Esta é a história sobre um contador de histórias: David Attenborough. E ele conta a história de como você, eu e outros seres vivos estamos aqui.


Semana passada o presidente Baraka Obama entrevistou um senhor de 89 anos para discutir o futuro da natureza. Mas quem é e porque este senhor deve ser ouvido? Nas próximas linhas você conhecerá a trajetória de uma pessoa que pisou em todos os lugares do planeta, revelando todas as suas belezas e desafios para a conservação. 

1 . O contador de histórias

Esta é a história sobre um contador de histórias. E um bastante ousado que não se satisfez em ler livros para crianças dormirem. Esse sujeito quis contar a história de como você, eu e outros seres vivos estamos aqui.

Ele decidiu contar a história da vida na Terra.

Se você gosta da natureza, então você já o conhece. Se você gosta de bichinhos fofinhos, você deveria conhecê-lo. E se o único animal que você conhece é o seu pet então isso é decididamente para você.

Além do mais ele é um Sir e se ganhou atenção da rainha da Inglaterra para ser cavaleiro, certamente merece a nossa. Se não a nossa pelo menos a do Obama ele mereceu.

Sir David Attenborough é naturalista, roteirista e apresentador de uma centena de documentários sobre as espécies que vivem ou viveram neste planeta. Com seus 89 anos, e mais de 60 anos de carreira, ele é a cara e a voz de inúmeros vídeos produzidos pela TV britânica, a BBC.

Sir David mostra em seus documentários uma mensagem clara o suficiente para quem quiser ver: nosso mundo é maravilhoso e ele é bem maior do que a tela do seu celular – e vale muito a pena conhece-lo.

Infelizmente já nos contentamos em ver a natureza pelas telas de cristal líquido. Ou ainda, preferimos acreditar na ilusão que espécies extintas possam retornar a vida. A natureza é incrível e depende de você querer descobri-la. E Sir David nos ajuda a entender por que deveríamos querer.

2. O catador de pedras

Sir David Frederick Attenborough nasceu em 8 de maio de 1926 em Londres. A infância do futuro cavaleiro contou com berço privilegiado, não pelo luxo, mas por valores científicos. Passou sua infância no campus da Universidade de Leicester onde ele seu pai era reitor.

Parece que Sir David não era o único interessado pelas formas de vida que andam ou já andaram por aqui. Seu irmão mais velho, Richard Attenborough (1923-2014), foi o Dr. John Hammond do filme Jurassic Park (1993-97). Ah, e também foi diretor do premiado filme Gandhi (1982).

Como toda criança, David tinha fome de curiosidade e, como toda criança, que tem acesso a um ambiente livre para ser o que se é nessa idade, gostava de catar coisas. Começou com pedras, depois fósseis e insetos.

Isso parece de pouca importância, mas é de enorme significado quando se deixa criança ser curiosa. E essa mesma qualidade acompanha Sir David desde daquele momento das pedrinhas e o conduziu a estudar sobre geologia e zoologia na Universidade de Cambridge –
antiga morada de Darwin e Newton.

3. O contato com as câmeras

Em 1950, tentou uma vaga de radialista na BBC. Rejeitado foi convidado a fazer estágio na emissora de TV. Naquela época, ter uma televisão em casa era o equivalente a ter uma Ferrari na garagem. David, que até então havia assistido TV apenas uma vez, tornou-se parte da TV pública britânica em 1952. Desde a primeira vez que ele foi jogado a frente das câmeras descobriu que nunca mais queria sair de lá.

Imagem incorporada no artigo sobre David Attenborough, escrito por Josmael Corso e publicado no Portal Ano Zero. Foto antiga de David jovem, segurando um tatu.

Em meados dos anos 60, David foi promovido para um cargo executivo no canal BBC 2. Naquela época, a emissora já havia criado uma Unidade de História Natural. O canal 2 da BBC foi o primeiro da TV britânica a realizar a transmissão a cores, em 1967. David enquanto gerente foi o responsável pelo lançamento do grupo de comédia Monty Python.

Não tardou para David perceber que sua vocação era estar na frente das câmeras e não atrás de uma mesa de escritório. Pediu demissão do cargo e voltou a fazer o que ele faz de melhor: criar e contar histórias. 

4. A história mais importante de todas: a da vida na Terra

Conhecido por ser o Godfather dos documentários sobre natureza, David não é apenas alguém com talento para câmeras. O que ele consegue pôr nas telas é sentimento, algo que não se pode gerar com palavras dos outros, por isso escreve os próprios roteiros.

A motivação de David não é a mesma das nossas emissoras nacionais que fazem quadros sobre vida selvagens para preencher lacunas da TV ou para catar audiência com algum sujeito correndo atrás de bichos.

David nos conta a história da vida nesse planeta. Conta sobre a singularidade de cada ser vivo, sua relação com o mundo e nos mostra um registro de belezas e acontecimentos que, a cada minuto que passa estão condenados a serem meras lembranças da biodiversidade do planeta.

Entre as séries produzidas, as mais importantes são Vida na Terra (Life on Earth, 1979), um documentário sobre a evolução das espécies, O Planeta Vivo (The living Planet, 1984), que trata de ecologia e como os seres vivos estão adaptados ao seu habitat e Estágios da Vida (The Trials of   Life, 1990), em que o comportamento dos animais é revelado em todas as etapas necessárias para assegurar a continuidade da vida, desde sutilezas do nascimento até a ferocidade na busca por uma refeição. A produção da série Vida (Life) soma 79 episódios sobre todos os grupos de seres vivos conhecidos.

A alta aceitação e credibilidade da comunidade científica permitiram o sucesso da série e o lançamento de David no cenário mundial. Durante as gravações em Ruanda, na África, David relata uma das experiências mais emocionantes em sua vida, o encontro com gorilas das montanhas:

“Há mais significado e mútuo entendimento em trocar um olhar com um gorila do que com qualquer outro animal que conheço. Sua visão, sua audição, seu olfato é tão similar aos nossos que eles veem o mundo em muitos aspectos da mesma forma que nós. Vivemos no mesmo tipo de grupos sociais, com relações familiares em grande parte permanentes. Assim, parece realmente muito injusto que o homem tenha escolhido o gorila para simbolizar tudo o que é agressivo e violento, quando essa é a única coisa que o gorila não é – e que nós somos “.

Em A Vida Secreta das Plantas (The Private Life of Plants, 1995) Sir David queria construir uma narrativa dinâmica. Porém, como você pode imaginar, isso deve ser bastante difícil quando o personagem principal tem raízes ao invés de pernas. A equipe da BBC inovou produzindo o primeiro documentário com técnica de time-lapse acompanhando o crescimento das plantas.

“Desde que chegamos a este planeta como uma espécie, nós cortamos, arrancamos, queimamos e envenenamos elas. Hoje nós estamos fazendo isso em uma escala maior do que nunca. Destruímos as plantas por nossa conta e risco. Nem nós, nem qualquer outro animal pode sobreviver sem elas. O tempo chegou para nós valorizarmos nossa herança verde, não para depredá-la, pois sem elas, nós certamente pereceremos”.

Em A Vida dos Mamíferos (The Life of Mammals, 2002) Sir David, carregando os seus mais de 70 anos consigo, viajou novamente ao redor do mundo para explorar cavernas de morcegos, tigres e ursos. Mas a mensagem mais importante é a que ele deixa ao mamífero dominante da bolinha chamada Terra:

Três milhões e meio de anos separam o indivíduo que deixou as pegadas nas areias da África daquele que as deixou na lua. Um mero piscar nos olhos da evolução. Usando sua inteligência crescente, o mais bem-sucedido de todos os mamíferos tem explorado o ambiente para produzir alimentos para uma população cada vez maior. Apesar dos desastres que a civilização causou a ela mesma, esse processo continuou, de fato acelerado, até hoje. Agora a humanidade está à procura de comida, e não apenas neste planeta, mas em outros. Talvez o tempo chegou para colocar esse processo em marcha ré. Em vez de controlar o ambiente para o benefício da população, talvez seja hora de controlar a população para permitir a sobrevivência do meio ambiente.

5. A cruzada pela conservação da vida selvagem

Os cavaleiros atuais não andam mais por aí de armaduras e espadas. Porém, Sir David está em uma cruzada pela conservação do planeta. Após pisar em todos os continentes, percebeu que o impacto humano no meio ambiente é evidente.

Escreveu e dirigiu uma porção de documentários sobre os efeitos do crescimento da população humana no último século e como isso está relacionado a diversos impactos ambientais desde o desaparecimento dos recifes de corais ao desmatamento das florestas.

Sir David, em O Status do Planeta (State of the Planet, 2000) reúne grandes nomes da ciência mundial para discutir a crise do ecossistema e como a nossa espécie é agente ativo da próxima extinção em massa, a sexta.

Em Nós Estamos Mudando o Planeta Terra? e Nós Podemos Salvar o Planeta Terra? (2006), Sir David retornou aos locais de gravações anteriores em diversos continentes, incluído os gelados, e mostrou o efeito das mudanças climáticas sobre eles. Para Sir David, as ações humanas sobre as mudanças climáticas são claras, e as consequências não afetam apenas a vida selvagem, mas a nossa.

Imagem incorporada no artigo sobre David Attenborough, escrito por Josmael Corso e publicado no Portal Ano Zero. Na imagem, David apoia em seu braço uma águia.

Como ele mesmo diz, está na hora de parar de pensar de quem é a culpa e começar a pensar o que nós podemos fazer para prevenir as mudanças:

“Este é o nosso planeta: o planeta Terra. Ele contém uma variedade impressionante de paisagens e climas. Desde que a vida começou, há cerca de 4 bilhões de anos, ele passou por mudanças extraordinárias em seu clima e nas espécies que vivem nele, mas agora parece que o nosso planeta está sendo transformado – não por eventos naturais, mas pelas ações de uma espécie: o homem. ”

Em Quantas pessoas podem viver no Planeta Terra? (How Many People Can Live on Planet Earth?, 2009) Sir David inicia dizendo que conheceu o mundo em 1950 com uma população mundial de 2,5 bilhões de pessoas. Já 60 anos depois, somos 7 bilhões. A verdade é que a teoria malthusiana do século XVIII cada vez mais se mostra correta. E ela é implacável.

Sir David é envolvido com diversas campanhas e documentários com soluções potenciais. Patrono de diversas organizações conservacionistas, entre elas a Population Matters. Organização que advoga por populações sustentáveis e que conta com importantes e conhecidos membros, como Jane Goodall, James Lovelock e o Prêmio Nobel Paul Ehrlich.

Sir David tem sido invocado como representante das lutas feministas. Defende, em suas campanhas, que para um mundo melhor ser possível precisamos de mulheres com direitos sobre o seu próprio corpo. Enfatiza ainda que as mulheres precisam de emancipação política, atenção médica adequada e gratuita, autonomia sobre o número de filhos que desejam, acesso à educação e direito ao voto.

6. De contador de histórias a Cavaleiro da Coroa Britânica.

Pelas mãos da Rainha Britânica, foi concedido a David Attenborough o grau de cavaleiro (Sir) em 1985. Até agora, ele possui mais títulos honorários recebido por universidades que qualquer outro britânico. Em sua homenagem várias espécies de animais e fósseis receberam o seu nome, tais como: o extinto plesiossauro Attenborosaurus conybeari, o placodermo Materpiscis attenboroughi, a planta carnívora Nepenthes attenboroughii (a maior que se tem conhecimento até hoje) e o raro e ameaçado equidna de Nova Guiné, Zaglossus attenboroughi. 

7. Ensinamentos de Sir David Attenborough

As histórias contadas por este tiozinho octogenário não é uma coleção de imagens fantásticas de bichinhos peludos e também não é uma sobre quão cruel é nossa espécie. Mas é também tudo isso.

A principal informação que deveríamos pegar para nós desta figura é a sua habilidade de se impressionar com o nosso mundo. Sir David com suas narrativas entusiasmadas nos fornece a chance de recuperarmos a maravilhosa dádiva que nossa espécie possui: a curiosidade.

Imagem incorporada no artigo sobre David Attenborough, escrito por Josmael Corso e publicado no Portal Ano Zero.

Seu trabalho nos lembra que trocamos esta inata habilidade de ver, ouvir e sentir a complexidade que é viver neste planeta por passeios no shopping e fotos no espelho. Apenas para se ter uma ideia, cerca de 3/4 da população brasileira nunca visitou uma floresta, parque ou reserva natural, nem sequer uma propriedade rural.

O que preocupa em relação ao futuro da natureza é que as pessoas estão fora do contato com ela. E à medida que se perde conhecimento, compreensão e simpatia com ela, as pessoas vão maltratá-la e não irão se importar em exigir que os governantes a protejam.

Como Sir David gosta de dizer “a natureza é preciosa” e nos convoca a ser, mais uma vez, parte dela. Nos mostra que sua complexa e frágil beleza vale a pena ser protegida e para isso devemos começar por admirá-la.

Fica o convite para você assistir os trabalhos de Sir David e veja sem efeitos especiais ou computação gráfica o mundo em que você pisa. Reaprenda a ver com olhos de criança. E, quem sabe na sua próxima fuga da cidade você perceba quão fantástica é a natureza e por que devemos preservá-la.


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escrito por:

Josmael Corso

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