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A origem de todas as crises

Em Consciência, Filosofia, Sociedade por Bruno BrazComentário

Por que dize­mos que as cri­ses mun­di­ais são de ori­gem humana, mas não natu­ral?

Afi­nal, huma­nos são mamí­fe­ros, seres bio­ló­gi­cos tão natu­rais quanto qual­quer outro. Não há por que fazer dis­tin­ção entre huma­nos e natu­reza, pois se somos parte dela tudo o que faze­mos é “natu­ral”.

No entanto, refor­ça­mos essa dis­tin­ção. Reco­nhe­ce­mos na natu­reza uma certa har­mo­nia, equi­lí­brio, auten­ti­ci­dade e beleza que não encon­tra­mos no mundo da tec­no­lo­gia — aban­do­na­mos o “natu­ral” para ado­tar o “arti­fi­cial”.


 

A separação, o progresso e a ascensão

A tec­no­lo­gia se encon­tra no cen­tro da dis­tin­ção entre huma­nos e natu­reza.

Nenhuma outra espé­cie tem a nossa capa­ci­dade de trans­for­mar (ou des­truir) o meio ambi­ente, con­tro­lar os pro­ces­sos da natu­reza ou trans­cen­der suas limi­ta­ções.

A cul­tura, por sua vez, é o equi­va­lente men­tal e espi­ri­tual da tec­no­lo­gia, modi­fi­cando a pró­pria natu­reza humana, assim como a tec­no­lo­gia faz com o meio ambi­ente.

Ao domi­nar a natu­reza atra­vés da tec­no­lo­gia, e a natu­reza humana pela cul­tura, nos dife­ren­ci­a­mos de todo o resto e cri­a­mos um reino humano à parte.

Enxer­ga­mos essa sepa­ra­ção como uma espé­cie de “ascen­são”, o cami­nho para a supe­ra­ção das ori­gens ani­mais. Cer­tos de nossa supe­ri­o­ri­dade, resol­ve­mos exal­tar nosso acú­mulo de cul­tura e tec­no­lo­gia — eis o “pro­gresso”.

É, por­tanto, essa sepa­ra­ção, na forma de tec­no­lo­gia e cul­tura, que nos define como huma­nos e tem gerado todas as cri­ses atu­ais.

Os reli­gi­o­sos podem atri­buí-las à nossa sepa­ra­ção de Deus; os ambi­en­ta­lis­tas, à sepa­ra­ção da natu­reza; os ati­vis­tas soci­ais, à dis­so­lu­ção das comu­ni­da­des (sepa­ra­ção entre as pes­soas).

Pode­mos até mesmo con­si­de­rar o lado psi­co­ló­gico, espe­ci­al­mente quando nosso com­por­ta­mento é mode­lado por pres­sões soci­ais (sepa­ra­ção do nosso “ver­da­deiro eu”).

Para o bem ou para o mal, a tal Sepa­ra­ção nos fez quem somos e criou o mundo que conhe­ce­mos hoje, e assim nos acos­tu­ma­mos com aquela cons­tante angús­tia exis­ten­cial de “seres fal­tan­tes” à la Freud.

A sen­sa­ção de que a vida e o mundo deve­riam ser “algo mais” reflete o cará­ter pura­mente ilu­só­rio da Sepa­ra­ção. Ape­nas uma ilu­são, mas tão pode­rosa que gerou as cri­ses que vemos na polí­tica, meio ambi­ente, medi­cina, edu­ca­ção, eco­no­mia, reli­gião, rela­ci­o­na­men­tos etc.

Todas per­cor­re­ram o mesmo cami­nho, gui­a­das por uma con­cep­ção dis­tor­cida do que cha­ma­mos de “Eu”. E não vou nem colo­car toda a culpa no capi­ta­lismo ou no dinheiro, pois ambos são ape­nas sin­to­mas, e não cau­sas, da Sepa­ra­ção.

Pintura de um careca capitalista pintando um quadro de um espaço urbanizado, projetando ideias sobre a natureza à sua volta. | A origem de todas as crises

A raiz desse fenô­meno se encon­tra na con­cep­ção moderna de um Eu dis­creto e iso­lado: o “eu sou” de Des­car­tes, o “homem econô­mico” de Adam Smith, o “fenó­tipo supe­rior” de Darwin, o “ego encap­su­lado no corpo” de Alan Watts.

São todos exem­plos de um Eu fun­da­men­tal­mente sepa­rado — mas con­di­ci­o­nal­mente depen­dente — de “outros” (outras pes­soas e a natu­reza).

Se nos reco­nhe­ce­mos ape­nas como seres dis­cre­tos e sepa­ra­dos, vamos, natu­ral­mente, mani­pu­lar tudo o que nos cerca a fim de obter a maior van­ta­gem pos­sí­vel.

A tec­no­lo­gia, em par­ti­cu­lar, se baseia na indi­vi­du­a­li­za­ção (ou sepa­ra­ção) con­cei­tual do ambi­ente, pois toma o mundo como objeto de mani­pu­la­ção e con­trole. O slo­gan do pro­gresso é “Vamos tor­nar o mundo um lugar melhor”. E eu per­gunto: pra quem?

Se, como escrevi, nossa con­cep­ção de um Eu dis­creto e sepa­rado é ape­nas uma ilu­são, então toda aquela noção de “pro­gresso” ou “ascen­são da huma­ni­dade”, como pro­duto da tec­no­lo­gia e cul­tura, tam­bém é base­ada numa ilu­são.

Desse modo, uma trans­for­ma­ção cons­ci­ente da nossa per­cep­ção, ou melhor, uma recon­cep­ção de “si mesmo” traz impli­ca­ções tão pro­fun­das que nos levam a uma rede­fi­ni­ção radi­cal do que é ser “humano” e de que forma nos rela­ci­o­na­mos uns com os outros e com o mundo.

A tec­no­lo­gia não só se baseia na sepa­ra­ção con­cei­tual da natu­reza, como tam­bém reforça essa rup­tura.

Tome como exem­plo os paí­ses mais ricos, onde as esta­ções do ano quase não afe­tam a vida das pes­soas: a mesma comida o ano inteiro, ar con­di­ci­o­nado no verão e cale­fa­ção no inverno.

As limi­ta­ções natu­rais do nosso corpo tam­bém já não res­trin­gem quão longe pode­mos via­jar ou quão dis­tante pode­mos nos comu­ni­car.

Cada avanço tec­no­ló­gico nos dis­tan­cia da natu­reza, mas tam­bém nos livra das limi­ta­ções natu­rais. Resu­mindo em três movi­men­tos: a sepa­ra­ção, o pro­gresso e a ascen­são.

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O paradoxo do progresso

Enfren­ta­mos um para­doxo.

De um lado, tec­no­lo­gia e cul­tura são res­pon­sá­veis pela sepa­ra­ção entre huma­nos e natu­reza, dando ori­gem às cri­ses que con­ver­gem atu­al­mente.

Por outro, tec­no­lo­gia e cul­tura bus­cam expli­ci­ta­mente aper­fei­çoar a natu­reza, tor­nando a vida mais fácil, segura e con­for­tá­vel.

Afi­nal, quem vai negar que fer­ra­men­tas são melho­res que as mãos? Que o fogo nos man­têm aque­ci­dos, e a medi­cina, mais sau­dá­veis que nos­sos ante­pas­sa­dos pri­mi­ti­vos? Ao menos é o que essas tec­no­lo­gias pre­ten­diam.

Mas fize­mos, real­mente, do mundo um lugar melhor? Se não, por que a tec­no­lo­gia ainda não alcan­çou seu pro­pó­sito? De que forma essa série de avan­ços cumu­la­ti­vos se rela­ci­o­nam com as cri­ses atu­ais?

Mesmo nos momen­tos mais difí­ceis, sen­ti­mos que algo melhor é pos­sí­vel — o sonho de um mundo e uma vida dife­ren­tes.

Ideias sobre esse mundo de ple­ni­tude e beleza já ins­pi­ra­vam ide­a­lis­tas há milha­res de anos, e ainda res­soam em nossa psi­que cole­tiva como noções de “Céu”, “Era de Aquá­rio” ou “Éden”.

Os mís­ti­cos de anti­ga­mente diziam: “tal mundo está mais pró­ximo do que ima­gi­na­mos, den­tro de nós e ao nosso redor”.

Con­tudo, estará sem­pre além do alcance, ina­ces­sí­vel a qual­quer esforço que se baseie em nossa con­cep­ção atual de “si mesmo”. Para alcançá-lo, essa con­cep­ção dis­tor­cida e as impli­ca­ções de sua rela­ção com o mundo devem ruir.

Imer­sos nos pro­ble­mas coti­di­a­nos, não é fácil per­ce­ber o que está acon­te­cendo em larga escala e, quem dirá, sob outra pers­pec­tiva.

Há futi­li­dade, fal­si­dade e até uma falta de fun­da­mento nesse “pro­grama de con­trole” do mundo que, cole­ti­va­mente, nos sen­ti­mos for­ça­dos a ado­tar, bus­cando nomear e nume­rar, cate­go­ri­zar e domi­nar, trans­cen­der a natu­reza e a natu­reza humana.

Uma vez exposto, esse “pro­grama” perde sua força e só então con­se­gui­mos aban­doná-lo, antes que con­suma todos os ves­tí­gios de vida e beleza na Terra.

Esse mundo deter­mi­nista, meca­nís­tico e obje­tivo, resul­tado do Eu sepa­rado e dis­creto, não é real, mas ape­nas uma pro­je­ção da nossa pró­pria con­fu­são.

 

Superando o fatalismo cotidiano

Calma. Não escrevo somente como crí­tica à soci­e­dade atual, e vale des­ta­car que as solu­ções que exploro não estão nos mol­des de “temos que fazer isso” ou “não pode­mos fazer aquilo”.

Afi­nal, quem dia­bos é aquele sujeito oculto: “nós”? Você e eu somos ape­nas “você e eu”.

Tal­vez seja por isso que dis­cur­sos polí­ti­cos do tipo “pre­ci­sa­mos fazer isso e aquilo” sejam tão desa­ni­ma­do­res; que mui­tos ati­vis­tas se sin­tam rejei­ta­dos e aca­bem per­dendo as espe­ran­ças.

Você e eu, inde­pen­dente do quanto con­cor­da­mos, nunca sere­mos aquele “nós” da ação cole­tiva, como em “pre­ci­sa­mos ter uma vida mais sus­ten­tá­vel”.

Problema: eu. Solução: nós. | A origem de todas as crises

Pro­blema: eu. Solu­ção: nós.”

Sei que mui­tos com­par­ti­lham da minha intui­ção de que há algo de errado com a vida e o mundo, e a rea­ção não é car­re­gada de indig­na­ção, mas de desâ­nimo, desam­paro e impo­tên­cia.

Que dife­rença uma pes­soa, ape­nas uma, pode fazer? Na ver­dade, essas dúvi­das e emo­ções tam­bém são sin­to­mas da Sepa­ra­ção, aquela mesma por trás de todas as nos­sas cri­ses.

Se me con­si­dero um indi­ví­duo dis­creto e sepa­rado, minhas ações fazem pouca dife­rença. Mas lem­bre-se que essa lógica é base­ada numa ilu­são. Nós (você e eu) temos um poder além da ima­gi­na­ção.

As atu­ais cri­ses não são refle­xos de uma con­di­ção humana imu­tá­vel. Elas têm ori­gem na con­fu­são entre o Eu e o mundo, já incor­po­rada em nos­sos prin­cí­pios cien­tí­fi­cos e reli­gi­o­sos fun­da­men­tais, além de apli­cada em todos os aspec­tos da vida moderna: da polí­tica à eco­no­mia, da medi­cina à edu­ca­ção.

A des­trui­ção social e ambi­en­tal é uma con­sequên­cia ine­vi­tá­vel da pers­pec­tiva que temos do mundo, assim como a res­tau­ra­ção e o equi­lí­brio têm sido, e serão ainda mais, con­sequên­cias de uma outra pers­pec­tiva enrai­zada em cul­tu­ras e reli­giões anti­gas, ali­ada ao resul­tado de impli­ca­ções ainda des­co­nhe­ci­das da ciên­cia moderna.

A atual rup­tura entre o Eu e o mundo (uma espé­cie de dua­lismo), assim como a con­se­quente divi­são do mundo em enti­da­des dis­cre­tas, vai per­dendo sua uti­li­dade como para­digma domi­nante.

Nossa indi­vi­du­a­li­za­ção, como pes­soas (e como espé­cie) sepa­ra­das da natu­reza, está com­pleta.

O que come­çou com a agri­cul­tura, ou até mesmo antes, com a des­co­berta das tec­no­lo­gias da pedra e do fogo, che­gou ao limite. Fomos longe e nos dis­tan­ci­a­mos de tudo, mas tam­bém cri­a­mos ver­da­dei­ras mara­vi­lhas.

Nos tor­na­mos uma ver­da­deira força da natu­reza que trans­for­mou o pla­neta.

Mas se os dons huma­nos tam­bém são natu­rais, o que houve com a har­mo­nia, beleza e auten­ti­ci­dade que tanto sen­ti­mos falta nesse mundo tec­no­ló­gico?

Será pos­sí­vel alcan­çar aquela con­di­ção humana que só acre­di­ta­mos (e sen­ti­mos) ser pos­sí­vel em momen­tos de ins­pi­ra­ção?

Só o tempo dirá.


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Escrevo pra descobrir o que sei e aprender o que não sei; pra dar vazão e um pouco de ordem ao turbilhão de coisas que me passam pela cabeça e ficam sem ser ditas; pra dar meu empurrãozinho nessa roda da vida e, quem sabe, ainda inspirar alguém.

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