Compreender uma dada realidade implica em considerarmos múltiplas visões que, mesmo somadas, muitas vezes podem se mostrar parciais e imperfeitas por não alcançarem a totalização dos fatos, como proclamava Wittgenstein. Apesar desse empecilho, o esforço para compreendermos o mundo à nossa volta é tarefa que deve ser revisitada constantemente, caso almejemos transcender nossa condição atual. Para tanto, a coragem é imprescindível.

Fruto de uma complexidade latente, a modernidade possui sua gênese no século XVII, tendo como um dos fatores propulsores o coroamento do sujeito enfatizado por Descartes – sobretudo, suas matrizes perduram até o século presente, implicando no questionamento inicial se já deixamos de ser modernos. Fato é que, daqueles tempos até os dias atuais, muitas considerações distintas já foram levantadas e, consequentemente, enraizadas em nossa cultura (embora nossa essência, caso realmente exista uma, mostre-se imutável).

Tendo como pressuposto tais palavras, tenho como objetivo oferecer uma reflexão sobre a constituição do sujeito contemporâneo, tomando como arcabouço interpretativo a ascensão do subjetivismo e a consequente exclusão do outro.

A menção à provocação, feita no título, sugere que não temos a pretensão dogmática da verdade, mas sim que desejamos causar um possível impacto nas diretrizes tidas como comuns ou aceitas. E, como último ponto a ser assinalado nesse prelúdio, faremos uso da história da filosofia como condutora de nossas incursões.

Com efeito, a trajetória das ideias passa pelos intelectuais que, de fato, são determinantes nas concepções de mundo que encontramos. Tiremos a poeira de seus livros, evitando cometer o crime de mantermos tais em meras bibliotecas e condená-los a teorias mortas e tentemos localizar, nas obras, nossa fundamentação. Mesmo correndo o risco de sermos considerados simplistas na abordagem da temática, colocaremos em movimento o ato de pensar – e isso, por si só, pode ser considerado louvável. Com efeito, tomando as palavras de Fernando Pessoa:

Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir numa síndrome o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos.

 

Intercurso filosófico: a trágica faceta do outro

Tradicionalmente, os comentadores da filosofia localizam o subjetivismo como fruto estrito da modernidade – encerram na figura de Descartes a paternidade de tal e, tendo suas teses apropriadas por outros autores, assistem à maximização do eu: posteriormente, George Berkeley enfatiza o ego no “ser é ser percebido”; Kant, em sua obra Crítica da Razão Pura, ao mencionar a “revolução copernicana” do sujeito; Schopenhauer, no Mundo como Vontade e Representação, chega a falar de um egoísmo teórico, que seria o grau máximo de subjetivização, encontrado em autores românticos como Fichte.

Muitos outros autores poderiam ser citados, mas extrapolariam nosso tempo e objetivo. De fato, a modernidade assiste por diversos momentos proposições filosóficas que incitam tais colocações.

A partir desse prisma inicial, lancemos a nossa proposição: nossa defesa é a que, embora Descartes se mostre crucial para pensarmos a modernidade, já encontrávamos sinais da centralidade do sujeito proposto pela filosofia desde a Antiguidade. Passemos a esse momento.

A Grécia Antiga mostra-se o berço de muitas das concepções ocidentais acerca da realidade, ao racionalizar o mundo e reestruturá-lo a partir dos olhos do pensamento. “Com efeito, a filosofia grega antiga viria a conceber para o Ocidente o ideal cosmopolita de um mundo sem fronteiras”, traduzido no expansionismo cultural legado até os dias atuais. Dentre as figuras de destaque encontramos Platão, tido como o maior pensador helenístico, que propiciou uma gama de reflexões e elevaram a Grécia ao patamar referido.

Tal filósofo grego, no sétimo capítulo de sua obra República, nos oferece a tão conhecida e considerada base estrutural de sua filosofia: a Alegoria da Caverna. Nela, um conjunto de prisioneiros observam as sombras e as têm como verdade; um dos prisioneiros consegue a libertação daquela condição e, saindo da caverna, pode contemplar a verdadeira realidade. Seu regresso, no entanto, ocasionará sua morte pelos descrentes em sua vivência no exterior da caverna.

Alegoria da Caverna | Platão | a centralidade do eu

Múltiplas interpretações foram oferecidas a esse mito, transformando-o em uma das mais conhecidas histórias ocidentais. Da epistemologia à antropologia, essas várias exegeses talvez não levem em conta um aspecto importante que viria a ocasionar o fundamento da modernidade: identificamos, nas linhas escritas por Platão, o coroamento de uma pessoa em detrimento das outras, que estariam presas à caverna. Sob essa perspectiva, o sujeito, munido do inteligível que o eleva à condição de salvador, é rejeitado pelos demais – os meros “outros” que permaneceriam presos num falso mundo.

Como consequência das teses epistemológicas platônicas, há uma constante separação entre dois âmbitos, a saber:

  • o sensível (mundo das opiniões e sentidos); e
  • o inteligível (mundo das ideias, no qual a verdade reside).

Ao adentrarmos na teoria, percebemos que o outro é acessado pelo mundo sensível – e, nas categorias platônicas, o sensível resgata o falso e o impreciso, enquanto o inteligível (pensamento) o acerto. Assim, a dicotomia eu (verdade) e outros (falsidade) erige: tomando nestes termos, Platão se mostra o primeiro filósofo a dar ênfase à separação radical entre o eu e os outros.

Daremos um salto no tempo, visando lançar um olhar investigativo àquele considerado o verdadeiro pai do subjetivismo.

Tido como progenitor da Filosofia Moderna, Descartes enfatiza na sua obra Meditações a sua desconfiança a respeito das tradições recebidas até então. Segundo o autor, duvidar das tradições seria o primeiro passo para dar início ao alicerce que pretende construir em sua obra – a tentativa de encontrar uma primeira verdade. Passemos à análise de como nosso autor chega até seu objetivo. Segundo o próprio autor,

Há já algum tempo eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos, recebera muitas falsas opiniões como verdadeiras, e de que aquilo que depois eu fundei em princípios tão mal assegurados não podia ser senão mui duvidoso e incerto; de modo que me era necessário tentar seriamente, uma vez em minha vida, desfazer-me de todas as opiniões a que até então dera crédito, e começar tudo novamente desde os fundamentos.

Primeiramente, o autor coloca todas as coisas em dúvida e, assim, opta por analisar três fontes de conhecimento tidas como possivelmente irrefutáveis. Os sentidos, a realidade e Deus.

No primeiro caso, nos diz que os sentidos não podem ser considerados a verdade essencial, já que pode nos fornecer falsidades (lembremos que o autor almeja uma verdade clara e distinta – qualquer parcela de dúvida já seria fato suficiente para o abandono). A realidade, segundo o filósofo, também não oferece estatuto de verdade, já que podemos confundi-la com o sonho; Deus, como último recurso, também é rejeitado como verdade clara, já que poderíamos ser enganados por um gênio maligno.

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O que resta, segundo Descartes? O pensamento, já que é inegável o fato do ‘eu’ ter duvidado durante todo o processo. Nestes termos, penso, logo existo.

Longe de ser uma frase inocente, aqui encontramos a fundamentação tão aclamada da modernidade: a centralidade do sujeito, enclausurado no pensamento – e a rejeição do outro que, tal como Platão, é acessado pelos sentidos (e, estes, falsos).

O coroamento que assistimos do eu está na base de muitos fatores tidos como determinantes da modernidade, embora compreensíveis somente a partir do prisma do afastamento do outro: o capitalismo, como sistema econômico, debruça-se sobre o sujeito as suas promessas meritocráticas, lançando seus tentáculos do egoísmo sobre todos; a reforma protestante, como analisada por Weber, possui o estatuto herdado da mesma raiz do capitalismo – a saber, também o sujeito; a própria imprensa, tão destacada como promovedora do nascimento da modernidade, no fundo se reduz ao ‘eu’ e minhas próprias ideias no papel.

O mundo assiste pois, a partir do século XVII, a centralidade no eu – belamente enfatizada e representada anteriormente com o “homem vitruviano”, de Leonardo da Vinci.

Homem Vitruviano | Leonardo Da Vinci | a centralidade do eu

Consequentemente, no século atual, o egoísmo e o sucumbir da verdade imperam, ocasionando a generalizada descrença assinalada por Lyotard na “Condição Pós-Moderna”.

Uma interessante interpretação desta conjuntura se dá pelo filme “O senhor das Moscas”, originalmente um livro escrito por William Golding. Em sua cena final, Ralph sozinho se vê perseguido por um grupo de caçadores. Embora anteriormente o grupo tenha sido coeso, seu desmembramento e não aceitação de Ralph no decorrer da película se dá de igual maneira que no mito da caverna: com efeito, novamente temos os outros como possuidores da barbárie e violência, enquanto o ser, sozinho, é bom, racional e pacífico.

Outro interessante filme para pensarmos nessa condição é “Da Servidão Moderna”, inicialmente um livro escrito por Jean-François Brient e que trata as vicissitudes da modernidade e sua trajetória para o fracasso. Como atesta o autor do livro, ao ser perguntado acerca das suas esperanças para a realidade: “meu otimismo está baseado na certeza que esta civilização vai desmoronar e meu pessimismo em tudo aquilo que ela faz para arrastar-nos em sua queda.”

 

Considerações finais

Ao apropriarmos estrategicamente da figura de Platão, na Antiguidade, como um possível “avô” do subjetivismo e ao deslocar o mérito exclusivo de Descartes, gostaríamos de levantar reflexões que, embora não tenham respostas imediatas, serviriam para pensarmos em algo nebuloso e provocativo:

Será a crença na nossa centralidade um aspecto a-histórico e tipicamente humano? Será um erro das antropologias com características dialéticas considerar o homem como um ser que se molda no outro? O homem, ao empenhar-se na ajuda do outro, não estaria somente alimentando seu desejo de reconhecimento e de culto a si mesmo? Será que o provérbio latino homo ego sum, homo tu es mostra-se demasiadamente falso ao colocar o outro como possível? Seríamos um homo ego?

A titulo conclusivo, e provocando a filósofa Olgária Matos, não seria o estrangeiro, citado em seu artigo, uma mera projeção do eu, travestido à minha estrita vontade, numa criação da minha imagem e semelhança?

No fundo, parafraseando Schopenhauer, não seria o mundo minha grande representação?


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escrito por:

Danilo Švágera

Mestre em Educação, professor de Filosofia, ensaísta e palestrante. Depois de vários anos trabalhando em escolas tradicionais, resolveu que era hora de transformar a Educação – ou, ao menos, uma parte dela. Acredita firmemente nos dizeres: “ser e não estar professor”.


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