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A Conspiração Nossa de Cada Dia

Em Comportamento, O MELHOR DO AZ por Felipe NovaesComentários

O Homo sapi­ens é uma espé­cie hábil em teo­rias da cons­pi­ra­ção. Vá até o you­tube e digite algo como Illu­mi­nati ou Nova Ordem Mun­dial e cho­verá vídeos intei­ros sobre como o mundo é gover­nado secre­ta­mente pelo anti­cristo, seja ele um polí­tico, uma enti­dade demo­níaca, eco­no­mis­tas, empre­sá­rios ou até ali­e­ní­ge­nas que saem de seus impé­rios inter­ga­lác­ti­cos para gover­nar este pla­ne­ti­nha que nem numa posi­ção geo­mé­trica pita­gó­rica fica em rela­ção à Via Lác­tea.

Nem toda cons­pi­ra­ção é esca­la­fo­bé­tica, entre­tanto. Algu­mas são mais vela­das, e por serem apa­ren­te­mente mais sérias e lúci­das, têm maior poder de per­su­a­são. É esse o caso de todas as mani­fes­ta­ções vir­tu­ais sobre o uso da subs­tân­cia fos­fo­e­ta­no­la­mina, que sem­pre invo­cam algum tipo de con­luio entre indús­tria far­ma­cêu­tica e médi­cos — só para citar um caso bas­tante atual.

Claro, numa soci­e­dade de estru­tura capi­ta­lista, é espe­rado que pes­soas e ins­ti­tui­ções quei­ram maxi­mi­zar seus lucros, e isso mui­tas vezes sig­ni­fica asse­gu­rar que as pes­soas uti­li­zem ser­vi­ços mais caros do que outros poten­ci­al­mente mais efi­ci­en­tes e bara­tos. Mas o que choca é a quan­ti­dade de vezes que o argu­mento da dobra­di­nha “indús­tria far­ma­cêu­tica + capi­ta­lismo” é usado de forma total­mente irres­pon­sá­vel e igno­rante sem­pre que algu­mas pes­soas não gos­tam de deter­mi­nado dado da rea­li­dade, como um resul­tado (ou ausên­cia de) de alguma pes­quisa cien­tí­fica.

Mas isso não é uma ten­dên­cia con­tem­po­râ­nea. Ana­li­sando um pouco a his­tó­ria humana, se atendo ao modo como os sis­te­mas expli­ca­ti­vos religiosos/mitológicos, filo­só­fi­cos e (por último na nossa his­tó­ria epis­tê­mica) cien­tí­fi­cos são estru­tu­ra­dos inter­na­mente como len­tes com as quais visa­mos enxer­gar a rea­li­dade (tanto a rea­li­dade última quanto a apa­rente ou pró­xima), temos uma boa ideia de que a mania de encon­trar cau­sas ocul­tas e ver­da­des só vis­tas por pou­cos ilu­mi­na­dos tem uma raiz em comum com a pró­pria huma­ni­dade e o iní­cio de sua pro­du­ção cultural/intelectual.

A conspiração para além dos blogueiros espinhentos

terra plana

Des­co­bri recen­te­mente que alguns resis­ten­tes em pleno séc. XXI não acei­tam a esfe­ri­ci­dade da Terra. Nesse momento vi que era perda de tempo dis­cu­tir sobre a ida ou não do homem à Lua com cons­pi­ra­do­res.

De qual­quer forma, nin­guém pre­cisa exa­ta­mente da inter­net para depa­rar com o “melhor” da “cons­pi­ra­tos­fera”. Isso por­que teo­rias como essas não são uma pri­ma­zia de blo­guei­ros deso­cu­pa­dos, mas uma prá­tica lou­vá­vel entre os mais res­pei­ta­dos roman­cis­tas, ensaís­tas, filó­so­fos e aca­dê­mi­cos em geral. A pró­pria his­tó­ria humana é uma con­ca­te­na­ção de expli­ca­ções ali­nha­vando evi­dên­cias e fazendo bro­tar teo­rias que tem muito dessa essên­cia espe­cu­la­dora do cons­pi­ra­ci­o­nista mais mar­gi­nal [no sen­tido de estar à mar­gem das expli­ca­ções ofi­ci­ais mesmo, não de serem cri­mi­no­sos ou algo assim].

O pri­meiro cho­que de rea­li­dade que tive sobre esse esca­pa­mento das teo­rias da cons­pi­ra­ção do fundo das revis­tas de baixa cir­cu­la­ção e dos vídeos que se pro­põem a expli­car toda a rea­li­dade numa tacada só, foi quando entrei na uni­ver­si­dade. Psi­co­lo­gia não era o curso que eu espe­rava que fosse. Na ver­dade, as Ciên­cias Huma­nas não eram bem o que eu espe­rava que fos­sem.

Gui­a­dos pela Teo­ria Crí­tica da Soci­e­dade, pro­fes­so­res — e natu­ral­mente seus dis­cí­pu­los, quer dizer, alu­nos — não esta­vam muito inte­res­sa­dos em mos­trar teo­rias cien­tí­fi­cas muito atu­ais, mas em mos­trar como uma abor­da­gem teó­rica e prá­tica (a ben­dita pra­xis) pode­ria ser­vir para mudar efe­ti­va­mente o mundo, enfra­que­cendo o poder da lógica de mer­cado, por exem­plo. Ou seja, de ciên­cia de fato (como ciên­cia cog­ni­tiva, psi­co­lo­gia evo­lu­ci­o­nista, esta­tís­tica, neu­ro­ci­ên­cia) vía­mos muito pouco, pois o curso se con­cen­trava nessa ado­ra­ção da Escola de Frank­furt, que se foca basi­ca­mente em usar a psi­ca­ná­lise, a soci­o­lo­gia, his­tó­ria e antro­po­lo­gia nesse papel mili­tante de mudar as coi­sas — mas que efe­ti­va­mente não muda muita coisa, só torna as pes­soas hiper­cé­ti­cas.

E a ideia cen­tral dessa pro­posta de macro­vi­são sobre o mundo e suas trans­for­ma­ções é que tudo pode ser des­crito basi­ca­mente em ter­mos de luta de clas­ses. Além disso, nosso papel seria basi­ca­mente não estu­dar cien­ti­fi­ca­mente os fenô­me­nos, mas cons­truir manei­ras de mili­tar a favor de mudan­ças soci­ais. É o coro­lá­rio da teo­ria mar­xista se mani­fes­tando de forma mais clara pos­sí­vel, que pode ser resu­mindo como o apren­di­zado da capa­ci­dade de pers­cru­tar os fatos por trás dos fatos.

Charge Freud e Marx

Existe uma trama secreta por trás da for­ma­ção de todos os times.

Em certo sen­tido, então, essa Teo­ria Crí­tica é uma boneca russa da cons­pi­ra­ção, pois é regida por um forte algo­ritmo cons­pi­ra­tó­rio, e as teo­rias que dão sua estru­tura, por sua vez, tam­bém seguem a mesma ideia. Esse tam­bém é o caso da Psi­ca­ná­lise.

Freud, que ao con­trá­rio do que o grande público pensa, não era psi­có­logo, mas um neu­ro­lo­gista que desen­vol­veu a Psi­ca­ná­lise, foi aos pou­cos per­ce­bendo que exis­tiam com­por­ta­men­tos que não eram pas­sí­veis de expli­ca­ção em ter­mos de cau­sas explí­ci­tas, pen­sa­men­tos mani­fes­tos. Por­tanto, houve a neces­si­dade de assi­mi­lar um cons­truto já exis­tente no final do século XIX, o de incons­ci­ente, para tra­ba­lhar com lap­sos ver­bais, mnemô­ni­cos, chis­tes e ati­tu­des con­tra­di­tó­rias que apa­ren­te­mente seguiam uma lógica oculta que nem a pró­pria pes­soa pare­cia reco­nhe­cer.

O pro­blema da teo­ria freu­di­ana não é esse cará­ter de ocul­tismo cons­pi­ra­ci­o­nista a que ela leva, tanto é que a atual ciên­cia cog­ni­tiva rea­pro­vei­tou uma ver­são menos afe­tiva desse mesmo cons­truto, o incons­ci­ente. A ques­tão é que esse suposto meca­nismo obs­curo só é aces­sado pelo ana­lista — a auto­ri­dade suprema — por meio da fala do paci­ente. Não existe efe­ti­va­mente nenhum método que guie a cor­ro­bo­ra­ção des­ses fenô­me­nos com suposta natu­reza Incons­ci­ente (com “i” maiús­culo); tam­pouco é pos­sí­vel um cená­rio expe­ri­men­tal que venha a mos­trar que os pal­pi­tes estão erra­dos. A estru­tura teó­rica da Psi­ca­ná­lise arma uma cama de gato tal que o psi­ca­na­lista sem­pre pode estar cor­reto sobre seus pal­pi­tes, e isso não é nem um pouco posi­tivo para uma pre­tensa expli­ca­ção da rea­li­dade — o que evita enor­me­mente o jogo “cara eu ganho, coroa você perde”.

De qual­quer maneira, a lar­vi­nha da cons­pi­ra­ção está aí: o Incons­ci­ente, aquela ins­tân­cia lá qui­e­ti­nha, influ­en­ci­ando o nosso com­por­ta­mento, sendo a causa mais pro­funda de nosso mundo afe­tivo, de nos­sos gos­tos e des­gos­tos. E o psi­ca­na­lista é basi­ca­mente a única auto­ri­dade capa­ci­tada a tateá-lo.

Platonismo: conspiração para aristocratas

Piteco: mito da caverna de Platão

A vida ver­da­deira, a rea­li­dade ver­da­deira, para além dos sen­ti­dos?

Se qui­ser­mos retro­ce­der no tempo, encon­tra­re­mos algo muito pare­cido. Lem­bra daquele papo sobre o Mundo das Ideias, sobre a Ale­go­ria da Caverna? Germe cons­pi­ra­tó­rio puro.

Pla­tão, ou Arís­to­cles, como alguns acham que foi seu ver­da­deiro nome, ale­gava que o mundo sen­sí­vel que vemos é basi­ca­mente uma farsa. Seriam ape­nas som­bras de uma dimen­são ver­da­deira, aquela alcan­çada pelas ideias. Por­tanto, uma árvore vista não seria real no mesmo sen­tido que a ideia da árvore; e isso vale­ria tam­bém para atri­bu­tos abs­tra­tos como a cora­gem ou a sabe­do­ria: a cora­gem ou a sabe­do­ria obser­va­das nas pes­soas não seriam per­fei­tas, mas imper­fei­tas, pois só o que seria real e per­feito seria a ideia de cora­gem, a ideia de sabe­do­ria.

Como todo bom cons­pi­ra­dor, Pla­tão tinha um bom pal­pite sobre quem deve­ria ser aquele com a capa­ci­dade de aces­sar esse Mundo das For­mas, essa Ver­dade: o filó­sofo, o amigo da sabe­do­ria (filo — amigo; sophia — sabe­do­ria), seria esse des­bra­va­dor, usando como fer­ra­menta sua raci­o­na­li­dade e lógica. Daí a ideia da Repú­blica dos Filó­so­fos, em que somente esses homens sábios seriam capa­zes de gover­nar devi­da­mente, o que na ver­dade alguns dizem ser o pro­tó­tipo de uma dita­dura.

Cristianismo: a conspiração para os camponeses

As influên­cias do pen­sa­mento de Pla­tão res­so­a­ram for­te­mente entre os neo­platô­ni­cos gnós­ti­cos cris­tãos.

Não exis­tia um grupo uni­fi­cado cha­mado de “gnós­ti­cos”, mas os his­to­ri­a­do­res agru­pam sob essa alcu­nha uma série de cul­tos que pulu­la­ram nos pri­mei­ros sécu­los cris­tãos, e que che­ga­ram a ser mais nume­ro­sos e popu­la­res do que a cor­rente cristã hoje nome­ada como orto­doxa, que daria ori­gem à Igreja Cató­lica.

O Cris­ti­a­nismo em si é uma crença cons­pi­ra­tó­ria no sen­tido stricto que venho men­ci­o­nando: acre­dita-se em uma única divin­dade, Javé, e esse ser teria cri­ado tudo o que existe e per­ma­ne­ce­ria nos jul­gando do alto de um não-lugar, para que no final nos­sos atos morais e imo­rais fos­sem con­ta­bi­li­za­dos e nós fôs­se­mos man­da­dos para o Céu ou para o Inferno, como uma ver­são atu­a­li­zada do Tri­bu­nal de Osí­ris, mas sem a pena.

"O leão não vai comer ninguém. Ele é só uma ilusão do Demiurgo."

O leão não vai comer nin­guém. Ele é só uma ilu­são do Demiurgo.”

Os gnós­ti­cos eram cris­tãos, mas um tipo bem espe­cial, se pen­sar­mos no Cris­ti­a­nismo que ven­ceu a bata­lha de memes e sobre­vi­veu aos dias de hoje. Segundo eles, Javé seria uma espé­cie de Demiurgo ape­nas, uma divin­dade infe­rior e caída, cri­a­dora do mundo mate­rial, cor­rom­pido e imper­feito por natu­reza; em suma, o deus que apa­rece no Antigo Tes­ta­mento. A ver­da­deira divin­dade, a do Novo Tes­ta­mento, a digna de ser cul­tu­ada, seria Sophia, a mãe do Demiurgo — tam­bém cha­mado em alguns tex­tos gnós­ti­cos de Ial­da­ba­oth. E a ideia fun­da­men­tal, tal­vez o que real­mente pos­si­bi­lite cha­mar cor­ren­tes cris­tãs tão dife­ren­tes de gnós­ti­cas, é a refe­rên­cia à gno­sis (conhe­ci­mento, em grego), o conhe­ci­mento secreto que cada ser humano teria que aces­sar inte­ri­or­mente para che­gar à Ver­dade Suprema.

Esses cris­tãos mís­ti­cos enxer­ga­vam todo o resto como seres delu­di­dos, enga­na­dos, per­se­guindo ver­da­des super­fi­ci­ais e fal­sas.

O Judaísmo ficou conhe­cido como “a reli­gião do livro”, e o Cris­ti­a­nismo, ini­ci­al­mente ape­nas uma seita judaica mar­gi­nal, pegou carona. Mas, ape­sar dessa pecu­li­a­ri­dade em rela­ção aos cre­dos pagãos, pode­mos dizer que todas as cren­ças, todos os cre­dos ao longo da jor­nada do Homo sapi­ens sapi­ens por aqui, são mar­ca­das por his­tó­rias. Nar­ra­mos a nossa vida pes­soal e isso é o que nos ajuda a achar coe­rên­cia tele­o­ló­gica nela. Faze­mos a mesma coisa com a his­tó­ria da civi­li­za­ção ou com o Cos­mos. Somos vici­a­dos nisso, e nes­ses con­tos tam­bém expli­ci­ta­mos nossa mania de cons­pi­ra­ção.

A ficção científica, a mitologia moderna por excelência; e o fundo da conspiração contemporânea

Hoje em dia não escre­ve­mos mais mitos como uma ten­ta­tiva de dar sig­ni­fi­cado à exis­tên­cia, mas escre­ve­mos his­tó­rias assu­mi­da­mente fic­tí­cias que não dei­xam de cap­tu­rar esse mesmo desejo humano pri­mal.

His­tó­rias de fic­ção cien­tí­fica, um gênero his­to­ri­ca­mente recente, desen­vol­vem a admi­ra­ção e a crí­tica para com o mundo tec­no­ló­gico em que vive­mos, um mundo domi­nado pelo pen­sa­mento cien­tí­fico. E tal­vez seja nesse gênero que a cen­te­lha da cons­pi­ra­ção se mani­feste de maneira mais ele­gante e sedu­to­ra­mente crí­vel para o ser humano con­tem­po­râ­neo.

Phi­lip K. Dick, por exem­plo, se con­sa­grou por escre­ver um sub­gê­nero da fic­ção cien­tí­fica rela­ci­o­nado à espe­cu­la­ção sobre a natu­reza última da rea­li­dade. Ao con­trá­rio de Pla­tão, dos cris­tãos orto­do­xos ou dos gnós­ti­cos, Dick era capaz de cons­truir uma rea­li­dade por trás da rea­li­dade, como bone­cas rus­sas, mas que não tinham a ver exa­ta­mente com algo trans­cen­den­tal e espi­ri­tual. A Rea­li­dade (em maiús­cu­las mesmo) pode­ria ser um mundo de seres em 4D, cri­a­tu­ras de um uni­verso para­lelo, huma­nos futu­ris­tas ou qual­quer coisa do tipo.

"Eles estão achando que eu sou o Philip K. Dick, mas na realidade sou um replicante."

Eles estão achando que eu sou o Phi­lip K. Dick, mas na rea­li­dade sou um repli­cante.”

Essa migra­ção da espe­cu­la­ção sobre o cerne da Rea­li­dade da esfera meta­fí­sica reli­gi­osa para uma meta­fí­sica mais téc­nica e fisi­ca­lista é notada muito cla­ra­mente se for­mos com­pa­rando os mitos anti­gos com as his­tó­rias con­ta­das pelos huma­nos moder­nos e con­tem­po­râ­neos. Se a reli­gião tem o papel prin­ci­pal quanto à epis­te­mo­lo­gia numa soci­e­dade, temos uma Rea­li­dade reli­gi­osa; se é a ciên­cia que tem esse papel epis­te­mo­ló­gico alfa, temos a Rea­li­dade como algo tec­no­ló­gico, orgâ­nico.

Em Valis, livro meio auto­bi­o­grá­fico que aca­bei de ler, paira o ques­ti­o­na­mento sobre a real natu­reza de uma expe­ri­ên­cia enig­má­tica que Hor­se­lo­ver (sim, uma tra­du­ção do nome Phi­lip, do grego filos + hypos = o que gosta de cava­los) teve: teria sido uma mera para­noia gnós­tica? Comu­ni­ca­ção com ali­ens? Alguma expe­ri­ên­cia bizarra do governo? Alguma inte­li­gên­cia arti­fi­cial ter­rena ou ali­e­ní­gena? Êxtase mís­tico?

De qual­quer forma, Hor­se­lo­ver parece cum­prir a dire­triz básica do cons­pi­ra­ci­o­nista ilu­mi­nado: só ele teve acesso a uma expe­ri­ên­cia que o con­ven­ceu de que o mundo como o conhe­ce­mos é uma cor­tina que tapa uma rea­li­dade tra­seira bem mais ampla; somente ele enxerga nesse mundo ilu­só­rio as evi­dên­cias que con­fir­ma­riam sua hipó­tese prin­ci­pal, ou por­que é mais esperto que os outros ou por­que foi esco­lhido para ser o con­duíte da Reve­la­ção.

Esse pro­lí­fico autor de fic­ção cien­tí­fica tal­vez tenha muito em comum com dois expo­en­tes da fic­ção cien­tí­fica tele­vi­siva pos­te­ri­o­res à sua pro­du­ção, Arquivo X e Matrix.

Ora, Scully, isso aqui é uma óbvia prova de que a ciência não é neutra. Claro que esses resultados foram forjados para acobertar uma conspiração entre grays e a indústria farmacêutica"

Ora, Scully, isso aqui é uma óbvia prova de que a ciên­cia não é neu­tra. Claro que esses resul­ta­dos foram for­ja­dos para aco­ber­tar uma cons­pi­ra­ção entre grays e a indús­tria far­ma­cêu­tica”

Não sei se é con­senso entre espe­ci­a­lis­tas, mas me parece que para as pes­soas nas­ci­das dos anos 90 para cá, essas duas his­tó­rias foram as intro­du­ções pop à fic­ção cien­tí­fica para quem não viu fil­mes mais anti­gos, ou que não tinha o cos­tume de ler fic­ções mais clás­si­cas, tipo o pró­prio Dick ou Asi­mov.

Curi­o­sa­mente, tanto Matrix e Arquivo X tem mui­tís­simo em comum tanto com o Gnos­ti­cismo (e, con­se­quen­te­mente, com Pla­to­nismo, Neo­pla­to­nismo e Cris­ti­a­nismo) quanto com Dick.

Arquivo X foi uma série que mos­trou o dia-a-dia de dois agen­tes do FBI: Mul­der e Scully. O pri­meiro, um faná­tico por len­das urba­nas e coi­sas do gênero, que diz ter tes­te­mu­nhado a abdu­ção de sua irmã quando ambos eram cri­an­ças. Scully, a médica cética que repre­senta o freio da razão sobre os voos quase psi­có­ti­cos de Mul­der.

Matrix, filme que mos­tra um futuro pós-apo­ca­líp­tico em que o mundo foi domi­nado por uma I.A. que apri­si­o­nou os huma­nos numa rea­li­dade vir­tual que visa nos man­ter entre­ti­dos numa suposta ‘rea­li­dade’, enquanto não pas­sa­mos de bate­rias para esses orga­nis­mos ciber­né­ti­cos na rea­li­dade ver­da­deira (pra invo­car aqui um ple­o­nasmo neces­sá­rio).

Um pro­blema que todas essas abor­da­gens ten­tam res­pon­der é o do cerne da rea­li­dade.

Interesses sociais como a esfera mais básica da realidade? Hã… Não.

De Pla­tão, pas­sando pelos mais plu­rais cris­ti­a­nis­mos, até Fox Mul­der, Scully e os rebel­des de Zion ou Sião, todos são pes­soas com far­pas na mente, com um forte sen­ti­mento de que o que é apa­rente aos nos­sos sen­ti­dos, à nossa cog­ni­ção, é inter­li­gado semân­tica e tele­o­lo­gi­ca­mente por alguma causa oculta.

Isso é evi­dente até mesmo quando saí­mos des­sas dis­cus­sões sobre a Rea­li­dade (onto­lo­gia) e aden­tra­mos em esfe­ras que pare­cem ter menos essa pre­o­cu­pa­ção de dis­tin­guir a rea­li­dade da fal­si­dade, ao menos num sen­tido explí­cito.

Quando cien­tis­tas soci­ais des­con­si­de­ram todo o jogo de regras inter­nas da ciên­cia (o pró­prio método cien­tí­fico) e con­di­ci­o­nam o resul­tado de uma pes­quisa aos vie­ses e rela­ções soci­ais dos cien­tis­tas, isso é uma esco­lha onto­ló­gica tam­bém, e bem cons­pi­ra­tó­ria — por mais que seja um tan­ti­nho bizarro redu­zir a rea­li­dade ao social, pois obvi­a­mente a esfera soci­o­ló­gica só pode exis­tir se outras mais bási­cas vie­rem na frente, como a Física.

"Essas balas apenas ocultam a luta de classes subjacente. Basta um "não passará" e desconstruirei o conceito de "projétil em alta velocidade".

- Essas balas ape­nas ocul­tam a luta de clas­ses sub­ja­cente. Basta um “não pas­sará!” e des­cons­trui­rei o con­ceito opres­sor de “pro­jé­til dis­pa­rado em alta velo­ci­dade”.

Esse tipo de equí­voco às vezes é trans­por­tado para as ciên­cias “mais duras”, como a Quí­mica ou a Bio­lo­gia, o que tam­bém reflete na Medi­cina — que não é bem uma ciên­cia, mas é uma clí­nica que se baseia em resul­ta­dos de pes­qui­sas cien­tí­fi­cas. Esse é o caso que citei no iní­cio do texto, envol­vendo a cura do cân­cer e o com­posto fos­fo­e­ta­no­la­mina.

A des­peito dos deta­lhes mais caver­no­sos dessa ques­tão, pode­mos ver que ali está pre­sente um meca­nismo repe­ti­tivo: a cons­pi­ra­ção da indús­tria far­ma­cêu­tica, que por sua vez tem cone­xão com a ideia implí­cita de que os inte­res­ses econô­mi­cos e soci­ais estão na frente do método cien­tí­fico. Segundo essa con­cep­ção, seriam esses inte­res­ses que gui­a­riam os acon­te­ci­men­tos, na rea­li­dade.

Não quero exi­mir a ciên­cia dessa his­tó­ria, porém. De acordo com a ideia que quis tra­zer aqui, a ciên­cia tam­bém é, no fundo, o des­ve­la­mento de uma rea­li­dade oculta às for­mas ordi­ná­rias de inves­ti­ga­ção, como o senso comum. Mas, tal­vez, o que faça com que a ciên­cia repre­sente a melhor das for­mas de conhe­ci­mento é que há um método, um con­trole sobre variá­veis, e isso dimi­nui bas­tante a ten­dên­cia natu­ral de defor­mar­mos a inves­ti­ga­ção por conta dos nos­sos vie­ses.

Mas isso não tem nada a ver com o cons­pi­ra­ci­o­nismo tolo e banal. O banal é aquele que você usa e con­ti­nua usando para expli­car as der­ro­tas segui­das de seu time no Cam­pe­o­nato Bra­si­leiro, afi­nal, sua equipe é tão boa que ela só pode per­der por causa de algum mega com­plô que no final das con­tas vai expli­car uma der­rota aceita em troca de lucro.

No entanto, não pode­mos nos ilu­dir sobre o poder de aban­do­nar essa ten­dên­cia. O raci­o­cí­nio cons­pi­ra­tó­rio, em essên­cia, é como o pen­sa­mento clas­si­fi­ca­dor pró­prio de nossa espé­cie, que gera mui­tas mara­vi­lhas, mas que tam­bém gera o pre­con­ceito e a dis­cri­mi­na­ção.

Da mesma forma, o teor cons­pi­ra­tó­rio da estru­tura dos nos­sos pen­sa­men­tos e infe­rên­cias sobre a rea­li­dade nos aju­dam a bus­car variá­veis laten­tes que expli­cam o que obser­va­mos no mundo, e é gra­ças a isso que sur­gem mara­vi­lhas como a ciên­cia e a filo­so­fia. Entre­tanto, lem­bre-se que tam­bém é gra­ças a isso que surge o ceti­cismo sobre a ida do homem à Lua, sobre ali­e­ní­ge­nas que vem à Terra só pra estri­par vacas, ou com­plôs sobre uma Nova Ordem Mun­dial — o que, em suma, não passa de para­noia entre­me­ada de alguma sofis­ti­ca­ção inte­lec­tual.


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Ceti­cismo cien­tí­fico: você está fazendo isso errado

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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