Rei Ecbert confronta Ragnar. Série Vikings. | a centralidade do eu

O crepúsculo do Outro e a coroação do Eu

Em Comportamento, Consciência, Filosofia, Sociedade por Danilo ŠvágeraComentário

Com­pre­en­der uma dada rea­li­dade implica em con­si­de­rar­mos múl­ti­plas visões que, mesmo soma­das, mui­tas vezes podem se mos­trar par­ci­ais e imper­fei­tas por não alcan­ça­rem a tota­li­za­ção dos fatos, como pro­cla­mava Witt­gens­tein. Ape­sar desse empe­ci­lho, o esforço para com­pre­en­der­mos o mundo à nossa volta é tarefa que deve ser revi­si­tada cons­tan­te­mente, caso alme­je­mos trans­cen­der nossa con­di­ção atual. Para tanto, a cora­gem é impres­cin­dí­vel.

Fruto de uma com­ple­xi­dade latente, a moder­ni­dade pos­sui sua gênese no século XVII, tendo como um dos fato­res pro­pul­so­res o coro­a­mento do sujeito enfa­ti­zado por Des­car­tes – sobre­tudo, suas matri­zes per­du­ram até o século pre­sente, impli­cando no ques­ti­o­na­mento ini­cial se já dei­xa­mos de ser moder­nos. Fato é que, daque­les tem­pos até os dias atu­ais, mui­tas con­si­de­ra­ções dis­tin­tas já foram levan­ta­das e, con­se­quen­te­mente, enrai­za­das em nossa cul­tura (embora nossa essên­cia, caso real­mente exista uma, mos­tre-se imu­tá­vel).

Tendo como pres­su­posto tais pala­vras, tenho como obje­tivo ofe­re­cer uma refle­xão sobre a cons­ti­tui­ção do sujeito con­tem­po­râ­neo, tomando como arca­bouço inter­pre­ta­tivo a ascen­são do sub­je­ti­vismo e a con­se­quente exclu­são do outro.

A men­ção à pro­vo­ca­ção, feita no título, sugere que não temos a pre­ten­são dog­má­tica da ver­dade, mas sim que dese­ja­mos cau­sar um pos­sí­vel impacto nas dire­tri­zes tidas como comuns ou acei­tas. E, como último ponto a ser assi­na­lado nesse pre­lú­dio, fare­mos uso da his­tó­ria da filo­so­fia como con­du­tora de nos­sas incur­sões.

Com efeito, a tra­je­tó­ria das ideias passa pelos inte­lec­tu­ais que, de fato, são deter­mi­nan­tes nas con­cep­ções de mundo que encon­tra­mos. Tire­mos a poeira de seus livros, evi­tando come­ter o crime de man­ter­mos tais em meras bibli­o­te­cas e con­dená-los a teo­rias mor­tas e ten­te­mos loca­li­zar, nas obras, nossa fun­da­men­ta­ção. Mesmo cor­rendo o risco de ser­mos con­si­de­ra­dos sim­plis­tas na abor­da­gem da temá­tica, colo­ca­re­mos em movi­mento o ato de pen­sar – e isso, por si só, pode ser con­si­de­rado lou­vá­vel. Com efeito, tomando as pala­vras de Fer­nando Pes­soa:

Se, por um daque­les arti­fí­cios cómo­dos, pelos quais sim­pli­fi­ca­mos a rea­li­dade com o fito de a com­pre­en­der, qui­ser­mos resu­mir numa sín­drome o mal supe­rior por­tu­guês, dire­mos que esse mal con­siste no pro­vin­ci­a­nismo. O facto é triste, mas não nos é pecu­liar. De igual doença enfer­mam mui­tos outros paí­ses, que se con­si­de­ram civi­li­zan­tes com orgu­lho e erro. O prin­cí­pio da cura está na cons­ci­ên­cia da doença, o da ver­dade no conhe­ci­mento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Esta­mos perto de acor­dar, disse Nova­lis, quando sonha­mos que sonha­mos.

 

Intercurso filosófico: a trágica faceta do outro

Tra­di­ci­o­nal­mente, os comen­ta­do­res da filo­so­fia loca­li­zam o sub­je­ti­vismo como fruto estrito da moder­ni­dade – encer­ram na figura de Des­car­tes a pater­ni­dade de tal e, tendo suas teses apro­pri­a­das por outros auto­res, assis­tem à maxi­mi­za­ção do eu: pos­te­ri­or­mente, George Ber­ke­ley enfa­tiza o ego no “ser é ser per­ce­bido”; Kant, em sua obra Crí­tica da Razão Pura, ao men­ci­o­nar a “revo­lu­ção coper­ni­cana” do sujeito; Scho­pe­nhauer, no Mundo como Von­tade e Repre­sen­ta­ção, chega a falar de um egoísmo teó­rico, que seria o grau máximo de sub­je­ti­vi­za­ção, encon­trado em auto­res român­ti­cos como Fichte.

Mui­tos outros auto­res pode­riam ser cita­dos, mas extra­po­la­riam nosso tempo e obje­tivo. De fato, a moder­ni­dade assiste por diver­sos momen­tos pro­po­si­ções filo­só­fi­cas que inci­tam tais colo­ca­ções.

A par­tir desse prisma ini­cial, lan­ce­mos a nossa pro­po­si­ção: nossa defesa é a que, embora Des­car­tes se mos­tre cru­cial para pen­sar­mos a moder­ni­dade, já encon­trá­va­mos sinais da cen­tra­li­dade do sujeito pro­posto pela filo­so­fia desde a Anti­gui­dade. Pas­se­mos a esse momento.

A Gré­cia Antiga mos­tra-se o berço de mui­tas das con­cep­ções oci­den­tais acerca da rea­li­dade, ao raci­o­na­li­zar o mundo e rees­tru­turá-lo a par­tir dos olhos do pen­sa­mento. “Com efeito, a filo­so­fia grega antiga viria a con­ce­ber para o Oci­dente o ideal cos­mo­po­lita de um mundo sem fron­tei­ras”, tra­du­zido no expan­si­o­nismo cul­tu­ral legado até os dias atu­ais. Den­tre as figu­ras de des­ta­que encon­tra­mos Pla­tão, tido como o maior pen­sa­dor hele­nís­tico, que pro­pi­ciou uma gama de refle­xões e ele­va­ram a Gré­cia ao pata­mar refe­rido.

Tal filó­sofo grego, no sétimo capí­tulo de sua obra Repú­blica, nos ofe­rece a tão conhe­cida e con­si­de­rada base estru­tu­ral de sua filo­so­fia: a Ale­go­ria da Caverna. Nela, um con­junto de pri­si­o­nei­ros obser­vam as som­bras e as têm como ver­dade; um dos pri­si­o­nei­ros con­se­gue a liber­ta­ção daquela con­di­ção e, saindo da caverna, pode con­tem­plar a ver­da­deira rea­li­dade. Seu regresso, no entanto, oca­si­o­nará sua morte pelos des­cren­tes em sua vivên­cia no exte­rior da caverna.

Alegoria da Caverna | Platão | a centralidade do eu

Múl­ti­plas inter­pre­ta­ções foram ofe­re­ci­das a esse mito, trans­for­mando-o em uma das mais conhe­ci­das his­tó­rias oci­den­tais. Da epis­te­mo­lo­gia à antro­po­lo­gia, essas várias exe­ge­ses tal­vez não levem em conta um aspecto impor­tante que viria a oca­si­o­nar o fun­da­mento da moder­ni­dade: iden­ti­fi­ca­mos, nas linhas escri­tas por Pla­tão, o coro­a­mento de uma pes­soa em detri­mento das outras, que esta­riam pre­sas à caverna. Sob essa pers­pec­tiva, o sujeito, munido do inte­li­gí­vel que o eleva à con­di­ção de sal­va­dor, é rejei­tado pelos demais – os meros “outros” que per­ma­ne­ce­riam pre­sos num falso mundo.

Como con­sequên­cia das teses epis­te­mo­ló­gi­cas platô­ni­cas, há uma cons­tante sepa­ra­ção entre dois âmbi­tos, a saber:

  • o sen­sí­vel (mundo das opi­niões e sen­ti­dos); e
  • o inte­li­gí­vel (mundo das ideias, no qual a ver­dade reside).

Ao aden­trar­mos na teo­ria, per­ce­be­mos que o outro é aces­sado pelo mundo sen­sí­vel – e, nas cate­go­rias platô­ni­cas, o sen­sí­vel res­gata o falso e o impre­ciso, enquanto o inte­li­gí­vel (pen­sa­mento) o acerto. Assim, a dico­to­mia eu (ver­dade) e outros (fal­si­dade) erige: tomando nes­tes ter­mos, Pla­tão se mos­tra o pri­meiro filó­sofo a dar ênfase à sepa­ra­ção radi­cal entre o eu e os outros.

Dare­mos um salto no tempo, visando lan­çar um olhar inves­ti­ga­tivo àquele con­si­de­rado o ver­da­deiro pai do sub­je­ti­vismo.

Tido como pro­ge­ni­tor da Filo­so­fia Moderna, Des­car­tes enfa­tiza na sua obra Medi­ta­ções a sua des­con­fi­ança a res­peito das tra­di­ções rece­bi­das até então. Segundo o autor, duvi­dar das tra­di­ções seria o pri­meiro passo para dar iní­cio ao ali­cerce que pre­tende cons­truir em sua obra – a ten­ta­tiva de encon­trar uma pri­meira ver­dade. Pas­se­mos à aná­lise de como nosso autor chega até seu obje­tivo. Segundo o pró­prio autor,

Há já algum tempo eu me aper­cebi de que, desde meus pri­mei­ros anos, rece­bera mui­tas fal­sas opi­niões como ver­da­dei­ras, e de que aquilo que depois eu fun­dei em prin­cí­pios tão mal asse­gu­ra­dos não podia ser senão mui duvi­doso e incerto; de modo que me era neces­sá­rio ten­tar seri­a­mente, uma vez em minha vida, des­fa­zer-me de todas as opi­niões a que até então dera cré­dito, e come­çar tudo nova­mente desde os fun­da­men­tos.

Pri­mei­ra­mente, o autor coloca todas as coi­sas em dúvida e, assim, opta por ana­li­sar três fon­tes de conhe­ci­mento tidas como pos­si­vel­mente irre­fu­tá­veis. Os sen­ti­dos, a rea­li­dade e Deus.

No pri­meiro caso, nos diz que os sen­ti­dos não podem ser con­si­de­ra­dos a ver­dade essen­cial, já que pode nos for­ne­cer fal­si­da­des (lem­bre­mos que o autor almeja uma ver­dade clara e dis­tinta – qual­quer par­cela de dúvida já seria fato sufi­ci­ente para o aban­dono). A rea­li­dade, segundo o filó­sofo, tam­bém não ofe­rece esta­tuto de ver­dade, já que pode­mos con­fundi-la com o sonho; Deus, como último recurso, tam­bém é rejei­tado como ver­dade clara, já que pode­ría­mos ser enga­na­dos por um gênio maligno.

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O que resta, segundo Des­car­tes? O pen­sa­mento, já que é ine­gá­vel o fato do ‘eu’ ter duvi­dado durante todo o pro­cesso. Nes­tes ter­mos, penso, logo existo.

Longe de ser uma frase ino­cente, aqui encon­tra­mos a fun­da­men­ta­ção tão acla­mada da moder­ni­dade: a cen­tra­li­dade do sujeito, enclau­su­rado no pen­sa­mento – e a rejei­ção do outro que, tal como Pla­tão, é aces­sado pelos sen­ti­dos (e, estes, fal­sos).

O coro­a­mento que assis­ti­mos do eu está na base de mui­tos fato­res tidos como deter­mi­nan­tes da moder­ni­dade, embora com­pre­en­sí­veis somente a par­tir do prisma do afas­ta­mento do outro: o capi­ta­lismo, como sis­tema econô­mico, debruça-se sobre o sujeito as suas pro­mes­sas meri­to­crá­ti­cas, lan­çando seus ten­tá­cu­los do egoísmo sobre todos; a reforma pro­tes­tante, como ana­li­sada por Weber, pos­sui o esta­tuto her­dado da mesma raiz do capi­ta­lismo – a saber, tam­bém o sujeito; a pró­pria imprensa, tão des­ta­cada como pro­mo­ve­dora do nas­ci­mento da moder­ni­dade, no fundo se reduz ao ‘eu’ e minhas pró­prias ideias no papel.

O mundo assiste pois, a par­tir do século XVII, a cen­tra­li­dade no eu – bela­mente enfa­ti­zada e repre­sen­tada ante­ri­or­mente com o “homem vitru­vi­ano”, de Leo­nardo da Vinci.

Homem Vitruviano | Leonardo Da Vinci | a centralidade do eu

Con­se­quen­te­mente, no século atual, o egoísmo e o sucum­bir da ver­dade impe­ram, oca­si­o­nando a gene­ra­li­zada des­crença assi­na­lada por Lyo­tard na “Con­di­ção Pós-Moderna”.

Uma inte­res­sante inter­pre­ta­ção desta con­jun­tura se dá pelo filme “O senhor das Mos­cas”, ori­gi­nal­mente um livro escrito por Wil­liam Gol­ding. Em sua cena final, Ralph sozi­nho se vê per­se­guido por um grupo de caça­do­res. Embora ante­ri­or­mente o grupo tenha sido coeso, seu des­mem­bra­mento e não acei­ta­ção de Ralph no decor­rer da pelí­cula se dá de igual maneira que no mito da caverna: com efeito, nova­mente temos os outros como pos­sui­do­res da bar­bá­rie e vio­lên­cia, enquanto o ser, sozi­nho, é bom, raci­o­nal e pací­fico.

Outro inte­res­sante filme para pen­sar­mos nessa con­di­ção é “Da Ser­vi­dão Moderna”, ini­ci­al­mente um livro escrito por Jean–Fran­çois Bri­ent e que trata as vicis­si­tu­des da moder­ni­dade e sua tra­je­tó­ria para o fra­casso. Como atesta o autor do livro, ao ser per­gun­tado acerca das suas espe­ran­ças para a rea­li­dade: “meu oti­mismo está base­ado na cer­teza que esta civi­li­za­ção vai des­mo­ro­nar e meu pes­si­mismo em tudo aquilo que ela faz para arras­tar-nos em sua queda.”

 

Considerações finais

Ao apro­pri­ar­mos estra­te­gi­ca­mente da figura de Pla­tão, na Anti­gui­dade, como um pos­sí­vel “avô” do sub­je­ti­vismo e ao des­lo­car o mérito exclu­sivo de Des­car­tes, gos­ta­ría­mos de levan­tar refle­xões que, embora não tenham res­pos­tas ime­di­a­tas, ser­vi­riam para pen­sar­mos em algo nebu­loso e pro­vo­ca­tivo:

Será a crença na nossa cen­tra­li­dade um aspecto a-his­tó­rico e tipi­ca­mente humano? Será um erro das antro­po­lo­gias com carac­te­rís­ti­cas dia­lé­ti­cas con­si­de­rar o homem como um ser que se molda no outro? O homem, ao empe­nhar-se na ajuda do outro, não esta­ria somente ali­men­tando seu desejo de reco­nhe­ci­mento e de culto a si mesmo? Será que o pro­vér­bio latino homo ego sum, homo tu es mos­tra-se dema­si­a­da­mente falso ao colo­car o outro como pos­sí­vel? Sería­mos um homo ego?

A titulo con­clu­sivo, e pro­vo­cando a filó­sofa Olgá­ria Matos, não seria o estran­geiro, citado em seu artigo, uma mera pro­je­ção do eu, tra­ves­tido à minha estrita von­tade, numa cri­a­ção da minha ima­gem e seme­lhança?

No fundo, para­fra­se­ando Scho­pe­nhauer, não seria o mundo minha grande repre­sen­ta­ção?


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Danilo Švágera
Mestre em Educação, professor de Filosofia, ensaísta e palestrante. Depois de vários anos trabalhando em escolas tradicionais, resolveu que era hora de transformar a Educação - ou, ao menos, uma parte dela. Acredita firmemente nos dizeres: "ser e não estar professor".

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