Domingo a polícia militar, sob ordens do governador Geraldo Alckmin, deflagrou uma megaoperação na Cracolândia, aqui em SP, com bomba, porrada, etc.

A operação parece desmantelar o que sobrou do programa “Braços Abertos”, que tentava implementar um paradigma de tratamento, e não repressão, para os usuários e viciados que moravam na região.

(Pra quem não é de São Paulo, breve explicação: a cracolândia é uma zona do centro da cidade, onde muitos usuários de crack e outras drogas se reúnem, usam drogas a céu aberto, o tráfico rola solto, etc. O “Braços Abertos” era um programa de redução de danos, que tentava conseguir emprego e casa pra morar pra essas pessoas.)

Acho que muita gente já sabe disso, mas é sempre bom reiterar: as experiências mais felizes e eficientes ao lidar com os danos causados por drogas foram todas pautadas por uma visão médica, de tratamento e redução de danos, e não por repressão. Quem quiser ver um exemplo paradigmático, procure saber sobre como foi em Portugal: a mudança de uma visão repressora pra uma visão de tratamento resultou em uma redução enorme do uso de heroína, e a reintegração de muita gente à sociedade. Em resumo, dar apoio e tratamento pras pessoas costuma funcionar melhor do que bater nelas. Quem diria?

O mais surreal disso tudo, porém, é que a tal megaoperação ocorreu simultaneamente à Virada Cultural. Pra quem não conhece, a Virada é um evento, organizado pela prefeitura, que coloca vários shows, apresentações & etc pela cidade toda, durante 24h. O foco sempre foi, porém, no centro.

Ou seja: o governador achou que era uma boa ideia botar a polícia pra espancar e bombardear usuários de crack ao mesmo tempo que rolavam shows e galera na rua pertinho disso tudo.

Como eu não sou muito conspiracionista e não boto fé na capacidade e inteligência de governos pra criarem planos maquiavélicos, eu não acho que isso foi “pensado” pra esvaziar a Virada, pra expulsar as pessoas do centro, pra mandar todo mundo pra longe (a nova gestão Dória moveu boa parte das atrações da Virada pra longe do centro, então isso seria uma operação coordenada). Não acho que governos no geral sejam inteligentes assim.

Acho que a explicação é mais prosaica mesmo: o governo é burro e/ou não se importa. Como sempre. Acho que foi uma mistura de “tá na hora da operação, tem que botar pra quebrar em cima desses viciados”, a empolgação passando por cima do bom senso de considerar “olha, talvez não seja um bom momento pra isso” com “foda-se, quem tá na rua de madrugada merece apanhar mesmo”.

A situação é toda deprimente, e espero que meu repúdio tenha ficado claro. Não só acho grotesco o uso do aparato militar-repressivo pra espancar gente que já não tem nada na vida, mas sou contra a própria criminalização do uso de drogas. Se fosse legalizado não tinha abertura pra essa violência toda (a PM não chega batendo em bêbado todo fim de semana, né).

O mais bizarro, pra mim, é como essa dinâmica é um resumo perfeito da atuação do Estado, um negócio que parece até didático de tão exemplar: em uma rua, o governo te dá uns shows, uma festa, te “permite usar o espaço público” (como se ele fosse dono de algo pra te proibir…), te faz um agrado. Na esquina do lado, o governo usa todo seu aparato bélico pra agredir e violentar as pessoas que já são as mais frágeis da sociedade. Não é “um ou outro” – é os dois. O Estado precisa das duas formas pra continuar existindo – tanto o presente quanto a porrada. Só acho legal lembrar que tanto o showzinho quanto a bomba são bancados pela mesma entidade, e esquecer convenientemente disso não serve pra nada. Por trás da “dádiva” que o governo bonzinho deu pra nós sempre tem uma PM.

Guilherme Assis
Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo - sempre na oposição.
  • Adonai Gouvêa

    #mito2018

  • Hyago Kuhn Guedes

    Só um adendo. O modelo em que se pauta o programa “Braços Abertos” é o modelo biopssicosocial e não médico. O modelo biomédico desconsidera a contribuição do meio social e psicológico para o surgimento de patologias.

    Fica explicito na introdução do programa o ponto de vista biopssicosocial “A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais; os níveis de saúde da população expressam a organização social e econômico do País.”