Para curar o Brasil, precisamos eliminar a classe política - Parte I

Para curar o Brasil, precisamos eliminar a classe política — Parte I

Em Consciência, Política, Sociedade por Victor LisboaComentários

Sei que tem muita gente como eu, que quando escuta sobre via­gem aos EUA torce o nariz. Já ima­gina logo bra­si­leiro vol­tando com mala cheia de com­pras em Miami, des­lum­brado e ves­tindo camisa polo da ralph loren com per­fume paco rab­bane. Legal é país de inte­lec­tual, né, tipo aque­les da Europa. Afi­nal, as cica­tri­zes do velho mundo são mais pro­fun­das que a inge­nui­dade ganan­ci­osa dos ame­ri­ca­nos — esse papo pre­con­cei­tu­oso e sim­plista, admito.

Reco­nheço minha igno­rân­cia por­que apa­nhei da expe­ri­ên­cia. Bas­tou visi­tar a Costa Oeste ame­ri­cana recen­te­mente e jun­tar o que viven­ciei lá com o que já havia apren­dido a res­peito desse país lendo Toc­que­ville e Stein­beck (e Roth, Salin­ger, Wal­lace, Talese e Capote) para con­cluir que a soci­e­dade nor­te­a­me­ri­cana não é só mais prós­pera e efi­ci­ente que a nossa, mas tam­bém é mais unida e mais genui­na­mente aco­lhe­dora do que nós, bra­si­lei­ros, somos.

E por isso é difí­cil não vol­tar ao meu país, onde as prin­ci­pais notí­cias são de escân­da­los de cor­rup­ção, cha­ci­nas em fave­las, seques­tros relâm­pa­gos, vírus que pro­duz anen­ce­fa­lia, tsu­na­mis de lama, sem fazer a grande per­gunta:

 

O que afinal há de errado com o Brasil?

 

Eu sin­ce­ra­mente não parava de pen­sar sobre isso no retorno para o Bra­sil quando, para me dis­trair na espera de uma cone­xão, com­prei em São Fran­cisco a edi­ção mais recente de Foreign Affairs. E eis que a revista tinha uma maté­ria sobre o Bra­sil, escrita por Edu­ardo Mello (da Lon­don School of Eco­no­mics) e Matias Spek­tor (da Fun­da­ção Getú­lio Var­gas), com o suges­tivo título de How to Fix Bra­zil (Como con­ser­tar o Bra­sil).

Foi um lance de feliz coin­ci­dên­cia, pois era justo esse tipo de enqua­dra­mento das ques­tões bra­si­lei­ras o que eu pre­ci­sava ler. Eu já havia estu­dado as ori­gens de mui­tos de nos­sos pro­ble­mas, mas nenhuma das teo­rias que estu­dei pare­cia dar conta de enfren­tar obje­ti­va­mente nossa situ­a­ção. Acre­dito que, neste artigo da Foreign Affairs, os dois ana­lis­tas fize­ram um diag­nós­tico pre­ciso sobre o que está acon­te­cendo com nosso país.

Este texto e o da semana que vem não trata ape­nas sobre o que Mello e Spek­tor pro­põem, mas uti­liza sua inter­pre­ta­ção dos fatos como uma fer­ra­menta útil para que ana­li­se­mos o que pode­mos fazer de con­creto.

 

1) O Diagnóstico

Se você per­gun­tar por aí qual é o pro­blema do Bra­sil, rece­berá uma dezena de res­pos­tas, depen­dendo da pes­soa: o pro­blema é a edu­ca­ção; o pro­blema é a desi­gual­dade social; o pro­blema é a cor­rup­ção; o pro­blema é a falta de infra­es­tru­tura; o pro­blema é a dis­tri­bui­ção de renda. Todos esses pro­ble­mas exis­tem e são sérios. O Bra­sil parece um paci­ente que é viti­mi­zado por cân­cer, leu­ce­mia e HIV ao mesmo tempo.

Mas o artigo de Mello e Spek­tor tem como pres­su­posto que todos esses pro­ble­mas, embora sérios e exis­ten­tes, já pode­riam ter sido resol­vi­dos, ou ao menos ate­nu­a­dos sig­ni­fi­ca­ti­va­mente, se tivesse havido von­tade polí­tica e com­pro­me­ti­mento polí­tico de nos­sas auto­ri­da­des ao longo das últi­mas déca­das. Afi­nal, o Bra­sil é um país de dimen­sões monu­men­tais, sem con­fli­tos com seus vizi­nhos e rico em recur­sos físi­cos — não há pro­ble­mas estru­tu­rais inven­cí­veis, ape­nas desa­fios con­jun­tu­rais que podem ser ven­ci­dos ao longo do tempo medi­ante inte­li­gên­cia bem apli­cada, pla­ne­ja­mento estra­té­gico e com­pro­me­ti­mento cole­tivo.

Há, por­tanto, um pro­blema fun­da­men­tal no país. Fun­da­men­tal não por­que é a ori­gem de todos os outros (na ver­dade, não inte­ressa para o diag­nós­tico a ori­gem his­tó­rica de cada uma das doen­ças, mas sim o que impede que o paci­ente se cure agora), e sim por ser o pro­blema que impede que rever­ta­mos a degra­da­ção do país em todos os outros aspec­tos da vida de cada um de nós, bra­si­lei­ros.

Esse pro­blema é a estru­tura polí­tica. Nossa estru­tura polí­tica é ine­fi­ci­ente para lidar com os mai­o­res desa­fios públi­cos do país. Mas, pior ainda, a estru­tura polí­tica mon­tada junto com o sur­gi­mento da Nova Repú­blica (1985) criou tam­bém uma nova classe social no Bra­sil. Uma classe social que custa caro aos bol­sos de toda a nação, e que não faz o ser­viço ao qual foi desin­cum­bida. Uma classe social para­si­tá­ria, por­que vive da pro­pina de empre­sá­rios de um lado e dos impos­tos do cida­dão do outro. É a classe polí­tica bra­si­leira.

Em How to Fix Bra­zil, Mello e Spek­tor apre­sen­tam o seguinte diag­nós­tico desse pro­blema fun­da­men­tal:

 

- Há partidos demais no Brasil. 

Atu­al­mente há 35 par­ti­dos polí­ti­cos regis­tra­dos no TSE. Mesmo con­si­de­rando que há gran­des par­ti­dos como PMDB, PT e PSDB, essa quan­ti­dade de par­ti­dos, mui­tos deles nani­cos, resulta em uma tra­gé­dia na dinâ­mica da máquina pública. Quando um governo recém eleito tenta orga­ni­zar o mínimo de coa­li­zão no Con­gresso em torno de um pro­grama de gover­na­bi­li­dade, pre­cisa lidar com uma col­cha de reta­lhos com­posta por diver­sos par­ti­dos.

É o que se pas­sou a cha­mar de “Governo de Coa­li­zão”, com o gra­vame de que, ao ter que fazer con­ces­sões a tan­tos par­ti­dos, o pro­grama de governo vai se des­con­fi­gu­rando de tal forma que todos os seus pon­tos mais con­tun­den­tes aca­bam se des­con­fi­gu­rando, e o que sobra é um governo amar­rado, inca­paz de fazer refor­mas pro­fun­das no país.

 

- Os partidos não possuem claro delineamento ideológico. 

Em uma demo­cra­cia, cada par­tido deve­ria refle­tir os prin­ci­pais inte­res­ses e pos­tu­ras ide­o­ló­gi­cas de uma soci­e­dade. Mas com deze­nas de par­ti­dos, é difí­cil acre­di­tar que cada um deles repre­sente um inte­resse e uma ide­o­lo­gia dis­tinta da soci­e­dade. Na ver­dade, se por um lado os par­ti­dos no Bra­sil não pos­suem pro­gra­mas muito dis­tin­tos entre si, na prá­tica já está pro­vado que eles têm pouquís­sima dife­rença uns dos outros.

Qual o motivo, então, de haver tan­tos par­ti­dos no Bra­sil? Parece que a res­posta está muito mais rela­ci­o­nada ao desejo de gru­pos de polí­ti­cos de obte­rem acesso a recur­sos públi­cos e van­ta­gens ao nego­ciar seu posi­ci­o­na­mento do que na von­tade de real­mente repre­sen­tar deter­mi­nada ide­o­lo­gia ou inte­resse da popu­la­ção.

 

- Os políticos não têm fidelidade partidária. 

Ape­sar de recen­tes refor­mas terem ten­tado mudar esse cená­rio, as regras elei­to­rais ainda per­mi­tem que can­di­da­tos elei­tos tro­quem de par­tido com rela­tiva faci­li­dade. Por outro lado, é comum no Bra­sil que depu­ta­dos e sena­do­res votem con­tra a ori­en­ta­ção de seu par­tido no Con­gresso, sem que disso resulte qual­quer con­sequên­cia.

Os líde­res dos par­ti­dos não con­se­guem con­tro­lar seus repre­sen­tan­tes no Legis­la­tivo, e o resul­tado disso é que o Poder Exe­cu­tivo, ao con­du­zir o governo, pre­cisa nego­ciar quase que indi­vi­du­al­mente com cada con­gres­sista — ou com gru­pos de con­gres­sis­tas que giram em torno de cer­tos inte­res­ses cor­po­ra­ti­vis­tas que se con­tra­põem ao inte­resse maior da soci­e­dade.

Ou seja, aquele governo de coa­li­zão que men­ci­o­na­mos acima não opera medi­ante a nego­ci­a­ção de inte­res­ses ide­o­ló­gi­cos e pro­gra­má­ti­cos entre governo e par­la­men­ta­res, mas sim medi­ante a nego­ci­a­ção de inte­res­ses pes­so­ais ou cor­po­ra­ti­vis­tas de cada con­gres­sista.

 

- Candidatos são eleitos no Congresso baseados não só no número de votos que recebem individualmente, mas no número total de votos recebidos pelo partido.

Em nosso sis­tema elei­to­ral, para alguém ser eleito não importa só o número de votos rece­bi­dos indi­vi­du­al­mente, mas tam­bém o total de votos rece­bi­dos por todos os outros can­di­da­tos do mesmo par­tido ou coa­li­zão. E esse último fator importa tanto que, como con­sequên­cia, mui­tas vezes são elei­tos para o Con­gresso par­la­men­ta­res que não tem qual­quer repre­sen­ta­ti­vi­dade — inclu­sive por terem rece­bido pou­cos votos.

Como Poder Exe­cu­tivo e Legis­la­tivo nego­ci­a­rão mudan­ças impor­tan­tes para a solu­ção dos pro­ble­mas do país, se mui­tos dos con­gres­sis­tas sequer têm legi­ti­mi­dade para repre­sen­tar os prin­ci­pais inte­res­ses da popu­la­ção?

Mais ainda, esse sis­tema elei­to­ral faz com que líde­res par­ti­dá­rios valo­ri­zem nas elei­ções can­di­da­tos que podem ser tra­ta­dos como “cele­bri­da­des” pelos elei­to­res — afi­nal, as cele­bri­da­des dão ao par­tido mui­tos votos, que podem ala­van­car outros can­di­da­tos menos vota­dos gra­ças àquele sis­tema elei­to­ral. Isso ape­nas reforça na men­ta­li­dade do elei­tor bra­si­leiro a ima­gem de can­di­da­tos indi­vi­du­ais, de sal­va­do­res-da-pátria, de líde­res popu­lis­tas e caris­má­ti­cos, tor­nando ainda mais difí­cil dis­cer­nir entre os par­ti­dos e seus pro­gra­mas ide­o­ló­gi­cos.

 

- A troca de favores é o principal elemento de toda negociação política.

A nego­ci­a­ção de con­sen­sos entre o governo eleito e os con­gres­sis­tas não é um pro­blema em si. Na ver­dade, o ajuste entre o Poder Exe­cu­tivo e o Poder Legis­la­tivo para a for­mu­la­ção de um pro­grama de governo que enfrente os desa­fios do país é algo ine­rente a qual­quer demo­cra­cia.

Mas no Bra­sil, como temos deze­nas de par­ti­dos e nenhum com­pro­me­ti­mento dos con­gres­sis­tas com o pro­grama par­ti­dá­rio, o que pre­va­lece são os inte­res­ses indi­vi­du­ais de cada par­la­men­tar e do grupo cor­po­ra­ti­vista que repre­senta. Em suma, cada con­gres­sista tem muito mais poder de bar­ga­nha indi­vi­du­al­mente do que seria reco­men­dá­vel ter em qual­quer demo­cra­cia.

Assim, o apoio ao Governo no con­gresso é obtido não pelo con­senso em torno de deter­mi­na­das linhas de gover­na­bi­li­dade, mas pela troca de car­gos cedi­dos ao par­la­men­tar e seus cor­re­li­gi­o­ná­rios, ou com o apoio a emen­das no orça­mento público que bene­fi­ciem obras e inves­ti­men­tos defen­di­dos pelo con­gres­sista — defen­di­dos mui­tas vezes a ser­viço de empre­sas que pagam ao par­la­men­tar eleito algum tipo de pro­pina, ainda que de forma indi­reta.

 

- A política de investimentos públicos no Brasil não é feita com responsabilidade e critérios objetivos, mas para interesses menores. 

Como con­sequên­cia desse governo de coa­li­zão em que o apoio no con­gresso é obtido medi­ante troca de favo­res com cada par­la­men­tar indi­vi­du­al­mente (ou com grupo de par­la­men­ta­res que se orga­ni­zam em torno de cer­tos inte­res­ses cor­po­ra­ti­vis­tas ou até mesmo escu­sos, como qua­dri­lhas de cri­mi­no­sos orga­ni­za­das den­tro do Con­gresso), os cri­té­rios para grande parte do inves­ti­mento público não são pau­ta­dos pelo inte­resse de toda a soci­e­dade e segundo cri­té­rios obje­ti­vos.

Afi­nal, para obter apoio o Governo pre­cisa ver­ter recur­sos segundo exi­gido pelos par­la­men­ta­res, e os cri­té­rios des­ses par­la­men­ta­res envol­vem bene­fi­ciar a si mes­mos, seus cor­re­le­gi­o­ná­rios e even­tu­ais empre­sá­rios aos quais devem favo­res (entre eles, o apoio finan­ceiro a suas cam­pa­nhas), sem falar na even­tual cri­a­ção de esque­mas cri­mi­no­sos em torno de deter­mi­na­das obras públi­cas ini­ci­a­das ape­nas para que se faci­li­tem des­vios. O resul­tado é que grande parte dos inves­ti­men­tos públi­cos são dis­si­pa­dos e não repre­sen­tam qual­quer retorno ou bene­fí­cio à popu­la­ção.

 

- Cargos na administração pública não são preenchidos conforme critérios de competência, experiência e especialidade, mas para acomodar políticos.

Ainda como resul­tado do governo de coa­li­zão que pre­cisa nego­ciar com cada con­gres­sista, peque­nos gru­pos de con­gres­sis­tas e líde­res par­ti­dá­rios, o apoio a deter­mi­na­dos itens do pro­grama de governo é obtido medi­ante lei­lão de car­gos públi­cos.

Na ver­dade, como há deze­nas de par­ti­dos, mui­tos deles cri­a­dos ape­nas como forma de obten­ção de recur­sos públi­cos e con­trole de inves­ti­men­tos públi­cos a fim de bar­ga­nhar o uso des­ses inves­ti­men­tos em bene­fí­cio de deter­mi­na­das empre­sas pre­dis­pos­tas ao paga­mento de pro­pi­nas, car­gos públi­cos pre­ci­sam ser dis­tri­buí­dos a todos os polí­ti­cos e par­ti­dos que apoi­a­ram o can­di­dato que che­gou ao Poder Exe­cu­tivo.

Afi­nal, é nes­ses car­gos públi­cos que os polí­ti­cos pode­rão bene­fi­ciar os cor­re­li­gi­o­ná­rios de seu par­tido (com a sua esco­lha para ocu­pa­rem car­gos de con­fi­ança) e con­tro­lar os recur­sos públi­cos que bene­fi­ci­a­rão deter­mi­na­das empre­sas que já com­pra­ram sua can­di­da­tura antes mesmo da elei­ção, medi­ante suposta ajuda finan­ceira de sua cam­pa­nha.

Resul­tado disso é que os prin­ci­pais car­gos da máquina pública não são ocu­pa­dos por pes­soas de notó­rio saber na área, mas por polí­ti­cos que ape­nas que­rem dis­tri­buir car­gos de con­fi­ança e saquear recur­sos públi­cos.

 

- Para sustentar esse sistema, o Estado precisa onerar demais a população, mas sem que a população veja qualquer retorno.

Como inves­ti­men­tos públi­cos e car­gos públi­cos são tra­ta­dos como moeda de bar­ga­nha no jogo de apoios polí­ti­cos e nego­ci­a­ção de inte­res­ses mui­tas vezes escu­sos (ou no mínimo cor­po­ra­ti­vis­tas), e como as gigan­tes­cas estru­tu­ras par­ti­dá­rias (em um país no qual há 35 par­ti­dos) pre­ci­sam ser sus­ten­ta­das com dinheiro público, o resul­tado é que o Estado bra­si­leiro é uma máquina voraz que onera a soci­e­dade civil com inú­me­ros tri­bu­tos, regu­la­men­tando todos os aspec­tos da vida civil, buro­cra­ti­zando em dema­sia cada passo do cida­dão, seja o pequeno empre­en­de­dor, o pro­fis­si­o­nal libe­ral ou mesmo o tra­ba­lha­dor assa­la­ri­ado.

A maior parte des­ses recur­sos obti­dos pelo estado, como con­sequên­cia, é alo­cado de forma ine­fi­ci­ente e dis­si­pado em esque­mas de pro­pi­nas e com­pa­drios. Como resul­tado, a tri­bu­ta­ção bra­si­leira repre­senta 40% do nosso PIB, mas a edu­ca­ção e a saúde públi­cas são ine­fi­ci­en­tes, e a infra­es­tru­tura do país, essen­cial para nosso desen­vol­vi­mento, é pra­ti­ca­mente ine­xis­tente.

 

- A corrupção no país é endêmica, e se beneficia desse sistema político falho. 

Todos os paí­ses do mundo são pos­si­vel­mente viti­ma­dos vez ou outra por esque­mas de cor­rup­ção, mas no Bra­sil a cor­rup­ção atin­giu a metás­tase gra­ças a esse sis­tema polí­tico exposto acima. Um sis­tema em que (1) o Poder Exe­cu­tivo pre­cisa lei­loar car­gos e recur­sos públi­cos para obter apoio, em que (2) os con­gres­sis­tas detém enorme poder de bar­ga­nha, em que (3) par­ti­dos não estão rigi­da­mente vin­cu­la­dos a cer­tos inte­res­ses públi­cos e posi­ci­o­na­men­tos ide­o­ló­gi­cos cla­ros, é ter­reno fér­til para que a cor­rup­ção se alas­tre.

A fim de con­se­guir suporte no con­gresso e pre­miar quem os apoiou durante as elei­ções, cada governo dis­tri­bui os prin­ci­pais car­gos segundo o que ditam con­gres­sis­tas e líde­res par­ti­dá­rios. Uma vez nes­ses car­gos, os polí­ti­cos colo­cam seus cor­re­li­gi­o­ná­rios nas posi­ções cha­ves de con­se­lhos e dire­to­rias das mais pode­ro­sas agên­cias e esta­tais, de modo que pos­sam bene­fi­ciar deter­mi­na­dos gru­pos empre­sa­ri­ais pre­dis­pos­tos a pagar por esses favo­res.

Pagas as pro­pi­nas e bene­fi­ci­a­dos todos os envol­vi­dos, os recur­sos públi­cos são dire­ci­o­na­dos de forma ine­fi­ci­ente, inclu­sive para com­pen­sar o que foi des­pen­dido por empre­sá­rios durante a dis­tri­bui­ção de pro­pi­nas. Cada vez mais a máquina pública vai se tor­nando pesada, e para sus­ten­tar tudo isso cada vez mais recur­sos são extraí­dos da popu­la­ção medi­ante pesada tri­bu­ta­ção e buro­cra­ti­za­ção da vida de todos nós.

 

Conclusão

O que temos no final disso tudo é algo muito feio e sobre os qual os arti­cu­lis­tas Mello e Spek­tor não ousam falar aber­ta­mente. Mas outros ana­lis­tas da situ­a­ção polí­tica atual, como o jor­na­lista Ricardo Boe­chat já iden­ti­fi­ca­ram muito bem: temos no Bra­sil algo inu­si­tado — a for­ma­ção de uma classe social espe­cí­fica e para­si­tá­ria.

Trata-se de uma classe social que não se iden­ti­fica com os tra­ba­lha­do­res, com os pro­fis­si­o­nais libe­rais, com a popu­la­ção em geral. Tam­bém é uma classe social que não se iden­ti­fica com a elite, com os gran­des empre­sá­rios. É uma classe social que não está vin­cu­lada a qual­quer dos par­ti­ci­pan­tes do nosso mer­cado e de nos­sos sis­tema de pro­du­ção e cir­cu­la­ção de riqueza.

Essa classe social vive ape­nas de para­si­tar as demais clas­ses, e existe ape­nas com o pro­pó­sito de con­di­ci­o­nar o fun­ci­o­na­mento da máquina pública (que deve­ria fun­ci­o­nar para aten­der o bem comum de toda a soci­e­dade) à obten­ção de favo­res. Buro­cra­ti­zando todos os aspec­tos da vida dos cida­dãos (tente se casar ou com­prar um imó­vel, e veja a quan­ti­dade de pape­lada de que pre­cisa) e emper­rando o fun­ci­o­na­mento das empre­sas (a ponto de todo pequeno empre­en­de­dor ter o Estado como seu sócio for­çado), essa classe polí­tica uti­liza da tri­bu­ta­ção e da pro­pina para no final de um sis­tema de favo­re­ci­men­tos ver­ter recur­sos para os par­ti­dos e cor­re­li­gi­o­ná­rios.

Trata-se da classe polí­tica bra­si­leira: uma classe que fun­ci­ona segundo sua pró­pria lógica, e que atua segundo seus pró­prios inte­res­ses, que não se con­fun­dem com os inte­res­ses da popu­la­ção ou mesmo dos empre­sá­rios. É uma classe que para­sita de um lado toda a soci­e­dade (pois é de seus tri­bu­tos que resul­tam não só sua remu­ne­ra­ção, mas os recur­sos e inves­ti­men­tos que vão bar­ga­nhar com gran­des empre­sas) e de outro gran­des empre­sá­rios cri­mi­no­sos, dis­pos­tos a com­prar favo­res polí­ti­cos (aos quais ven­dem caro os bene­fí­cios esta­tais).

Temos, enfim, mui­tos pro­ble­mas, mas o prin­ci­pal pro­blema emper­ra­dor de nosso desen­vol­vi­mento é a atual classe polí­tica.

 

2) O Tratamento

Se o diag­nós­tico é que o prin­ci­pal pro­blema do bra­sil é o fato de que o seu sis­tema polí­tico foi estru­tu­rado de forma desas­trosa, esti­mu­lando o desen­vol­vi­mento de uma classe polí­tica que para­sita o país e entrava seu desen­vol­vi­mento, a con­sequên­cia lógica é que pre­ci­sa­mos alte­rar esse sis­tema polí­tico e des­mon­tar essa classe para­si­tá­ria.

Portanto, a solução seria uma profunda reforma política e eleitoral.

Sim­ples, não?

Claro que não. Afi­nal, essa reforma polí­tica só pode ser imple­men­tada, em um sis­tema demo­crá­tico, por aque­les que atu­al­mente seriam pre­ju­di­ca­dos por qual­quer reforma. Em outras pala­vras, a classe polí­tica atual jamais imple­men­tará a reforma polí­tica e elei­to­ral de que pre­ci­sa­mos — no máximo, farão peque­nas mudan­ças, alte­ra­ções tími­das e sem grande impacto, ape­nas para dize­rem à popu­la­ção que estão fazendo algo.

Esta­mos, por­tanto, pre­sos enquanto cida­dãos a um esquema do qual não sabe­mos como sair: iden­ti­fi­ca­mos o pro­blema, iden­ti­fi­ca­mos os para­si­tas que cor­roem a soci­e­dade, mas a mudança e a cura depende da atu­a­ção des­ses pró­prios para­si­tas, que obvi­a­mente não têm qual­quer motivo para cola­bo­rar conosco.

Esta­mos em um impasse: não pode­mos fugir, não pode­mos fazer nada ape­sar de per­ce­ber­mos o pro­blema. Supo­nho que a pri­meira coisa que surja na mente dos mais afo­ba­dos é a defesa de alguma medida anti­de­mo­crá­tica. Afi­nal, se a classe polí­tica é o entrave que impede a reforma polí­tica, ape­nas pas­sando por cima da demo­cra­cia é que con­se­gui­re­mos desa­tar esse nó gór­dio.

É difí­cil, eu con­cordo. Parece não haver qual­quer saída den­tro do jogo demo­crá­tico. A soci­e­dade inteira encon­tra-se, neste momento, refém de uma classe polí­tica que busca bene­fi­ciar a si pró­pria. Então não have­ria outra solu­ção senão enfren­tar essa classe polí­tica e des­truí-la de qual­quer forma, ainda que ao sacri­fí­cio de cer­tas garan­tias cons­ti­tu­ci­o­nais. Isso ou per­ma­ne­ce­re­mos seques­tra­dos por esses gru­pos de mafi­o­sos tra­ves­ti­dos de par­ti­dos.

Mas eli­mi­nar a classe polí­tica uti­li­zando de meios anti­de­mo­crá­ti­cos é como ten­tar eli­mi­nar as célu­las can­ce­rí­ge­nas de um corpo uti­li­zando o vírus do HIV: ou seja, é tro­car uma doença ter­mi­nal (a pés­sima classe polí­tica) por outra (for­ças anti­de­mo­crá­ti­cas).

Na ver­dade, há uma só solu­ção pos­sí­vel den­tro do jogo demo­crá­tico e, embora difí­cil, tal­vez seja nossa última espe­rança para fugir­mos desse seques­tro sem sacri­fi­car a demo­cra­cia. Dela fala­re­mos semana que vem.


Con­tri­bua com a con­ti­nui­dade do Ano Zero aqui.


Você pode que­rer ler tam­bém:

Por que as elei­ções fer­ra­ram a sua cidade
Vamos hac­kear a demo­cra­cia?

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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