(“Construindo o muro da ignorância” é um artigo escrito por Paul Krugman, Nobel de economia de 2008, para o The New York Times e que traduzimos a pedido de leitores)


Estamos apenas nas primeiras semanas do regime Trump-Putin, e já está difícil acompanhar todos os desastres. Lembram-se do ataque de fúria do Presidente norte-americano diante da falta de público na sua cerimônia de posse? Isso já é história antiga.

Mas quero deter nossa atenção, só por uns minutos, na história que dominou os noticiários dias atrás, antes de ser, digamos, atrumpelada pela notícia sobre o banimento de refugiados. Como você se lembra (ou talvez não, com tanta loucura acontecendo ao mesmo tempo), a Casa Branca inicialmente pareceu afirmar que imporia uma tarifa de 20% para as importações do México, mas na verdade estava falando de uma política tarifária proposta pelos Republicanos e que não faria tal coisa; a seguir disseram que era só uma ideia; depois mudaram de assunto — ao menos por enquanto.

Só para registrar, falar bobagens sobre política tarifária não se equipara a fechar as portas para refugiados justo no Dia Internacional da Lembrança do Holocausto, como Trump fez. Mas a história do aumento de imposto de produtos mexicanos é um perfeito exemplo do que já estávamos observando neste governo caótico: um padrão de disfuncionalidade, ignorância, incompetência e traição da confiança.

Essa história parece ter começado, como muitas outras coisas, com um episódio de insegurança do ego do Presidente Trump: as pessoas estavam fazendo piada dele porque o México não iria, como ele prometeu durante a campanha, pagar por aquele inútil muro na fronteira. E por isso seu porta-voz, Sean Spicer, foi a público e declarou que uma tarifa sobre os produtos mexicanos iria pagar pelo muro. Sério isso?

Como economistas rapidamente apontaram, tarifas não são pagas pelo exportador. Sem entrar em detalhes técnicos, basicamente elas são pagas pelo comprador — ou seja, uma tarifa em mercadorias americanas seria cobrada dos consumidores norte-americanos. Os EUA, e não o México portanto, pagaria pelo muro.

Mas esse não era o único problema. Os EUA é parte de um sistema de tratados — um sistema que os EUA construiu — que estabelece regras para a política tarifária internacional, e uma das regras-chave é que você não pode aumentar tarifas unilateralmente quando foram antes reduzidas após uma negociação entre países.

Se os EUA quebrasse essa regra, as consequências seriam graves. O risco não seria apenas de arcar com as punições também previstas nessas negociações, mas de disseminação: se as regras forem quebradas pelos EUA, então todos os outros países também poderiam. E todo o sistema de comércio internacional começaria a ruir, com enormes efeitos disruptivos em todos os lugares, incluindo a indústria norte-americana.

E a Casa branca está planejando seguir esse caminho? Ao tratar das importações americanas, o Sr. Spicer passou essa impressão: mas ele também disse que estava falando de uma “abrangente reforma tributária com o objetivo de tarifar importações de outros países com os quais temos um déficit na balança comercial”. Isso parece ter sido uma alusão a uma revisão dos tributos cobrados da indústria, com “tarifas alfandegárias ajustáveis”.

Mas aqui está o problema: que revisar não terá, no fim, os efeitos desejados. Isso não afetaria países com os quais temos déficit na balança comercial, sem falar do México; isso afetaria todo o sistema de comércio internacional. E não seria, na verdade, uma tarifação das importações.

Para ser justo, isso é algo que costuma causar confusão. Muitas pessoas que deveriam estar mais informadas acreditam que impostos incidentes sobre valor agregado, que muitos países cobram, desestimulam importações e podem subsidiar exportações. O Sr. Spicer repercutiu esse equívoco. Na verdade, impostos sobre valor agregado são essencialmente impostos cobrados em vendas internas no país, que não desestimulam nem estimulam a importação (sim, importadores pagam impostos, mas os produtos do país também).

E a proposta de revisão dos tributos cobrados das indústrias, embora seja distinta de criar impostos de valor agregado, também não causaria efeitos no comércio. E em particular isso de forma alguma faria o México pagar pelo muro internacional.

Algumas dessas coisas são um bocado técnicas. Mas o governo dos EUA não deveria supostamente instruir-se antes de falar coisas que parecem uma declaração de guerra comercial?

Vamos resumir: o secretário de imprensa da Casa Branca criou uma crise diplomática ao tentar proteger o Presidente de ser ridicularizado devido a uma promessa tola de campanha.

E além disso o secretário de imprensa demonstrou que ninguém na Casa Branca entende de economia em seu nível elementar. E a seguir ele tentou desdizer tudo o que havia dito.

Isso tudo deve ser inserido no contexto maior que é o rápido colapso da credibilidade dos EUA no plano internacional.

O governo norte-americano nem sempre fez a coisa certa. Mas sempre cumpriu seus compromissos assumidos com nações e também com indivíduos.

Agora essa credibilidade está sendo questionada. Todos, de pequenas nações que pensavam estar protegidas contra a agressão russa a empresários mexicanos que pensavam ter acesso garantido ao mercado norte-americano, passando pelos intérpretes americanos que achavam que seu serviço ao governo dos EUA significava segurança, todos cogitam se serão tratados como empregados demitidos de um dos hotéis de Trump.

Isso é uma grande perda. E provavelmente é irreversível.

o muro da ignorância - Paul Krugman | pictoline

  • O trecho “passando pelos intérpretes americanos que achavam que seu serviço ao governo dos EUA significava segurança” perdeu completamente o sentido com essa tradução. Os intérpretes ao que o texto original se refere são intérpretes *iraquianos* que trabalham para os americanos e, acreditam, isso lhes garante segurança (“santuário”, no texto original).