“Design Inteligente” (DI) é um movimento de marketing político-religioso, disfarçado de ciência, que tenta contrabandear o criacionismo — a ideia de que a vida na Terra é, demonstravelmente, o produto da ação deliberada de um ser mitológico adorado por tribos semitas da Era do Bronze — para as salas de aula. Intelectualmente, trata-se de uma realização da falácia de petitio principii, ou presumir a conclusão: já que a Bíblia está certa, a ciência tem de demonstrar isso, e a evolução não pode ser verdade.

Sua expansão no Brasil coincidiu com a conquista de força política e penetração popular por denominações cristãs de forte inspiração norte-americana. Os Estados Unidos são o berço do design inteligente, que é promovido, principalmente, pelo think-tank cristão Discovery Institute.

A chamada “Terapia de Reorientação Sexual”, ou “cura gay”, não é lá muito diferente disso. Ela também tem seu think-tank gringo, sua aceitação também depende muito mais de convicção religiosa do que de respeito pelos dados científicos e seus defensores também se agarram ao petitio principii bíblico: já que a homossexualidade é condenada na escritura (embora, como de costume quando se trata de um texto tão confuso, contraditório e repleto de edições e elipses, haja espaço para divergências) ela tem de ser um pecado ou uma doença. Se os fatos dizem o contrário, busquemos “fatos alternativos”.

Assim como o design inteligente, as terapias de reorientação sexual partem de premissas teóricas falsas, e tentam se vender por meio de um falso apelo à tolerância — se, no caso do criacionismo, a palavra de ordem é “ensinar a controvérsia”, no da terapia é “deixe o cliente tentar”.

O apelo é falso porque, no caso do design dito “inteligente”, não há controvérsia a ser ensinada: a posição heterodoxa só existe na cabeça dos convertidos, não no debate científico. Quanto à terapia, esquece-se de que “deixar o cliente tentar” pressupõe deixar alguém oferecer uma alternativa sem validade científica: mudando o contexto terapêutico, “deixar alguém tentar” tomar fosfoetanolamina para curar o câncer é, no geral, um eufemismo para autorizar outro alguém a anunciar, irresponsavelmente, que fosfoetanolamina cura o câncer — e a vendê-la, sabe-se lá a que preços, sob esse pretexto a gente desesperada.

A insistência de que a terapia de reorientação sexual é uma falsa promessa pode soar arrogante para muita gente, mas é a conclusão mais cogente que se pode tirar da massa de estudos disponível. Mas pode valer a pena analisar os pressupostos por trás dessas terapias.

A maioria delas assume que a homossexualidade é causada por algum tipo de trauma de infância, seja um trauma violento — como abuso sexual –, ou algo mais difuso, como uma busca desesperada pelo amor e atenção do genitor do mesmo sexo.

O problema é que essas “teorias” da homossexualidade como uma espécie de estresse pós-traumático freudiano (vamos deixar de lado aqui a ironia de argumentos freudianos aparecerem na defesa de uma posição religiosa conservadora) não têm lá muita tração. A maior parte da pesquisa contemporânea  séria a respeito do assunto debruça-se sobre efeitos intrauterinos (aqui e aqui, por exemplo) e/ou interações complexas entre genes e ambiente.

Voltando à comparação com o design inteligente, a situação das teorias da homossexualidade que sustentam as terapias de reorientação sexual não deixa de ter alguma simetria com a da proposta da “complexidade irredutível”, a base teórica desse movimento  criacionista, argumento também já descartado pelos cientistas competentes na matéria.

O ponto mais importante a tirar desse paralelo, no entanto, é o de que ele sugere que, assim como o DI, a ideia da “curabilidade” da orientação sexual também pode ter por trás de si uma máquina de propaganda bem financiada, uma militância ideologicamente motivada e um lobby astuto. No Brasil, o DI já capturou para si o nome de uma universidade de prestígio. Departamentos de psicologia de universidades em geral, e confessionais em particular, fariam bem em se preparar para o ataque iminente.

  • Neder Diogo Junior

    Posso estar viajando na maionese, mas será que essa coisa da “cura gay” não é uma distração para o caos politico atual? Lembro que quando criaram um projeto que limitava os poderes do MP, o Marco Feliciano surgiu com um discurso parecido e tirou o foco desse PL.