Cultura do estupro, culpabilização da vítima e homem enquanto estuprador em potencial: entenda as nuances que estão em jogo.


Como explicar que 30 homens tenham estuprado uma garota de 16 anos? Não apenas um, mas 30, onde nenhum dos 30 fez algo para impedir o ocorrido?

Existe Cultura do Estupro?

Hipótese 1:

Todos os homens são estupradores em potencial e só precisam de um “gatilho” para que isso ocorra. Além disso, temos uma “cultura do estupro“, que de certa forma incentiva o ato, alimentando a ideia de que o homem deve dominar a mulher, que isso é socialmente aceitável e que, em casos de estupro, a culpa é da vítima (da roupa curta, de frequentar locais perigosos, etc.). O potencial inato do homem para ser estuprador deveria ser contido por uma educação persistente (“ensine seu filho a não estuprar”), mas é alimentado por uma cultura que aceita e até incentiva o ato.

Hipótese 2:

Sobre a cultura do estupro:

O termo “cultura do estupro” pode se referir a pelo menos duas coisas diferentes:

  1. uma cultura que incentiva o estupro, entende o estupro como aceitável ou ao menos onde ele ocorre com grande parte das pessoas;
  2. uma cultura que, apesar de condenar severamente o estupro, não entende bem o que é estupro, relativiza algumas formas de estupro e culpabiliza a vítima.

Em artigos e livros de pesquisadores do tema, encontraremos quase sempre definições similares ao 2. Apesar disso, nas redes sociais e até em muitos textos feministas da internet, as pessoas parecem entender que há também, no Brasil, uma cultura do estupro do tipo 1. Mas os dados não dão muito respaldo para esta leitura.

O Brasil tem aproximadamente 50 mil casos de estupro registrados por ano, o que equivale a cerca de 25 estupros a cada 100 mil habitantes. Como grande parte dos estupros não é registrado, especialistas estimam que este número pode ser de três a dez vezes maior!

Qualquer número maior do que zero já deveria ser inaceitável e estes dados são mesmo assustadores. Apesar disso, os dados do Brasil não passam perto dos de países como a África do Sul, com 4,5 milhões de estupros por ano em uma população de 50 milhões – ou 9 mil estupros a cada 100 mil habitantes -, 40 vezes mais do que as piores estimativas do Brasil, estimando-se que 40% das mulheres sul-africanas serão estupradas ao menos uma vez ao longo de suas vidas.

O mesmo poderia ser dito sobre países como Congo, Uganda e muitos países do Oriente Médio, onde sequer temos como saber as estatísticas, já que apenas é considerado estupro se a vítima tiver ao menos quatro homens como testemunhas oculares que deponham a favor dela (e, por causa disso, grande parte da população carcerária é de mulheres que foram estupradas, foram à polícia, mas não conseguiram os quatro homens como testemunhas). Em todos estes países é plausível falar de uma cultura do estupro do tipo 1.

Já, no Brasil, aproximadamente 1% das mulheres serão estupradas ao menos uma vez e menos de 0,5% dos homens estuprarão algum dia. Não custa repetir: qualquer número acima de zero estupros e estupradores é absurdo e estes dados deveriam sim deixar a todos muito, muito preocupados e combativos em relação ao estupro no país. Mas estes dados não dão respaldo à ideia de que “todo homem é um estuprador em potencial”, que no Brasil o homem é incentivado a estuprar, etc.

No Brasil, tanto o estupro quanto o estuprador são fervorosamente condenados, sendo bem conhecido o fato de que prisioneiros são especialmente intolerantes com estupradores e frequentemente os matam na prisão (isso quando não são linchados antes – uma rápida pesquisa no Google nos traz centenas de notícias assim).

Já a cultura do estupro do tipo 2 parece se adequar melhor ao nosso contexto. Não conheço pesquisas sobre isso, mas é provável que a maioria dos brasileiros pense em estupro como sendo exclusivamente a relação sexual forçada que envolve penetração, enquanto na realidade (e na lei) muitas outras coisas são estupro; mais especificamente, quaisquer atitudes sexuais (como masturbação ou mesmo alguns casos de “encoxamento”) não-consensuais (ou seja, também é estupro sim se alguém faz sexo com uma pessoa inconsciente ou que de alguma forma não pode consentir – por ter deficiência mental, por estar muito alcoolizada, etc.).

Também parece verdadeiro que parte significativa dos brasileiros relativizem o estupro – por exemplo, ao apontar que o estuprador e a vítima eram casados, ou, no caso do estupro masculino, que ele teve ereção, logo que também queria. E, talvez o mais famoso, é certamente verdade que existe em nossa cultura pessoas que culpabilizam a vítima, dizendo que ela usava roupas curtas, que provocou o estuprador ou que andava sozinha de noite em ruas desertas. Com relação a estes dois últimos, aquela famosa e polêmica pesquisa do IPEA a respeito da violência contra a mulher traz dados sobre o tema.

Tudo isso me leva a pensar que é bem mais coerente falar da cultura brasileira como uma cultura do estupro tipo 2 do que do tipo 1.

A culpabilização da vítima

culpabilização da vítima de estupro cultura do estupro

Parece-me que a culpabilização da vítima não é uma característica exclusiva da cultura do estupro, mas um fenômeno bem mais abrangente e usual do qual a culpabilização da vítima de estupro é uma das incontáveis manifestações.

Não é incomum, por exemplo, que uma pessoa que foi enganada e roubada por um charlatão pense que foi muito ingênua, que deveria ter pesquisado mais sobre o assunto antes, que não deveria ter deixado ele saber a senha do cartão dela ou coisa assim. Também não seria nada inesperado se pessoas em volta dela apontassem as mesmas coisas, acusando-a de ter sido ingênua, de ter feito por onde, etc. Podemos pensar em culpabilizações semelhantes em vítimas de assassinatos (“ele não tinha nada que ter se envolvido com traficantes”), de assaltos (“também, pra que que você foi andar de Rolex naquela região?”), de esquemas de pirâmide (“você foi ingênuo e ganancioso, deu seu dinheiro pra eles, foi bobo, dançou mesmo”) e qualquer situação em que haja uma vítima.

Assim sendo, a culpabilização da vítima em casos de estupro não seria fruto de uma sociedade machista ou de um silenciamento das mulheres, mas uma das manifestações de uma infeliz tendência humana: diante de uma situação que tem uma vítima, procurar elementos da vítima (características, comportamentos, etc.) que podem ter contribuído para esta situação.

Talvez o ser humano faça isso consigo mesmo e com os outros em uma tentativa de identificar o que aumenta a probabilidade desta situação acontecer, para que ele mesmo evite algo que poderia levar a outro episódio ou descreva para a pessoa como ela poderia agir para evitar. Ao descrever a relação entre estes elementos e a situação aversiva da qual foi vítima, acaba punindo o comportamento que, acredita (ainda que de maneira completamente equivocada), aumenta a chance da situação acontecer novamente.

O estupro coletivo

Há décadas a Psicologia produz dados sobre como é possível que pessoas cometam crueldades, atos hediondos, em grupo. A explicação passa por um misto de 3 elementos: efeito manada; efeito do observador; e microcultura.

O chamado “efeito manada” é estudado há décadas, por pesquisadores de diferentes áreas. Grosso modo, observa-se que, em grupos, indivíduos são capazes de se comportarem de uma maneira irracional ou atroz que apenas pouquíssimos se comportariam longe do grupo. Basta uma pessoa com influencia sobre o grupo iniciar o comportamento atroz que o resto do grupo segue, tornando aquela situação, naquele contexto específico, socialmente aceitável – pela força do grupo.

Comportamento de manada.
Comportamento de manada.

Em níveis extremos, temos o nazismo ou os cultos assassinos, como o liderado por Charles Manson. Em níveis menores, temos os grupos que exercem bullying na escola ou parte dos movimentos sociais, que consideram aceitável comportarem-se agressivamente diante de determinados grupos de indivíduos, por terem respaldo do grupo e, consequentemente, ficarem insensíveis aos sentimentos daqueles que atacam com o aval do grupo. Homens e mulheres estão igualmente suscetíveis a este efeito.

O efeito do observador (ou efeito Hawthorne) demonstra que, mesmo se houverem indivíduos muito desconfortáveis dentro do grupo que se comporta sob o efeito manada, estes têm alta probabilidade de fingirem estar confortáveis e se engajarem, engajarem relutantemente ou esquivar ao máximo para não engajarem, mas também não fazerem nada para impedir os demais membros do grupo. Estes membros sentem-se repudiados pela situação, mas, por incrível que pareça, pensam que o problema é com eles e não com o grupo. Fingem ou esquivam para que os demais membros do grupo não percebam seu desconforto e julguem-o como fraco, tolo ou traidor.

Por fim, uma microcultura pode contribuir para naturalizar determinados comportamentos e aumentar a probabilidade do comportamento de manada. No caso do estupro coletivo, há inegavelmente uma microcultura em parte da periferia e nos bailes funks que favorecem uma banalização do estupro e do sexo como um todo.

Todo homem é um estuprador em potencial?

Como apenas um pequeno percentual dos homens irá um dia cometer um estupro, faz mais sentido pensar que, em nossa cultura, estupradores são aberrações e a norma é de homens que jamais estuprariam uma pessoa.

Porém, um contra-argumento é de que a maioria das feministas que advogam que “todo homem é um estuprador em potencial” está dizendo que o homem tem todos os mecanismos biológicos para ser um estuprador e que basta um determinado tipo de contingências em sua vida para que ele se torne um estuprador.

Acho esse contra-argumento fraco, pois faz a expressão ficar vazia de sentido. Afinal, sendo assim toda mulher também é uma estupradora em potencial (já que mulheres também estupram e têm todo o aparato biológico para isso, bastando as contingências para que ela se torne estupradora), assim como todo homem e toda mulher são “assassinos em potencial”, “ladrões em potencial” e até “bilionários em potencial”, bastando as circunstâncias específicas para produzi-los.

Ademais, esse tipo de generalização é preconceituosa, grosseira e atrapalha mais do que ajuda no combate ao problema. Dizer que tem “nojo de homens” ou culpabilizar “homens” porque todos os 30 estupradores eram homens, aparentemente não faz ninguém se sentir mal e até muitos homens defendem que devemos carregar esta cruz (qualquer semelhança com a ideologia da “culpa cristã”, onde você é pecador por causa do pecado de outros, não é mera coincidência). Mas os 30 também eram, aparentemente, pobres e moradores da periferia. Então você tem “nojo de pobre” e acha que “todo pobre é um estuprador em potencial”? Caso todos sejam negros ou pardos, então também é legítimo generalizar o comportamento para negros ou pardos, dizer que “todo negro é um estuprador em potencial”?

É óbvio que não – e isso seria de uma idiotice tremenda. A única diferença aqui é que seu grupo não condena quando fala barbaridades de homens, mas condena se falar de pobres ou negros. Você não está sensível a um tipo de alvo porque tem aval do seu grupo. Você está sob o efeito manada.

CONCLUSÃO

Para se combater um problema de maneira eficaz, precisamos de um diagnóstico mais preciso do problema. A Hipótese 1 é ótima para ganhar curtidas nas redes sociais e para conversas de bar: é simplista e dicotômica. A Hipótese 2 é bem mais complexa, não é boa para ganhar curtidas, mas, em compensação, tira o debate do terreno das especulações emotivas e leva para um campo baseado em evidências.

Eu fico com a Hipótese 2.


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Pedro Sampaio
Psicólogo, psicoterapeuta, professor universitário, hiperativo e insone. É casado com a Psicologia, mas tem dificuldades com a monogamia intelectual, dando frequentes puladas de cerca com a Música, Filosofia, Ciência, Literatura, Cinema e Política. Cético, acredita no debate baseado em evidências, na racionalidade e na honestidade intelectual para qualquer área, mas chora até em propaganda de margarina.
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  • Ygor Silva

    Todo homem é um estuprador em potencial sim, não deviamos achar isso um insulto ou uma generalização grosseira. A cultura do estupro nada mais é que a dispersão da desigualdade de poder entre homem e mulheres para o campo sexual, o homem em todo mundo está em um posição de superioridade em relação as mulheres, isso se reflete no campo sexual na forma de violências sexuais, das mais leves e imperceptíveis até as mais grotescas e aversivas. O problema em falar de cultura do estupro e que todo homem é um estuprador em potencial é que nós temos um orgulho muito besta de ser homem e que é ferido quando falam que nós temos potencial para fazer algo a qual repudiamos, porém, nós não enxergamos que a cultura do estupro se refere também a uma serie de coisas que consideramos normais ou no mínimo não tão absurdas. Quantos homens, principalmente em uma situação de superioridade bem estabelecida (chefe no trabalho, autoridade religiosa, parentes mais velhos etc.) não cometem vários tipos de violência sexual? Quantos garotos não foram ensinados que ser homem é passar a mão na bunda da amiguinha? Quantas mulheres não têm receio de andar de transporte público porque sempre tem um idiota que vai querer encoxa-la? Mas é interessante perceber que o senso de justiça ainda persiste nessa relação desigual de poder, alguns homens se sentem ofendido quando colocado numa posição desigualmente superior de poder para com a mulher, eles entende que isso é errado, mas isso fere tanto o orgulho de “bom moços” deles, que eles se tornam incapazes de aceitar a realidade.

    • PainfulLike

      Todo? Não, amigo, não generalize. A generalização é sempre um problema.
      Entenda que o mundo é feito de vários tipos de pessoas. Eu sou gay, não estupraria mulheres, porque não sinto atração. E mesmo sentindo atração, jamais estupraria um homem.

      • Ygor Silva

        Não é porque você não estupraria uma mulher que você não tem esse potencial simplesmente por ser homem, e sim, uma mulher pode ter medo de você numa rua simplesmente por isso, sem você ter feito nada, porque nós vivemos numa sociedade em que ainda há cultura do estupro, apesar dele ocorrer muito mais frequentemente do que dessa forma midiática já hostilizada pela nossa moral. Entenda, o potencial de estuprador se encontra na posição de superioridade de poder do homem para com a mulher, você não usou esse potencial, mas para um observador que não tem essa informação, você ainda é um estuprador em potencial. E não, você não vai ser acusado de nada simplesmente por ser um estuprador em potencial.

        • Tudo bom Ygor? Deixa eu fazer umas perguntas, por real curiosidade e para contribuir ao debate. A primeira coisa é: pelo seu ponto de vista, também seria possível dizer que toda mãe de recém nascido é uma infanticida em potencial, correto? (art. 123 do Código Penal) Pois ela: (1) está em posição de vantagem/superioridade em relação ao bebê e (2) segundo a lei penal é a única pessoa que detém todos os recursos e características (o Código Penal prevê que só a mãe pode ser autora de infanticídio) para cometer o crime. Então pergunto qual a decorrência disso: todas as mães devem se sentir culpadas por serem “infanticidas em potencial”? a sociedade deve orientar essas futuras mães, desde quando são meninas, sobre o perigo de ceder ao instinto de matar seus próprios filhos? as mães devem de alguma forma se sujeitar a alguma expiação prévia de seu potencial crime, tendo em vista que potencialmente (melhor dizendo, latentemente) todas são infanticidas em potencial?

          A questão principal é que quando dizemos que “todo homem é um estuprador em potencial” (significando que em determinadas circunstâncias, em dadas temperatura e pressão, TODO homem seria sim capaz de estuprar alguém) no final acabamos diluindo a gravidade da conduta do estuprador individual – afinal, é só mais um homem que em determinadas circunstâncias acabou por fazer aquilo que latentemente qualquer homem, em circunstâncias similares, estaria fadado a fazer. Dilui-se a culpa em metade da população humana (os homens), e com isso a culpabilidade (capacidade de perceber o certo e o errado e guiar-se conforme esse entendimento) do estuprador real é, inevitavelmente, atenuada (“é só mais um homem, fez o que todos homens poderiam fazer”).

          (Não sei se vou ter tempo de responder a seu comentário, mas deixo aqui essas considerações para estimular o debate)

          Abraço!

          • PainfulLike

            Exatamente! Isso me lembra quando ouvi do meu próprio pai dizendo que traiu minha mãe, porque é coisa normal do homem, é da natureza do homem fazer merda.

            NÃO É!

          • Ygor Silva

            O infanticídio não é corroborado por uma condição cultural de desigualdade, como no estupro, entende? A mãe é uma infanticida em potencial, entretanto ela realmente é isso tanto quanto uma pessoa que quer dinheiro fácil é um ladrão em potencial, esses casos não são condicionados, eles são espontâneos, no caso da mãe ela condicionada pela própria natureza. Já o estupro e a persistência da violência sexual contra a mulher são práticas condicionadas pela nessa cultura, porque a mulher está numa posição de submissão ao homem. A questão é que esses termos não são tão adequados pois a interpretação não é intuitiva, quando se fala de cultura do estupro, está se falando de muito mais do que só o termo indica, o mesmo ocorre quando usamos o termo “estuprador em potencial”. O objetivo de denunciar essa realidade através desses termos não é diluir a culpa, mas apresentar um fator causador dessa condição, um homem que comete um estupro não é um doente ou uma aberração, é horrível o que ele fez e com certeza ele deve pagar por isso, mas o que ele faz foi amparado por uma cultura de desigualdade de relação de poder entre homens e mulheres. O nosso interesse maior com isso não é punir o estuprador remediando a situação mas mudar a cultura como medida preventiva.

          • Você está dizendo que o ato do estupro é condicionado, não-espontâneo, e resultado não da decisão deliberada do estuprador, mas e seu condicionamento cultural?

          • Ygor Silva

            Se você enxergar a influência das relações de poder nessas ocasiões, vai entender que é isso. A cultura do estupro não faz com que nós aceitemos mais o estupro ou estimule pessoas a estuprar, ela máscara certos estupros como coisas não abomináveis. Isso é condicionado culturalmente sim, isso dá ao homem a consciência de que, por exemplo, se ela foi com ele até lá mas dormiu pela razão que seja, ele tem o direito de transar com ela.

          • Ygor, te convido a ler este textão. Acho que é o que mais pode contribuir a este debate sobre a ideia de condicionamento e mesmo de censura sobre algumas prática: http://aventurasnajusticasocial.com/os-pontos-errados-da-cultura-do-estupro/

        • PainfulLike

          Pois é justamente esse o problema, Ygor. A “informação” (ou no caso os “textões”) é disseminada pior que pólvora, em qualquer rede social, é feita com alarde, em troca de curtidas e comentários, sem reflexão, conforme o autor do texto citou sobre a primeira hipótese. A gente pode defender uma causa ou uma ideia, sem deixar de pensar nos dois lados da história.

        • Thaís Medeiros

          Vendo esse debate predominantemente masculino, sinto que como mulher devo me manifestar. Na minha cabeça todo homem é um estuprador em potencial. Isso não quer dizer que, por serem homens, vocês vão necessariamente estuprar, nem que eu acredite que isso seja algo inerente ao gênero masculino. O que a frase significa é que se estou andando em uma rua durante a noite, por exemplo, e vejo um homem atrás de mim, meu primeiro instinto é sentir medo que ele me estupre.

          Se entro em um ônibus e um homem está muito perto, tenho medo que ele vá me encoxar ou tentar qualquer outra coisa. Se peço uma pizza e estou sozinha em casa, tenho medo do que o entregador possa fazer comigo. Isso não significa que esses homens vão necessariamente me atacar, mas a possibilidade existe. Como mulheres somos ensinadas a temer. Na verdade,boa parte de ser mulher é viver com medo. Algo que talvez possa parecer exagerado para os homens, mas é uma realidade para nós. Sentimos medo todos os dias, porque a cada três horas uma mulher é estuprada no Brasil. E isso é muita coisa.

          Eu sinto medo, porque escuto histórias horríveis todos os dias. Porque tenho uma amiga que foi estuprada em uma festa e, após isso, ainda foi humilhada e desacredita, pois estava bêbada no momento em que aconteceu. Porque uma garota que estudou no meu colégio foi estuprada e as pessoas disseram que era culpa dela, ou que aquilo não importava muito, afinal aos 16 anos ela já tinha uma filha. Porque uma prima já foi encoxada no transporte público e a minha melhor amiga assediada por um professor.

          Porque cresci escutando que se vestisse determinada roupa, fosse em determinado lugar ou agisse de uma determinada forma, seria estuprada. Porque não há um único dia em que ando na rua sem receber cantadas inapropriadas de homens que me despem com os olhos e muitas vezes não tem pudor algum de dizer o que desejam fazer comigo.

          Porque um cara, que nunca havia visto na vida, me puxou em uma festa (como um homem das cavernas) pediu para fica comigo, quase quebrou meu braço quando eu disse “não” e só me soltou após minhas amigas começaram um escândalo. Porque o amigo de um amigo, que eu havia acabado de conhecer, se sentiu no direito de ir passando a mão na minha coxa, após cinco minutos de uma conversa completamente despretensiosa sobre cinema, e nunca entendeu o motivo de eu ter ficado tão irritada por ele ter resolvido me tocar simplesmente porque sentiu vontade, sem se importar se eu queria aquilo ou não.

          Porque um colega de faculdade me importunou por horas em uma festa, quando eu disse que não queria ficar com ele e, independente de quantas vezes eu falasse “não”, ele não me deixava em paz. E outro colega, com quem mal conversava, veio me questionar agressivamente sobre o fato de estar tendo um relacionamento com outro rapaz.

          Aposto que todos os homens mencionados encontram-se verdadeiramente revoltados com o caso da garota que foi estuprada por mais 30 caras e sequer se lembram que já estiveram em uma situação que, por serem homens, acharam que tinham direito, poder, domínio ou qualquer coisa sobre mim, uma mulher. Como homens sentiram que podiam me dizer indecências, perseguir, puxar, tocar, importunar ou qualquer outra coisa. Em um determinado momento me
          desejaram – como a um objeto e não pessoa, já que sequer me conheciam o suficiente para a segunda opção – e não viram problemas em me amedrontar e violentar física ou psicologicamente. Talvez nem achasse que isso era um modo de violência, ou que havia algo errado nesse comportamento. Talvez até vocês, rapazes da discussão, não tenham visto problemas e estejam achando que eu sou uma grande dramática. Não seria a primeira vez, afinal tudo isso é mais do que naturalizado.

          Então, me desculpem, mas meu primeiro instinto diante a um homem desconhecido é sentir medo. Sei que vocês não são todos iguais, que nem todo homem estupra ou qualquer coisa assim, mas na falta de bola cristal, ou qualquer coisa que me faça sentir minimamente segura, vou sentir medo. Sinto muito se meu medo os ofende, mas acreditem, viver com ele é muito pior. E tudo isso é uma consequência da cultura do estupro que, como o Ygor está dizendo há horas, existe e é muito mais abrangente do que o autor do texto coloca.

          • Pedro Sampaio

            Então, Thaís, acho essa perspectiva em primeira pessoa mais compreensível, mas não mais justificável. Vou tentar explicar o que penso e você me diz se concorda ou não.

            A maioria dos estupradores são homens e a maioria das vítimas (se não contabilizarmos os estupros em presídios, que são outra coisa) são mulheres. Assim, toda mulher que está andando sozinha na rua e um homem vem caminhando atrás, talvez faça bem em considerar que todo homem é um estuprador em potencial. Estupradores não têm antenas ou nenhuma característica especial que dê para diferenciá-los de outros homens. Logo, ela não está ACUSANDO aquele homem, ali na rua, de ser um estuprador, mas tendo uma postura que pressupõe que ele pode ser (ou seja””um estuprador em potencial”), porque: 1- aprendeu por relatos, por dados de pesquisas ou pela própria experiência que estupradores geralmente são homens; e 2- levar em consideração a possibilidade de que aquele homem é um estuprador a leva a tentar se proteger dele, enquanto não supor nada talvez a deixe em risco.

            Por esta razão, acho muito compreensível. Toda minha empatia está com as mulheres e principalmente com as que já sofreram este tipo de violência. Não faz sentido condenar O MEDO de alguém. Mas não quer dizer que ele seja justificado.

            Veja bem, a maioria dos assassinos, dos assaltantes e dos sequestradores no país são negros. Uma pessoa que aprendeu isso por relatos de outras pessoas, vendo os dados ou pela própria experiência (ela mesma pode ter sido repetidas vezes assaltadas por pessoas negras), possivelmente terá uma postura cautelosa ao estar sozinha e do outro lado da rua vir um negro. Isso justifica que ela pense que “todo negro é um assassino /assaltante/ sequestrador em potencial”? Penso que não. Acho que não temos como julgar o sentimento dela, o MEDO, como disse no parágrafo acima. Também podemos ter toda a empatia do mundo pelas pessoas que vivem com medo de serem mortas, assaltadas o sequestradas, e mais ainda pelas que já passaram por experiências violentas. Mas o fato de ser compreensível não quer dizer que seja justificável, pois trata-se de uma generalização indevida. É preconceito, ambos os casos.

            Também não é uma atitude psicologicamente interessante. Quando alguém adquire um medo (seja por aprendizagem indireta, seja por ter passado ela mesma por experiências traumáticas) uma das piores coisas que ela pode fazer é esse tipo de generalização. Isso tem o potencial de torná-la uma pessoa constantemente mais tensa, de evitar indevidamente uma série de situações e, claro, de ser injusta com algumas pessoas. Se uma pessoa é atacada por um motociclista ou aprende que motociclistas têm atacado pessoas, pode passar a ter um medo desproporcional de motociclistas. O que deveria ser feito, nesta circunstância, é levá-la a compreender, por análise e exposição às situações (desenssibilização), que motociclistas raramente serão uma ameaça e que pode aprender a minimizar as possibilidades de sofrer novos ataques sem o pensamento de “motociclistas são agressores em potencial”.

            O medo faz com que o pensamento dela seja compreensível, mas não o torna justificado. Se discordarmos disso, estaremos considerando justificada a postura de quem trata negros com mais cautela, desvia o caminho, ou até de policiais que revistam mais negros do que brancos (porque, na experiência deles, por generalização, negros têm maior probabilidade de estarem portando armas ou drogas – “negros são criminosos em potencial e fazemos bem em previnirmo-nos deles”). Mas estas atitudes não são justificadas. São generalizações e são preconceituosas, ainda que a origem delas venha do terrível sentimento de medo das vítimas.

          • Suelen Silva

            Muito bom.

    • Ezequiel Lustosa

      Pelo visto você nem leu o texto.
      Leia, respire e reescreva.

      • Ygor Silva

        Eu li o texto sim, algumas vezes e abordei no comentário um ponto de vista que eu achei necessário e não foi discutido no texto.

    • Ygor, entendo seu ponto mas ele parece descartar o que o Pedro Sampaio disse no texto: essa expressão torna a questão vazia de sentido, coisa que ele já exemplificou quando afirmou isso.

      Outra coisa bastante problemática é se utilizar de espantalhos para criticar um ponto: quando um homem diz que vê a expressão “todo homem é estuprador em potencial” como vazia de sentido, ele não está dizendo que “tem um orgulho muito besta de ser homem e que é ferido quando falam x ou y”. Isso é atacar o sujeito e não o objeto da argumentação. Logo, é uma falácia – das mais comuns quando se trata de polêmicas, aliás.

      Assim como o texto aponta, desde o começo, a necessidade de explicitar o que seja “cultura do estupro” em contexto brasileiro, nada mais legítimo que problematizar essa ideia de “todo homem é estuprador em potencial”. Da mesma forma que o primeiro termo, per si, esse segundo não diz absolutamente nada sobre a questão. Ele carece de explicações ulteriores para que seja justificado. É um termo extremamente vago, por isso acaba sendo alvo de olhares mais críticos.

      De toda forma, cabe levar em consideração o que o Victor levantou, como uma consequência de raciocinar partindo das potenciais atitudes dos sujeitos. Às vezes levar algo ao absurdo pode servir de exemplo para mostrar o absurdo da ideia.

      • Ygor Silva

        Ele não está dizendo, mas é esse tipo de comportamento que eu vejo, não foi minha intenção usar de ad hominem, foi mais tentando desconstruir o tal orgulho, entretanto deixarei de lado esse tipo de “argumentação”.
        Concordo em relação ao termo, e vejo que esse tipo de coisa vem ocorrendo muito ultimamente, ocorre também com apropriação cultural e outras termos usados em ativismos por direitos das minorias.
        O problema de levar esse algo ao absurdo, é que cria-se um mito em torno disso e passa-se a enxergar como estupro apenas uma pequena parcela de todo o problema. É meio evidente que há uma ideia coletiva um tanto que midiática de estupro, onde um homem, a noite, num lugar deserto, pega uma mulher desprotegida e a obriga a ter relações sexuais por meio de ameaças e agressões. Entretanto, o estupro está presente em muito mais formas e inclusive, ocorre muito mais nessas outras formas, pois esse tipo de estupro é ignorado. Não acho que levar um tipo de violência sexual ao absurdo em detrimento da indignação por todos os outros tipos seja o caminho para acabar com isso.
        Só pra finalizar em relação ao termo “estuprador em potencial”, é só uma forma de evidenciar a cultura de estupro e tentar trazer a atenção que é necessária pra esse debate.
        Lerei o texto que me indicou e comentarei algo caso ache pertinente.

  • Excelente análise. É muito bom ver que há pessoas tentando pensar fora desse padrão maniqueísta das redes sociais.

  • Shirenius

    Esqueceu de mencionar a hipótese 3 a única que corresponde a verdade: não era um estupro, era uma orgia, longe de se uma vítima, ela era uma rainha cercada de escravos dedicados a satisfazer seus desejos. Claro que ela queria, era frequentadora assídua de orgias, combinou tudo com eles, disse que 30 era pouco e preferia que fossem 50… Cada um tem o hobby que bem entender, mas acho terrivelmente injusto esses esses rapazes irem pra cadeia, quando só estavam satisfazendo as fantasias dela e deles.

    • Essa hipótese não foi levantada, acredito, por uma questão de ser tão absurda quanto é. Mas me parece verdadeiro, mesmo, que alguém raciocine dessa forma para tornar o que houve em algo legítimo.

    • Caruê Gama Cabral

      Pessoas inconscientes não consentem, as provas indicam que ouve abuso do corpo dela enquanto ela estava inconsciente. Pode ter começado como orgia oque não é impossível, no entanto a gravação confirma o estupro.

      • Já apareceram gravações dele implorando para não rolar.

        Foi estupro do ifim ao começo.

  • Realmente muito bom seu ponto de vista, Pedro!

    Quando as pessoas afirmam a existência de uma cultura do estupro, é comum que a gente entenda que, dado o termo, o estupro é algo socialmente validado. Porém, como você mesmo demonstrou, há que se levar em consideração as nuances em jogo e que tipo de cultura é a brasileira.

    A sua sacada em diferenciar dois tipos de cultura do estupro foi, ao meu ver, extremamente pertinente.

    Agora, para aprofundar o debate, sugiro a leitura de um artigo que fala sobre o problema de combater coisas distintas a essa “cultura do estupro brasileira” em que vivemos. Em resumo, ele mostra que atacar questões ALHEIAS aos problemas do estupro não os resolverá. Do contrário, a Arábia Saudita seria um paraíso para as mulheres (sério).

    Tenham uma ótima leitura:

    http://aventurasnajusticasocial.com/os-pontos-errados-da-cultura-do-estupro/

  • Olá a todos!

    Pedrão (desculpe-me pela intimidade 🙂 ), ótimo texto, muito boa a sua análise.
    Victor, meu querido escritor, suas pontuações me “excitam” fazendo com que eu me torne um comentarista em potencial ;).

    Pois bem, caro Pedro, como Psicólogo gostaria que me ajudasse no que direi, por favor.

    Notei o uso bastante indiscriminado de termos como “nunca”, “todo”, “maioria”, “minoria” e similares. Penso que o uso destes termos denota grave falta de senso de relação probabilística, muito prejudicada noção da relação todo-parte. Porque digo isso? Primeiro que, para se falar em termos de todo, nunca, maioria e minoria, eu teria que NECESSARIAMENTE conhecer o TODO! Dizer que se baseou em dados estatísticos? Bulshit! A estatística é por natureza uma ciência que trata das amostras justamente porque é operacionalmente impossível tratar o todo. Os dados estatísticos são baseados naquilo que efetivamente (ou não) aparece; e o que não é relatado, o que não vem à tona?

    Acho que quem enche a boca e diz que todo homem é estuprador em potencial se engana porque por a culpa em algo exterior a si é mais fácil. Freud já dizia: “quando Pedro fala de Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo”. O que quero dizer com isso? Continue lendo…

    Levanto a hipótese de que dizer que todo homem é estuprador em potencial pode ter mais a ver com um misto de generalização de reflexo condicionado (se sou atacado por uma galinha, posso vir a temer qualquer outro animal com características idênticas ou similares a uma galinha e não temer somente a galinha que me atacou) com aprendizado por observação (Bandura), um efeito conhecido no senso comum por “Maria vai com as outras”.
    Por fim, para se afirmar com tanta certeza algo de que não há como se produzir provas para tanto, pra mim, só pode ter a ver com projeção; creio que afirmar algo desse naipe sobre o mundo tem mais a ver com projetar meu EU no mundo do que efetivamente o mundo ter esta característica.

    Todo homem só é estuprador em potencial dentro da cabecinha de quem isso afirma, seja porque, indiferentemente de ser homem ou mulher, tem muita vontade de estuprar (projeção), ou porque já foi estuprado(a) (generalização de reflexo condicionado), ou ainda porque a incompetência intelectual é tamanha a ponto de simplesmente acreditar no que viu-ouviu-leu (aprendizagem por observação).

    Enfim, com todo o respeito que cada participante da discussão merece, a generalização em si é um grande erro porque implica deter o conhecimento do TODO, coisa que absolutamente ser humano nenhum detém. Eu entendo que este único argumento derruba todos os demais. Generalização é um tipo de julgamento, e julgamentos dependem do conhecimento to TODO, insisto, que nenhum humano detém.

    Vejam, deixo claro que se trata apenas de uma opinião, um ponto de vista muito particular, não embasado em nenhum estudo ou pesquisa representativa e séria. É tão somente como EU vejo a coisa e que posso sim estar redondamente enganado, já que não conheço o TODO!

    Um grande abraço a todos e obrigado pela oportunidade!

  • To vendo que tá rolando muita discussão boa aqui. A maioria das coisas que eu queria responder já foi respondida por alguém.

    Desse modo, vou só pontuar coisas a mais que queria falar sobre o homem ser ou não um estuprador em potencial, apesar de também já terem mencionado uma coisa ou outra aqui.

    1- Acredito que o homem seja sim um estuprador em potencial, mas isso não é tão diferente de dizer que os humanos são assassinos em potencial, ou santos em potencial, ou gênios em potencial.

    2- Existem dois tipos de potencialidade, a estatística, que se refere à população; e a individual, que pode estar ligada a possíveis contextos capazes de disparar comportamentos que qualquer pessoa dentro daquele grupo possui.

    Por exemplo, a genialidade é uma potencialidade humana. Isso não significa que todos os seres humanos podem ser gênios, dadas qualquer condição contextual. Algumas pessoas simplesmente não vão ser gênios. No entanto, dentro da população humana encontramos sujeitos fora da curva normal que são gênios.

    Outro exemplo: seres humanos são potencialmente violentos. TODO mundo vai protagonizar algum episódio de violência pelo menos uma vez na vida. Isso faz parte do repertório de comportamentos da espécie, digamos assim. Um cara pode se tornar um monge budista, mas isso não significa que por isso ele NUNCA possa ser violento a partir desse momento. No entanto, a violência não ocorre de maneira gratuita, do nada. Existem contextos que disparam esse comportamento, de forma que temos ecologias correlacionadas com uma população humana mais violenta ou não (contextos com escassez de alimento, insegurança e mais homens que mulheres tem forte correlação com maior violência entre os homens — violência intrassexual).

    3- Homens podem ser considerados estupradores em potencial por um motivo anatômico muito simples: homens tem pênis e mulheres tem vaginas — como diria o garotinho sagaz de Um Tira no Jardim de Infância.

    O homem precisa estar excitado para se engajar no ato sexual, a mulher, não — se o cara for violento o suficiente, ele vai forçar o sexo, por mais que a mulher não esteja com vontade e esteja sendo violentada.

    Esse é um dos motivos — nem de longe uma justificativa ou uma explicação suficiente — pelos quais MUITO RARAMENTE, e digo isso categoricamente, vemos/vimos mulheres estuprando homens. Isso hoje até seria possível amarrando e dando viagra pro cara, mas em ambientes que remontam nosso passado evolutivo, é impossível.

    4- Não tenho certeza disso, mas assim como o comportamento violento, o estupro também é uma potencialidade masculina — mas mais fraca que a violência, afinal, são raros os homens que estupram mulheres, mas não são raras as pessoas que são violentas em algum momento.

    Em algumas ecologias, o estupro pode ser populacionalmente mais comum, de fato. Na nossa cultura ele é raríssimo, se compararmos com épocas mais violentas, como a Idade Média ou a Antiguidade. O estupro era algo até rotineiro. Era comum na guerra e era comum entre esposas e maridos. Hoje abolimos esse costume enquanto direito cultural, digamos assim.

    Certamente seria incoerente dizer que todos os homens do passado eram doentes mentais estupradores, assim como seria incoerente dizer que todos os alemães dos anos 30/40 eram psicopatas nazistas.

    Tudo depende da ecologia, repito.

    Mas é simplesmente cruel culpar todos os alemães pelo nazismo, assim como é cruel culpabilizar todos os homens por alguns estupradores, ou culpar toda a humanidade por alguns assassinos.

  • Tales Gubes Vaz

    (Escrevi este comentário em resposta ao Alysson no Facebook e ele sugeriu que eu o trouxesse para cá.)

    Vou comentando por partes.

    Não
    vi diferença entre as hipóteses 1 e 2. A primeira é menos didática, mas
    está completamente explicada na segunda. O que a 2 tem de “diferente” é
    a compreensão de que estupro é mais amplo e menos compreendido do que
    deveria – e se tu olhar com essa lente para o tipo 1, verá que é a mesma coisa que o tipo 2.

    O
    texto “O silêncio que ecoa: a cultura do estupro no Brasil”, apontado
    via link como apoiador do tipo 1 e indicado como não tendo respaldo dos
    dados, é um ótimo exemplo do que o autor chama de tipo 2. Lendo o texto,
    fica claro como a violência contra a mulher passa em branco e é
    reforçada por estruturas culturais.

    Pode
    ser bom apontar que entendo cultura como um conjunto de valores
    compartilhados e reproduzidos por determinado(s) grupo(s) social(is).

    Daí
    o texto segue dizendo que “Já, no Brasil, aproximadamente 1% das
    mulheres serão estupradas ao menos uma vez e menos de 0,5% dos homens
    estuprarão algum dia.”, evidenciando que o entendimento do que configura
    estupro está equivocado. Cadê as passadas de mão na rua? Cadê os beijos
    forçados em micaretas? Aliás, de onde vêm estes números? Esses números
    usados seriam compreensíveis apenas se o autor considerar estupro como
    apenas penetração forçada acometida por sujeitos estranhos e violentos
    na rua.

    Só aqui eu já
    teria parado de ler, porque o texto se perdeu nas próprias tentativas de
    argumentações. Mas vamos continuar pelo bem do debate e do
    esclarecimento.

    “No
    Brasil, tanto o estupro quanto o estuprador são fervorosamente
    condenados”. Sim, um tipo muito específico de estuprador, que é o que o
    autor está chamando de tipo 1, ou que podemos chamar de “o tipo
    monstro”. E isso quando se trabalha com a ideia de estupro e não com o
    dever de macho de pegar e comer todas, porque daí é legitimado
    culturalmente e impune.

    A
    grande questão aqui, o texto começa a apontar e forma acertada, é a
    compreensão do que significa “estupro”. Vamos adiante para ver se o
    autor tratará deste ponto.

    Diz
    o autor: “a culpabilização da vítima em casos de estupro não seria
    fruto de uma sociedade machista ou de um silenciamento das mulheres, mas
    uma das manifestações de uma infeliz tendência humana: diante de uma
    situação que tem uma vítima, procurar elementos da vítima
    (características, comportamentos, etc.) que podem ter contribuído para
    esta situação”. No caso das mulheres, e por isso é uma particularidade
    machista, basta ser mulher para que a vítima seja culpabilizada. Um bom
    exemplo disso é que os motivos que culpabilizam a mulher geralmente não
    valeriam se fossem homens. Homem foi estuprado porque estava com
    shortinho curto, ou sem camisa. Homem foi estuprado porque olhou para o
    outro, mas não quis flertar. Homem de 16 anos já tem filho, é claro que
    seria estuprado… Isso tudo é muito diferente de falar que foi
    assaltado ou assaltada porque estava numa rua deserta à noite. Isso é
    sistemático, cultural.

    Efeito
    manada é uma boa explicação para o machismo. Estamos numa cultura que
    repete como homens devem agir e como mulheres devem agir. Homens são os
    sujeitos ativos, mulheres são os objetos passivos. Isso reforça a noção
    de uma cultura do estupro, porque a justifica como parte de um caldo
    cultural mais amplo.

    Sobre
    a microcultura e o papel do funk: creio que importa, mas é ingenuidade
    pensar que essa cultura de supremacia masculina sobre as mulheres seja
    micro.

    “Como apenas um
    pequeno percentual dos homens irá um dia cometer um estupro, faz mais
    sentido pensar que, em nossa cultura, estupradores são aberrações e a
    norma é de homens que jamais estuprariam uma pessoa.” O autor transita
    entre o que chamou de tipo 1 e tipo 2, falhando em perceber que a
    compreensão do que é estupro (algo que ele trouxe como característica do
    tipo 2) deveria ser aplicada em qualquer caso de estupro (incluindo a
    monstruosidade que ele desenha como tipo 1).

    Daí
    ele fala, contra a ideia de que “todo homem é um estuprador em
    potencial”, que é porque homens têm os aparatos biológicos. Não. É
    porque homens têm uma estrutura cultural que os convida a agirem como
    estupradores, a violarem o corpo e a vontade das mulheres mesmo em
    situações absolutamente cotidianas e insuspeitas. Mas o autor vem trazer
    de novo aquela ideia do que ele chama de tipo 1, justificada pelos
    dados sem origem de que apenas 0,5% dos homens estuprará.

    “Mas
    os 30 também eram, aparentemente, pobres e moradores da periferia.
    Então você tem “nojo de pobre” e acha que “todo pobre é um estuprador em
    potencial”? Caso todos sejam negros ou pardos, então também é legítimo
    generalizar o comportamento para negros ou pardos, dizer que “todo negro
    é um estuprador em potencial”?”
    – Todo pobre? Não porque não só pobre estupra.
    – Todo negro? Não porque não só negro estupra.

    Todo homem? Sim porque basicamente só homem estupra (tirando as
    exceções estatísticas que servem para comprovar a regra – posso estar
    errado nesse ponto e adoraria dados que me mostrassem isso).

    “Eu
    fico com a Hipótese 2.”, termina o autor, depois de passar o texto
    inteiro sem conseguir aplicar a própria diferença que ele sugere
    escolher.

    Em resumo, o
    texto traz algumas ideias interessantes (em particular, o efeito manada
    e a abertura do conceito de estupro), mas falha em aplicá-los no
    próprio texto. Ademais, termina como mais um texto que, em vez de
    aprofundar a questão, parece existir apenas para reafirmar que alguns
    homens (curiosamente, todos) podem dormir tranquilos sem precisar
    repensar como suas ações cotidianas podem configurar estupro.

    Te
    indico dois textos melhores, que podem te ajudar a compreender a
    questão da cultura do estupro. Do primeiro, creio que ainda preciso
    refletir mais sobre os pontos 8 e 9, mas no geral concordo com ele (http://papodehomem.com.br/estupro-cultura-combater-acoes/).
    Já o segundo, sou fã confesso da Anna Haddad e do que ela escreve
    porque traz uma clareza necessária para esse tópico tão espinhoso (http://papodehomem.com.br/9-acoes-pra-contribuirmos-com-a…).

    • Cara, curti muito seu jeito de argumentar.

      Teve uma parte específica, porém, que acho que fugiu um pouco da refutação precisa.

      “No caso das mulheres, e por isso é uma particularidade

      machista, basta ser mulher para que a vítima seja culpabilizada. Um bom

      exemplo disso é que os motivos que culpabilizam a mulher geralmente não

      valeriam se fossem homens. Homem foi estuprado porque estava com

      shortinho curto, ou sem camisa. Homem foi estuprado porque olhou para o

      outro, mas não quis flertar. Homem de 16 anos já tem filho, é claro que

      seria estuprado… Isso tudo é muito diferente de falar que foi

      assaltado ou assaltada porque estava numa rua deserta à noite. Isso é

      sistemático, cultural.”

      Bom, o fato de termos uma espécie de viés cognitivo para, pelo menos um pouco, culpabilizar a vítima pelo que ela sofreu, não significa que não tenha nenhum conteúdo cultural engrossando o caldo, entende?

      Por exemplo, se uma pessoa anda de noite na rua, ela tende a ficar mais atenta a possíveis ameaças. E pelo menos em termos de Brasil e EUA, temos uma maior predisposição de ficar mais cautelosos quando tem um negro próximo do que um caucasiano. Claramente essa situação tem uma coloração racista em cima de um caso de viés cognitivo de ficarmos mais atentos a “pistas de ameaça” num ambiente potencialmente ameaçador.

      E sobre os motivos que culpabilizam a mulher mas não culpabilizam homens…bom, ainda estou refletindo sobre isso, mas pelo menos em parte isso não se deve puramente a motivos culturais, aprendidos. É o que eu disse no meu comentário mais lá pra cima: parte da explicação para as mulheres serem milhões de vezes mais estupradas que homens vem do fato de que anatomicamente é quase inviável estuprar um homem — a não ser que a mulher queira enfiar algum “brinquedo” no sujeito. Além disso, tem o fato de que o homem de fato é mais violento que a mulher — falando aqui em termos populacionais, não individuais.

      Enfim, o que quero dizer é que me parece que sim, o machismo tem um papel bem foda de grande nessa tal cultura de estupro, mas não sei se ele sozinho explica isso. Tipo, não teria como ter uma cultura do estupro masculino. Mulheres às vezes — mais que homens — sendo presas por enrabarem caras por aí, sei lá. rs A não ser que fosse uma mega gangue com paus de madeira na mão mesmo. Mas aí seria diferente já do tipo de estupro como temos, saca?

      Sei lá…to só refletindo, não sei se no final fez sentido. haha

      Abraço!

      • Tales Gubes Vaz

        Felipe, talvez o machismo não seja a única explicação, e acho que devemos estar vigilantes para perceber que outros fatores podem contribuir para que estupros aconteçam. De todo modo, estupro é um exercício de violência, então olhar para como as relações de poder se configuram em nossas culturas é um bom exercício para compreendermos o que justifica (em termos de valores culturais) determinadas ações em detrimento de outras. 🙂

        • Reconheço que sim. Mas é que em termos práticos (como podemos *fazer coisas* que diminuam os estupros?) ficar refletindo sobre relações de poder não é de uma ajuda tão grande sozinho.

  • Cassio Silva

    Pedro!! Queria te agradecer muito. Este tema vem me incomodando bastante, pois eu só via argumentações que eu chamaria de irracionais. E como isto me incomodava. Pessoas que eu considerava como inteligentes, pensantes, usando argumentos tolos, rasos, emocionais. E sempre que eu pensava em falar algo, eu sentia que a possibilidade de ser agredido pela irracionalidade seria alta. Comecei a me achar errrado. Culpado. Culpado por nao estar seguindo o mesmo pensamento de manada que eu via em condenação ampla geral e irrestrita aos homens. Tive um conversa boa sobre isto com uma psicóloga que me orienta e agora vejo seus argumentos. Vejo que ainda é possivel manter a mente sã em meio ao caos! Obrigado!

  • Rodrigo Malikovsky Marquardt

    Ótima leitura. Bom tempo gasto lendo esta análise. Eu acredito que a hipótese 2 não deixa de estar correta, mas não me parece um problema em se possa ter muito a ser fazer..

  • Emerson Luís

    Bom texto.

    Observações:

    1- Os militantes alargaram tanto a definição de “estupro” que banalizaram os verdadeiros estupros e superfacilitaram as falsas acusações;

    2- Temos uma cultura de falsas acusações de estupro e de misandria;

    3- Alguns dos comentários mais misândricos vem de homens que se sentem culpados por serem do “sexo errado” e (mesmo que sejam heterossexuais) se identificam mais com as mulheres do que com os homens. São lésbicas feministas em corpos de homens. Causa: doutrinação neomarxista.

    * * *

  • Alexandre Alves Pereira da Sil

    sabem de uma coisa: o idiota faz isso se quiser,existe prostitutas para esta atividade,já andei com uma jovem na calada da noite sem fazer nada á ela,temos essa cultura machista e de carne fraca e principalmente os Haitianos que tem bigamia? coloca a mulher abaixo dele,algumas se submete a vontade do tio para decidir com quem vai casar,temos que lutar contra o olhar lascivo que seca as mulheres no decote só assim vamos mudar por completo e punir severamente esses pecadores,MULHER NÃO É CARRO