Se tem uma coisa que aceito (se gosto disso ou não, é irrelevante) é que o ser humano é naturalmente incoerente. Somos seres capazes de utilizar a mais pura lógica aristotélica, mas também temos uma estrutura funcional que parece não seguir coerência alguma. É tipo um cristão que ao mesmo tempo acredita em astrologia, ou um budista que ao mesmo tempo acredita que será salvo pela fé em Jesus. A coisa se torna ainda mais complicada e potencialmente criadora de problemas exatamente nesses casos, quando, não satisfeitos com as contradições da configuração padrão do nosso sistema operacional de fábrica, ainda insistimos na contradição voluntária.  

O Coringa estava certo

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“Olha minha cara de Aristóteles!”

Você pode estar questionando o que acabei de dizer. Afinal, somos conhecidos como diferentes dos outros animais justamente pela capacidade de racionalização. E, de fato, por muito tempo pensamos assim. É dessa ideia que vem a chamada Nova Economia Clássica, segundo a qual os seres humanos tomam decisões pesando seus prós e contras para então agir. Bom, de fato, somos potenciais usuários da racionalidade aristotélica – se não fôssemos, seria impossível construirmos proposições lógicas como os silogismos. Mas o ponto que quero demonstrar primeiramente é que não somos naturalmente usuários desses sistemas de pensamento – tanto é que precisamos de treinamento para isso.

No filme Batman: The Dark Knight, o Coringa sai com um pensamento que retrata diversos aspectos da natureza humana de uma só vez. Nos hospital, em frente ao combalido Harvey Dent, o vilão revela que não passa de um cachorro louco, que corre latindo atrás de carros, mas que não saberia o que fazer se conseguisse pegar um deles. Isso não demonstra só o aspecto existencialmente necessitado e deficiente do homo sapiens (e do próprio personagem, mas de maneira mais perturbada), mas também a falha em nosso pensamento linear e lógico.

Nos termos da idealista Nova Economia Clássica, se um cão fosse como o ser humano (isto é, racional), ele pesaria os benefícios e prejuízos de correr atrás da roda de um carro. Se as consequências positivas ganhassem, ele daria uma corridinha e ficaria feliz e realizado se cumprisse sua missão (sendo porque o cão correu suficientemente a ponto de morder o pneu, ou porque o carro parou e ofereceu o prêmio de bandeja pro animal). No entanto, Coringa está certo: é quase certo que não ficássemos tão realizados assim. Primeiro, porque precisamos de uma farpa na mente. Segundo, porque não funcionamos o tempo todo em termos de pesar prós e contras para depois agir, como uma calculadora.

Não é só a cultura pop que percebeu isso. Na verdade, diversos estudos científicos já atestaram a irracionalidade humana há tempos, como os do psicólogo Dan Arielypesquisador na área de economia comportamental

Antes de demonstrar como algumas pesquisas elegantemente simples revelam a previsibilidade da irracionalidade humana, proponho uma analogia muito útil para esclarecer como é para os seres humanos saberem de sua irracionalidade de fábrica. 

Existe uma ilusão de ótica bem manjada, que mostra duas mesas. É como na figura abaixo: uma mesa está na horizontal (direita) e outra, na vertical (esquerda). Agora, olhe o quanto quiser para essa figura e responda qual das mesas é a maior. Muito provavelmente você dirá que a da esquerda é maior. Se respondeu diferente, é provável que já conhecesse a resposta correta, pois se pegarmos uma régua e medirmos os dois desenhos, eles terão o mesmo tamanho Esse é um legítimo caso em que nossos olhos são grosseiramente enganados.

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Qual das duas é a maior?

Mas o mais perturbador disso é que por mais que você saiba a resposta certa, continuará enxergando a da esquerda como a maior das mesas. Com a nossa tomada de decisões irracionais é a mesma coisa. Você pode saber que não temos um cérebro vulcano, uma calculadora a prova de falhas, mas isso não impedirá nada.

O caso da doação de órgãos

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To aqui tentando entender como existem tantos cristãos pós-modernos na minha universidade. Como o cidadão concilia a necessidade de uma crença verdadeira e absoluta em algo, com uma filosofia que prega justamente o relativismo e a inexistência de verdades?

Em uma de suas palestras no TED, Dan Ariely nos conta sobre um curioso caso da vida real (não de situações experimentais de pesquisas): o enigma da doação de órgãos. Parece que na Europa existe uma grande quantidade de países cujos cidadãos escolheram doar seus órgãos quando falecerem – afinal, europeus é que são civilizados, solidários e educados, você deve estar pensando. No entanto, existe outra leva quase igual de países cujos habitantes se recusaram a doar seus órgãos após a morte.

Analisando a lista total de países envolvidos nisso, ninguém foi capaz de extrair nenhum padrão que explicasse o motivo dessa diferença. Países de culturas muito semelhantes se comportaram de modo muito distinto, como foi o caso de Suécia e Dinamarca (para mais detalhes, veja a apresenção), portanto, não poderíamos invocar questões culturais como explicação.

A resposta foi mais simples do que qualquer imaginação kafkaniana podia inventar: o problema era o modo como a pergunta era feita.

A pergunta sobre a doação era sempre feita através de uma questão de marcar “x” num formulário. Em alguns países, a pessoa (i) só deveria assinalar se quisesse doar, já em outros, (ii) os que não queriam é que deveriam marcar.

O que o estudo revelou é que as pessoas tendiam a deixar a pergunta em branco, portanto, (i) quem deveria marcar para se tornar doador acabava deixando em branco, negando a proposta por default, enquanto (ii) quem tinha que assinar para negar a proposta, acabava se tornando doador por omissão.

Ora, o que causou toda essa confusão? Mera preguiça? Talvez sim, pois parece que subestimamos a complexidade de certas decisões diárias, e em situações muito custosas, tendemos a deixar que “outros” decidam por nós. Aparentemente, se estamos mortos, não ligamos muito para o que farão com nosso cadáver, mas na verdade não raciocinamos de modo tão simplista assim. Portanto, ao invés de matutar sobre isso, deixamos que o próprio questionário resolva o dilema.

O caso do amigo [ligeiramente] mais feio que você

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Chegando na balada com um cara ligeiramente mais feio que eu.

Da mesma forma que nos consideramos muito capazes de responder a uma simples pergunta sobre doação de órgãos, também achamos que somos ótimos escolhedores de parceiros e analistas de beleza. Bom, parece que na verdade,não conhecemos tão bem nossos próprios padrões estéticos.

Ariely conduziu um estudo muito interessante. Ele criou faces num programa de computador e as mostrou para um grupo de pessoas dizer qual era a mais bonita. Apresento-lhes, logo abaixo Tom e Jerry.

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As classificações de beleza não diferiram muito, ou seja, quantidades mais ou menos iguais de pessoas classificaram as duas faces como atraentes. No entanto, o estudo tinha outra condição. Numa segunda etapa, era acrescentada uma outra face e os participantes tinham que escolher qual das três era a mais bela. A diferença nessa condição é que, além de ter um rosto a mais, esse rosto era uma versão ligeiramente assimétrica de um ou de outro. Se a nova face fosse uma variação de Jerry, então Jerry era considerado o mais bonito de todos a maior parte das vezes. Se o rosto modificado fosse o de Tom, Tom era escolhido como o galã da vez.

Por mais que os participantes da pesquisa tivessem estilos de beleza muito bem definidos em suas mentes, na hora de escolher, fatores de influência externos interferiam muito em seu comportamento. O que mais isso nos revela? Bom, se você não possui uma beleza estonteante, talvez seja bem vantajoso sair com um amigo ligeiramente mais feio que você (infame, eu sei).

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Há muitos outros exemplos de comportamento irracional que poderiam levantar perturbadoras questões sobre diversas certezas que temos sobre nós mesmos, inclusive sobre nossa capacidade de exercer julgamentos morais. De qualquer forma, há rica fonte de material, se você quiser se aprofundar, em periódicos científicos (Journal of Consumer Research, Journal of marketing research, Marketing Science, Journal of Consumer Psychology, Journal of Behavioral Decision são alguns).

Elementar, meu caro Watson

coringa spock Benedict Cumberbatch and Martin Freeman as Sherlock Holmes and John Watson drunk and playing 20 questions in BBC Sherlock Season 3 Episode 2 The Sign of Three
Calma, nem tudo está perdido. Até Sherlock Holmes fica meio confuso às vezes.

Nos últimos anos temos visto o aumento no número de certas publicações exaltando o papel da irracionalidade, só que com um nome um pouco mais inofensivo: intuição. Em Blink, por exemplo, o jornalista Malcolm Gladwell diz que temos muito a lucrar com o uso da intuição, afinal,  a solução dos mais intrincados problemas simplesmente brotam em nossas cabeças, sem nos engajarmos em longas e custosas análises racionais.

A despeito do fato de Gladwell parecer não ter levado em conta estudos como os de Ariely, que mostram a face obscura dessa configuração padrão da mente humana, parece também não ter levado em conta que a intuição geralmente não é muito eficiente se previamente não tivermos um amplo conhecimento sobre determinado assunto. Sem vasto domínio de física, Einstein nunca teria chegado tão naturalmente às teorias da Relatividade – que fez não de maneira súbita, mas depois de longos anos de cálculos e reflexões. Sem conhecer o mundo dos beatniks e do zen-budismo japonês, Steve Jobs nunca teria elaborado todo um novo conceito estético para a tecnologia pessoal e simples dos computadores e smartphones atuais.

É nesse sentido que um outro jornalista, Michael LeGault, argumenta em Think. Nesse livro, o autor faz questão de fazer uma defesa apaixonada (e fundamentada) do uso da razão para a resolução e análise de problemas de natureza pessoal e até empresarial. Segundo ele, existe a intuição, mas é melhor fazer a nossa parte e tentarmos usar de todo nosso poder racional para analisar uma dada situação e levantar explicações e soluções. Daí o benefício da filosofia e da ciência, ele defende. Se ficássemos somente reféns do pensamento não sistematizado, empreendimentos de filósofos e cientistas nunca teriam saído do papel, e ainda estaríamos sujeitos a péssimas escolhas no âmbito cotidiano, como mostram os experimentos de Dan Ariely.

No fim das contas, todo esse palavrório significa que devemos primeiro investigar como somos, para depois chegarmos a como devemos usar o que somos para chegar a onde queremos. Não adianta, por exemplo, desejar a paz mundial, se antes não entendemos os mecanismos que fazem com que o Homo sapiens seja tão belicoso em certas circunstâncias. Aceitar nossa precariedade não é se conformar e desistir de alçar voos maiores.

A arte de não abraçar tudo que vemos pela frente

É difícil estabelecer uma conclusão geral, mas o que quero mostrar é que assumir que somos previsivelmente irracionais não quer dizer que devemos abraçar totalmente essa irracionalidade e transformar o mundo num caos.

Como mostrei, mesmo que não queiramos, a irracionalidade vai estar presente no cotidiano, estejamos nós em casa ou no trabalho. Sendo assim, resolver ser irracional e incoerente de propósito é simplesmente adicionar mais irracionalidade à sua vida – e com esse risco vêm outros mais perigosos, como o de ser passado para trás numa compra, num negócio.

No entanto, para além dessas situações pragmáticas, materiais, existe a questão da própria coerência interna da nossa vida. Um dos mais importantes indicadores existenciais na vida humana é o sentido de vida, e ele só se faz presente de maneira saudável quando conseguimos aliar o que pensamos, o que pregamos e o que fazemos. Se existe uma assimetria aí, é provável que sejamos despejados, cedo ou tarde, num limbo de crise existencial.

Isso pode soar paradoxal, pode dar nó nas suas circunvoluções corticais, mas no final das contas é melhor perseguirmos esse horizonte da coerência, muito embora saibamos que nunca chegaremos lá, afinal, todos sabem que o horizonte é uma ilusão sensorial, assim como a coerência absoluta, mas é uma daquelas coisas que não podemos desistir de continuar buscando.

escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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