Uma análise criteriosa sobre o personagem
Demolidor (Daredevil) da Marvel, e suas
encarnações nos quadrinhos e no seriado da Netflix.

Recentemente o Netflix, em parceria com a Marvel, lançou Daredevil (Demolidor), a série sobre o herói de mesmo nome. Para além de suas interessantes habilidades – sentidos super aguçados que contrastam com sua cegueira e habilidades em artes marciais – a história do personagem é interessante e singular, pois mostra o conflito de um homem que tenta viver em meio aos valores cristãos e ao mesmo tempo em que faz justiça com as próprias mãos num bairro, a Cozinha do Inferno (Hell’s Kitchen) infestado pelo crime em suas mais diversas formas.

Religião e vigilantismo são conciliáveis? Matt Murdock, o Demolidor, seria um hipócrita? Um homem que prega valores morais que não são cumpridos na prática?

A identidade secreta mais secreta

demolidor Captura de tela 2015-04-16 20.29.10Uma das características onipresentes na composição de um herói, nas suas versões mais contemporâneas, é a identidade secreta. Seu alter ego tem que ser um cara normal, acima de qualquer suspeita, com características que façam qualquer um falar “Quem? Aquele cara ali?”

Peter Parker é um fotógrafo desastrado e nerd; Clark Kent é um jornalista também desastrado, certinho e com um belo óculos fundo de garrafa na cara, geralmente com fama de covarde, por sempre sumir quando perto do perigo; Bruce Wayne é um playboy bilionário em cujo senso de seriedade e responsabilidade ninguém depositaria fé suficiente a ponto de relacioná-lo ao vigilante mais habilidoso, intelectual e fisicamente, dos quadrinhos.

Frente a todas essas identidades secretas, Matt Murdock é o personagem mais acima de suspeitas que existe. Matt é cego e todos na Cozinha do Inferno conhecem sua história trágica: o garoto perdeu a visão após ser atropelado por um caminhão que transportava, ilegalmente, barris com produtos químicos sem proteção – tudo isso porque, na verdade, ele jogou-se na frente do veículo para salvar um idoso. Seu pai era um lutador de boxe que recebia propina do crime organizado para perder lutas estratégicas e colocar pugilistas de mafiosos em primeiro lugar. Um dia, resolveu fazer diferente, mostrou suas habilidades e ganhou a luta. Poucas horas depois, foi assassinado.

A história de Murdock é cheia de clichês tão bem encaixados que no fim das contas produz um herói quadrinhesco muito original: ele cresce em meio às consequências da corrupção e da ilegalidade; vive num bairro pobre de Nova York; torna-se um advogado super honesto de dia, e à noite, um justiceiro vestido de demônio, punindo aqueles que são lisos o suficiente pra escapar dos rigores da lei. Ah, e ele ainda é católico.

O catolicismo de um diabo atrevido

Quando pensamos num homem extremamente violento, que gosta de surrar criminosos, a última coisa que podemos imaginar é que ele tenha alguma fé. Talvez ele seja viking, mas nunca um cristão – uma religião que, ao menos teoricamente, prega amor ao próximo e paz.

Mas Matt aprendeu desde cedo a ser um bom católico: sua mãe o abandonou para entrar em um convento. Porém, aprendeu também que os caminhos da lei não eram sempre suficientes para se fazer justiça, e que tampouco esperar pela justiça divina era um caminho que lhe trazia alívio.

Suas ações acima da lei são compatíveis com seus votos de católico? Um bom cristão faz justiça com as próprias mãos? Um homem com esses compromissos metafísicos – aposto que você estava ansioso por essa pergunta – sai por aí vestido de demônio, colocando medo na bandidagem? Isso não é uma atitude muito compassiva, considerando que Jesus disse para darmos a outra face e esperarmos pela justiça de seu pai celestial.

Matt é um melhor cristão que você

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O Demolidor é um dos mocinhos, mas seu senso de moralidade faz com que, ao mesmo tempo em que não mede esforços para fazer justiça, também se culpe demais e se pergunte até que ponto seus atos não o tornam tão imoral quanto aqueles contra os quais luta.

Apesar de todas indagações sobre a coerência desse advogado de vida dupla, podemos pensar sobre isso de duas maneiras:

1- Se exigirmos um comportamento cristão exemplar de Matt, teremos, por simetria, que exigir o mesmo de todos os outros cristãos, e sabemos que muitos dos bons cristãos que conhecemos não são irrepreensíveis. Portanto, se formos mesmo rigorosos, não existem bons cristãos.

2- Sejamos mais amenos no nosso julgamento. Se é, possivelmente, impraticável seguir o cânone em absoluto, podemos adotar critérios mais leves pra classificar a virtude dos cristãos. E por esse critério, com certeza Matt Murdock é um bom fiél. Ele é honesto, tem compaixão – principalmente pelos maltratadas pelo sistema -, ajuda àqueles que precisam, se confessa e se arrepende de seus pecados. E parece também não quebrar nenhum dos 10 mandamentos, com ênfase no “não matar”.

Arrisco dizer que, apesar de ter um gosto especial por surrar meliantes, ele é um cristão melhor do que muitos de vocês, leitores. O sujeito é praticamente um mártir.

O Homem Sem Medo

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Não ter medo não é ser imprudente.

Mesmo sendo um sujeito bem virtuoso, o alter ego do Demolidor também tem suas crises de fé – algo comum na vida do indivíduo dedicado ao cristianismo. Assim como você, ele já se questionou se existe mesmo um deus moralizador, que julga os maus e os bons, que promove justiça no mundo.

Um dos mais icônicos momentos foi quando um vilão diz que o Demolidor é um homem sem medo, por ser um homem sem fé. Se concordamos realmente que, a julgar por critérios menos idealistas, Matt é um bom cristão, derrubamos a opinião desse vilão, afinal, Matt parece ter bastante fé.

Todavia, podemos concordar que esse atrevido vigilante parece realmente não ter medo. O modo como ele se enfia em verdadeiras colmeias cheias de criminosos, a forma como anda seguramente por parapeitos, como salta de prédio e prédio e se balança por varais de roupas no topo de edifícios, dá pontos a esse argumento.

Talvez sejam seus sentidos aguçados, ou seu treinamento ninja. Mas, e aí discordo totalmente do argumento original, o que faz Matt ter essa postura aparentemente sem medo é justamente a sua fé, não a falta dela.

A fé é um combustível para a coragem?

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Usemos a história como parâmetro. Quando o cristianismo se firmou como religião oficial do Império Romano, no século V, a adesão popular não foi imediata. Muito sangue escorreu para que os populares assumissem o novo credo. Era o tempo dos mártires, fiéis que defendiam a nova fé, nem que para isso tivessem que morrer das formas mais escabrosas possíveis.

Já como uma religião dos nobres, o mesmo espírito permaneceu nas Cruzadas, quando cristãos europeus partiram para conquistar Jerusalém, dominada pelos muçulmanos.

Todos esses homens, mártires, guerreiros, com certeza covardes não eram.

Nesse sentido, a fé parece um combustível para a coragem, para a luta. E isso vai contra o senso comum, que tende a entendê-la como um antídoto contra o medo da realidade, como algo que nos cegaria para os males da vida, para tudo aquilo poderia conduzir os indivíduos a um niilismo e desesperança absolutos.

O Demolidor é como um cruzado em pleno século XX / XXI, mas ainda assim, não é tão óbvio que estejamos realmente falando de coragem, se falamos de homens inconsequentes, sem medo, que partem para enfrentar desafios de maneira imprudente. Em suma, pode ser que o Demolidor seja só um cara imprudente, precipitado, não necessariamente alguém corajoso.

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O que mais incomoda vilões como o Rei do Crime é a integridade aparentemente inabalável do Demolidor, seu senso incorruptível de justiça. Naturalmente, pessoas que se corromperam de alguma forma não gostam disso, pois eles lembram que é possível ser diferente, que seus atos são sim questionáveis.

A ausência de medo não pressupõe a coragem. Se nos basearmos na filosofia de Aristóteles, veremos que a virtude encontra-se sempre no meio termo, na prudência. Ser corajoso, portanto, não é o extremo de uma linha cujo outro extremo é a covardia.

Um homem pode ser covarde ou inconsequente, esses são os extremos. Se ele está no meio termo, ou seja, se ele tem discernimento para lutar contra as injustiças, mas tem lucidez suficiente pra saber quando isso vale a pena e quando não vale, ele é corajoso.

Não precisamos nos livrar do medo para darmos lugar à coragem, basta usar o bom-senso, a virtude da prudência, para saber o momento exato para cada coisa. É isso que Aristóteles diria ao Demolidor.

É possível, portanto, que Matt Murdock seja um homem sem medo – ao menos sem medo autorreferencial, pois com certeza ele se preocupa com seus entes queridos e com os fracos e oprimidos, e quem se preocupa, tem medo – , ou que, ao menos use o bom senso de uma maneira primorosa para saber os momentos certos de agir corajosamente.

Nesse sentido, podemos ver que Murdock é sim um ótimo católico, pelo menos se formos generosos e não exigirmos nada do que pode estar além do humanamente possível. Se você espera que um bom cristão seja uma cópia exata de Jesus, então ficarei com Nietzsche e direi que o único e último cristão morreu na cruz.

Matt é um bom cidadão, é um bom advogado, defende clientes muitas vezes gratuitamente, só por confiar em seu caráter. Sua vida noturna como vigilante é uma extensão de suas práticas e lemas diurnos, mas ele tenta ser justo, por mais questionáveis que seus atos sejam. E ele parece ter compaixão até pelos sujeitos mais asquerosos, pois nos quadrinhos ele já foi capaz de forçar o Mercenário a tratar de uma doença terminal – por mais que a morte desse sujeito fosse gerar mais benefícios do que prejuízos a ele e à sociedade, se pensarmos de maneira bem utilitária.

E, para além dessa conclusão, temos argumentos seguros para afirmar que a religiosidade de Matt não é uma fuga, não é um véu diante dos males do mundo, não é a tentativa de tornar o mundo uma estufa. Para ele, é algo que dá sentido à sua vida e a seus atos, e que também participa de uma conduta regida pelo bom senso, não pelo pior lado da emotividade que pode vir à tona sempre que o assunto é crença religiosa.

Acredito, portanto, que a Cozinha do Inferno tenha um sensato vigia, que funciona como um anjo da guarda, mas que se veste como um demônio, talvez para lembrar que a justiça nem sempre é leve e bela aos olhos dos culpados.

escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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