consumismo e etica animal

Consumismo e Ética Animal

Em Comportamento por Alysson AugustoComentário

Nosso mundo fun­ci­ona com ciclos de pro­du­ção, dis­tri­bui­ção e con­sumo de bens, ser­vindo ao pro­pó­sito de pro­pi­ciar uma boa e con­for­tá­vel vida a nós, seres huma­nos. Dessa forma, aca­ba­mos man­tendo uma cul­tura de con­sumo somada a um enorme desin­te­resse em abrir­mos mão de nos­sos pri­vi­lé­gios e como­di­da­des. Você já parou para pen­sar na influên­cia de suas ati­tu­des coti­di­a­nas no mundo e o que você está dei­xando para as futu­ras gera­ções?

 

Entenda o consumismo

 

O con­su­mismo pode ser enten­dido como uma com­pul­são carac­te­ri­zada pela busca inces­sante de novos bens-mate­ri­ais, sendo então uma neces­si­dade de novas aqui­si­ções, cul­tu­ada incons­ci­en­te­mente. Está inti­ma­mente asso­ci­ado à ideia de que o valor das pes­soas está no que elas pos­suem e não em quem elas de fato são.

Vale res­sal­tar, porém, que há uma dife­rença rele­vante entre con­su­mismo e con­sumo. Essa dife­rença se carac­te­riza na noção de neces­si­dade. O sufixo ismo, em ter­mos médi­cos, sig­ni­fica doença. Desta forma, o con­su­mismo pode ser con­si­de­rado uma doença que visa a aqui­si­ção de bens des­ne­ces­sá­rios, supér­fluos, enquanto o con­sumo trata-se da aqui­si­ção de bens rela­ci­o­na­dos à neces­si­dade e/ou sobre­vi­vên­cia.

Para pen­sar­mos o con­su­mismo enquanto com­pul­são, tal­vez seja neces­sá­rio explo­rar­mos sua cri­a­ção a par­tir da publi­ci­dade, numa visão psi­ca­na­lí­tica. É que a influên­cia de pro­pa­gan­das inter­fere na dife­ren­ci­a­ção do que se deve ou não com­prar, o que resulta em pes­soas des­con­ten­tes numa inces­sante busca por algo que as con­forte, algo con­su­mí­vel.

Consumo é necessidade. Consumismo é doença.

Con­sumo é neces­si­dade. Con­su­mismo é doença.

Tam­bém pode­mos nos pre­o­cu­par com a influên­cia do con­su­mismo para além de aspec­tos indi­vi­du­ais, pen­sando os mol­des dessa inci­dên­cia com­pul­siva e nos per­gun­tando  quais as rela­ções econô­mi­cas que estão em jogo, as quais trans­for­mam o adje­tivo “cida­dão” em “con­su­mi­dor”.

Esse “hábito de con­su­mir”, numa visão macro, pode ser enten­dido como ori­gi­ná­rio de uma cons­tru­ção da obses­são pelo ato de com­prar, pro­vindo da influên­cia da publi­ci­dade na vida coti­di­ana. Em con­tra­par­tida, o con­su­mismo pode ser enten­dido como vin­cu­lado a con­quis­tas his­tó­ri­cas, com a con­quista da pos­si­bi­li­dade de com­pra que dá a vida boa — riqueza e saúde -, resul­tando na ideia de que pes­soas com maior poder de com­pra são melho­res que as outras.

Mas se for­mos pen­sar no que pode estar, de fato, por trás do con­su­mismo, de alguma forma che­ga­re­mos à ideia de ali­e­na­ção. A par­tir dos even­tos rela­ci­o­na­dos à Revo­lu­ção Indus­trial, pro­du­zir e cir­cu­lar bens pas­sou a ser algo extre­ma­mente cor­ri­queiro, numa cons­tante cada vez mais agi­li­zada. O dis­tan­ci­a­mento entre pro­du­ção e con­sumo faci­li­tou seto­res cada vez mais espe­ci­a­li­za­dos em pro­du­zir, como a agro­pe­cuá­ria, bem como seto­res espe­ci­a­li­za­dos em dis­tri­buir e con­su­mir, como fri­go­rí­fi­cos e açou­gues, em esca­las cada vez mai­o­res.

Alienados da cadeia de produção: cegueira voluntária.

Ali­e­na­dos da cadeia de pro­du­ção: cegueira volun­tá­ria.

Para enten­der­mos isso, deve­mos nos per­gun­tar sobre o quanto conhe­ce­mos a res­peito dos pro­ces­sos de pro­du­ção daquilo o que com­pra­mos. Sabe­mos como são fabri­ca­dos os pro­du­tos de higi­ene pes­soal, lim­peza, ali­men­ta­ção, ves­tuá­rio, deco­ra­ção e etc. que con­su­mi­mos? Conhe­ce­mos as for­mas de dis­tri­bui­ção, impor­ta­ção e expor­ta­ção?

Pois é justo esse des­co­nhe­ci­mento que aqui é enten­dido como ali­e­na­ção. Somos ali­e­na­dos enquanto visa­mos ape­nas o resul­tado final, o pro­duto de con­sumo, e nos cen­tra­mos nele de uma forma poten­ci­al­mente com­pul­siva e doen­tia. A ali­e­na­ção se faz forte pre­cur­sora do con­su­mismo, já que des­vin­cula a com­pra de sua neces­si­dade e man­tém o des­co­nhe­ci­mento do con­su­mi­dor em rela­ção aos aspec­tos por trás de seu objeto de desejo.

O que é Ética Ambiental?

 

Abor­dada a noção de con­su­mismo, pode­mos explo­rar, então, a ideia de Ética Ambi­en­tal.

Por Ética Ambi­en­tal pode­mos enten­der um con­junto de teo­rias e indi­ca­ções prá­ti­cas que têm o meio ambi­ente como foco. Tal ética pre­co­niza que as rela­ções entre os seres huma­nos sejam res­pei­to­sas e cons­tru­ti­vas e que essa lógica se estenda ao rela­ci­o­na­mento com ani­mais, plan­tas, espé­cies e ecos­sis­te­mas.

Quanto mais intro­je­ta­mos noções de Ética Ambi­en­tal, pas­sa­mos a con­su­mir menos, vive­mos mais de acordo com nos­sos valo­res e olha­mos para o mundo com olhos aten­tos ao cole­tivo, menos cen­tra­dos no nosso pró­prio indi­ví­duo. Isso por­que pas­sa­mos a per­ce­ber que a Terra for­nece o sufi­ci­ente para a neces­si­dade de todos, mas não para a ganân­cia de todos.

 

Ética Animal como ressalva à Ética Ambiental

 

A Ética Ambi­en­tal, embora pro­po­nha uma visão eco­cên­trica ao invés da ins­tau­rada antro­po­cên­trica, pode resul­tar numa visão dis­tan­ci­ada da pre­gada pela Ética Ani­mal, ética esta que defende os cha­ma­dos Direi­tos Ani­mais. Afi­nal, por noções sim­ples sobre Ética Ambi­en­tal acaba-se pro­mo­vendo o cha­mado Bem-estar Ani­mal (ou bem-esta­rismo), que diz que é moral­mente acei­tá­vel usar­mos ani­mais não-huma­nos para fins huma­nos, con­tanto que tra­te­mos esses ani­mais “huma­ni­ta­ri­a­mente” e não lhes cau­se­mos sofri­mento “des­ne­ces­sá­rio”.

Para ter­mos uma noção mais clara, a dife­rença entre a posi­ção do bem-estar ani­mal e a dos direi­tos ani­mais se asse­me­lha, res­pec­ti­va­mente, à dife­rença entre aque­las pes­soas que, nos Esta­dos Uni­dos do século 19, que­riam regu­la­men­tar a escra­vi­dão para torná-la mais “huma­ni­tá­ria” e aque­las que que­riam abolí-la.

carnivoro

E então temos um pro­blema cen­tral na rela­ção entre con­su­mismo, ética ambi­en­tal e ética ani­mal: a ideia de que não há mal algum em evi­tar mudan­ças radi­cais; a ideia de que não há um dever em optar por esco­lhas pes­so­ais extre­ma­mente prá­ti­cas e éti­cas que se pro­põem a com­ba­ter o con­su­mismo, a apli­car de modo coti­di­ano a ética ambi­en­tal e, de forma genuína, viver uma ética ani­mal.

Entenda: levar as pes­soas a pen­sa­rem que explo­ra­ção ani­mal está mais “huma­ni­tá­ria” poderá fazer com que o saldo de sofri­mento seja maior, fazendo com que o público con­su­mi­dor se sinta mais à von­tade para con­su­mir pro­du­tos ani­mais. E, que­rendo ou não, isto acaba por somar ao desen­freio do con­su­mismo de pro­du­tos ali­men­tí­cios.

 

O que nos falta?

 

Para além da pro­du­ção de comida orgâ­nica, con­ser­va­ção da água, uti­li­za­ção de ener­gia verde, reci­cla­gem, pou­pança de gas­tos des­ne­ces­sá­rios… enfim, para além daquilo o que é comu­mente defen­dido por visões cor­ri­quei­ras e midi­a­ti­ca­mente pre­ga­das sobre ter uma pos­tura ética em rela­ção ao meio ambi­ente, o que nos falta?

Falta uma esco­lha. E com essa esco­lha, pode­mos aju­dar a nós mes­mos e a todas as pes­soas no pla­neta. Aca­bar com a des­flo­res­ta­ção e sal­var nos­sas flo­res­tas tro­pi­cais em extin­ção. Revi­ta­li­zar nos­sas pai­sa­gens rurais e sal­var as fazen­das fami­li­a­res. Aca­bar com o prin­ci­pal polui­dor da água, bem como com a prin­ci­pal causa do des­per­dí­cio da água. Devol­ver aos nos­sos oce­a­nos os flo­res­cen­tes mun­dos subaquá­ti­cos reple­tos de vida e mara­vi­lhas. Tor­nar o cân­cer e as doen­ças car­día­cas uma rari­dade e não ocor­rên­cias comuns, e devol­ver os ter­ri­tó­rios sel­va­gens aos seus donos por direito.

Tal esco­lha chama-se Vega­nismo, uma cor­rente filo­só­fica base­ada nos Direi­tos dos Ani­mais, mui­tas vezes enten­dida como um estilo de vida — embora por mui­tos seja enten­dido como um dever moral e não uma opção -, man­tendo ati­tu­des prá­ti­cas na defesa das pes­soas, do pla­neta e dos ani­mais.

veganismo

Vega­nismo para as pes­soas: as esco­lhas que toma­mos afe­tam não ape­nas as nos­sas vidas como as vidas das pes­soas à nossa volta. Se con­su­mi­mos mais do que pre­ci­sa­mos, esta­mos tirando de outras pes­soas, bem como daque­las que ainda estão por vir. Embora pos­sa­mos viver vidas com mesas far­tas e abun­dan­tes, pre­ci­sa­mos enten­der que mais de qua­renta mil pes­soas mor­rem de fome a cada dia. Isso acon­tece por­que, enquanto temos milhões de pes­soas pas­sando fome, gas­ta­mos bilhões de cere­ais, que pode­riam ser usa­dos para ali­men­ta­ção humana, na ali­men­ta­ção de vacas, gados, gali­nhas e por­cos, a fim de satis­fa­zer­mos nosso desejo de carne, leite e ovos.

A cri­a­ção de ani­mais envolve uma enorme uti­li­za­ção de terra, água e outros recur­sos natu­rais, os quais pode­riam ser apro­vei­ta­dos para qua­li­dade de vida humana. Com uma dieta diá­ria de carne, só con­se­gui­ría­mos ali­men­tar cerca de duas bilhões de pes­soas, porém temos mais de sete bilhões, o que nos prova que pre­ci­sa­mos encon­trar uma solu­ção melhor. Além disso, doen­ças car­día­cas e cân­cer, prin­ci­pais cau­sas de morte nos EUA — país cam­peão em con­sumo de carne -, estão dire­ta­mente liga­das ao con­sumo de pro­du­tos ani­mais. O vega­nismo torna tais doen­ças uma rari­dade.

Vega­nismo para o pla­neta: a pro­du­ção de pro­du­tos ani­mais con­some tan­tos recur­sos natu­rais que optar pelo vega­nismo se torna, auto­ma­ti­ca­mente, a coisa mais pode­rosa que você pode fazer enquanto indi­ví­duo para mudar esse para­digma, na ten­ta­tiva de sal­var o pla­neta. Criar ani­mais para con­sumo humano con­tri­bui mais para o aque­ci­mento glo­bal do que os polu­en­tes emi­ti­dos por aviões, car­ros e cami­nhões do pla­neta inteiro. Jun­tos.

pobreza

A pro­du­ção de ape­nas meio quilo de carne chega a gas­tar, no mínimo, quase dez mil litros de água, a jul­gar pelo pro­cesso de ali­men­ta­ção e cui­da­dos com o gado. Optar pelo vega­nismo, então, é pou­par até 5 milhões de litros de água por ano! Se você não des­per­diça papel na ten­ta­tiva de sal­var árvo­res, saiba que um vegano salva quase meio hec­tare de árvo­res por ano, o equi­va­lente a milhões de papéis. Afi­nal, o maior motivo de des­ma­ta­mento não é a pro­du­ção de folhas de ofí­cio, mas a lim­peza da terra para o cul­tivo de ali­men­tos que mais tarde serão usa­dos para a cri­a­ção de ani­mais.

Vega­nismo para os ani­mais: mata­mos mais de três milhões de ani­mais assus­ta­dos e inde­fe­sos a cada hora do dia. A devas­ta­dora mai­o­ria das pes­soas no mundo, caso per­gun­ta­das, afir­ma­rão serem con­tra magoar e matar ani­mais inde­fe­sos. Mesmo assim, essa mesma esma­ga­dora mai­o­ria con­ti­nua a magoar e matar ani­mais inde­fe­sos, para comê-los. Essa des­co­ne­xão é resul­tado da ali­e­na­ção, que faz as pes­soas per­ce­be­rem o que está em suas mesas como sim­ples obje­tos de con­sumo — des­co­nhe­cendo o passo-a-passo que envolve muito sofri­mento — e não como o que um dia foi um ani­mal (ou parte dele).

Optar pelo vega­nismo, então, é defen­der os mais fra­cos entre nós. É defen­der ani­mais em fazen­das, se recu­sando a pagar para mal­tratá-los em seu nome. É defen­der ani­mais sel­va­gens, se recu­sando a com­prar sua pele e con­tri­buir com seu des­lo­ca­mento e geno­cí­dio para cri­a­ção de novas loca­ções que seriam explo­ra­das para ali­men­ta­ção de mais ani­mais “de corte”. Optar pelo vega­nismo é dar os devi­dos direi­tos a todos os ani­mais, inclu­sive os huma­nos.

protesto

Pen­sar uma ques­tão com­plexa como o con­su­mismo não pode ser algo dis­so­ci­ado de ques­tões de urgên­cia, como o aque­ci­mento glo­bal e a crise ambi­en­tal. Da mesma forma, e devido à mesma urgên­cia, não pode­mos ape­nas pro­ble­ma­ti­zar ques­tões amplas sem nos pre­o­cu­par­mos com a pro­po­si­ção de ati­tu­des pos­sí­veis, éti­cas, prá­ti­cas e viá­veis.

Embora as rela­ções entre con­su­mismo e ética ani­mal pos­sam não ser óbvias, vimos que há algo em comum e que se faz ine­rente aos pro­ble­mas recor­ren­tes des­sas ques­tões: a ali­e­na­ção. Toma­mos a parte como o todo, esta­mos intei­ra­dos de ape­nas uma por­ção de rea­li­dade e a vemos como fatos em si, o que nos faz esque­cer da neces­si­dade de explo­rar­mos mais a fundo e ver­mos os pro­ble­mas que são, de fato, cau­sa­do­res do que nos é bas­tante pre­o­cu­pante, como a com­pul­são à aqui­si­ção de bens e a explo­ra­ção desen­fre­ada de ani­mais.

(Docu­men­tá­rio Uma Vida Inter­li­gada apre­senta impor­tan­tes infor­ma­ções sobre
ques­tões éti­cas, ambi­en­tais, de sus­ten­ta­bi­li­dade e soci­ais. Não con­tém cenas for­tes.)

Pen­sar pro­ble­mas de ordem ética exige um esforço que trans­cenda o frá­gil mundo do ego. Faz-se neces­sá­ria, além da razão, a empa­tia, a com­pai­xão e refle­xão sobre a neces­si­dade de nos­sas ações indi­vi­du­ais no mundo. E se há algo com­pro­va­da­mente neces­sá­rio no que diz res­peito a uma solu­ção para pro­ble­mas como con­su­mismo e meio ambi­ente, este algo é optar pelo vega­nismo.

É graduando em Filosofia pela PUCRS, professor de ensino médio e faz vídeos para o Youtube (conheça aqui). E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.

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