O Coringa estava certo: não somos mesmo como Spock

O Coringa estava certo: não somos mesmo como Spock

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Felipe NovaesComentários

Se tem uma coisa que aceito (se gosto disso ou não, é irre­le­vante) é que o ser humano é natu­ral­mente inco­e­rente. Somos seres capa­zes de uti­li­zar a mais pura lógica aris­to­té­lica, mas tam­bém temos uma estru­tura fun­ci­o­nal que parece não seguir coe­rên­cia alguma. É tipo um cris­tão que ao mesmo tempo acre­dita em astro­lo­gia, ou um budista que ao mesmo tempo acre­dita que será salvo pela fé em Jesus. A coisa se torna ainda mais com­pli­cada e poten­ci­al­mente cri­a­dora de pro­ble­mas exa­ta­mente nes­ses casos, quando, não satis­fei­tos com as con­tra­di­ções da con­fi­gu­ra­ção padrão do nosso sis­tema ope­ra­ci­o­nal de fábrica, ainda insis­ti­mos na con­tra­di­ção volun­tá­ria.  

O Coringa estava certo

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Olha minha cara de Aris­tó­te­les!”

Você pode estar ques­ti­o­nando o que aca­bei de dizer. Afi­nal, somos conhe­ci­dos como dife­ren­tes dos outros ani­mais jus­ta­mente pela capa­ci­dade de raci­o­na­li­za­ção. E, de fato, por muito tempo pen­sa­mos assim. É dessa ideia que vem a cha­mada Nova Eco­no­mia Clás­sica, segundo a qual os seres huma­nos tomam deci­sões pesando seus prós e con­tras para então agir. Bom, de fato, somos poten­ci­ais usuá­rios da raci­o­na­li­dade aris­to­té­lica — se não fôs­se­mos, seria impos­sí­vel cons­truir­mos pro­po­si­ções lógi­cas como os silo­gis­mos. Mas o ponto que quero demons­trar pri­mei­ra­mente é que não somos natu­ral­mente usuá­rios des­ses sis­te­mas de pen­sa­mento — tanto é que pre­ci­sa­mos de trei­na­mento para isso.

No filme Bat­man: The Dark Knight, o Coringa sai com um pen­sa­mento que retrata diver­sos aspec­tos da natu­reza humana de uma só vez. Nos hos­pi­tal, em frente ao com­ba­lido Har­vey Dent, o vilão revela que não passa de um cachorro louco, que corre latindo atrás de car­ros, mas que não sabe­ria o que fazer se con­se­guisse pegar um deles. Isso não demons­tra só o aspecto exis­ten­ci­al­mente neces­si­tado e defi­ci­ente do homo sapi­ens (e do pró­prio per­so­na­gem, mas de maneira mais per­tur­bada), mas tam­bém a falha em nosso pen­sa­mento linear e lógico.

Nos ter­mos da ide­a­lista Nova Eco­no­mia Clás­sica, se um cão fosse como o ser humano (isto é, raci­o­nal), ele pesa­ria os bene­fí­cios e pre­juí­zos de cor­rer atrás da roda de um carro. Se as con­sequên­cias posi­ti­vas ganhas­sem, ele daria uma cor­ri­di­nha e fica­ria feliz e rea­li­zado se cum­prisse sua mis­são (sendo por­que o cão cor­reu sufi­ci­en­te­mente a ponto de mor­der o pneu, ou por­que o carro parou e ofe­re­ceu o prê­mio de ban­deja pro ani­mal). No entanto, Coringa está certo: é quase certo que não ficás­se­mos tão rea­li­za­dos assim. Pri­meiro, por­que pre­ci­sa­mos de uma farpa na mente. Segundo, por­que não fun­ci­o­na­mos o tempo todo em ter­mos de pesar prós e con­tras para depois agir, como uma cal­cu­la­dora.

Não é só a cul­tura pop que per­ce­beu isso. Na ver­dade, diver­sos estu­dos cien­tí­fi­cos já ates­ta­ram a irra­ci­o­na­li­dade humana há tem­pos, como os do psi­có­logo Dan Ari­elypes­qui­sa­dor na área de eco­no­mia com­por­ta­men­tal

Antes de demons­trar como algu­mas pes­qui­sas ele­gan­te­mente sim­ples reve­lam a pre­vi­si­bi­li­dade da irra­ci­o­na­li­dade humana, pro­po­nho uma ana­lo­gia muito útil para escla­re­cer como é para os seres huma­nos sabe­rem de sua irra­ci­o­na­li­dade de fábrica. 

Existe uma ilu­são de ótica bem man­jada, que mos­tra duas mesas. É como na figura abaixo: uma mesa está na hori­zon­tal (direita) e outra, na ver­ti­cal (esquerda). Agora, olhe o quanto qui­ser para essa figura e res­ponda qual das mesas é a maior. Muito pro­va­vel­mente você dirá que a da esquerda é maior. Se res­pon­deu dife­rente, é pro­vá­vel que já conhe­cesse a res­posta cor­reta, pois se pegar­mos uma régua e medir­mos os dois dese­nhos, eles terão o mesmo tama­nho Esse é um legí­timo caso em que nos­sos olhos são gros­sei­ra­mente enga­na­dos.

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Qual das duas é a maior?

Mas o mais per­tur­ba­dor disso é que por mais que você saiba a res­posta certa, con­ti­nu­ará enxer­gando a da esquerda como a maior das mesas. Com a nossa tomada de deci­sões irra­ci­o­nais é a mesma coisa. Você pode saber que não temos um cére­bro vul­cano, uma cal­cu­la­dora a prova de falhas, mas isso não impe­dirá nada.

O caso da doação de órgãos

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To aqui ten­tando enten­der como exis­tem tan­tos cris­tãos pós-moder­nos na minha uni­ver­si­dade. Como o cida­dão con­ci­lia a neces­si­dade de uma crença ver­da­deira e abso­luta em algo, com uma filo­so­fia que prega jus­ta­mente o rela­ti­vismo e a ine­xis­tên­cia de ver­da­des?

Em uma de suas pales­tras no TED, Dan Ari­ely nos conta sobre um curi­oso caso da vida real (não de situ­a­ções expe­ri­men­tais de pes­qui­sas): o enigma da doa­ção de órgãos. Parece que na Europa existe uma grande quan­ti­dade de paí­ses cujos cida­dãos esco­lhe­ram doar seus órgãos quando fale­ce­rem — afi­nal, euro­peus é que são civi­li­za­dos, soli­dá­rios e edu­ca­dos, você deve estar pen­sando. No entanto, existe outra leva quase igual de paí­ses cujos habi­tan­tes se recu­sa­ram a doar seus órgãos após a morte.

Ana­li­sando a lista total de paí­ses envol­vi­dos nisso, nin­guém foi capaz de extrair nenhum padrão que expli­casse o motivo dessa dife­rença. Paí­ses de cul­tu­ras muito seme­lhan­tes se com­por­ta­ram de modo muito dis­tinto, como foi o caso de Sué­cia e Dina­marca (para mais deta­lhes, veja a apre­sen­ção), por­tanto, não pode­ría­mos invo­car ques­tões cul­tu­rais como expli­ca­ção.

A res­posta foi mais sim­ples do que qual­quer ima­gi­na­ção kaf­ka­ni­ana podia inven­tar: o pro­blema era o modo como a per­gunta era feita.

A per­gunta sobre a doa­ção era sem­pre feita atra­vés de uma ques­tão de mar­car “x” num for­mu­lá­rio. Em alguns paí­ses, a pes­soa (i) só deve­ria assi­na­lar se qui­sesse doar, já em outros, (ii) os que não que­riam é que deve­riam mar­car.

O que o estudo reve­lou é que as pes­soas ten­diam a dei­xar a per­gunta em branco, por­tanto, (i) quem deve­ria mar­car para se tor­nar doa­dor aca­bava dei­xando em branco, negando a pro­posta por default, enquanto (ii) quem tinha que assi­nar para negar a pro­posta, aca­bava se tor­nando doa­dor por omis­são.

Ora, o que cau­sou toda essa con­fu­são? Mera pre­guiça? Tal­vez sim, pois parece que subes­ti­ma­mos a com­ple­xi­dade de cer­tas deci­sões diá­rias, e em situ­a­ções muito cus­to­sas, ten­de­mos a dei­xar que “outros” deci­dam por nós. Apa­ren­te­mente, se esta­mos mor­tos, não liga­mos muito para o que farão com nosso cadá­ver, mas na ver­dade não raci­o­ci­na­mos de modo tão sim­plista assim. Por­tanto, ao invés de matu­tar sobre isso, dei­xa­mos que o pró­prio ques­ti­o­ná­rio resolva o dilema.

O caso do amigo [ligeiramente] mais feio que você

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Che­gando na balada com um cara ligei­ra­mente mais feio que eu.

Da mesma forma que nos con­si­de­ra­mos muito capa­zes de res­pon­der a uma sim­ples per­gunta sobre doa­ção de órgãos, tam­bém acha­mos que somos óti­mos esco­lhe­do­res de par­cei­ros e ana­lis­tas de beleza. Bom, parece que na verdade,não conhe­ce­mos tão bem nos­sos pró­prios padrões esté­ti­cos.

Ari­ely con­du­ziu um estudo muito inte­res­sante. Ele criou faces num pro­grama de com­pu­ta­dor e as mos­trou para um grupo de pes­soas dizer qual era a mais bonita. Apre­sento-lhes, logo abaixo Tom e Jerry.

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As clas­si­fi­ca­ções de beleza não dife­ri­ram muito, ou seja, quan­ti­da­des mais ou menos iguais de pes­soas clas­si­fi­ca­ram as duas faces como atra­en­tes. No entanto, o estudo tinha outra con­di­ção. Numa segunda etapa, era acres­cen­tada uma outra face e os par­ti­ci­pan­tes tinham que esco­lher qual das três era a mais bela. A dife­rença nessa con­di­ção é que, além de ter um rosto a mais, esse rosto era uma ver­são ligei­ra­mente assi­mé­trica de um ou de outro. Se a nova face fosse uma vari­a­ção de Jerry, então Jerry era con­si­de­rado o mais bonito de todos a maior parte das vezes. Se o rosto modi­fi­cado fosse o de Tom, Tom era esco­lhido como o galã da vez.

Por mais que os par­ti­ci­pan­tes da pes­quisa tives­sem esti­los de beleza muito bem defi­ni­dos em suas men­tes, na hora de esco­lher, fato­res de influên­cia exter­nos inter­fe­riam muito em seu com­por­ta­mento. O que mais isso nos revela? Bom, se você não pos­sui uma beleza eston­te­ante, tal­vez seja bem van­ta­joso sair com um amigo ligei­ra­mente mais feio que você (infame, eu sei).

coringa spock Forma B

Há mui­tos outros exem­plos de com­por­ta­mento irra­ci­o­nal que pode­riam levan­tar per­tur­ba­do­ras ques­tões sobre diver­sas cer­te­zas que temos sobre nós mes­mos, inclu­sive sobre nossa capa­ci­dade de exer­cer jul­ga­men­tos morais. De qual­quer forma, há rica fonte de mate­rial, se você qui­ser se apro­fun­dar, em perió­di­cos cien­tí­fi­cos (Jour­nal of Con­su­mer Rese­arch, Jour­nal of mar­ke­ting rese­arch, Mar­ke­ting Sci­ence, Jour­nal of Con­su­mer Psy­cho­logy, Jour­nal of Beha­vi­o­ral Deci­sion são alguns).

Elementar, meu caro Watson

coringa spock Benedict Cumberbatch and Martin Freeman as Sherlock Holmes and John Watson drunk and playing 20 questions in BBC Sherlock Season 3 Episode 2 The Sign of Three

Calma, nem tudo está per­dido. Até Sher­lock Hol­mes fica meio con­fuso às vezes.

Nos últi­mos anos temos visto o aumento no número de cer­tas publi­ca­ções exal­tando o papel da irra­ci­o­na­li­dade, só que com um nome um pouco mais ino­fen­sivo: intui­ção. Em Blink, por exem­plo, o jor­na­lista Mal­colm Gladwell diz que temos muito a lucrar com o uso da intui­ção, afi­nal,  a solu­ção dos mais intrin­ca­dos pro­ble­mas sim­ples­mente bro­tam em nos­sas cabe­ças, sem nos enga­jar­mos em lon­gas e cus­to­sas aná­li­ses raci­o­nais.

A des­peito do fato de Gladwell pare­cer não ter levado em conta estu­dos como os de Ari­ely, que mos­tram a face obs­cura dessa con­fi­gu­ra­ção padrão da mente humana, parece tam­bém não ter levado em conta que a intui­ção geral­mente não é muito efi­ci­ente se pre­vi­a­mente não tiver­mos um amplo conhe­ci­mento sobre deter­mi­nado assunto. Sem vasto domí­nio de física, Eins­tein nunca teria che­gado tão natu­ral­mente às teo­rias da Rela­ti­vi­dade — que fez não de maneira súbita, mas depois de lon­gos anos de cál­cu­los e refle­xões. Sem conhe­cer o mundo dos beat­niks e do zen-budismo japo­nês, Steve Jobs nunca teria ela­bo­rado todo um novo con­ceito esté­tico para a tec­no­lo­gia pes­soal e sim­ples dos com­pu­ta­do­res e smartpho­nes atu­ais.

É nesse sen­tido que um outro jor­na­lista, Michael LeGault, argu­menta em Think. Nesse livro, o autor faz ques­tão de fazer uma defesa apai­xo­nada (e fun­da­men­tada) do uso da razão para a reso­lu­ção e aná­lise de pro­ble­mas de natu­reza pes­soal e até empre­sa­rial. Segundo ele, existe a intui­ção, mas é melhor fazer a nossa parte e ten­tar­mos usar de todo nosso poder raci­o­nal para ana­li­sar uma dada situ­a­ção e levan­tar expli­ca­ções e solu­ções. Daí o bene­fí­cio da filo­so­fia e da ciên­cia, ele defende. Se ficás­se­mos somente reféns do pen­sa­mento não sis­te­ma­ti­zado, empre­en­di­men­tos de filó­so­fos e cien­tis­tas nunca teriam saído do papel, e ainda esta­ría­mos sujei­tos a pés­si­mas esco­lhas no âmbito coti­di­ano, como mos­tram os expe­ri­men­tos de Dan Ari­ely.

No fim das con­tas, todo esse pala­vró­rio sig­ni­fica que deve­mos pri­meiro inves­ti­gar como somos, para depois che­gar­mos a como deve­mos usar o que somos para che­gar a onde que­re­mos. Não adi­anta, por exem­plo, dese­jar a paz mun­dial, se antes não enten­de­mos os meca­nis­mos que fazem com que o Homo sapi­ens seja tão beli­coso em cer­tas cir­cuns­tân­cias. Acei­tar nossa pre­ca­ri­e­dade não é se con­for­mar e desis­tir de alçar voos mai­o­res.

A arte de não abraçar tudo que vemos pela frente

É difí­cil esta­be­le­cer uma con­clu­são geral, mas o que quero mos­trar é que assu­mir que somos pre­vi­si­vel­mente irra­ci­o­nais não quer dizer que deve­mos abra­çar total­mente essa irra­ci­o­na­li­dade e trans­for­mar o mundo num caos.

Como mos­trei, mesmo que não quei­ra­mos, a irra­ci­o­na­li­dade vai estar pre­sente no coti­di­ano, este­ja­mos nós em casa ou no tra­ba­lho. Sendo assim, resol­ver ser irra­ci­o­nal e inco­e­rente de pro­pó­sito é sim­ples­mente adi­ci­o­nar mais irra­ci­o­na­li­dade à sua vida — e com esse risco vêm outros mais peri­go­sos, como o de ser pas­sado para trás numa com­pra, num negó­cio.

No entanto, para além des­sas situ­a­ções prag­má­ti­cas, mate­ri­ais, existe a ques­tão da pró­pria coe­rên­cia interna da nossa vida. Um dos mais impor­tan­tes indi­ca­do­res exis­ten­ci­ais na vida humana é o sen­tido de vida, e ele só se faz pre­sente de maneira sau­dá­vel quando con­se­gui­mos aliar o que pen­sa­mos, o que pre­ga­mos e o que faze­mos. Se existe uma assi­me­tria aí, é pro­vá­vel que seja­mos des­pe­ja­dos, cedo ou tarde, num limbo de crise exis­ten­cial.

Isso pode soar para­do­xal, pode dar nó nas suas cir­cun­vo­lu­ções cor­ti­cais, mas no final das con­tas é melhor per­se­guir­mos esse hori­zonte da coe­rên­cia, muito embora sai­ba­mos que nunca che­ga­re­mos lá, afi­nal, todos sabem que o hori­zonte é uma ilu­são sen­so­rial, assim como a coe­rên­cia abso­luta, mas é uma daque­las coi­sas que não pode­mos desis­tir de con­ti­nuar bus­cando.

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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