Cérebro mapeado - o ensaio vazio de robert epstein.

O ensaio vazio de Robert Epstein

Em Ciência, Consciência por Sergio GraziosiComentário

Este artigo é uma res­posta ao ante­ri­or­mente pos­tado aqui no AZ, cha­mado “Seu cére­bro não arma­zena infor­ma­ção”, de Robert Eps­tein. Cli­que no título para lê-lo antes de pros­se­guir a lei­tura abaixo.


Às vezes, ler um argu­mento falho desen­ca­deia a minha raiva, um fenô­meno que, inva­ri­a­vel­mente, me sur­pre­ende e me diverte. O que se segue é a minha ten­ta­tiva de usar a minha raiva de uma maneira cons­tru­tiva, mas vou ten­tar man­ter minhas emo­ções sob con­trole.

Dr. Eps­tein publi­cou recen­te­mente um ensaio mal equi­vo­cado na revista Aeon, inti­tu­lado de “Seu cére­bro não pro­cessa infor­ma­ção e não é um com­pu­ta­dor”, o sub­tí­tulo deixa claro que a men­sa­gem para levar para casa é: “Seu cére­bro não pro­cessa infor­ma­ções, recu­pera conhe­ci­mento ou arma­zena memó­rias. Em suma: o seu cére­bro não é um com­pu­ta­dor “.

DNA desenhado - O ensaio vazio de Robert Epstein

DNA é tanto estru­tura física quanto infor­ma­ção.” Da Wiki­me­dia

Infe­liz­mente, o artigo con­clui algo sis­te­ma­ti­ca­mente errado: pra­ti­ca­mente todos os dados são equi­vo­ca­dos, e ainda assim, no geral, ele tenta fazer um argu­mento que vale a pena ser ana­li­sado.

No momento fiquei per­tur­bado com os erros e impre­ci­sões (meu comen­tá­rio ime­di­ato foi “isso é tão errado que dói”), e depois o sen­ti­mento se trans­for­mou em raiva, por­que Eps­tein está, na ver­dade, pre­ju­di­cando a cre­di­bi­li­dade de uma abor­da­gem que eu acho pro­mis­sora, mas é mui­tas vezes incom­pre­en­dida.

A seguir, vou des­ca­ra­da­mente igno­rar a pri­meira regra de debate civi­li­zado: Eu não vou ten­tar fazer uma lei­tura cari­dosa do artigo ori­gi­nal. Eu não vou por­que fazer isso seria de fato escon­der as razões para escre­ver a minha res­posta.

Em vez disso, vou rela­tar os prin­ci­pais argu­men­tos pro­pos­tos por Dr. Eps­tein, e expli­car por que acho que tais argu­men­tos estão erra­dos e, em seguida, ter­mi­nar des­cre­vendo por que eu, no entanto, sim­pa­tizo com alguma da ciên­cia que é usada como argu­mento (e como eu a com­pre­endo).

O artigo de Eps­tein começa por defi­nir o obje­tivo geral:

O cére­bro humano não é real­mente vazio, é claro. Mas ele não faz a maior parte das coi­sas que as pes­soas pen­sam que ele faz — nem mesmo coi­sas sim­ples, como guar­dar ‘memó­rias’”.

Por mais de meio século, psi­có­lo­gos, lin­guis­tas, neu­ro­ci­en­tis­tas e outros espe­ci­a­lis­tas em com­por­ta­mento humano têm vindo a afir­mar que o cére­bro humano fun­ci­ona como um com­pu­ta­dor. Para ver como é vazia essa ideia, con­si­dere os cére­bros dos bebês.”

Infe­liz­mente, o que se segue não mos­tra o “quão vazia é essa ideia”, mas mera­mente muda o foco do tema. O ver­da­deiro pro­blema começa quando os com­pu­ta­do­res reais são des­cri­tos:

Eu pre­ciso ser claro: os com­pu­ta­do­res real­mente ope­ram em repre­sen­ta­ções sim­bó­li­cas do mundo. Eles real­mente arma­ze­nam e recu­pe­ram infor­ma­ções. Eles real­mente pro­ces­sam. Eles real­mente têm memó­rias físi­cas. Eles real­mente são gui­a­dos em tudo o que fazem, sem exce­ção, por algo­rit­mos.”

Com­pu­ta­do­res, lite­ral­mente, con­se­guem pro­ces­sar infor­ma­ções — núme­ros, letras, pala­vras, fór­mu­las, ima­gens. A pri­meira infor­ma­ção tem de ser codi­fi­cada em um for­mato que os com­pu­ta­do­res podem usar, o que sig­ni­fica aque­les padrões de uns e zeros (“bits”) orga­ni­za­dos em peque­nos peda­ços (‘bytes’). […]”

Ops. Dr. Eps­tein dei­xou muito claro que ele não entende de com­pu­ta­do­res.

Na ver­dade, os com­pu­ta­do­res não con­têm zeros e uns (ou ima­gens, ou sin­fo­nias, ou tex­tos…), eles con­têm mate­rial físico, alta­mente orga­ni­zado em estru­tu­ras pre­ci­sas e mutá­veis que podem ser inter­pre­ta­das como zeros e uns, que por sua vez podem ser inter­pre­ta­das como repre­sen­ta­ções de pra­ti­ca­mente qual­quer coisa.

Este ponto é cru­cial e algo que eu tenho dis­cu­tido lon­ga­mente antes (no con­texto do “mente do cére­bro”, leia sobre isso aqui e aqui): o impor­tante é que os com­pu­ta­do­res são pro­je­ta­dos para tor­nar seu pró­prio com­por­ta­mento pre­vi­sí­vel e com­pre­en­sí­vel.

Devido às suas carac­te­rís­ti­cas pro­je­ta­das, a inter­pre­ta­ção do seu fun­ci­o­na­mento interno torna-se rela­ti­va­mente fácil e, assim, torna-se pos­sí­vel (não total­mente errado) dizer que eles “real­mente” ope­ram em repre­sen­ta­ções sim­bó­li­cas.

No entanto, isso é ver­dade por­que nós pro­je­ta­mos expli­ci­ta­mente os mapas de inter­pre­ta­ção dos com­pu­ta­do­res (os softwa­res) e, em outras pala­vras, a natu­reza sim­bó­lica do que acon­tece den­tro de nos­sos com­pu­ta­do­res é ver­da­deira em vir­tude do que acon­tece den­tro dos cére­bros de pes­soas (em que pro­je­ta­mos o design, pro­gra­ma­mos e usa­mos com­pu­ta­do­res).

Não há algo de intrín­seco num com­pu­ta­dor que faz com que seus padrões inter­nos da ati­vi­dade elé­trica “sig­ni­fi­quem isso ou aquilo”.

Isso quer dizer que tam­bém se pode­ria fazer o caso oposto, e apon­tar que com­pu­ta­do­res físi­cos são ape­nas um bando de meca­nis­mos físi­cos, e con­cluir que não pro­ces­sam a infor­ma­ção. Isso seria for­mal­mente defen­sá­vel, mas um absurdo, não é?

Na ver­dade, seria: o ponto inteiro de com­pu­ta­do­res é pro­ces­sar infor­ma­ção, assim, mesmo expli­cando como eles fun­ci­o­nam, igno­rando com­ple­ta­mente qual­quer con­ceito de infor­ma­ção ser intei­ra­mente pos­sí­vel, seria inú­til se o nosso obje­tivo fosse enten­der por que os com­pu­ta­do­res se com­por­tam de deter­mi­na­das manei­ras.

A infor­ma­ção está nos olhos de quem vê, e é pre­ci­sa­mente por isso que é um con­ceito útil. Além disso, é per­fei­ta­mente pos­sí­vel e apro­pri­ado des­cre­ver infor­ma­ções em ter­mos de estru­tu­ras sub­ja­cen­tes.

Para fazer com que esse con­ceito fique ainda mais claro, vamos olhar um outro fenô­meno bio­ló­gico: a herança e o DNA.

Você pode (e deve) des­cre­ver o DNA em ter­mos estru­tu­rais: estru­tu­ras com hélice dupla, na forma de nucleó­ti­dos, meca­nis­mos mole­cu­la­res de repli­ca­ção do DNA, e sín­tese de pro­teí­nas, e assim por diante.

No entanto, uma vez que tudo o que pre­cede é feito, é útil tam­bém des­cre­ver tre­chos de DNA em ter­mos de infor­ma­ção pura, ou seja, a sequên­cia de nucleó­ti­dos, repre­sen­ta­dos pelas letras A, T, C e G. Assim, uma sequên­cia de DNA pode ser efe­ti­va­mente des­crita por algo como isto:

A ima­gem acima é uma repre­sen­ta­ção do gene codi­fi­cado para a insu­lina. Cru­ci­al­mente, esse é o tipo de des­cri­ção que per­mi­tiu a pro­du­ção de insu­lina sin­té­tica e, assim, a pro­du­ção de medi­ca­men­tos mais bara­tos e mais segu­ros.

Meu ponto: uma estru­tura pura­mente estru­tu­ral e uma des­cri­ção pura­mente cen­trada em infor­ma­ções do gene da insu­lina são pos­sí­veis. O último é mais abs­trato, e por isso é mui­tas vezes mais útil.

[optin­form]

Vol­tando ao ensaio de Eps­tein. Até agora nós esta­be­le­ce­mos que o ponto cru­cial (“Com­pu­ta­do­res, lite­ral­mente, pro­ces­sam infor­ma­ções”) é na melhor das hipó­te­ses enga­nosa: eles de fato fazem isso, mas pode­mos dizer assim por­que é uma maneira útil para con­cei­tuar como os com­pu­ta­do­res fun­ci­o­nam.

Em outro sen­tido, os com­pu­ta­do­res não pro­ces­sam infor­ma­ções, eles ape­nas rece­bem car­gas elé­tri­cas. Pro­ces­sar Infor­ma­ção (PI) é uma inter­pre­ta­ção mera­mente útil, arbi­tra­ri­a­mente adi­ci­o­nada por nós, huma­nos obser­va­do­res.

O artigo con­ti­nua, obser­vando que his­to­ri­ca­mente os cor­pos huma­nos e os cére­bros foram des­cri­tos por meio de metá­fo­ras, empre­gando as mais avan­ça­das tec­no­lo­gias conhe­ci­das em um deter­mi­nado momento.

Atu­al­mente, as tec­no­lo­gias digi­tais são muito uti­li­za­das, por­tanto pode­mos pre­ver que, assim que a pró­xima tec­no­lo­gia avan­çar, vamos parar de usar a metá­fora boba de PI e sal­tar sobre a pró­xima metá­fora da tec­no­lo­gia (e outra coisa: de onde está vindo a dico­to­mia entre metá­fo­ras e “conhe­ci­mento real”?).

Isso pode ser ver­dade, mas, nova­mente, é uma maneira enga­nosa de olhar para o que acon­te­ceu: uma vez que a tec­no­lo­gia come­çou a pro­du­zir meca­nis­mos com­ple­xos o sufi­ci­ente, tor­nou-se pos­sí­vel con­ce­ber a ideia de que os orga­nis­mos podem ser nada mais do que meca­nis­mos com­pli­ca­dos.

Pos­te­ri­or­mente, uma vez a Teo­ria da Infor­ma­ção (TI) foi desen­vol­vida, tor­nou-se pos­sí­vel des­cre­ver estru­tu­ras dinâ­mi­cas em ter­mos de seu con­teúdo infor­ma­ci­o­nal (arma­ze­na­mento, sina­li­za­ção e pro­ces­sa­mento).

Acon­tece que essa nova forma mais abs­trata de des­cre­ver o orga­nismo, uti­li­zando a metá­fora PI, é fre­quen­te­mente muito útil. Quando uma poten­cial ação cere­bral viaja ao longo de um axô­nio, é natu­ral, aces­sí­vel e útil des­cre­ver o emba­ra­lha­mento de íons como um sinal de via­gem ele­trô­nica. Se fizer isso, você já está usando a metá­fora PI: se é um sinal, já esta­mos des­cre­vendo-a em ter­mos de TI.

O passo seguinte deve escla­re­cer de onde vem minha raiva. Apa­ren­te­mente o Dr. Eps­tein acha sur­pre­en­dente que os neu­ro­ci­en­tis­tas não sai­bam como des­cre­ver seu assunto sem implan­tar a metá­fora PI. Ele acre­dita que eles devam evi­tar a PI com­ple­ta­mente, por­que, segundo ele, está cla­ra­mente errada:

A falta de lógica da metá­fora PI é facil­mente colo­cada em che­que. Ela se baseia em duas con­clu­sões fal­sas — uma com dois pon­tos razoá­veis e a outra com uma con­clu­são defei­tu­osa. Pre­missa razoá­vel #1: todos os com­pu­ta­do­res são capa­zes de se com­por­tar de forma inte­li­gente. Pre­missa razoá­vel #2: todos os com­pu­ta­do­res são pro­ces­sa­do­res de infor­ma­ção. Con­clu­são defei­tu­osa: todas as enti­da­des que são capa­zes de se com­por­tar de forma inte­li­gente são pro­ces­sa­do­ras de infor­ma­ção.”

Alguns peque­nos pro­ble­mas aqui! Pri­meiro de tudo, a metá­fora PI é gene­ra­li­zada, por­que isso é útil, como já demons­trado acima. Em segundo lugar, eu nunca ouvi falar, e não há neces­si­dade de implan­tar um silo­gismo tão bobo.

O raci­o­cí­nio que eu estou defen­dendo é que é razoá­vel inter­pre­tar os meca­nis­mos de con­trole com­ple­xos em ter­mos de pro­ces­sa­mento de infor­ma­ções. Cére­bros são meca­nis­mos de con­trole com­ple­xos e, por­tanto, é razoá­vel implan­tar a metá­fora PI ao des­cre­ver e estu­dar seu fun­ci­o­na­mento interno.

Seguindo em frente, Dr. Eps­tein, em seguida, tenta demons­trar que a metá­fora PI é pre­ju­di­cial à neu­ro­ci­ên­cia. Para fazer isso, ele faz uma obser­va­ção muito impor­tante: quando soli­ci­tado a um aluno seu dese­nhar uma nota de um dólar, ele exe­cuta um mal dese­nho, pois está sem uma refe­rên­cia da nota real para copiar.

Essa é uma coisa impor­tante a se ter em conta: as pes­soas podem dese­nhar algo que se asse­me­lha ao ori­gi­nal, em aspec­tos pri­má­rios, mas a mai­o­ria dos deta­lhes esta­rão ausen­tes.

A con­clu­são cor­reta é que nos­sos cére­bros não são oti­mi­za­dos para arma­ze­nar repre­sen­ta­ções fiéis, e que o que eles arma­ze­nam é geral­mente muito esbo­çado. Em outras pala­vras, a efi­ci­ên­cia e a efi­cá­cia são nor­mal­mente favo­re­ci­das, a pre­ci­são não é.

Sal­tar dessa obser­va­ção à con­clu­são de que a infor­ma­ção neces­sá­ria para pro­du­zir um esboço bruto de uma nota de um dólar não está, de alguma forma, pre­sente no cére­bro, é algo tão des­ca­ra­da­mente errado que eu nem sei como refutá-la. Infe­liz­mente, parece que o Dr. Eps­tein quer real­mente nos con­du­zir a essa con­clu­são absurda.

A ima­gem da nota de um dólar não foi, em sen­tido algum, ‘arma­ze­nada’ no cére­bro de Jinny. Ela sim­ples­mente se tor­nou mais bem pre­pa­rada a dese­nhá-la com pre­ci­são, assim como, na prá­tica, um pia­nista se torna mais hábil a tocar um con­certo sem de qual­quer forma ina­lar uma cópia da par­ti­tura. ”

Para ser justo, o Dr. Eps­tein, então, tenta tra­çar um ponto mais sutil:

À medida em que nave­ga­mos atra­vés do mundo, somos trans­for­ma­dos por uma vari­e­dade de expe­ri­ên­cias. […] Nin­guém tem a menor ideia de como o cére­bro muda depois que apren­de­mos a can­tar uma can­ção ou reci­tar um poema. Mas nem a música nem o poema foram ‘arma­ze­na­das’ nele. O cére­bro sim­ples­mente mudou de forma orde­nada para nos per­mi­tir can­tar a can­ção ou reci­tar o poema sob cer­tas con­di­ções.”

Em outras pala­vras, ver uma nota de um dólar, ouvir uma música — ainda mais, can­tar uma música — vai de fato mudar algum ele­mento estru­tu­ral den­tro de nós, pre­su­mi­vel­mente no cére­bro.

Bom, é exa­ta­mente isso o que todo neu­ro­ci­en­tista acha que está acon­te­cendo. Assim, por­que pode­mos vin­cu­lar estru­tu­ras e mudan­ças estru­tu­rais à infor­ma­ção e ao pro­ces­sa­mento de infor­ma­ção, pode­mos, se dese­jado, implan­tar a metá­fora PI para demons­trar isso.

Em outras pala­vras, o Dr. Eps­tein, até agora, propôs uma série de ale­ga­ções ques­ti­o­ná­veis, sal­pi­cado com uma obser­va­ção inte­res­sante (que acaba por refu­tar a pró­pria men­sa­gem que deseja pas­sar aos lei­to­res): aquilo que os nos­sos cére­bros fazem para alo­jar infor­ma­ções ainda é algo sur­pre­en­den­te­mente impre­ciso.

Nesse ponto ele passa a pro­mo­ver e detur­par um ramo da ciên­cia cog­ni­tiva que eu acho muito inte­res­sante, pro­mis­sora e cor­re­ta­mente con­tro­versa, que é a Radi­cal Embo­di­ment.

A visão domi­nante é que nós, como com­pu­ta­do­res, damos sen­tido ao mundo atra­vés da rea­li­za­ção de cál­cu­los de nos­sas repre­sen­ta­ções men­tais, mas Che­mero e outros des­cre­vem outra maneira de com­pre­en­der o com­por­ta­mento inte­li­gente — como uma sim­ples inte­ra­ção direta entre os orga­nis­mos e seu mundo.”

Por que eu digo “cor­re­ta­mente con­tro­versa”? Por­que, se alguém inter­preta como acima, toda a ideia deixa de fazer sen­tido.

Hipo­te­ti­zando “uma inte­ra­ção direta entre os orga­nis­mos e seu mundo” sig­ni­fica que não have­ria nada a apren­der estu­dando os meca­nis­mos que medem as inte­ra­ções que ocor­rem den­tro do corpo. Em outras pala­vras, ele declara a abor­da­gem redu­ci­o­nista como sendo um beco sem saída a pri­ori.

O pro­blema é que nin­guém faz isso: nós estu­da­mos como os sinais sen­so­ri­ais via­jam ao longo dos ner­vos para o sis­tema ner­voso cen­tral e tam­bém o que acon­tece den­tro de cére­bros de manei­ras simi­la­res.

O único pro­blema que tenho com a teo­ria Radi­cal Embo­di­ment é a forma de rea­li­za­ção que ela pode super­fi­ci­al­mente pare­cer defen­der sobre esse ponto de vista, enquanto acon­tece que eu acho que ela tenta fazer algo que é muito mais impor­tante.

A teo­ria do Radi­cal Embo­di­ment está desa­fi­ando nossa com­pre­en­são de “repre­sen­ta­ções” e mos­trando como elas são muito menos “ricas de infor­ma­ção” do que as nos­sas intui­ções comuns pode­riam suge­rir.

Isso desa­fia a ideia de que nós temos mode­los deta­lha­dos do mundo conosco e que inte­ra­gi­mos com eles (em vez de sim­ples­mente inte­ra­gir­mos com o mundo), e faz isso devido a alguns bons moti­vos — mas, como exem­pli­fi­cado nesta breve aná­lise, con­tudo, não desa­fia a metá­fora PI, mas mera­mente mos­tra como aplicá-la a um con­ceito melhor.

Dr. Eps­tein pros­se­gue citando fon­tes res­pei­tá­veis e até mesmo men­ci­ona Andrew Wil­son e o blog de Sabrina Golonka (veja tam­bém o seu exce­lente feed do Twit­ter), que é um dos meus favo­ri­tos luga­res na Inter­net.

Essa é mais uma razão pela qual eu estou escre­vendo tudo isso: se eu esti­ver certo, Dr. Eps­tein mal inter­pre­tou a ideia do Radi­cal Embo­di­ment e, ao fazê-lo, ele des­ne­ces­sa­ri­a­mente faz com que sua aná­lise pareça equi­vo­cada e inde­fen­sá­vel.

Mas longe disso, é algo que vale muita aten­ção e um estudo cui­da­doso. Para dizê-lo com as pala­vras sem­pre ins­ti­gan­tes de Wil­son e Golonka (2013), a ideia prin­ci­pal por trás é:

Embo­di­ment é a hipó­tese sur­pre­en­den­te­mente de que o cére­bro não é o único recurso cog­ni­tivo que temos à nossa dis­po­si­ção para resol­ver pro­ble­mas.

Para mim, é evi­dente que essa ideia radi­cal é basi­ca­mente cor­reta e, ao mesmo tempo, é uma razão por que é tão difí­cil des­co­brir como o cére­bro fun­ci­ona.

O ser humano não é movido ape­nas por neurô­nios… Ao mesmo tempo, rejei­tar radi­cal­mente todos os usos do con­ceito de “repre­sen­ta­ção” não é algo que parece fun­ci­o­nar: o que pre­cisa ser feito é dife­rente, mas tal­vez algo que é melhor dei­xar para outra altura.

No geral, a neu­ro­ci­ên­cia cog­ni­tiva é com­pli­cada, defi­ni­ti­va­mente difí­cil e, como defendo na intro­du­ção aqui, é de suma impor­tân­cia sele­ci­o­nar cui­da­do­sa­mente as metá­fo­ras cor­re­tas, a fim de des­cre­ver de forma con­vin­cente o grande número de dife­ren­tes fenô­me­nos que ocor­rem em dife­ren­tes esca­las (da psi­co­ló­gica à neu­ral, e des­cendo a nível mole­cu­lar).

Neste con­texto, espero que em um ou mais des­ses níveis a metá­fora PI pro­vará ser útil (como no caso de com­pu­ta­do­res), sendo com­ple­ta­mente jus­ti­fi­cada. Desa­fiar o con­senso é algo que os cien­tis­tas pro­va­vel­mente não estão fazendo o sufi­ci­ente, mas, infe­liz­mente, a ten­ta­tiva do Dr. Eps­tein é errô­nea.


Ori­gi­nal­mente publi­cado em “Robert Epstein’s empty essay”.
Tra­du­ção: Rodrigo Zot­tis & Alys­son Augusto


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Sergio Graziosi
Ex neurobiólogo molecular, agora desenvolvedor de software. Viciado em ciência, buscador de evidências, filósofo ingênuo que, ainda por cima, é amante da música.

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