Ontem vi uma discussão entre dois amigos, que gerou alguma animosidade: devemos tomar o Islã como uma cultura “pior” do que a nossa, do cristianismo?

Um dos meus amigos, pessoa muito boa, mas afeita sobremaneira à gentileza, sustentava que não. A outra, bastante irreligiosa, não tinha dois pensamentos ao dizer que sim.

Vou deixar de lado minha firma convicção que, sim, a cultura islâmica é manifesta e evidentemente mais desumana do que a cristã (impressão que só ficou mais forte depois de ler “The Lucifer Principle“, de Howard Bloom – indicação do Victor Lisboa), evidência ainda ressaltada pelos noticiários (mesmo o argumento da “minoria radical” não depõe a seu favor, visto que todas as religiões possuem minorias radicais e poucas promovem os mesmos atos criminosos com tanta regularidade), e irei apelar apenas a elementos objetivos.

Bem, analisemos a questão. Mas, antes, é necessário fazer uma indagação: seriam, para os partidários da equivalência ética entre islã e cristianismo, as duas religiões equivalentes porque TODAS as religiões são equivalentes, ou porque estas duas religiões, dentre as centenas criadas pela humanidade, são coincidentemente moralmente equivalentes?

É fácil provar, por absurdo, o absurdo da primeira hipótese, o que também é uma prova de absurdo da hipótese do relativismo moral como um todo.

Se todas as religiões são moralmente equivalentes, por certo, nenhuma delas poderia ser moralmente pior do que a outra. E se fundássemos uma religião com o fim deliberado de ser moralmente pior? Uma religião má e cruel? Se a hipótese relativista estivesse certa, seria um empreendimento frustrado de antemão, pois a nenhuma religião é dado ser pior que as demais.

Mas esta hipótese não para por aí: ela derruba toda a validade do pensamento ético em si.

Se forem todas as religiões obrigatoriamente equivalentes, no terreno da moral, imaginemos o seguinte experimento mental: com o fim deliberado de criar uma religião pior, fundamos uma religião nova, mas unicamente substituindo um elemento qualquer dos preceitos da primeira por uma deliberadamente monstruoso. Seriam elas, então, perfeitamente equivalentes, menos em um de suas centenas de preceitos, onde uma seria original, e outra seria um ato que tomamos como monstruoso.

Ora, se todo o restante dos preceitos é igual, não se presta a oferecer comparação, sobrando como único ponto de comparação o ato modificado em si. E, sendo assim, isolado do restante, não compõe uma religião, mas um simples preceito isolado. Assim, temos que seria impossível diferenciar eticamente dois preceitos isolados, sendo ou não componentes de uma religião (porque isso seria irrelevante). Logo, seria impossível estabelecer comparações éticas entre dois preceitos quaisquer. O que não é senão niilismo, a negação de que exista possibilidade de valorar de modo diferente. E, já que estamos aqui: se o niilismo é válido, por que religião? Seria ela mesmo irrelevante em qualquer caso.

Vamos à segunda hipótese, que aparenta ao menos alguma longevidade, embora já demonstre alguns problemas.

SE as religiões não são moralmente equivalentes, mas islã e cristianismo, especificamente estes, são equivalentes, temos uma nova leva de problemas. Primeiro: parece coincidência demais. Ser absolutamente indiferente, todos os aspectos e preceitos levados em consideração, é um tanto quanto coincidente demais. Mas, como coincidências são possíveis, vamos a pressupor.

Mesmo assim: que cristianismo? Que islã? São duas religiões absolutamente mutantes. O cristianismo primitivo em nada se assemelhava ao medieval, que em nada se assemelhava ao da época de Lutero, que nada se assemelhava ao de hoje.

O islã, por seu turno, também passou por vários estágios: o maometano, o da divisão sunitas/xiitas, o do período de Saladino, que é diferente do Otomano, que é diferente do pré-revolução iraniana, que é diferente do islã dos aiatolás, que é diferente do islã do Estado Islâmico.

Eles sempre andam juntos, em perfeita equivalência? Ou é uma análise que leva em consideração apenas e tão somente o cristianismo e o islã da nossa época? Ademais, se forem equivalentes, e não por um motivo inerente a alguma equivalência genérica das religiões, isso só pode ser dito após análise de todos os preceitos, colocando-se uma por uma em comparação. Não me parece que alguém que não seja especialista nas duas religiões, então, possa fazer essa afirmação de ampla equivalência, senão levianamente.

Então, esse argumento de perfeita equivalência entre cristianismo e islã é, no mínimo, frágil, perante o qual uma pergunta sempre irá se impor: por quê?


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Douglas Donin
Especialista em Direito Internacional e graduando em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, já foi ditador da Latvéria e inimigo de estelionatários neopentecostais no site "Duvido".
  • Carlos Zudoski

    Como disse Eliades:

    “A ambivalência do sagrado não é só de ordem psicológica (na medida em que atrai ou causa repulsa), mas também a ordem dos valores; o sagrado é, ao mesmo tempo, «sagrado» e «profano».”

    A afirmação pode ser feita de forma a parecer menos paradoxal. Poderia significar que a nossa ideia do sagrado é especializada, enquanto em algumas culturas primitivas o sagrado é uma ideia muito geral que significa pouco mais do que proibição.

    Para a maioria das pessoas o sinônimo de religião é a proibição. Margaret Hodgen demonstra-o na sua obra The Doctrine of Survivals, um guia indispensável para quem quer que deseje seguir o confuso diálogo que então se desenrolava entre a antropologia e a teologia.

    Agora, quando se estuda a teologia cristã monergista ou sinergista que estão ligadas a Soteriologia, ou pelo menos um pequeno fragmento destas, as coisas mudam de perspectiva. O cristianismo é a única religião que tem aspecto moral diferentes das demais.

    As religiões primitivas e suas variantes, inclusive o islã são menos evoluídas no aspecto moral, pois prezam a inerentemente a bondade humana interior, e essa brota com sua relação divinal e caso seja bem “praticada” ganha-se 10 virgens e o céu!

    A moralidade Cristã significativamente advêm de uma moralidade que vem do exterior, não é um processo humano primariamente em sua relação com o divino, as demais religiões, o inverso é praticado.

    O monergismo e sinergismo diferem alguns pontos, mas são na mesma essência uma moralidade superior e exterior, porque os atributos humanos morais não contam em suas relações com o divino em plano perdição/salvífico. Não exite pelagianismo ou semipelagianismo.

    O que “tornou” o cristianismo pagão foi a concepção Católica Romana de sua visão teológica da bíblia. Dr. William Robertson Smith, afirma:

    Desde o princípio ou quase, a Igreja Católica afastou-se da tradição apostólica elaborando uma concepção do Cristianismo que se resume numa série de enunciados de princípios abstratos e imutáveis; a sua aceitação intelectual bastava para determinar toda a existência de homens que nunca tinham estabelecido relações pessoais entre si e Cristo. (…)

    Contrariamente ao que afirmavam os Católicos, as Sagradas Escrituras não são «um fenômeno divino onde cada letra é dotada das riquezas redentoras que são a fé e o conhecimento». (J. S. Black e G. Chrystal, pp. 126-127)

    Expor aqui todos os argumentos sairia da raciocino e levaria uma cetenas de páginas. Por fim o cristianismo em confronto com o Islamismo sai vitorioso, por ser mais evoluído em vários aspectos. A moralidade como expliquei resumidamente coloca isso em seu favor em evidência.