. É corrente o conhecimento de que a força da gravidade de um objeto é proporcional à sua massa. Também no caso do entrelaçamento, quanto maior o objeto ou sistema, mais fortemente ele está entrelaçado com os demais objetos ou sistemas que integram a mesma realidade. E somente com esses objetos é que irá, no nível macroscópico, interagir. Qualquer outro objeto macroscópico que não esteja entrelaçado nesta mesma realidade não pode ser objeto de nenhuma interação – é como se não existisse, para todos os efeitos. 

Essa é a razão de vermos apenas os objetos que existem em nossa realidade. Os nossos sentidos apenas captam aquilo que está, junto a nós, entrelaçado na mesma realidade a que pertencemos. Por isso a lua não se choca com uma outra lua e orbita, pela força da gravidade, o planeta com que está entrelaçada.

Como Schrödinger disse, o entrelaçamento não é uma mera consequência da matemática que descreve as partículas subatômicas. O entrelaçamento é o coração de toda a nossa realidade. Tudo e todos que integram esta mesma realidade estão intimamente entrelaçados neste exato momento presente.

Podemos, enfim, descrever a natureza da maior descoberta da humanidade.


A MAIOR DESCOBERTA DA REALIDADE

1. O olhar do homem primitivo.

Sempre supomos que qualquer coisa que existe no universo precisa interagir de algum modo com as coisas ao seu redor e, por isso, é de alguma forma detectável. Se não é, então não existe. Sempre supomos que qualquer coisa que existe não pode ocupar o mesmo espaço tridimensional em que outra coisa está sem que haja algum tipo de interação entre elas. Se ocupa, então é algo absurdo.

Mas essas suposições decorrem da intuição que desenvolvemos ao longo da experiência contínua com esta realidade, desde que nascemos – na verdade desde que o ser humano surgiu. Tudo o que é diferente dessa intuição jamais foi experimentado, então pode ser considerado inexistente. Esse é um raciocínio muito razoável.

Assim como é razoável o raciocínio dos jovens peixes daquela fábula, que nadam nas profundezas dos oceanos e ignoram a existência daquilo em que nadam. Assim como é razoável que o homem primitivo considere que a Terra é plana.

Mas quando, no início do século XX, fomos um pouco mais além da experiência direta de nossos olhos e observamos o mundo mais de perto, a realidade estava lá, pronta para ser descoberta. Estava lá e podia ser percebida sem grandes dificuldades. Afinal, o experimento da dupla fenda pode ser realizado com equipamento simples.

Mas nos recusamos a reconhecê-la pelo mesmo motivo pelo qual o homem primitivo que existe dentro de nós faz com que algumas pessoas ainda hoje insistam que a Terra é plana e se organizem em torno dessa recusa. Tais pessoas resistem em admitir um fato elementar, mas contraintuitivo, sobre a esfericidade do planeta e o fato de que, na Terra, não existe um “lado para cima” e um “lado para baixo”. Não aceitam que o barco possa passar o horizonte, seguir a curvatura da Terra e jamais cair.

O que esperar de uma espécie que até agora não aceita inteiramente a mais clara verdade, por ser contraintuitiva?

O homem primitivo está na orla da praia, observando um barco afastar-se no mar. O barco começa a aproximar-se do horizonte, o homem primitivo pensa que o barco cairá num precipício. E o barco realmente some, parece cair lentamente por uma borda. O homem primitivo pensa “é exatamente isso que deveria acontecer”. Mas é ilusão.

A função de onda de uma partícula entra em colapso. Você decide em sua vida seguir por um caminho e não por outro. A moeda repousa com a face coroa voltada para cima. E prosseguimos achando que tudo está resolvido. A função de onda sumiu, os seus outros possíveis destinos não se concretizaram, a moeda jamais caiu de outra forma. É exatamente tudo isso que deveria acontecer. Mas é ilusão.

Neste momento, e antes de avançar para as últimas pistas, é preciso ajustar a intuição do leitor. Isso porque, conforme demonstrado, não há nenhum mistério nas observações, não há qualquer incongruência no modelo matemático.

É que o primeiro contato com a verdade produz estranhamento e recusa emocional. O ser humano foi programado pela evolução com um forte apego a determinada percepção de sua identidade e da realidade. Essa percepção, embora útil em termos evolutivos, principalmente quando nossos antepassados viviam nas savanas africanas, não corresponde à realidade dos fatos.

Portanto, há uma barreira emocional a se superar. Devemos nos aproximar da verdade dando voltas ao seu redor. É como se estivéssemos acompanhados de um animal interior, o homem primitivo, que levamos pela mão junto conosco no caminho. E ele precisasse ser amansado antes de o levarmos ao destino final: ao conhecimento da natureza da realidade.

Por isso, para descrever a maior descoberta da humanidade, precisamos ajustar a intuição. Se usarmos de metáforas e comparações, o que a princípio parece absurdo aos poucos se tornará mais e mais familiar. E esse esforço de compreensão será grandemente recompensado no futuro, de maneira prática.

Para assimilar a maior descoberta da humanidade da forma mais perfeita possível, usaremos uma metáfora da Antiga Grécia, uma metáfora da Alquimia medieval, uma metáfora matemática e uma metáfora computacional. Assim, circulando a descoberta por quatro lados e observando-a com o uso de metáforas adequadas, compreenderemos melhor sua natureza. Com esse quatro olhares, enfraqueceremos a resistência do homem primitivo em nós.

2. O olhar dos alquimistas.

Se pudéssemos resumir a chave para desvendar o enigma presente nas seis pistas, poderíamos usar um lema dos alquimistas medievais:

SOLVE ET COAGULA

Solve et coagula descreve um processo no qual algo é separado em partes integrantes de seu todo (solve, “dissolver”) para, a seguir, ser reconstruído num único todo novamente (coagula, “reunir”) em um processo contínuo, seja com ou sem incrementos e reconfigurações a cada nova reconstrução. Solve et coagula, por outro lado, também descreve um padrão estrutural de separação e união – ou, dito de outra forma, de estreita relação entre forças dispersivas e forças coesivas.

A força coesiva já foi apresentada quando solucionamos o Caso das Moedas Entrelaçadas. Percebemos que, como a gravidade, o entrelaçamento de objetos macroscópicos amarra-os a uma só realidade, dentre todas as realidades alternativas coexistentes.

E assim como a gravidade nos ajudou a entender o entrelaçamento que há entre os objetos de uma só realidade, a noção de entropia pode nos ajudar a entender a emergência contínua de realidades alternativas. Diz-se que a “Segunda Lei da Termodinâmica” (ou, popularmente, “Lei da Entropia”) determina que todo sistema naturalmente tende à “desordem”. Afirmar isso é dizer que todo sistema tende ao aumento de informação e, por consequência, ao aumento de nossa ignorância sobre o sistema.

A descoberta do verdadeiro universo.

Se um copo cheio de vinho for considerado um sistema, ao cair no chão esse copo se fragmenta e o sistema aumenta sua desordem. É o mesmo que dizer que aumentou a informação no sistema: antes, podíamos saber onde estava o vinho e onde estava o vidro, e qual forma eles possuíam no seu conjunto. Agora, no chão, tudo está em fragmentos, é mais complexo descrever onde está cada elemento, é mais difícil determinar a forma do sistema. Aumenta a desordem no sistema, aumenta sua informação, aumenta nossa ignorância a seu respeito.

O universo é com uma gigantesca taça de vinho que continuamente dispersa seus cacos e seu líquido pelo chão. Mas essa dispersão não ocorre de uma só forma, mas de todas as formas. A dispersão não é apenas de vidro e de vinho, a dispersão é também de todas as possibilidades de o vidro se quebrar e de o vinho se espalhar pelo chão, de todas as formas que os estilhaços podem ter e as gotas podem assumir. Cada uma dessas possibilidades constitui, pelo entrelaçamento, uma só realidade.

Pense na entropia dos eventos, das múltiplas possibilidades de uma só coisa ser. Neste exato momento, a entropia está presente em cada partícula do universo. Cada partícula, a partir de um dado um ponto de sua existência, imediatamente manifesta-se num instante em vários pontos ao seu redor, cada qual existindo em uma realidade.

Solve: realidades alternativas emergem a cada instante, juntando-se ao conjunto de infinitas realidades alternativas que coexistem num só universo, em sobreposição. Coagula: todos os pontos de cada realidade estão firmemente entrelaçados entre si, de forma que objetos macroscópicos só interagem com outros objetos que pertencem à mesma realidade.

3. O olhar do matemático.

Georg Cantor é um célebre matemático alemão de origem hebraica que tinha uma concepção muito peculiar sobre a origem de suas ideias e seu significado. Mas isso não vem ao caso, pelo menos por enquanto. No futuro, falaremos a seu respeito. No momento, Cantor nos é útil devido a um aspecto da teoria matemática que o tornou famoso.

Georg Cantor na juventude e velhice.

A teoria formulada por Cantor trata de conjuntos de elementos infinitos. Ele demonstrou que nem todos os conjuntos de elementos infinitos têm o mesmo tamanho. Alguns são maiores que outros. Isso parece estranho: afinal, todos eles possuem uma quantidade infinita de elementos. Como é possível que alguns sejam maiores?

É que há conjuntos de infinito cujos elementos podem ser contados. Esse é o caso do conjunto dos Números Naturais: é possível, se você vivesse eternamente, contar o conjunto dos números inteiros positivos: “zero, um, dois, três, quatro” e assim até o infinito, por toda eternidade.

Conjunto dos Números Racionais Positivos: N = {0, 1, 2, 3, 4, 5,…∞}

Mas experimente contar o conjunto de todas as frações (números racionais) que existem entre zero e um:

{0…1}

Essas frações são infinitas em sua contagem. Por exemplo, se você começa a contar a partir do seguinte número:

0,00000000000000000000000000000000000000000000001

… precisará ser lembrado que antes havia um outro número que deveria ser contado:

0,000000000000000000000000000000000000000000000001

Notou a diferença? É quase imperceptível. Entre esse número e o outro há apenas a diferença de um zero à esquerda após a vírgula, mas isso prossegue indefinidamente: sempre há um número anterior que difere por uma minúscula fração. Da mesma forma, seguindo adiante, sempre haverá uma nova fração que irá diferir da antecedente por um algarismo só, e esse algarismo pode estar ele próprio localizado após uma infinidade de algarismos.

Outra dificuldade é que entre zero e um existem frações que são elas próprias uma sequência infinita de algarismos:

0,0343470298788809838901347001000008409817234984362624……∞

É impossível contar. O conjunto de frações entre zero e um é um conjunto infinito não contável, Cantor diria.

{0…∞…1}

Temos, portanto, um conjunto infinito que está contido entre limites bem estreitos, entre zero e um. E ele é densamente infinito, jamais pode ser contado. Essa é a essência do célebre Paradoxo de Zenão.

Há, porém, um detalhe a mais a ser observado. A transição entre um número e o subsequente jamais é exata, jamais ocorre em etapas definidas. Há um continuum de frações infinitas, uma transição que não conhece intervalos. É como o tempo, o tempo não salta de um minuto ao outro, nem de um segundo ao outro. O tempo flui num continuum.

O mesmo ocorre com o movimento que qualquer corpo faz pelo espaço: você não estende seu braço saltando sua mão de um centímetro para outro, ou de um milímetro para outro. Seu movimento é num continuum. Se é assim em relação à nossa transição no tempo e no espaço, não seria diferente com nossa transição para infinitos futuros coexistentes.

Quando dizemos que o copo de vinho cai e se quebra de infinitas formas, isso não significa que o copo de vinho poderá cair de formas absurdas. Um copo de água que cai não se quebrará e espontaneamente formará dois pequenos copos, nem o vidro será espontaneamente aglomerado em um cubo, e a água em uma esfera.

O copo de vinho cai e se estilhaça de todas as formas cientificamente possíveis. Há limites de contexto e limites decorrentes da viabilidade científica para como estilhaços e líquido irão se distribuir. Mas, entre esses limites, há uma infinitude de possibilidades, algumas que se distinguem discretamente umas das outras apenas por uma infinitesimal partícula. Há, portanto, um continuum de possibilidades.

Quando você nasceu, a conjunção entre sua mãe e seu pai deu-se em determinado contexto (histórico, social, econômico, geográfico, etc). Esse contexto delimita o que é possível em sua vida. Porém, dentro desses limites, há infinitas possibilidades de futuro. A diferença entre algumas possibilidades é ínfima, e a transição de uma possibilidade à outra não é claramente delimitada, mas uma difere da outra num continuum.

O que vale para o copo que se quebra, o que vale para o destino humano, vale da mesma forma para todas as realidades que coexistem neste universo. As infinitas realidades possíveis não estão separadas uma das outras de forma definida: há, entre cada uma delas, uma transição em continuum.

Isso terá fundamental importância quando falarmos, futuramente, da mente humana. No momento, a ideia de que a transição entre realidades alternativas é contínua como a transição de um instante para o outro nos leva a noção de que não é só o tempo que flui.

E finalmente, como os jovens peixes de nossa fábula inicial, podemos perceber qual é nossa água.

4. O olhar dos antigos gregos.

De certa forma, os antigos gregos descobriram a chave para nosso enigma quando Heráclito, “o obscuro”, afirmou que “a água sempre flui, jamais pisamos no mesmo rio duas vezes, e todos somos e não somos ao mesmo tempo”.

Somos como o peixe no oceano. O típico peixe jamais interrompe seu movimento, sempre nada e sempre flui com a corrente das marés.

Nosso “oceano” são as dimensões em que vivemos. Nas três dimensões espaciais, você está em constante movimento. O planeta gira em seu eixo e orbita o sol. As partículas que compõem seu corpo e tudo a seu redor estão em constante movimento. Tudo é mudança.

Mas a mudança também é a face do tempo, a quarta dimensão descrita pela Teoria da Relatividade. No Tempo, também estamos em contínuo movimento. Mas, curiosamente, nesse caso não podemos escolher para onde vamos. Todos vamos para uma só direção, um só futuro.

A Teoria da Relatividade, porém, não fala em quatro dimensões. Fala em uma só dimensão espaço-temporal. E isso porque não há quatro nem vinte dimensões. Essa é uma abstração útil para a abordagem analítica examinar o mundo. Ninguém conseguiria demonstrar onde estão localizadas exatamente a primeira, a segunda e a terceira dimensão de um copo de vinho, e tampouco conseguiria furtar esse copo de vinho da contínua passagem do tempo, mantendo coesa sua estrutura tridimensional.

Não há múltiplas dimensões, mas um todo coeso, como um enorme oceano. Nesse oceano espaço-temporal, parecemos nadar sempre em direção ao mesmo futuro.

Mas não é isso o que ocorre. Nadamos não apenas em uma só direção. Nadamos em várias direções ao mesmo tempo. Um peixe não faz isso. Só ondas podem seguir ao mesmo tempo em várias direções. Somos como ondas propagando-se em um oceano dimensional de contínuo espaço, tempo e possibilidades coexistentes.

Como onda (ou função de onda), cada um de nós se propaga em todas as direções de futuro que são possíveis. Cada evento e cada decisão de nossas vidas ramifica nosso destino e faz com que essa onda se propague por várias direções.

A água que existe ao nosso redor sem percebermos é como uma quinta dimensão ao lado das três dimensões espaciais e da dimensão temporal. Nossa mente é incapaz de compreender o significado dessa quinta dimensão senão imaginando-a como a dimensão em que tudo o que é possível se manifesta. A dimensão das infinitas possibilidades emergentes: essa é nossa água.

5. O olhar computacional.

O universo não é uma simulação ou simulacro. Supor isso é confundir a metáfora com a realidade que ela tenta descrever, tal como as religiões fazem. Mas as metáforas podem ser úteis para a compreensão.

É comum dizer-se que o universo pode ser como uma holografia, pois nossas três dimensões espaciais podem ser efetivamente codificadas em apenas duas dimensões, como a imagem de uma esfera aparentemente tridimensional cuja forma está codificada em uma superfície plana.

Essa é uma metáfora útil para compreendermos o que chamaremos de “hiper contexto” e  “trama de realidade”. Pense em duas dimensões, como um tapete cuja espessura é um milionésimo de milímetro. Essa tapeçaria bidimensional contém toda a informação que nossos cérebros interpretam como três dimensões espaciais, e todos os objetos e seres existentes estão codificadas no desenho de sua trama.

Essa é nossa trama de realidade, e tudo que nela existe está entrelaçado.

Agora imagine esse tapete empilhado com outros, todos iguais em extensão e espessura, cada qual codificando, em sua trama bidimensional, uma realidade de três dimensões. Os tapetes estão empilhados de forma com que cada tapete seja diferente de seus vizinhos apenas por discretas alterações nos desenhos de sua trama, como em um continuum do conjunto de infinitos de Georg Cantor.

 

O conjunto composto por essa pilha infinita de tapetes codificando realidades alternativas em sua trama bidimensional dá uma ideia de como seriam a dimensão das probabilidades coexistentes, se pudesse ser visualizadas como um bloco tridimensional. 


Isso é o que chamamos de hiper contexto.

Nessa metáfora, você vive em um desses tapetes, em uma dessas tramas de realidade, codificado dentro de sua estrutura bidimensional junto a todas as outras coisas que percebe, interpretando tudo em sua mente de forma tridimensional.

Mas essa ainda é uma metáfora imprecisa. Os tapetes não estão empilhados. De cada trama de realidade emergem a cada momento novas tramas de realidade:

Olhe para um copo cheio de água. O que você está vendo não é um copo com água, mas uma imersão de inúmeras possibilidades de ser e estar que coexistem em constante potencial de dispersão em múltiplas realidades futuras. A qualquer momento, algo pode ocorrer. O copo pode cair, a água pode ser bebida, você pode afastar-se do copo. Até ocorrer essa ramificação do presente em vários futuros, todas essas possibilidades de copo continuam latentes diante de você, como uma só coisa.

É natural que percebamos uma só trama de realidades a cada momento, já que nossos sentidos só interagem com coisas que estão entrelaçadas na mesma trama. Mas só não percebemos essa contínua ramificação de nosso momento presente em futuros emergentes, não percebemos o exato momento em que uma versão nossa se divide em direção a um futuro possível que não será o nosso, pois milhões de anos de evolução tornaram essa informação dispensável ao nosso organismo. Não só dispensável, mas necessária para preservar a homeostase interna de nossa consciência, ajudando-nos a construir uma narrativa que fundamenta nossa identidade e nossa relação com aquilo que chamamos de mundo exterior.

Como disse Thomas Metzinger, o modelo de realidade construído por nosso cérebro é incessantemente atualizado com tanta rapidez e tanta estabilidade que não o vivenciamos como um modelo, mas como a realidade em si mesma.

Podemos, por fim, prosseguir e responder o enigma das pistas restantes. Elas nos levarão com segurança às conclusões finais, e ao entendimento de que o fato de a humanidade ter feito sua maior descoberta não é o ponto de chegada do processo de aprendizado aqui proposto. A maior descoberta é, antes, o fundamento inicial para que algo importante possa ser futuramente revelado e adequadamente compreendido pelo leitor.


PISTA DOIS: O CASO DA ESCOLHA ADIADA

Se o Caso das Moedas Entrelaçadas nos ajuda a entender porque não percebemos as outras realidades, o Caso da Escolha Adiada nos ajuda a entender quando ocorre o entrelaçamento que define uma realidade para o observador. A resposta é: a primeira interação.

Nos laboratórios, é a interação (seja ela resultado de uma observação, uma medição ou qualquer outro ato semelhante) que “determina” o entrelaçamento de cada partícula com uma só trama de realidade, fazendo com que se ela se apresente como “a” versão da partícula pertencente àquela realidade.

As outras versões da partícula continuam a existir, posicionadas em outros ponto do espaço. A função de onda persiste, mas ocupa também outras tramas de realidade, tramas essas que coexistem na dimensão de possibilidades chamada “hiper contexto”. Mas, a partir do “colapso”, o observador só percebe a versão da partícula correspondente à realidade em que está.

Portanto, o que se entende por “colapso” não é um fenômeno em que várias posições coexistentes de uma só partícula dão lugar a uma só posição definida. “Colapso” um processo de entrelaçamento entre uma [2]Na verdade, jamais é algo realmente unitário, mas mantemos assim para fins didáticos das possíveis versões da partícula com uma das diversas tramas de realidade. A partir desse momento, o observador pertencente à determinada trama de realidade enxerga apenas uma das posições possíveis da partícula – a posição correspondente à realidade na qual está entrelaçado.

Aqui já se elimina aquela mistificação de que a mente do observador é que “cria o colapso” e define a realidade. Essa suposição deu margem à todo tipo de mistificação do assunto, sugerindo que a mente humana teria o poder de construir o universo. Como Einstein disse (e com real preocupação diante dessa possibilidade, e não com ironia), nesse caso a lua só existiria se olhássemos para ela.

Na verdade, o que ocorre é como um truque de ótica. A lua não existe apenas quando olhamos para ela. Mas, dentre as várias versões coexistentes da lua (pertencentes à função de onda chamada por nós de “lua”), uma delas é determinada como aquela que pertence à nossa trama de realidade, a cada vez que olhamos para o alto é essa que vemos.

E, subitamente, temos a solução para o enigma do Caso da Escolha Adiada.

Para recapitular, lembramos que esse caso começa com a tentativa de descobrir se cada fóton lançado em sequência passa pelas duas fendas ao mesmo tempo ou por apenas uma fenda. Assim, colocou-se um detector em cada fenda para “fotografá-la” no momento em que um fóton deveria passar por ali.

No final, constatou-se que cada fóton passa por uma só fenda. Mas o aspecto curioso é que o mero ato de “fotografar” cada fenda para capturar o momento da passagem do fóton tem o estranho poder de eliminar o padrão de listras no muro, substituindo-o por um padrão simples correspondente à passagem de cada fóton por uma das fendas sem qualquer interferência em sua trajetória.

A solução para esse enigma é a seguinte: ao decidir-se detectar a passagem dos fótons pelas fendas, antecipou-se a interação entre cada fóton e a trama realidade em que estão entrelaçados os pesquisadores. Assim, já na passagem por uma das fendas há o entrelaçamento entre uma versão possível de cada fóton e uma das realidades em que está situado o pesquisador.

O que se tem a partir da passagem pela fenda com os detectores (e a partir da interação pela detecção) é um só fóton entrelaçando-se com uma só trama de realidade, e que segue sua trajetória a partir de sem qualquer interferência das outras versões. Claro, essas outras versões do fóton estão entrelaçadas com outras realidades, em que há outras versões da barreira, e dos pesquisadores.

O mesmo ocorre se for montado um mecanismo que substitui o muro por um detector que indica por qual fenda passou cada fóton. A escolha é feita de substituir o muro é feita no último momento, e portanto não poderia interferir na trajetória do fóton. E, no entanto, interfere, mesmo se o fóton tenha tomado uma trajetória e passado por uma fenda que está há anos-luz de distância. Aparentemente, em ambos os casos, a decisão final de substituir ou não o muro altera o passado.

Mas não é exatamente isso o que ocorre [3]Há aspectos na linha temporal nesse caso, mas não vamos abordá-los no momento.. No lançamento de cada fóton, emergem do mesmo ponto várias versões da mesma partícula, uma para cada possível trajetória que o fóton pode tomar para atingir a barreira com a dupla fenda.

Quando o muro é substituído pelo equipamento que detecta por qual fenda passou o fóton, o equipamento interage com o fóton que pertence à trama de realidade em que o equipamento se situa (dentre as inúmeras realidades coexistentes), determinando um entrelaçamento entre uma versão da partícula, o equipamento e o observador.

A partir desse entrelaçamento, define-se apenas a existência (naquela trama de realidade) desse único fóton, eliminando-se a interferência das outras versões do fóton em sua trajetória. Essas outras versões estão, a partir daquele momento, entrelaçados com outras realidades em que outras versões do mesmo equipamento os detectam. Não há mais interação entre as várias versões do mesmo fóton.

PISTA CINCO: O CASO DO ENTRELAÇAMENTO ADIADO

As duas últimas pistas nos ajudam a enquadrar a maior descoberta da humanidade no cenário em que podemos ir adiante, e tratar de outros assuntos de maior importância, mais vitais e mais práticos, futuramente.

Nessa pista, dois pares de moeda são entrelaçados, e um membro de cada par é enviado a Calvin, enquanto as duas restantes são remetidas, cada uma, a Alice e Bob. Alice e Bob jogam suas moedas no chão a fim de ver qual das faces fica para cima, se cara ou coroa, e enviam o resultado a Calvin em um envelope fechado. Calvin, antes de abrir os envelopes, decide se entrelaçará ou não suas moedas, e após decidir joga ambas no chão.

Se Calvin decide entrelaçar suas moedas de qualquer forma (se para caírem com as mesmas faces para cima, ou se com faces opostas para cima), os resultados nos envelopes enviados por Alice e Bob corresponderão ao entrelaçamento que decidiu fazer, representando uma configuração de entrelaçamento de quatro moedas. Se sua decisão for outra, o resultados anotados por Alice e Bob também corresponderão a essa decisão, ou seja, haverá uma configuração de dois pares entrelaçados separadamente. É como se Calvin alterasse o passado, interferindo no resultado de Alice e Bob.

Na verdade, ocorre coisa diversa. Quando Alice e Bob jogam suas moedas entrelaçadas, surge uma trama de realidade para cada resultado possível. Automaticamente, a situação das moedas enviadas para Calvin, em cada uma dessas tramas de realidade em que há uma versão de Calvin, será correspondente ao resultado entrelaçado das moedas de Alice e Bob naquela trama de realidade.

Já quando Calvin decide se vai ou não entrelaçar as suas próprias moedas, novas tramas de realidade emergem: uma em que Calvin decidiu entrelaçar e outra em que decidiu não entrelaçar. Na primeira, necessariamente, as moedas de Alice e Bob já estarão em configuração correspondente ao entrelaçamento de quatro moedas. Na segunda trama de realidade, as moedas de Alice Bob já estarão em configuração correspondente ao entrelaçamento de dois pares separados de moedas. Não há alteração do passado, apenas a emergência de novas tramas de realidade e a definição de configurações de entrelaçamento correspondentes a essa trama.

Isso tem implicações sérias para a identidade humana, que enfrentaremos em outra oportunidade. No momento, é preciso compreender a natureza emergente das tramas de realidade a cada interação, e como cada trama de realidade, a partir desse experimento, possui versões alternativas de Alice, Bob e Calvin. Cada versão de Alice, Bob e Calvin que existem, após executarem sua parte no experimento, voltam para suas casas e jamais tomam consciência das outras versões de si que também existem no hiper contexto.

PISTA SEIS: O CASO DO BACKFLOW E DO TUNELAMENTO

A solução para os últimos enigmas será a oportunidade de desfazermos vários mal-entendidos antes de expormos a maior descoberta da humanidade de forma clara e franca (apresentando, por fim, aspectos práticos e vitais dessa descoberta).

De resto todas as pistas são, de certa forma, desnecessárias, exceto uma: o Caso da Dupla Fenda. Já é possível abstrair do Caso da Dupla Fenda todos os aspectos da charada. Bastava apenas perceber a chave dupla que decifra o enigma: solve et coagula, dispersão das infinitas possibilidades no hiper contexto e entrelaçamento de cada trama de realidade. As outras pistas apenas elucidam esse ou aquele aspecto com mais clareza, e servem para comprovar que a imagem de realidade revelada na Dupla Fenda é verdadeira.

No Caso do Backflow, vimos que por vezes uma partícula parece ir na direção contrária a que foi empurrada. No caso do Tunelamento, vimos que por vezes uma partícula passa por uma barreira aparentemente intransponível, sem que tenha sido lhe transmitida energia suficiente para isso.

E o Caso da Dupla fenda já indicava algo importante para solucionar ambos os casos: as inúmeras versões do fóton que emergem da mesma fonte e atravessam a dupla fenda interagem umas com as outras no momento de sua dispersão, alterando suas trajetórias de forma que acabam formando, aos poucos, o padrão de listras, cada qual no muro correspondente à trama de realidade em que está entrelaçada.

No Caso do Backflow, é preciso entender que o efeito de a partícula ir na direção contrária em que é empurrada só ocorre quando as diversas versões da mesma partícula forem lançadas em diferentes velocidades. Assim, por vezes uma versão da partícula choca-se com outra versão e, em sua trajetória após o choque, encontra uma outra versão que não se deslocou ainda, empurrando-a no caminho oposto ao que deveria ir.

No Caso do Tunelamento, por sua vez, a interação entre diversas versões da mesma partícula pode resultar numa transferência de energia significativa para uma dessas versões. Dotada de grande quantidade de energia, essa versão da mesma partícula tem força o suficiente para passar pela barreira, tal como uma bola de boliche que é arremessada com força o suficiente para furar uma parede feito uma bala que foi disparada.

Esse é um ponto importante de nosso aprendizado. Um dos maiores equívocos é dizer que a maior descoberta da humanidade não passa da “Interpretação dos Muitos Mundos formulada por Everett”. Isso está errado de diversas formas.

Em primeiro lugar, não se trata de uma interpretação (chama-se assim uma opinião conceitual). Existencialmente, trata-se de um fato. Cientificamente, trata-se de uma hipótese, e de uma hipótese falseável, pois as diversas versões possíveis de uma só partícula interagem entre si.

Em segundo lugar, não se tratam de “Muitos Mundos”. Essa expressão leva à equivocada noção de que se está falando de múltiplos universos, e é o principal fator de resistência para aceitar-se a noção de que uma medição faz emergir várias realidades, pois supõem-se que surgem “novos universos”. Não. Existe um só universo, em que inúmeras realidades entrelaçadas coexistem e ramificam-se continuamente. O universo poderia escolher ser uma só sequência de eventos, dentre todas sequências possíveis. Mas o universo decidiu ser todas as possibilidades de uma só, manifestar todas as sequências de eventos que são possíveis.

Por fim, Everett teve o gênio e ousadia de propor o óbvio que ninguém mais ousava perceber. Mas não foi o primeiro a desvendar a maior descoberta da realidade, e tampouco a equação matemática é de sua autoria. Everett morreu desgostoso, perdido no álcool e no tabaco, pois sua proposta foi um motivo de grandes decepções por toda vida. Para começar, não foi ouvido por Niels Bohr, e muitos riram de suas palavras. Por fim, mais tarde descobriu, de modo terrível, que não havia sido o primeiro a desvendar a maior descoberta da humanidade. Outros já a conheciam – não por teoria e nem a partir equações, mas por eventos no mundo macroscópico que a revelaram diante de seus olhos.

Mas isso é um tema para outra oportunidade. O importante, nesta etapa final, é firmar os fundamentos do aprendizado futuro. Isso pois nossa meta, como dito, não é a maior descoberta da humanidade, mas suas implicações concretas sobre quem você é, qual o seu verdadeiro potencial, qual deve ser o propósito humano e quais perigos espreitam o destino da humanidade.


IMPLICAÇÕES

O universo em que vivemos é muito maior do que a humanidade supunha. O universo em que vivemos é mais gigantesco do que a parcela dele que podemos observar com nossos olhos e telescópios.

Em inúmeras dessas tramas, há versões de cada um de nós vivendo destinos distintos. Em outras, as possíveis configurações que ocorrem ao longo do tempo levaram a humanidade a cenários extremamente diversos. Há tramas em que jamais existimos. Há tramas em que seres diversos passaram a existir.

O Princípio Antrópico afirma que não podemos nos maravilhar diante do fato de que os principais valores que constituem o universo tal como é, as constantes fundamentais, são exatamente aqueles necessários para que a vida seja possível. Um valor ligeiramente maior ou menor nas constantes fundamentais e o universo não se sustentaria. O argumento do Princípio Antrópico é que não podemos nos maravilhar com as condições que tornaram o próprio sentimento de maravilhamento possível.

E o Princípio Antrópico está certo. Ele afasta a presunção de que o universo ainda continua, de certa forma, a girar em torno do ser humano, ou mesmo em torno da vida. Porém, o Princípio Antrópico ainda não responde porque as constantes fundamentais têm os exatos valores que têm. Como veremos no futuro, esses são apenas os valores que tais constantes têm em determinadas regiões do hipercontexto. Nessas regiões, a manifestação do universo tal como o conhecemos é possível.

Isso não é de interesse teórico. Você próprio em breve se confrontará com eventos ou decisões em sua vida das quais emergirão novas versões suas, cada qual vivendo em uma trama de realidade distinta. Compreender quem você realmente é no hiper contexto implicará em compreender sua verdadeira identidade e que há algo controlando sua vida.

Olhamos o universo ao nosso redor e vemos vastidão aparentemente vazia e escura em diversa regiões, um universo em que a luz luta para se manifestar em cada estrela. Mas o hiper contexto tem sua própria e peculiar topologia, e há tramas de realidade em que esse mesmo universo é todo iluminado. 

Há, também, escolhas evolutivas que tornaram certas possibilidades de existir não limitadas à percepção de uma só trama de realidade. E o que disso resulta por vezes é indiferente, por vezes é benéfico e outras vezes é a tradução do puro horror para o futuro da humanidade.

DUAS TAREFAS PARA O LEITOR

No próximo texto, dentro de duas semanas, trataremos sobre a nossa verdadeira identidade e como interagimos, sem perceber, com as versões de nós que coexistem em outras tramas de realidades.

Até nosso próximo encontro, deixo duas tarefas ao leitor. São, por assim dizer, seu dever de casa. Isso ajudará a consolidar o que se aprendeu e preparar o terreno para a compreensão futura.

Vimos ciência e matemática demais até agora. A arte pode nos ajudar à assimilar conceitos difíceis mas importantes:

  • Primeira tarefa: leia o conto O Jardim de Caminhos que se Bifurcam, de Jorge Luís Borges. É um conto curto, mas denso. E, facultativamente, se desejar fixar mais alguns pontos a serem abordados no futuro, poderá ler Tlön Uqbar Orbis Tertius, do mesmo autor. Ambos os contos trazem preciosas metáforas.
  • Segunda tarefa: assista ao filme Upstream Color, do diretor Shane Carruth (que tem outro filme, Primer, inspirado na noção de hiper contexto). Ao assistir esse filme, tente responder a seguinte pergunta: no filme, onde está o Grande Mal?

Notas   [ + ]