Artigo originalmente publicado no site da autora.


Há um ano e meio eu e meu marido resolvemos, de maneira bem informal, parar de comprar carne. Pensando agora, não consigo me lembrar muito bem qual foi o motivo principal que nos levou a tomar essa decisão. Acho que em parte foi por saúde; em parte por causa das condições absurdas a que os animais são submetidos no modelo atual de agronegócio; em parte por causa do seu impacto no meio ambiente; e em parte porque nós tínhamos acabado de largar nossos empregos e carne é caro pra cacete.

Meu bem…e se a gente parasse de comer carne?
Meu bem…e se a gente parasse de comer carne?

De qualquer forma, a ideia era diminuir drasticamente o consumo de carne. Como fazemos todas as nossas refeições em casa, decidimos que se parássemos de comprá-la, consequentemente atingiríamos o nosso objetivo. Como não viramos oficialmente vegetarianos, no entanto, nos reservamos ao direito de comer carne em algumas situações. Por exemplo, em churrascos de amigos, continuamos nos esbaldando. Na casa da família, não nos esquivamos da galinha assada, da lasanha à bolonhesa, da picanha no forno. E mesmo em casa, abrimos certas exceções. Como moramos na praia, peixe e frutos do mar permaneceram permitidos. Assim como a eventual calabresa a cada quinze dias.

Porque, né. Se é pra comer carne, tem que comer direito.
Porque, né. Se é pra comer carne, tem que comer direito.

Eu estava super satisfeita com esse arranjo. Estava dando tudo super certo.

Até ontem.

Ontem eu assisti a um singelo documentário que acabou de ser lançado no Netflix chamado Cowspiracy. Financiados por crowdfunding, sem verba para distribuição e rejeitados no circuito de festivais de filmes independentes, até o final de 2014 os produtores de Cowspiracy estavam fazendo um trabalho de formiguinha, viajando os EUA exaustivamente para divulgar o longa em sessões independentes e sem muito alcance. Até que finalmente o inesperado aconteceu: Leonardo DiCaprio viu o filme e decidiu que sua mensagem precisava chegar ao maior número de pessoas possível. Foi assim que de espectador ele se transformou em produtor executivo e o assustador filme de Kip Andersen e Keegan Kuhn conseguiu se materializar na fila de grandes lançamentos do Netflix.

E qual é a mensagem de Cowspiracy? Basicamente, que o leite que você tomou de manhã, o bife que você comeu de meio-dia e o queijo que vai comer no jantar estão matando o planeta. Mais que carros, aviões e navios. Mais que a energia produzida com carvão e petróleo. Mais que o seu banho demorado, que a sua preguiça em separar os recicláveis, ou que a sua mania irritante de esquecer de apagar a luz quando sai de um recinto.

Sério, pára com isso.
Sério, pára com isso.

Se a gente parar para pensar, essa informação não deveria ser tão chocante. Temos hoje no planeta por volta de 7 bilhões de pessoas… e 70 bilhões de animais criados para consumo humano todos os anos. Sabendo disso, não deveria ser surpreendente saber que 30% de toda a terra é ocupada pela agropecuária (tanto pelos animais em si, como pelo cultivo de grãos cujo ineficiente fim é alimentá-los). Ou que ela é a atividade que mais gera emissões de gases de efeito estufa (tanto de CO2, como dos devastadores metano e óxido nitroso), sendo, portanto, a principal causadora das mudanças climáticas.


Veja o trailer oficial de Cowspiracy, legendado pelo Nó de Oito.

 

E a coisa só fica mais feia a partir daí. A agropecuária é a maior causa de desmatamento no mundo. Só no Brasil, mais de 70% do que já foi desmatado na Amazônia virou pasto. Ela também polui mais do que qualquer outra atividade, com suas infindáveis toneladas de excremento, produtos químicos, antibióticos, hormônios, fertilizantes e pesticidas tomando incessantemente o solo, os rios, lagos e oceanos.

Lagoa de dejetos e excrementos em área de criação intensiva de gado, vista do Google Earth.
Lagoa de dejetos e excrementos em área de criação intensiva de gado, vista do Google Earth.

Falando em água, a agropecuária é também a atividade que mais a gasta. Ao comer um hambúrguer, por exemplo, você está gastando 2500 litros de água – o suficiente para tomar banho por dois meses inteiros. Para um litro de leite, são quase 1000 litros de água. Degradação do solo é outro problema que tem a agropecuária como principal responsável. Quase ⅓ da terra está em processo de desertificação por conta dela. Tudo isso e muito mais faz com que a agropecuária seja a principal responsável pela extinção de espécies em todo o planeta (inclusive a da espécie humana, se não tomarmos uma atitude).

Mais do que esfregar tudo isso em nossas caras sedentas de costeletas de porco e frango à passarinho, no entanto, Cowspiracy revela o silêncio perturbador das maiores organizações internacionais de proteção ao meio ambiente sobre o assunto. E dá uma dimensão apavorante do tamanho do poder exercido pelo agronegócio no mundo.

Isso tudo é ruim, mas também é muito bom. Porque significa que a solução para a destruição do planeta não só está em nossas mãos, como também é muito simples, barata, saudável e viável:

Parar de comer carne.

Já estou aqui pesquisando receitas com leite de aveia e biomassa de banana verde. E você?


 

Confira o infográfico do Cowspiracy traduzido pelo Nó de Oito (clique para ampliar):

 

Cowspiracy
Infográfico traduzido pelo Nó de Oito.
Cowspiracy
Infográfico traduzido pelo Nó de Oito.
Cowspiracy
Infográfico traduzido pelo Nó de Oito.

 

Fontes:

Bibliografia do documentário Cowspiracy, com todas as suas fontes e links em http://www.cowspiracy.com/facts.


Você também pode querer ler:

As perdas sociais de se consumir carne
Consumismo e Ética Animal

  • Yagami Raito TR

    Impressionantes dados, e mais que isso, impactantes.
    Há alguns anos já vem se falado no impacto agropecuário no meio ambiente, só não se sabia com exatidão as proporções, por falta de interesse das organizações comprometidas com a proteção do planeta, como falado no artigo e que muito provavelmente está vinculado ao domínio do setor, cujo até mesmo ONGs, que em sua filosofia seriam imunes a qualquer imposição de interesses privados e governamentais, não conseguem escapar.
    O que me vem a mente sobre tudo isso é: E se pararmos de comer carne, o impacto para a fabricação em larga escala dos ingredientes vegetais para suprir toda uma raça de famintos por carne, que tanto se tornou cultura em nossa sociedade como a sua substituição requer uma gama de outros alimentos menores para ser nutricionalmente viável, ao contrário do que se acredita. Não existe um alimento substituto para a carne. Mas uma dieta substituta que permite que nela a desprezemos.O impacto positivo seria tão benéfico quanto aparentam os infográficos? Perdoem minha ignorância, mas acredito eu que os infográficos não consideram essa realidade hipotética em suas análises.

    Como é sabido, a substituição da carne na dieta vem por uma sequência de vários outros, por exemplo, a proteína e o ferro da carne podem ser adquiridas por castanhas e leguminosas, (ignorando aqui a obtenção destes nutrientes por ovos e laticínios, ja que são derivados animais, além de mais pobres em fornecer-nos tais nutrientes que a opção acima) porém, nutrientes como a vitamina B12 presentes na carne ainda não serão ingeridas nessa substituição, necessitando assim de mais um alimento no grupo de alternativas. Apesar do notável ganho na redução de gordura saturada e a melhora digestória ao se trocar carne por esses alimentos, sua substituição satisfatória não é algo simples.
    Os ganhos a saúde são indiscutíveis, e em um mundo onde podemos nos dar ao luxo de não nos preocuparmos com escassez de nutrientes de um ambiente selvagem e competitivo, onde a obtenção de proteínas para a manutenção do estoque da manta de gordura era questão de sobrevivência. Podemos aprimorar e potencializar nossas dietas, escolhendo seletivamente e sem desperdícios os melhores alimentos para suprir nosso corpo. Porém, essas dietas seletivas (veganas) exigem uma variedade muito maior de ingredientes para serem nutricionalmente viáveis do que uma dieta mais onívora (vegetariana, pois ainda se inclui derivados animais como leite e ovos) ou centralmente carnívora mesmo.

    Pois bem, minha dúvida reside no ponto anteriormente citado. E se os papeis se invertessem, se fosse investido no cultivo e fabricação de ingredientes de origem somente vegetal, o ganho seria tão evidente quanto o apresentado? Investindo na criação não só de um tipo de alimento, mas de vários outros, pra se obter nutricionalmente o mesmo? Sem contar que em escala global, o plantio teria que ser intensivo, não podendo acontecer o fenômeno de “deserto verde” (expressão atribuída ao uso de monoculturas por grandes extensões de terra, ou seja, um unico tipo de árvore ocupando um grande espaço geográfico), em larga escala, desta vez, muito mais nocivo a curto prazo na obtenção de comida para a humanidade? Sem contar na sensibilidade climática, pragas, conservação … que exigiria o uso mais intenso ainda de fertilizantes, agrotóxicos e de transgênicos… Seria mesmo uma troca tão benéfica, tanto pro bolso, quanto pro meio ambiente e pra saúde do próprio consumidor final?

    Perdoem se me pus em uma posição ignorante, é que realmente… os dados são chocantes demais porém, soluções simples e milagrosas me despertam bastante ceticismo sempre que as vejo, e não consigo parar de buscar formas realistas de a questionar para assim para mim validar ou não o seu potencial.