Conflito entre cristianismo e islamismo.

O cristianismo é melhor que o islamismo?

Em Consciência, Filosofia, Religião por Douglas DoninComentário

Ontem vi uma dis­cus­são entre dois ami­gos, que gerou alguma ani­mo­si­dade: deve­mos tomar o Islã como uma cul­tura “pior” do que a nossa, do cris­ti­a­nismo?

Um dos meus ami­gos, pes­soa muito boa, mas afeita sobre­ma­neira à gen­ti­leza, sus­ten­tava que não. A outra, bas­tante irre­li­gi­osa, não tinha dois pen­sa­men­tos ao dizer que sim.

Vou dei­xar de lado minha firma con­vic­ção que, sim, a cul­tura islâ­mica é mani­festa e evi­den­te­mente mais desu­mana do que a cristã (impres­são que só ficou mais forte depois de ler “The Luci­fer Prin­ci­ple”, de Howard Bloom — indi­ca­ção do Vic­tor Lis­boa), evi­dên­cia ainda res­sal­tada pelos noti­ciá­rios (mesmo o argu­mento da “mino­ria radi­cal” não depõe a seu favor, visto que todas as reli­giões pos­suem mino­rias radi­cais e pou­cas pro­mo­vem os mes­mos atos cri­mi­no­sos com tanta regu­la­ri­dade), e irei ape­lar ape­nas a ele­men­tos obje­ti­vos.

Bem, ana­li­se­mos a ques­tão. Mas, antes, é neces­sá­rio fazer uma inda­ga­ção: seriam, para os par­ti­dá­rios da equi­va­lên­cia ética entre islã e cris­ti­a­nismo, as duas reli­giões equi­va­len­tes por­que TODAS as reli­giões são equi­va­len­tes, ou por­que estas duas reli­giões, den­tre as cen­te­nas cri­a­das pela huma­ni­dade, são coin­ci­den­te­mente moral­mente equi­va­len­tes?

É fácil pro­var, por absurdo, o absurdo da pri­meira hipó­tese, o que tam­bém é uma prova de absurdo da hipó­tese do rela­ti­vismo moral como um todo.

Se todas as reli­giões são moral­mente equi­va­len­tes, por certo, nenhuma delas pode­ria ser moral­mente pior do que a outra. E se fun­dás­se­mos uma reli­gião com o fim deli­be­rado de ser moral­mente pior? Uma reli­gião má e cruel? Se a hipó­tese rela­ti­vista esti­vesse certa, seria um empre­en­di­mento frus­trado de ante­mão, pois a nenhuma reli­gião é dado ser pior que as demais.

Mas esta hipó­tese não para por aí: ela der­ruba toda a vali­dade do pen­sa­mento ético em si.

Se forem todas as reli­giões obri­ga­to­ri­a­mente equi­va­len­tes, no ter­reno da moral, ima­gi­ne­mos o seguinte expe­ri­mento men­tal: com o fim deli­be­rado de criar uma reli­gião pior, fun­da­mos uma reli­gião nova, mas uni­ca­mente subs­ti­tuindo um ele­mento qual­quer dos pre­cei­tos da pri­meira por uma deli­be­ra­da­mente mons­tru­oso. Seriam elas, então, per­fei­ta­mente equi­va­len­tes, menos em um de suas cen­te­nas de pre­cei­tos, onde uma seria ori­gi­nal, e outra seria um ato que toma­mos como mons­tru­oso.

Ora, se todo o res­tante dos pre­cei­tos é igual, não se presta a ofe­re­cer com­pa­ra­ção, sobrando como único ponto de com­pa­ra­ção o ato modi­fi­cado em si. E, sendo assim, iso­lado do res­tante, não com­põe uma reli­gião, mas um sim­ples pre­ceito iso­lado. Assim, temos que seria impos­sí­vel dife­ren­ciar eti­ca­mente dois pre­cei­tos iso­la­dos, sendo ou não com­po­nen­tes de uma reli­gião (por­que isso seria irre­le­vante). Logo, seria impos­sí­vel esta­be­le­cer com­pa­ra­ções éti­cas entre dois pre­cei­tos quais­quer. O que não é senão nii­lismo, a nega­ção de que exista pos­si­bi­li­dade de valo­rar de modo dife­rente. E, já que esta­mos aqui: se o nii­lismo é válido, por que reli­gião? Seria ela mesmo irre­le­vante em qual­quer caso.

Vamos à segunda hipó­tese, que apa­renta ao menos alguma lon­ge­vi­dade, embora já demons­tre alguns pro­ble­mas.

SE as reli­giões não são moral­mente equi­va­len­tes, mas islã e cris­ti­a­nismo, espe­ci­fi­ca­mente estes, são equi­va­len­tes, temos uma nova leva de pro­ble­mas. Pri­meiro: parece coin­ci­dên­cia demais. Ser abso­lu­ta­mente indi­fe­rente, todos os aspec­tos e pre­cei­tos leva­dos em con­si­de­ra­ção, é um tanto quanto coin­ci­dente demais. Mas, como coin­ci­dên­cias são pos­sí­veis, vamos a pres­su­por.

Mesmo assim: que cris­ti­a­nismo? Que islã? São duas reli­giões abso­lu­ta­mente mutan­tes. O cris­ti­a­nismo pri­mi­tivo em nada se asse­me­lhava ao medi­e­val, que em nada se asse­me­lhava ao da época de Lutero, que nada se asse­me­lhava ao de hoje.

O islã, por seu turno, tam­bém pas­sou por vários está­gios: o mao­me­tano, o da divi­são suni­tas/xii­tas, o do período de Sala­dino, que é dife­rente do Oto­mano, que é dife­rente do pré-revo­lu­ção ira­ni­ana, que é dife­rente do islã dos aia­to­lás, que é dife­rente do islã do Estado Islâ­mico.

Eles sem­pre andam jun­tos, em per­feita equi­va­lên­cia? Ou é uma aná­lise que leva em con­si­de­ra­ção ape­nas e tão somente o cris­ti­a­nismo e o islã da nossa época? Ade­mais, se forem equi­va­len­tes, e não por um motivo ine­rente a alguma equi­va­lên­cia gené­rica das reli­giões, isso só pode ser dito após aná­lise de todos os pre­cei­tos, colo­cando-se uma por uma em com­pa­ra­ção. Não me parece que alguém que não seja espe­ci­a­lista nas duas reli­giões, então, possa fazer essa afir­ma­ção de ampla equi­va­lên­cia, senão levi­a­na­mente.

Então, esse argu­mento de per­feita equi­va­lên­cia entre cris­ti­a­nismo e islã é, no mínimo, frá­gil, perante o qual uma per­gunta sem­pre irá se impor: por quê?


Seja patrono do AZ para mais arti­gos como este.
CLIQUE AQUI e esco­lha sua recom­pensa.


Newsletter AZ | sabedoria budista


Você pode que­rer ler tam­bém:

7 Lições de Jesus que até ateus podem apro­vei­tar
Não defendo o ata­que ter­ro­rista, mas…

Douglas Donin
Especialista em Direito Internacional e graduando em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, já foi ditador da Latvéria e inimigo de estelionatários neopentecostais no site "Duvido".

Compartilhe