Nosso mundo funciona com ciclos de produção, distribuição e consumo de bens, servindo ao propósito de propiciar uma boa e confortável vida a nós, seres humanos. Dessa forma, acabamos mantendo uma cultura de consumo somada a um enorme desinteresse em abrirmos mão de nossos privilégios e comodidades. Você já parou para pensar na influência de suas atitudes cotidianas no mundo e o que você está deixando para as futuras gerações?

 

Entenda o consumismo

 

O consumismo pode ser entendido como uma compulsão caracterizada pela busca incessante de novos bens-materiais, sendo então uma necessidade de novas aquisições, cultuada inconscientemente. Está intimamente associado à ideia de que o valor das pessoas está no que elas possuem e não em quem elas de fato são.

Vale ressaltar, porém, que há uma diferença relevante entre consumismo e consumo. Essa diferença se caracteriza na noção de necessidade. O sufixo ismo, em termos médicos, significa doença. Desta forma, o consumismo pode ser considerado uma doença que visa a aquisição de bens desnecessários, supérfluos, enquanto o consumo trata-se da aquisição de bens relacionados à necessidade e/ou sobrevivência.

Para pensarmos o consumismo enquanto compulsão, talvez seja necessário explorarmos sua criação a partir da publicidade, numa visão psicanalítica. É que a influência de propagandas interfere na diferenciação do que se deve ou não comprar, o que resulta em pessoas descontentes numa incessante busca por algo que as conforte, algo consumível.

Consumo é necessidade. Consumismo é doença.
Consumo é necessidade. Consumismo é doença.

Também podemos nos preocupar com a influência do consumismo para além de aspectos individuais, pensando os moldes dessa incidência compulsiva e nos perguntando  quais as relações econômicas que estão em jogo, as quais transformam o adjetivo “cidadão” em “consumidor”.

Esse “hábito de consumir”, numa visão macro, pode ser entendido como originário de uma construção da obsessão pelo ato de comprar, provindo da influência da publicidade na vida cotidiana. Em contrapartida, o consumismo pode ser entendido como vinculado a conquistas históricas, com a conquista da possibilidade de compra que dá a vida boa – riqueza e saúde -, resultando na ideia de que pessoas com maior poder de compra são melhores que as outras.

Mas se formos pensar no que pode estar, de fato, por trás do consumismo, de alguma forma chegaremos à ideia de alienação. A partir dos eventos relacionados à Revolução Industrial, produzir e circular bens passou a ser algo extremamente corriqueiro, numa constante cada vez mais agilizada. O distanciamento entre produção e consumo facilitou setores cada vez mais especializados em produzir, como a agropecuária, bem como setores especializados em distribuir e consumir, como frigoríficos e açougues, em escalas cada vez maiores.

Alienados da cadeia de produção: cegueira voluntária.
Alienados da cadeia de produção: cegueira voluntária.

Para entendermos isso, devemos nos perguntar sobre o quanto conhecemos a respeito dos processos de produção daquilo o que compramos. Sabemos como são fabricados os produtos de higiene pessoal, limpeza, alimentação, vestuário, decoração e etc. que consumimos? Conhecemos as formas de distribuição, importação e exportação?

Pois é justo esse desconhecimento que aqui é entendido como alienação. Somos alienados enquanto visamos apenas o resultado final, o produto de consumo, e nos centramos nele de uma forma potencialmente compulsiva e doentia. A alienação se faz forte precursora do consumismo, já que desvincula a compra de sua necessidade e mantém o desconhecimento do consumidor em relação aos aspectos por trás de seu objeto de desejo.

O que é Ética Ambiental?

 

Abordada a noção de consumismo, podemos explorar, então, a ideia de Ética Ambiental.

Por Ética Ambiental podemos entender um conjunto de teorias e indicações práticas que têm o meio ambiente como foco. Tal ética preconiza que as relações entre os seres humanos sejam respeitosas e construtivas e que essa lógica se estenda ao relacionamento com animais, plantas, espécies e ecossistemas.

Quanto mais introjetamos noções de Ética Ambiental, passamos a consumir menos, vivemos mais de acordo com nossos valores e olhamos para o mundo com olhos atentos ao coletivo, menos centrados no nosso próprio indivíduo. Isso porque passamos a perceber que a Terra fornece o suficiente para a necessidade de todos, mas não para a ganância de todos.

 

Ética Animal como ressalva à Ética Ambiental

 

A Ética Ambiental, embora proponha uma visão ecocêntrica ao invés da instaurada antropocêntrica, pode resultar numa visão distanciada da pregada pela Ética Animal, ética esta que defende os chamados Direitos Animais. Afinal, por noções simples sobre Ética Ambiental acaba-se promovendo o chamado Bem-estar Animal (ou bem-estarismo), que diz que é moralmente aceitável usarmos animais não-humanos para fins humanos, contanto que tratemos esses animais “humanitariamente” e não lhes causemos sofrimento “desnecessário”.

Para termos uma noção mais clara, a diferença entre a posição do bem-estar animal e a dos direitos animais se assemelha, respectivamente, à diferença entre aquelas pessoas que, nos Estados Unidos do século 19, queriam regulamentar a escravidão para torná-la mais “humanitária” e aquelas que queriam abolí-la.

carnivoro

E então temos um problema central na relação entre consumismo, ética ambiental e ética animal: a ideia de que não há mal algum em evitar mudanças radicais; a ideia de que não há um dever em optar por escolhas pessoais extremamente práticas e éticas que se propõem a combater o consumismo, a aplicar de modo cotidiano a ética ambiental e, de forma genuína, viver uma ética animal.

Entenda: levar as pessoas a pensarem que exploração animal está mais “humanitária” poderá fazer com que o saldo de sofrimento seja maior, fazendo com que o público consumidor se sinta mais à vontade para consumir produtos animais. E, querendo ou não, isto acaba por somar ao desenfreio do consumismo de produtos alimentícios.

 

O que nos falta?

 

Para além da produção de comida orgânica, conservação da água, utilização de energia verde, reciclagem, poupança de gastos desnecessários… enfim, para além daquilo o que é comumente defendido por visões corriqueiras e midiaticamente pregadas sobre ter uma postura ética em relação ao meio ambiente, o que nos falta?

Falta uma escolha. E com essa escolha, podemos ajudar a nós mesmos e a todas as pessoas no planeta. Acabar com a desflorestação e salvar nossas florestas tropicais em extinção. Revitalizar nossas paisagens rurais e salvar as fazendas familiares. Acabar com o principal poluidor da água, bem como com a principal causa do desperdício da água. Devolver aos nossos oceanos os florescentes mundos subaquáticos repletos de vida e maravilhas. Tornar o câncer e as doenças cardíacas uma raridade e não ocorrências comuns, e devolver os territórios selvagens aos seus donos por direito.

Tal escolha chama-se Veganismo, uma corrente filosófica baseada nos Direitos dos Animais, muitas vezes entendida como um estilo de vida – embora por muitos seja entendido como um dever moral e não uma opção -, mantendo atitudes práticas na defesa das pessoas, do planeta e dos animais.

veganismo

Veganismo para as pessoas: as escolhas que tomamos afetam não apenas as nossas vidas como as vidas das pessoas à nossa volta. Se consumimos mais do que precisamos, estamos tirando de outras pessoas, bem como daquelas que ainda estão por vir. Embora possamos viver vidas com mesas fartas e abundantes, precisamos entender que mais de quarenta mil pessoas morrem de fome a cada dia. Isso acontece porque, enquanto temos milhões de pessoas passando fome, gastamos bilhões de cereais, que poderiam ser usados para alimentação humana, na alimentação de vacas, gados, galinhas e porcos, a fim de satisfazermos nosso desejo de carne, leite e ovos.

A criação de animais envolve uma enorme utilização de terra, água e outros recursos naturais, os quais poderiam ser aproveitados para qualidade de vida humana. Com uma dieta diária de carne, só conseguiríamos alimentar cerca de duas bilhões de pessoas, porém temos mais de sete bilhões, o que nos prova que precisamos encontrar uma solução melhor. Além disso, doenças cardíacas e câncer, principais causas de morte nos EUA – país campeão em consumo de carne -, estão diretamente ligadas ao consumo de produtos animais. O veganismo torna tais doenças uma raridade.

Veganismo para o planeta: a produção de produtos animais consome tantos recursos naturais que optar pelo veganismo se torna, automaticamente, a coisa mais poderosa que você pode fazer enquanto indivíduo para mudar esse paradigma, na tentativa de salvar o planeta. Criar animais para consumo humano contribui mais para o aquecimento global do que os poluentes emitidos por aviões, carros e caminhões do planeta inteiro. Juntos.

pobreza

A produção de apenas meio quilo de carne chega a gastar, no mínimo, quase dez mil litros de água, a julgar pelo processo de alimentação e cuidados com o gado. Optar pelo veganismo, então, é poupar até 5 milhões de litros de água por ano! Se você não desperdiça papel na tentativa de salvar árvores, saiba que um vegano salva quase meio hectare de árvores por ano, o equivalente a milhões de papéis. Afinal, o maior motivo de desmatamento não é a produção de folhas de ofício, mas a limpeza da terra para o cultivo de alimentos que mais tarde serão usados para a criação de animais.

Veganismo para os animais: matamos mais de três milhões de animais assustados e indefesos a cada hora do dia. A devastadora maioria das pessoas no mundo, caso perguntadas, afirmarão serem contra magoar e matar animais indefesos. Mesmo assim, essa mesma esmagadora maioria continua a magoar e matar animais indefesos, para comê-los. Essa desconexão é resultado da alienação, que faz as pessoas perceberem o que está em suas mesas como simples objetos de consumo – desconhecendo o passo-a-passo que envolve muito sofrimento – e não como o que um dia foi um animal (ou parte dele).

Optar pelo veganismo, então, é defender os mais fracos entre nós. É defender animais em fazendas, se recusando a pagar para maltratá-los em seu nome. É defender animais selvagens, se recusando a comprar sua pele e contribuir com seu deslocamento e genocídio para criação de novas locações que seriam exploradas para alimentação de mais animais “de corte”. Optar pelo veganismo é dar os devidos direitos a todos os animais, inclusive os humanos.

protesto

Pensar uma questão complexa como o consumismo não pode ser algo dissociado de questões de urgência, como o aquecimento global e a crise ambiental. Da mesma forma, e devido à mesma urgência, não podemos apenas problematizar questões amplas sem nos preocuparmos com a proposição de atitudes possíveis, éticas, práticas e viáveis.

Embora as relações entre consumismo e ética animal possam não ser óbvias, vimos que há algo em comum e que se faz inerente aos problemas recorrentes dessas questões: a alienação. Tomamos a parte como o todo, estamos inteirados de apenas uma porção de realidade e a vemos como fatos em si, o que nos faz esquecer da necessidade de explorarmos mais a fundo e vermos os problemas que são, de fato, causadores do que nos é bastante preocupante, como a compulsão à aquisição de bens e a exploração desenfreada de animais.

(Documentário Uma Vida Interligada apresenta importantes informações sobre
questões éticas, ambientais, de sustentabilidade e sociais. Não contém cenas fortes.)

Pensar problemas de ordem ética exige um esforço que transcenda o frágil mundo do ego. Faz-se necessária, além da razão, a empatia, a compaixão e reflexão sobre a necessidade de nossas ações individuais no mundo. E se há algo comprovadamente necessário no que diz respeito a uma solução para problemas como consumismo e meio ambiente, este algo é optar pelo veganismo.

escrito por:

Alysson Augusto

Escritor que não compactua com o rótulo. Graduando em Filosofia pela PUCRS. Professor de ensino médio. E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.


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