pode um diabo vermelho ser um bom cristão?

Um diabo vermelho pode ser um bom cristão?

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Felipe NovaesComentário

Uma aná­lise cri­te­ri­osa sobre o per­so­na­gem
Demo­li­dor (Dare­de­vil) da Mar­vel, e suas 
encar­na­ções nos qua­dri­nhos e no seri­ado da Net­flix.

Recen­te­mente o Net­flix, em par­ce­ria com a Mar­vel, lan­çou Dare­de­vil (Demo­li­dor), a série sobre o herói de mesmo nome. Para além de suas inte­res­san­tes habi­li­da­des — sen­ti­dos super agu­ça­dos que con­tras­tam com sua cegueira e habi­li­da­des em artes mar­ci­ais — a his­tó­ria do per­so­na­gem é inte­res­sante e sin­gu­lar, pois mos­tra o con­flito de um homem que tenta viver em meio aos valo­res cris­tãos e ao mesmo tempo em que faz jus­tiça com as pró­prias mãos num bairro, a Cozi­nha do Inferno (Hell’s Kit­chen) infes­tado pelo crime em suas mais diver­sas for­mas.

Reli­gião e vigi­lan­tismo são con­ci­liá­veis? Matt Mur­dock, o Demo­li­dor, seria um hipó­crita? Um homem que prega valo­res morais que não são cum­pri­dos na prá­tica?

A identidade secreta mais secreta

demolidor Captura de tela 2015-04-16 20.29.10Uma das carac­te­rís­ti­cas oni­pre­sen­tes na com­po­si­ção de um herói, nas suas ver­sões mais con­tem­po­râ­neas, é a iden­ti­dade secreta. Seu alter ego tem que ser um cara nor­mal, acima de qual­quer sus­peita, com carac­te­rís­ti­cas que façam qual­quer um falar “Quem? Aquele cara ali?”

Peter Par­ker é um fotó­grafo desas­trado e nerd; Clark Kent é um jor­na­lista tam­bém desas­trado, cer­ti­nho e com um belo ócu­los fundo de gar­rafa na cara, geral­mente com fama de covarde, por sem­pre sumir quando perto do perigo; Bruce Wayne é um play­boy bili­o­ná­rio em cujo senso de seri­e­dade e res­pon­sa­bi­li­dade nin­guém depo­si­ta­ria fé sufi­ci­ente a ponto de rela­ci­oná-lo ao vigi­lante mais habi­li­doso, inte­lec­tual e fisi­ca­mente, dos qua­dri­nhos.

Frente a todas essas iden­ti­da­des secre­tas, Matt Mur­dock é o per­so­na­gem mais acima de sus­pei­tas que existe. Matt é cego e todos na Cozi­nha do Inferno conhe­cem sua his­tó­ria trá­gica: o garoto per­deu a visão após ser atro­pe­lado por um cami­nhão que trans­por­tava, ile­gal­mente, bar­ris com pro­du­tos quí­mi­cos sem pro­te­ção — tudo isso por­que, na ver­dade, ele jogou-se na frente do veí­culo para sal­var um idoso. Seu pai era um luta­dor de boxe que rece­bia pro­pina do crime orga­ni­zado para per­der lutas estra­té­gi­cas e colo­car pugi­lis­tas de mafi­o­sos em pri­meiro lugar. Um dia, resol­veu fazer dife­rente, mos­trou suas habi­li­da­des e ganhou a luta. Pou­cas horas depois, foi assas­si­nado.

A his­tó­ria de Mur­dock é cheia de cli­chês tão bem encai­xa­dos que no fim das con­tas pro­duz um herói qua­dri­nhesco muito ori­gi­nal: ele cresce em meio às con­sequên­cias da cor­rup­ção e da ile­ga­li­dade; vive num bairro pobre de Nova York; torna-se um advo­gado super honesto de dia, e à noite, um jus­ti­ceiro ves­tido de demô­nio, punindo aque­les que são lisos o sufi­ci­ente pra esca­par dos rigo­res da lei. Ah, e ele ainda é cató­lico.

O catolicismo de um diabo atrevido

Quando pen­sa­mos num homem extre­ma­mente vio­lento, que gosta de sur­rar cri­mi­no­sos, a última coisa que pode­mos ima­gi­nar é que ele tenha alguma fé. Tal­vez ele seja viking, mas nunca um cris­tão — uma reli­gião que, ao menos teo­ri­ca­mente, prega amor ao pró­ximo e paz.

Mas Matt apren­deu desde cedo a ser um bom cató­lico: sua mãe o aban­do­nou para entrar em um con­vento. Porém, apren­deu tam­bém que os cami­nhos da lei não eram sem­pre sufi­ci­en­tes para se fazer jus­tiça, e que tam­pouco espe­rar pela jus­tiça divina era um cami­nho que lhe tra­zia alí­vio.

Suas ações acima da lei são com­pa­tí­veis com seus votos de cató­lico? Um bom cris­tão faz jus­tiça com as pró­prias mãos? Um homem com esses com­pro­mis­sos meta­fí­si­cos — aposto que você estava ansi­oso por essa per­gunta — sai por aí ves­tido de demô­nio, colo­cando medo na ban­di­da­gem? Isso não é uma ati­tude muito com­pas­siva, con­si­de­rando que Jesus disse para dar­mos a outra face e espe­rar­mos pela jus­tiça de seu pai celes­tial.

Matt é um melhor cristão que você

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O Demo­li­dor é um dos moci­nhos, mas seu senso de mora­li­dade faz com que, ao mesmo tempo em que não mede esfor­ços para fazer jus­tiça, tam­bém se culpe demais e se per­gunte até que ponto seus atos não o tor­nam tão imo­ral quanto aque­les con­tra os quais luta.

Ape­sar de todas inda­ga­ções sobre a coe­rên­cia desse advo­gado de vida dupla, pode­mos pen­sar sobre isso de duas manei­ras:

1- Se exi­gir­mos um com­por­ta­mento cris­tão exem­plar de Matt, tere­mos, por sime­tria, que exi­gir o mesmo de todos os outros cris­tãos, e sabe­mos que mui­tos dos bons cris­tãos que conhe­ce­mos não são irre­pre­en­sí­veis. Por­tanto, se for­mos mesmo rigo­ro­sos, não exis­tem bons cris­tãos.

2- Seja­mos mais ame­nos no nosso jul­ga­mento. Se é, pos­si­vel­mente, impra­ti­cá­vel seguir o cânone em abso­luto, pode­mos ado­tar cri­té­rios mais leves pra clas­si­fi­car a vir­tude dos cris­tãos. E por esse cri­té­rio, com cer­teza Matt Mur­dock é um bom fiél. Ele é honesto, tem com­pai­xão — prin­ci­pal­mente pelos mal­tra­ta­das pelo sis­tema -, ajuda àque­les que pre­ci­sam, se con­fessa e se arre­pende de seus peca­dos. E parece tam­bém não que­brar nenhum dos 10 man­da­men­tos, com ênfase no “não matar”.

Arrisco dizer que, ape­sar de ter um gosto espe­cial por sur­rar meli­an­tes, ele é um cris­tão melhor do que mui­tos de vocês, lei­to­res. O sujeito é pra­ti­ca­mente um már­tir.

O Homem Sem Medo

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Não ter medo não é ser impru­dente.

Mesmo sendo um sujeito bem vir­tu­oso, o alter ego do Demo­li­dor tam­bém tem suas cri­ses de fé — algo comum na vida do indi­ví­duo dedi­cado ao cris­ti­a­nismo. Assim como você, ele já se ques­ti­o­nou se existe mesmo um deus mora­li­za­dor, que julga os maus e os bons, que pro­move jus­tiça no mundo.

Um dos mais icô­ni­cos momen­tos foi quando um vilão diz que o Demo­li­dor é um homem sem medo, por ser um homem sem fé. Se con­cor­da­mos real­mente que, a jul­gar por cri­té­rios menos ide­a­lis­tas, Matt é um bom cris­tão, der­ru­ba­mos a opi­nião desse vilão, afi­nal, Matt parece ter bas­tante fé.

Toda­via, pode­mos con­cor­dar que esse atre­vido vigi­lante parece real­mente não ter medo. O modo como ele se enfia em ver­da­dei­ras col­meias cheias de cri­mi­no­sos, a forma como anda segu­ra­mente por para­pei­tos, como salta de pré­dio e pré­dio e se balança por varais de rou­pas no topo de edi­fí­cios, dá pon­tos a esse argu­mento.

Tal­vez sejam seus sen­ti­dos agu­ça­dos, ou seu trei­na­mento ninja. Mas, e aí dis­cordo total­mente do argu­mento ori­gi­nal, o que faz Matt ter essa pos­tura apa­ren­te­mente sem medo é jus­ta­mente a sua fé, não a falta dela.

A fé é um combustível para a coragem?

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Use­mos a his­tó­ria como parâ­me­tro. Quando o cris­ti­a­nismo se fir­mou como reli­gião ofi­cial do Impé­rio Romano, no século V, a ade­são popu­lar não foi ime­di­ata. Muito san­gue escor­reu para que os popu­la­res assu­mis­sem o novo credo. Era o tempo dos már­ti­res, fiéis que defen­diam a nova fé, nem que para isso tives­sem que mor­rer das for­mas mais esca­bro­sas pos­sí­veis.

Já como uma reli­gião dos nobres, o mesmo espí­rito per­ma­ne­ceu nas Cru­za­das, quando cris­tãos euro­peus par­ti­ram para con­quis­tar Jeru­sa­lém, domi­nada pelos muçul­ma­nos.

Todos esses homens, már­ti­res, guer­rei­ros, com cer­teza covar­des não eram.

Nesse sen­tido, a fé parece um com­bus­tí­vel para a cora­gem, para a luta. E isso vai con­tra o senso comum, que tende a entendê-la como um antí­doto con­tra o medo da rea­li­dade, como algo que nos cega­ria para os males da vida, para tudo aquilo pode­ria con­du­zir os indi­ví­duos a um nii­lismo e deses­pe­rança abso­lu­tos.

O Demo­li­dor é como um cru­zado em pleno século XX / XXI, mas ainda assim, não é tão óbvio que este­ja­mos real­mente falando de cora­gem, se fala­mos de homens incon­se­quen­tes, sem medo, que par­tem para enfren­tar desa­fios de maneira impru­dente. Em suma, pode ser que o Demo­li­dor seja só um cara impru­dente, pre­ci­pi­tado, não neces­sa­ri­a­mente alguém cora­joso.

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O que mais inco­moda vilões como o Rei do Crime é a inte­gri­dade apa­ren­te­mente ina­ba­lá­vel do Demo­li­dor, seu senso incor­rup­tí­vel de jus­tiça. Natu­ral­mente, pes­soas que se cor­rom­pe­ram de alguma forma não gos­tam disso, pois eles lem­bram que é pos­sí­vel ser dife­rente, que seus atos são sim ques­ti­o­ná­veis.

A ausên­cia de medo não pres­su­põe a cora­gem. Se nos base­ar­mos na filo­so­fia de Aris­tó­te­les, vere­mos que a vir­tude encon­tra-se sem­pre no meio termo, na pru­dên­cia. Ser cora­joso, por­tanto, não é o extremo de uma linha cujo outro extremo é a covar­dia.

Um homem pode ser covarde ou incon­se­quente, esses são os extre­mos. Se ele está no meio termo, ou seja, se ele tem dis­cer­ni­mento para lutar con­tra as injus­ti­ças, mas tem luci­dez sufi­ci­ente pra saber quando isso vale a pena e quando não vale, ele é cora­joso.

Não pre­ci­sa­mos nos livrar do medo para dar­mos lugar à cora­gem, basta usar o bom-senso, a vir­tude da pru­dên­cia, para saber o momento exato para cada coisa. É isso que Aris­tó­te­les diria ao Demo­li­dor.

É pos­sí­vel, por­tanto, que Matt Mur­dock seja um homem sem medo — ao menos sem medo autor­re­fe­ren­cial, pois com cer­teza ele se pre­o­cupa com seus entes que­ri­dos e com os fra­cos e opri­mi­dos, e quem se pre­o­cupa, tem medo — , ou que, ao menos use o bom senso de uma maneira pri­mo­rosa para saber os momen­tos cer­tos de agir cora­jo­sa­mente.

Nesse sen­tido, pode­mos ver que Mur­dock é sim um ótimo cató­lico, pelo menos se for­mos gene­ro­sos e não exi­gir­mos nada do que pode estar além do huma­na­mente pos­sí­vel. Se você espera que um bom cris­tão seja uma cópia exata de Jesus, então fica­rei com Nietzs­che e direi que o único e último cris­tão mor­reu na cruz.

Matt é um bom cida­dão, é um bom advo­gado, defende cli­en­tes mui­tas vezes gra­tui­ta­mente, só por con­fiar em seu cará­ter. Sua vida noturna como vigi­lante é uma exten­são de suas prá­ti­cas e lemas diur­nos, mas ele tenta ser justo, por mais ques­ti­o­ná­veis que seus atos sejam. E ele parece ter com­pai­xão até pelos sujei­tos mais asque­ro­sos, pois nos qua­dri­nhos ele já foi capaz de for­çar o Mer­ce­ná­rio a tra­tar de uma doença ter­mi­nal — por mais que a morte desse sujeito fosse gerar mais bene­fí­cios do que pre­juí­zos a ele e à soci­e­dade, se pen­sar­mos de maneira bem uti­li­tá­ria.

E, para além dessa con­clu­são, temos argu­men­tos segu­ros para afir­mar que a reli­gi­o­si­dade de Matt não é uma fuga, não é um véu diante dos males do mundo, não é a ten­ta­tiva de tor­nar o mundo uma estufa. Para ele, é algo que dá sen­tido à sua vida e a seus atos, e que tam­bém par­ti­cipa de uma con­duta regida pelo bom senso, não pelo pior lado da emo­ti­vi­dade que pode vir à tona sem­pre que o assunto é crença reli­gi­osa.

Acre­dito, por­tanto, que a Cozi­nha do Inferno tenha um sen­sato vigia, que fun­ci­ona como um anjo da guarda, mas que se veste como um demô­nio, tal­vez para lem­brar que a jus­tiça nem sem­pre é leve e bela aos olhos dos cul­pa­dos.

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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