A cada ano, o site Edge.org faz uma pergunta para dezenas de cientistas, pesquisadores e acadêmicos ao redor do planeta sobre um determinado assunto. Para 2014, a pergunta era simples e provocativa: Qual noção científica estaria pronta para aposentadoria?

Como não podia deixar de ser, as respostas são variadas e por vezes, contraditórias. Mas uma coisa chama atenção: os antropólogos Laura Betzig, Pascal Boyer e John Tooby (pesquisadores de psicologia evolucionária, um ramo que relaciona psicologia cognitiva, evolução biológica e genética) são três das vozes crescentes que se manifestam contra o estudo da cultura como uma ciência: cultura, afirmam, no fundo, nada explica, sendo o equivalente científico de crenças em forças ocultas e misteriosas atuando sobre o comportamento humano, ou, na melhor das hipóteses, é o semelhante social do protoplasma.

Se protoplasma foi uma entidade celular cuja atividade era misteriosa para os biólogos do século XIX, tornando-se um um elemento científico erronameante construído por nossa ignorância sobre os processos internos e subdivisões das células  (que não eram  conhecidos até o advento do microscópio eletrônico), na visão da psicologia evolucionária a cultura como esquema explicativo do comportamento humano seria uma espécie de protoplasma nas ciências atuais: uma ideia inadequada para descrever fenômenos que são perfeitamente compreensíveis, desde que munidos de instrumentos de observação adequados.

Portanto, a investigação sai do campo macroscópico social, comum aos antropólogos e etnólogos do século XX, para mergulhar na realidade microscópica de genes, indicando que  todos os debates sobre a distinção entre natureza e ambiente,  inato e adquirido (nature vs. nurture), repousam sobre uma falsa dicotomia. Como seres biológicos que somos, o processo genético de adaptação e seleção natural não deixou de atuar e, para os antropólogos evolucionários, análises históricas de nossas sociedades revelam várias analogias com ações de outros seres vivos.

Enquanto essas visões modernas da antropologia têm muita coisa valiosa para ensinar, principalmente no tocante ao papel do ambiente e da biologia no desenvolvimento humano, cabe questionar se eliminar a ideia científica de cultura é algo realmente necessário ou até mesmo válido. Não existiria uma forma de casar a perspectiva evolucionária com a autonomia subjetiva humana?

Para achar uma forma de entendermos melhor o que está em jogo, o artigo terá duas partes: a primeira lidará com aspectos “clássicos” da antropologia cultural, enquanto a segunda, que será publicada futuramente, envolverá alguns dos desenvolvimentos recentes que levaram ao questionamento da cultura como ciência, para então verificarmos até que ponto a posição fisicalista e evolucionária é sustentável e no que deve ser contestada.

1 – Cultura e civilização

Originalmente, a palavra latina cultura tinha uma definição bem clara: a de cultivo da terra. Ainda que Cícero a tenha utilizado como uma metáfora filosófica para indicar que a alma deve ser cultivada como a terra, o uso agrícola do termo foi o predominante por séculos, e neste sentido ela ainda aparece na Encyclopédie de Diderot e d’Alembert.

Porém, Edward Tylor, o primeiro a tratar a cultura de forma científica, explica-a nestes termos: “Cultura ou civilização, entendido em seu amplo sentido etnográfico, é aquele complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, arte e quaisquer outras capacidades ou hábitos adquiridos pelo ser humano como membro de uma sociedade”.

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É notável que Tylor tenha utilizado a palavra “civilização”, e esta pode ser a chave para entender sua proposição de que o comportamento humano, medido em larga escala, tivesse regularidades e padrões que pudessem se submeter ao crivo da ciência, enquanto buscava uma forma de conciliar uma crença em uma essência humana universal com a constatação incontestável das divergências de pensamento e comportamento entre diversos povos.

Se cultura é um termo antigo, a palavra civilização é relativamente recente: podemos precisar seu uso e difusão a partir das últimas décadas do século XVIII. Civilização, grosso modo, refere-se ao ponto culminante do desenvolvimento humano. Neste sentido, a filosofia já tinha seus precursores com Diderot, Rousseau, Vico, Herder, Kant, que acreditavam em um ápice moral, técnico, artístico e filosófico a ser almejado pela humanidade.

Quanto Tylor definiu cultura, ele tinha em mente dois sentidos: kultur, de origem germânica, designava as realizações espirituais de um povo, similar ao uso da palavra civilização no sentido descrido acima, ou seja, humanista e idealista; civilisation, que em francês se referia ao desenvolvimento técnico de um povo, mas que também tinha um sentido do progresso no qual a humanidade sairia do estado de selvageria até chegar ao ponto evolutivo civilizatório, confirmando assim a emancipação humana em relação ao estado de natureza primitivo.

Logo, antes mesmo da definição evolucionária de Tylor sobre desenvolvimento cultural como um percurso da selvageria à civilização, a ideia já existia no pensamento iluminista europeu. O conceito de civilização, de certa forma, antecede, complementa e supera o de cultura, criando e reforçando uma visão etnocêntrica e classicista da cultura como uma atividade de espíritos elevados. As inúmeras diferenças entre as sociedades humanas eram explicadas como momentos evolucionários distintos na escala “Selvageria ► Barbárie ► Civilização”, enquanto a uniformidade humana seria a tendência de todo o desenvolvimento cultural e social de qualquer povo seguir forçosamente este único caminho evolutivo, ainda que não necessariamente ao mesmo tempo.

2 – Boas e o surgimento do relativismo cultural

Não tardou para que as ideias de Tylor fossem logo criticadas. Porém, se lembrarmos que ele criou a antropologia cultural como ciência em 1871, com a publicação de Primitive culture, precisaríamos esperar até o raiar do século XX para Franz Boas propor uma crítica ao modelo tyloriano de “racismo científico”.

Boas pensou em estudar cientificamente as regras da cultura a partir da comparação histórica de povos distintos, e logo percebeu que a visão de Tylor não se sustentava, pois os traços culturais dependiam diretamente da história da comunidade. Processos históricos distintos geravam as diferenças culturais. A antropologia, portanto, longe de propor uma linha evolucionária fixa de desenvolvimento, devia estudar povos e culturas separadamente.

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Não existindo um padrão evolucionário fixo, mas antes diversas formas de um povo desenvolver hábitos e comportamentos segundo sua história, não havia qualquer motivo racional para dividir culturas de acordo com estágios civilizatórios. Assim, cada cultura deveria ser respeitada em sua singularidade sem julgamentos valorativos que as colocassem em escalas variando da “sub-humanidade” (selvagens) ao “humano” (civilizado).

3 – Superorganicidade

A despeito das diferenças, Tylor e Boas foram imprescindíveis no desenvolvimento da cultura como ciência, assim como na instituição de suas bases metodológicas (principalmente Boas). Mas qual seria a relação entre biologia e cultura? Antes de se dedicar à antropologia, Boas era um cientista natural, mas concluía que os modelos de evolução biológica não podiam ser analisados apenas por mensuração das características físicas, e, ainda que apoiasse a teoria darwiniana de evolução, não havia forma metodológica confiável de relacionar cultura com traços fenotípicos.

À medida que as pesquisas biológicas se desenvolviam a partir do início do século XX, as descobertas de Mendel e Morgan, juntamente com a distinção genótipo-fenótipo de Johannsen e outras contribuições, formaram as bases dos estudos clássicos de genética, criando as condições experimentais para testar teorias evolutivas, ao mesmo tempo que permitia aos antropólogos umas nova abordagem em relação ao termo cultura.

Alfred Kroeber, que fora estudante de Boas, postulou em um artigo clássico que a cultura permitiu o desenvolvimento do superogânico, ou seja, da capacidade que os seres humanos têm não de se adaptar ao ambiente como outros animais o fazem, mas de alterar o ambiente para suas necessidades fisiológicas.

Enquanto no processo evolutivo biológico um ser vivo perde uma característica para adquirir outra que, com sorte, permite a sobrevivência no ambiente, quando o ser humano desenvolve a cultura a relação se inverte: teríamos perdido nossa animalidade instintiva em detrimento da cultura, mas em troca, ganhamos o poder de sobreviver em qualquer ambiente adaptando-os ao nosso aparato orgânico.

Esta superação da natureza, das limitações biológicas, Kroeber chamou de superorgânico. Dado o fato de que, atualmente, até fora da esfera terrestre somos capazes de criar condições de habitações semipermanentes, como a Estação Espacial Internacional (a ISS), ele parece ter alguma razão.

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Todavia, se Kroeber torna a cultura um processo oriundo da evolução biológica, paradoxalmente coloca-a em um patamar além: transformando-nos em superorgânicos, teríamos deixado de lado o processo evolutivo biológico que regulou nossa ancestralidade e os outros animais da esfera terrestre. Isto reforça ainda mais a tendência de considerar a cultura como uma característica exclusivamente humana, capaz de enterrar todos nossos instintos.

4 – Cultura e instinto

Como seria de se esperar, cultura é um termo altamente elusivo e abrangente. Em 1952, Kroeber e Kluckhohn compilaram 164 definições diferentes de cultura. Em comum todas tem o fato de considerar a cultura algo referente à transmissão de informações, conhecimentos, hábitos, técnicas, etc. (com a variação, em alguns casos, de explicitar o papel regulador da cultura com o ambiente social e natural que circunda os indivíduos) em oposição a algo inato. Pode-se notar que, apesar de tudo, as definições tardias de cultura não se distanciaram muito da proposta originária de Tylor em considerar a cultura como transmissão de comportamentos, ideias e tecnologias como algo exclusivamente humano e não-biológico.

Instinto, por sua vez, pode ter uma amplitude de sentido muito vasta, com significados específicos em psicologia, biologia e sociologia. Muitos consideram que instinto opõe-se à cultura, pois, se existe consenso de que cultura é algo adquirido em um processo de aprendizagem mediado por linguagem, o instinto seria uma capacidade inerente dos organismos a ter um tipo de comportamento em determinadas situações.

Há uma linha de interpretação que afirma que os comportamentos, para serem considerados instintivos, devem ter, dentre outras, as seguintes características: origem genética (não de aprendizado), ser irresistível (se o estímulo ocorre, o comportamento será sempre o mesmo) e partilhado por todos os membros de uma espécie. Tendo isto em conta, uma longa lista de pensadores e cientistas concluíram, há tempos, que o comportamento humano não é instintivo, seja em sua totalidade ou maior parte.

Podemos comparar o comportamento de animais ao redor do planeta e notaremos uma padronização comportamental bastante previsível, mas não é necessariamente a previsibilidade o importante aqui – cultura pode gerar comportamentos regulares, afinal de contas.

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O que interessa é qual a origem deste comportamento: podemos esperar que cães, ao redor do planeta, tenham o mesmo comportamento em relação à marcação territorial (pela urina), mas o mesmo não se aplica aos humanos: podemos ter diversas formas de definir um território, ou mesmo, abolir qualquer noção territorial em favor de uma vida comunal irrestrita: as opções comportamentais serão determinadas pelos fatores culturais presentes no ambiente que nos são transmitidos em aprendizado via um sistema simbólico complexo, cuja forma mais evidente é chamada linguagem.

Pode-se argumentar que cães sofrem um processo de domesticação, que nada mais é do que aprendizado. Entretanto, a cultura envolve o desenvolvimento comportamental por intermédio da sociabilidade com membros da própria espécie  – animais podem aprender coisas novas, mas muitas vezes o conhecimento adquirido morre com ele (é bem mais complexo do que isto, e há exceções, como veremos na parte 2).

Portanto, quando dizemos que alguma pessoa tem instinto, fazemos uma afirmação equivocada: se houvesse instinto materno nas mulheres, dificilmente teríamos infanticídio cometido por mães; se houvesse instinto sexual, não haveria celibatários; da mesma forma, se o homem fosse uma máquina inatamente assassina e sanguinária, viveríamos em um estado de caos natural hobbesiano e seria improvável que existissem pacifistas ou mesmo sociedades com índices baixíssimos de violência.

Mas, ao fim das contas, qual a função de nossa biologia sobre nosso comportamento? Não haveria nada que pudéssemos creditar à genética? Quando, muito comumente, lemos sobre a descoberta dos genes associados a alguma doença ou comportamento, o que isto realmente significa? Cultura realmente é característica apenas humana? Como a linguagem influencia comportamentos humanos e não-humanos? Porque cultura passou de tábua de salvação explicativa sobre a natureza humana para um conceito vago sem valor científico? Quais as consequências pode ter a abolição da cultura? E o que a teoria da complexidade nos fornece para entender estas questões? É o que veremos na próxima parte do artigo.

escrito por:

Attila Piovesan

Formado em Administração e Jornalismo, é também mestre em Letras e professor universitário. Pesquisador de literatura, comunicação e história em quadrinhos. Gosta de semiótica peirciana, teoria da complexidade, epistemologia, antropologia cultural, ética e filosofia do trágico, e jura que todos estes conhecimentos diferentes podem se conectar.