1. O copiloto

 

Este é um fato que precisa ser lembrado no futuro.

Na terça-feira, dia 24 de março de 2015, Andreas Lubitz saiu do hotel e foi ao trabalho. E seu trabalho naquela manhã consistia em conduzir, ao lado do piloto Patrick Sondenheimer, uma aeronave modelo Airbus A320 de Barcelona para Düsseldoff. O voo era identificado pelo código 4U9525.

Às nove horas e cinquenta e cinco minutos, horário local, a aeronave decolou.

Piloto e copiloto ergueram no ar, graças às maravilhas da física aplicada e do gênio humano, mais de 93 toneladas de aço pertencentes à Germanwings, uma companhia aérea de baixo custo controlada pela poderosa Lufthansa. No ventre dessa criatura metálica que cortava as nuvens europeias, além do piloto e copiloto, havia 4 outros tripulantes e 144 passageiros.

Entre os passageiros, encontravam-se 2 bebês e 16 crianças.

Andreas, porém, decidiu que não conduziria a aeronave até Düsseldorf. Ao contrário, seu plano consistia em pular todos os destinos futuros de cada uma daquelas outras 149 pessoas e transportá-las diretamente ao destino final de qualquer ser vivente.

Mas, e aqui está o detalhe importante que justifica todo o relato, esse não era o objetivo principal de Andreas Lubitz. O objetivo principal de Anreas Lubitz consistia em eliminar a vida de uma pessoa em particular – a sua própria. Os outros 149 seres humanos eram apenas o sacrifício necessário para Andreas ir embora de um modo especial.

Sim, o copiloto Andreas Lubitz queria morrer em grande estilo: tornando-se piloto no sentido mais definitivo e poderoso dessa palavra – alguém que detém a palavra final sobre o destino dos passageiros que conduz.

Assim, em algum momento próximo das dez horas e trinta minutos da manhã, Andreas arremessou aquelas 93 toneladas contendo mais 149 seres humanos, dentre as quais 2 bebês e 16 crianças, contra as rochas dos Alpes no Sul da França.

A queda do voo 4U9525 durou oito minutos.

 

2. O véu

 

É impossível chegar a qualquer conclusão diante desse relato. Mesmo essa versão dos fatos ainda não está suficientemente confirmada pelos indícios, embora os indícios sejam fortes. Mas se comprovada, logo seguirão análises de especialistas sobre as motivações de Andrea Lubitz e seus possíveis transtornos mentais.

Prefiro abordar o assunto sob uma perspectiva mais universal e simbólica, fazendo as seguintes perguntas:

Qual a visão de mundo de alguém que é capaz de matar dezenas de pessoas num só golpe, mantendo firmemente o rumo suicida e homicida de um avião durante 8 minutos? Algo dessa concepção de mundo está arraigada em nossa sociedade de modo nocivo, ou essa concepção é totalmente estranha a nossa sociedade?

Certamente Andreas Lubitz não considerava os 149 passageiros e tripulantes do voo 4U9525 como seres humanos reais, mas como objetos à disposição de seu projeto pessoal – e suicida. Em outras palavras, enxergava tais pessoas como meros figurantes de sua própria vida particular.

É seguro supor que o copiloto tenha vivido durante anos sob aquele véu que nos envolve inteiramente na infância, mas que devemos ir retirando no caminho para a vida adulta.

Tal véu, quando cobre a mente de alguém, possui um tipo de poder mágico. Através dele, você enxerga tudo ao seu redor como mera projeção de quem você é. Graças a esse véu que ilude as crianças, os idiotas e os radicais de toda ideologia e credo, a pessoa age e sente como se ela fosse o centro do universo.

Seus desejos são imperativos. Seus valores, predominantes. Pode até ser que a vítima do véu, envergonhada, não admita nem para si mesma que as coisas funcionam assim na sua cabeça – e para isso há um infinito número de mentiras, justificativas e racionalizações graças as quais ela explica a si própria que não está sendo egoísta. Quem usa esse véu pensa em si como o protagonista de um longo e idealmente belo filme, enquanto todas as demais pessoas são, em maior ou menor grau, meros coadjuvantes no roteiro.

Alguns desses coadjuvantes são simples figurantes, como os estranhos da fila do supermercado. Outros têm uma importância decisiva na nossa história, como quem escolhemos para casar. Todos, porém, são coadjuvantes, e jamais protagonistas, na vida de quem é incapaz de se livrar do véu.

Quem já conviveu o suficiente com uma criança nos seus primeiros anos percebe que, a princípio, seu mundo gira em torno de seus interesses, e só gradualmente (mais rápido para alguns, mais lento para outros), ela vai percebendo que há outras crianças com essa exata pretensão ao seu redor.  O véu é parte de nosso condicionamento animal que impõem a sobrevivência como prioritária. A tendência é que não precisemos mais dele quando amadurecemos, pois somos capazes de reconhecer o mundo tal como ele é, gostemos ou não.

Andreas Lubitz, possivelmente, vivia sob esse véu ainda enquanto era adulto.

Claro, apenas isso não justifica a atitude do copiloto. Em relação a todos os complexos fatores que levaram aquele sujeito a cometer tal atrocidade, os especialistas podem dar a última palavra. Mas com certeza um fator estava presente, de forma necessária, em sua visão de mundo. Um fator sem o qual Andreas seria incapaz de matar 149 pessoas que mal conhecia: para ele, os outros não existiam enquanto seres humanos donos de sua própria história.

Infelizmente, isso não é exclusividade de Andreas. A verdade é que não são poucas as pessoas que levam suas vidas como se todos fossem seus coadjuvantes.

E se assim for, estamos diante de uma característica da sociedade em que Andreas nasceu, e da qual somos herdeiros: tentamos permanecer num estado de semi-infantilidade, e somos a isso estimulados talvez porque isso nos torna mais dóceis, mais infantilizados e manipuláveis.

 

3. A sociedade dos coadjuvantes

 

Em 2006, uma equipe de psicólogos publicou os resultados de um experimento chamado  The Psychological Consequences of Money (“As Consequências Psicológicas do Dinheiro”). Essencialmente, durante o experimento, mensagens subliminares sobre questões financeiras foram enviadas a um grupo de voluntários. O teste, realizado de forma criteriosa, apresentou uma conclusão comprovada estatisticamente: quando as pessoas estão submetidas a um contexto em que o dinheiro é um assunto onipresente, ainda que nas entrelinhas, elas se tornam mais obstinadas, mas ao mesmo tempo mais individualistas.

Multiplique essa super-exposição ao assunto “dinheiro” e teremos o dia comum de um adulto. Somos rotineiramente submetidos à pressão de nossas finanças. Somos lembrados do poder do dinheiro em cada notícia que ouvimos, em cada conversa com nossos colegas e familiares, em cada desafio de nossas vidas.

Esse tema tornou-se onipresente também graças a publicidade. Sobre o tema, há uma série de documentários da BBC, intitulada The Century of the Self (O Século do Eu) que demonstra o desenvolvimento dos anúncios publicitários ao longo do século XX.

A publicidade descobriu, durante o ápice da contracultura nas décadas de 60 e 70 do século passado, que as pessoas querem é ser felizes, e não comprar coisas. E desde então a publicidade se encarregou de estabelecer uma estreita associação entre o desejo de feliz e a posse de algum bem material que, por um golpe de mágica, se apresenta como uma espécie de chave para abrir as portas de uma vida plena e autêntica.

Logo, somos bombardeados rotineiramente com a ideia de que ter dinheiro para consumir é uma exigência prática de quem busca ser feliz. E o próprio conceito de felicidade, para manter a atenção contínua do consumidor, evolui até se tornar um ideal inatingível – tal como o ideal do corpo perfeito. Do anseio pelo inatingível – a felicidade plena, o gozo pleno, a vida plena – surgem nossas neuroses.

Nesse contexto, muitos de nós permanecem com o véu mágico em torno de suas cabeças mesmo depois de ficarem adultos. Os consumidores são mais ávidos e abertos ao poder da sugestão se dormirem ao som de uma cantiga de ninar que repete o quanto são especiais e como isso pode ser visível por tudo aquilo que podem pagar. Como a maior parte dos seres humanos carece de imaginação, a suprema necessidade de confirmar esse anseio de ser protagonista num mundo abarrotado de outros seres humanos nos torna presas fáceis para qualquer discurso político, religioso ou publicitário que nos garanta algumas dicas sobre a construção de nosso roteiro.

Mas calma. Nada de sair nas ruas e queimar os terminais bancários, criançada. Nada de culpar a economia de mercado e mesmo o consumo de bens materiais. Comprar um celular legal é bacana. Adquirir um carro pode ser uma necessidade e, em alguns casos, um conforto merecido. O problema é quando compramos um celular exorbitantemente caro sem realmente precisar das funcionalidades extras que oferece. O problema é quando trocamos o carro sempre que surge um novo modelo que desvaloriza o nosso, para não perdermos dinheiro – o que faz as fábricas apresentarem novos modelos com frequência. A economia de mercado e a publicidade são instrumentos, que podem ser usadas para construir ou destruir, conduzir à lucidez ou cegar nossos olhos. O problema é como usamos esses instrumentos.

Da mesma forma, as redes sociais virtualmente vendem, para fins publicitários, a ideia de que podemos criar uma personalidade social agradável ao compartilharmos com centenas/milhares de amigos algo de nossa vida interessante ou algo que agradou ao nosso gosto interessante. E nisso receberemos aprovação social através de curtidas ou compartilhamentos que, rigorosamente falando, tentam suprir algo que só o olhar e o gesto humano presencial podem suprir.


Mas as redes sociais não são as culpadas. Elas são instrumentos que também podem ser usados para elucidar, e não manipular, para construir, e não destruir.

O problema é que deixamos as redes sociais, assim como a publicidade dos outros meios de entretenimento, manterem sob nossas cabeças o véu que nos faz crianças ainda depois de adultos.

E o importante é descobrirmos, individual e coletivamente, formas de usarmos esses instrumentos para nos deixar mais lúcidos. E a lucidez começa quando rasgamos o enredo no qual somos o personagem principal.

 

4. Nossa novela individual

 

Todos o dias, pessoas acordam e retomam dentro de suas mentes uma espécie de longa novela, na qual cada uma delas é a protagonista e os outros só interessam na medida exata em que desempenham corretamente o papel desejado. Essa novela tem, inclusive, um nome: Narcisismo.

Esse narcisismo é uma das maiores causas de sofrimento em todas as relações humanas. Se um coadjuvante se nega a seguir as falas e gestos que estão no roteiro pessoal (pior, se alguém nos dá sinais de que acredita ser ele próprio o protagonista de sua vida), o narcisista tratará de eliminar sua presença cenográfica, nem que seja ignorando-o e deixando sem fala.

Mas a nossa sociedade amplificou a audiência da novela Narcisismo, e nosso estilo de vida estimula que o véu ilusório da infância permaneça durante a fase adulta. Isso tem impacto cada vez maior em nossa vida cotidiana, mas só é revelado claramente quando um narcisista, motivado também por outros fatores, comete um crime.

Para o político corrupto que desvia valores destinados à assistência social, os necessitados que deixarão de ser atendidos são apenas figurantes sem rostos.

Para o motorista que atropela um ciclista e foge, sua vítima é apenas um golpe de azar lamentavelmente irreversível, uma reviravolta no seu roteiro pessoal.

Para Andreas Lubitz, aqueles 149 coadjuvantes tinham um papel a seguir.

Ele teve facilidade para trancar-se na cabine de comando pois um dispositivo instalado nas aeronaves a partir do ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 impedia que ela fosse aberta do lado de fora. O piloto Patrick Sondenheimer, como documentou uma das caixas pretas, tentou romper a porta com um machado sem sucesso.

5. O piloto

 

Para o filósofo Slavoj Zizek, o século 21 começou apenas no 11 de setembro, pois o sequestro de dois aviões e seu choque contra as Torres Gêmeas de Nova Iorque teve um poderoso impacto em toda a civilização ocidental. Curiosamente, um dispositivo para manter os inimigos estrangeiros do lado de fora da cabine, e assim evitar sequestros políticos de aeronaves, foi projetado esquecendo-se do inimigo interno, e isso facilitou um ato de terrorismo individual.

A sociedade ocidental, talvez até justificadamente, previne-se contra o terror externo, mas ignora completamente o terror interno. E o terror interno é o fato de que cada vez mais enxergamos os outros como coadjuvantes de nossas vidas individuais.

Porém, o século 21 parece ter surgido com o desafio de lidarmos, e não necessariamente de combatermos, os nossos medos, os nossos terrores – tanto aqueles que projetamos nos outros como aqueles que reconhecemos como pertencentes a nós.

O terror jamais se combate com a força, pois ele é como um líquido que se infiltra no material com que é atacado. O terror é combatido com a eliminação de todos os véus: os véus nas cabeças daqueles que combatem o terror e os véus nas cabeças de todos aqueles que perpetram o terror, sejam esses últimos membros de grupos fundamentalistas ou sejam potenciais indivíduos que contabilizariam 149 mortes como uma cifra razoável para produzir o efeito desejado em um suicídio abominável.

Mas já que estamos falando de um copiloto que revelou o terror que está no meio de nós e disfarçado de várias formas, vamos falar de um piloto que revelou a lucidez e o olhar amoroso com o qual podemos lidar com o que é terrível.

Saramago conta que na cidade espanhola de Badajoz há uma rua com o nome de um piloto. Esse piloto, durante a guerra civil, foi designado para bombardear Badajoz. Chegando ao seu alvo, e conduzindo em seu avião as bombas que vitimariam dezenas de pessoas, o piloto olhou para baixo – e o que viu na cidade? Gente. Voltou e soltou as bombas no campo, sem matar ninguém. Quando questionado por seus superiores indignados, justificou o motivo de não ter cumprido a ordem simplesmente dizendo que lá havia gente.

Esse piloto, Saramago informa, jamais foi punido pela sua desobediência. É que ele falou uma verdade sincera demais, lógica demais para ser questionada: não se bombardeia um lugar que tem gente, e uma gente que é tão gente quanto quem ordena o bombardeio, tão gente quanto quem solta a bomba. Ninguém é coadjuvante do desejo ou projetos dos outros.

Todos são protagonistas e sobreviveremos aos nossos próprios terrores, ou ninguém é protagonista e deixaremos de existir – e levando conosco parte considerável do meio ambiente. Não há um roteiro individual de uma novela privada que ocorre dentro da cabeça de cada um de nós: há um roteiro coletivo em que cada pequena história importa e que ocorre aqui fora, entre todos nós.


escrito por:

Victor Lisboa