Compaixão, ou como lembrar-se que você é humano

Compaixão, ou como lembrar-se que você é humano

Em Comportamento, Consciência por Diogo DesideratiComentário

Um dos pila­res dos ensi­na­men­tos budis­tas é a prá­tica da com­pai­xão. Mais do que isso, é a com­pai­xão como estado cons­tante da mente, um estilo de vida que retira o foco de si para tomar o sofri­mento do nosso pró­ximo como cen­tral em nossa exis­tên­cia.

Claro que, para mui­tos, essa afir­ma­tiva pode pare­cer exa­ge­rada, coisa rele­gada aos san­tos mon­ges dos tem­plos no Tibet, ou, mais pró­ximo de nós, aos mon­ges Fran­cis­ca­nos. A ver­dade é que cada vez mais a ciên­cia encon­tra razões para que acre­di­te­mos em duas coi­sas: a com­pai­xão faz bem a todos, para nossa saúde men­tal e física. Em suma, a antiga sabe­do­ria budista estava certa. A outra coisa é que, ao con­trá­rio do que parece, essa habi­li­dade social pode, sim, ser apren­dida e, para nosso alí­vio, é mais sim­ples do que parece.

Compaixão é acessível a todos.

Você não pre­cisa dedi­car a sua vida a isso, mas com­pai­xão é aces­sí­vel a todos.

E por que é sim­ples? Segundo alguns psi­có­lo­gos e outros cien­tis­tas, isso se deve à impor­tân­cia que a com­pai­xão exer­ceu durante a evo­lu­ção da espé­cie humana, o que fez com que ela seja con­si­de­rada o nosso mais básico ins­tinto social.

Antes de pros­se­guir­mos com este texto, cabe aqui uma dife­ren­ci­a­ção entre empa­tia, altruísmo e com­pai­xão.

Empa­tia é a expe­ri­ên­cia vis­ce­ral de sen­ti­men­tos alheios aos seus. Por isso pes­soas com mai­o­res níveis de empa­tia têm difi­cul­dade para assis­tir vídeos de gente se ferindo e se escon­dem em ago­nia no sofá enquanto a famí­lia dá gar­ga­lha­das com as video-cas­se­ta­das no Faus­tão.

Altruísmo está mais rela­ci­o­nado ao ato: é uma ação que bene­fi­cia alguém. Como é algo que rela­ci­ona à ação, ela pode estar des­vin­cu­lada do sen­ti­mento de empa­tia. Por exem­plo, fazer doa­ções para se obter isen­ção fis­cal, prá­tica muito comum.

Final­mente, a com­pai­xão é algo ainda mais vis­ce­ral do que a empa­tia, ela é uma res­posta emo­ci­o­nal quando se per­cebe o sofri­mento alheio e envolve um desejo autên­tico de aju­dar.

Esse sen­ti­mento, estu­dos indi­cam, é encon­trado em várias espé­cies, como em ratos, em chim­pan­zés e em huma­nos desde a mais tenra idade. Isso traz ele­men­tos para cor­ro­bo­rar que esse ins­tinto fora her­dado de nos­sos ances­trais mamí­fe­ros mais dis­tan­tes que esbo­ça­vam com­por­ta­mento social como pode ser obser­vado em vari­a­dos gru­pos hoje, como os suri­ca­tos, pri­ma­tas e feli­nos que deci­dem criar filho­tes de outras espé­cies, ape­nas para citar alguns exem­plos.

Por ser tão vis­ce­ral, o esforço para se alcan­çar tal poten­cial não é um esforço her­cú­leo, mas obvi­a­mente isso varia de pes­soa para pes­soa. Somos seres com­ple­xos e nos­sos ins­tin­tos são con­di­ci­o­na­dos pelo nosso ambi­ente, nossa edu­ca­ção, situ­a­ção finan­ceira, cri­a­ção, trau­mas. Enfim, nossa pro­gra­ma­ção mais básica está sub­ju­gada aos upgra­des que rece­be­mos ao longo do tempo.

Por ter per­sis­tido em nosso per­curso evo­lu­tivo, a com­pai­xão deve ter tra­zido bene­fí­cios que melho­ra­ram nossa capa­ci­dade de sobre­vi­ver, certo? Bem, além da obvi­e­dade que é o fato de que para cri­a­tu­ras soci­ais ter com­pai­xão melhora muito as pos­si­bi­li­da­des daquela comu­ni­dade se per­pe­tuar, exis­tem bene­fí­cios outros ao nível indi­vi­dual que nos indica sua impor­tân­cia para, até mesmo, um aumento em nossa expec­ta­tiva de vida.

Compaixão: Suricatos vivem em sociedades complexas baseada em cooperação. E nós?

Suri­ca­tos vivem em soci­e­da­des com­ple­xas base­a­das em coo­pe­ra­ção. E nós?

Pri­meiro: atos de com­pai­xão dão um barato. Sim, isso mesmo. Pes­qui­sa­do­res do Ins­ti­tuto Naci­o­nal de Saúde, nos EUA, des­co­bri­ram, atra­vés de exa­mes de neu­roi­ma­gem, que as regiões res­pon­sá­veis pelo pra­zer no cére­bro (comer um bri­ga­deiro, rece­ber um pre­sente, sexo) ficam tão ati­vas quando se observa alguém rece­bendo dinheiro quanto quando nós mes­mos rece­be­mos dinheiro.

Na ver­dade, existe um famoso estudo con­du­zido pela pes­qui­sa­dora Eli­za­beth Dunn, da Uni­ver­si­dade da Colúm­bia Bri­tâ­nica no Canadá, onde ela sepa­rou dois gru­pos de indi­ví­duos e deu a cada um deles a mesma quan­ti­dade de dinheiro. Para um grupo foi dada a ins­tru­ção de que gas­tas­sem con­sigo mes­mos, para o outro foi-lhes dito que gas­tas­sem com outras pes­soas. O que ela des­co­briu foi que aque­les que gas­ta­ram o dinheiro com outras pes­soas apre­sen­ta­ram um nível de feli­ci­dade que era maior e mais dura­douro do que o apre­sen­tado pelo grupo que gas­tou o dinheiro con­sigo mesmo.

O sim­ples fato de ser tão pra­ze­roso é um forte indi­ca­tivo de melhora na sobre­vi­vên­cia da espé­cie: o pra­zer dimi­nui a infla­ma­ção nas célu­las rela­ci­o­nada ao stress, melhora a moti­va­ção e nos impele a repe­tir aquela tarefa, o que melhora o apren­di­zado.

Outro fator impor­tante é que a com­pai­xão muda o foco de nos­sas vidas de um auto-cen­tra­mento exces­sivo para aumen­tar nossa visão de mundo, tirando o foco de si e colo­cando nos outros. Evi­dên­cias indi­cam que tal mudança ajuda a com­ba­ter trans­tor­nos que têm como base o foco no “eu”, como por exem­plo, a ansi­e­dade e a depres­são. Tal­vez você mesmo já tenha expe­ri­men­tado isso, quando, numa tarde cin­zenta em que a depres­são estava batendo à porta, o tele­fone toca e é um amigo que pre­cisa de ajuda. Nor­mal­mente toda aquela gra­vi­dade que te pren­dia ao sofá desa­pa­rece e você sente força e moti­va­ção para ir aju­dar seu amigo. E, mui­tas vezes, nesse pro­cesso, tira­mos novas con­clu­sões e muda­mos nossa pers­pec­tiva até mesmo sobre nos­sos pró­prios pro­ble­mas.

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E esse é o ter­ceiro bene­fí­cio da com­pai­xão: ela for­ta­lece vín­cu­los com os outros, sejam conhe­ci­dos ou não. Na ver­dade um estudo indica que a falta de cone­xões soci­ais pode ser mais pre­ju­di­cial para a saúde do que fumar, ser obeso ou ter pres­são alta. Enquanto man­ter laços soci­ais sau­dá­veis aumenta em até 50% a sua lon­ge­vi­dade. Ima­gine o outro lado daquele tele­fo­nema: e se seu amigo não tivesse para quem ligar?

Outros fatos sobre a com­pai­xão: ela nor­mal­mente ali­menta uma rea­ção em cadeia. Um estudo rea­li­zado por James Fowler da Uni­ver­si­dade da Cali­fór­nia indica que uma ação de com­pai­xão ins­pira outra quase todas as vezes. É essa a lógica do cha­mado “café pen­dente”, uma prá­tica cada vez mais comum ao redor do mundo onde um con­su­mi­dor deixa um café pago para quem qui­ser tomar, o que ajuda mui­tos mora­do­res de rua a se aque­ce­rem no inverno.

Mas, como cultivar esse estilo de vida?

Bem, como todo apren­di­zado ele envolve mais prá­tica do que teo­ria, a qual foi esbo­çada nes­sas bre­ves linhas. Caso você tenha um per­fil mais aca­dê­mico e domine o inglês, vou dei­xar ao fim do artigo uma série de arti­gos sobre o tema.

Uma das prá­ti­cas mais uti­li­za­das é a medi­ta­ção dire­ci­o­nada para a com­pai­xão, uma prá­tica que em pou­cos minu­tos pode tra­zer mui­tos bene­fí­cios para o longo prazo. Ela é uma vari­a­ção da cha­mada medi­ta­ção para o mind­ful­ness (sobre a qual fala­rei em breve), onde as ima­gens men­tais uti­li­za­das não são as de paz e tran­qui­li­dade, mas sim ter em mente pes­soas as quais você sabe esta­rem sofrendo por algum motivo, ao mesmo tempo em que se deseja que aquela pes­soa fique bem, que suas tri­bu­la­ções aca­bem e que a paz possa ser alcan­çada.

Há de se man­ter em mente que o foco não são as ima­gens em si. Afi­nal, elas podem des­per­tar sen­ti­men­tos muito ruins e esse não é obje­tivo. Sua aten­ção deve estar vol­tada, por­tanto, para o sen­ti­mento de com­pai­xão que você desen­volve ao visu­a­li­zar aquela ima­gem e a dese­jar o fim daquela situ­a­ção desa­gra­dá­vel. O uso de ima­gens men­tais é tão pode­roso que estu­dos indi­cam que a ati­vi­dade da amíg­dala se torna mais regu­lá­vel, ou seja, pes­soas que pra­ti­cam medi­ta­ção aca­bam por ter uma melhor capa­ci­dade para regu­lar a pró­pria emo­ção. Con­don, Mil­ler, Des­bor­des, e DeS­teno, pes­qui­sa­do­res, indi­cam que 8 sema­nas dessa prá­tica é sufi­ci­ente para mudar a pos­tura de uma pes­soa com rela­ção à com­pai­xão quase que total­mente. É como se fosse uma simu­la­ção e, como todo simu­la­dor, com o tempo e prá­tica nota­mos os efei­tos fora do simu­la­dor.

Compaixão: Se um café pode fazer a diferença na sua vida onde você toma todos os dias, imagina na vida de quem mal tem água para beber?

Se um café pode fazer a dife­rença na sua vida onde você toma todos os dias, ima­gina na vida de quem mal tem água para beber?

E, fora desse simu­la­dor, tam­bém pode­mos pra­ti­car a com­pai­xão nos enga­jando em prá­ti­cas como o tra­ba­lho volun­tá­rio, doa­ção de obje­tos (indo lá entre­gar, obvi­a­mente), ou sim­ples­mente dando lugar para a grá­vida no ôni­bus, o idoso ou para alguém que parece muito can­sado.

Agora quero tra­zer para você uma das coi­sas mais ricas sobre a com­pai­xão: a auto-com­pai­xão.

É comum que nossa soci­e­dade ori­en­tada para o sucesso, para rea­li­za­ção, acabe por ele­var nosso nível de cobrança pes­soal a pata­ma­res alar­man­tes. Somos huma­nos, come­te­mos erros e esses são fun­da­men­tais para o nosso apren­di­zado. Entre­tanto, essa ideia de erro como algo posi­tivo parece ter desa­pa­re­cido da nossa cul­tura. Como con­sequên­cia, nos cobra­mos demais, exi­gi­mos demais dos outros e temos muito baixa tole­rân­cia para as falhas. E isso gera estresse, ansi­e­dade, angús­tia, des­perta trans­tor­nos e, prin­ci­pal­mente, gera res­sen­ti­mento.

O que pode ser mais danoso do que estar­mos res­sen­ti­dos com nós mes­mos?

A nossa capa­ci­dade de per­doar está limi­tada e, usu­al­mente, aca­ba­mos por esque­cer de nos per­do­ar­mos. E esse deve­ria ser o tipo de com­pai­xão mais sim­ples, por quê? Vamos usar uma frase de Elvis Pres­ley, o rei do rock, para expli­car:

“Antes que você me acuse, critique ou explore, ande uma milha nos meus sapatos.” - Elvis Presley

Antes que você me acuse, cri­ti­que ou explore, ande uma milha nos meus sapa­tos.” — Elvis Pres­ley

Ainda que esta frase se dire­ci­one ao sen­ti­mento que dire­ci­o­nar­mos aos outros, fica clara uma coisa: nós anda­mos uma milha e muito mais com tais sapa­tos. Isso quer dizer que conhe­ce­mos melhor do que nin­guém a nossa pró­pria his­tó­ria, nos­sas dores, sofri­men­tos, vaci­los e medos. Então, se fir­mar­mos um com­pro­misso de nos tor­nar­mos pes­soas melho­res, de apren­der­mos a nos amar, pode­mos ter com­pai­xão por nós mes­mos, lem­brando que somos huma­nos, máqui­nas imper­fei­tas, pro­pen­sas a erros e que isso não diz menos sobre o seu cará­ter ou que você não presta, como vejo mui­tos paci­en­tes, ami­gos e fami­li­a­res pen­sando. Não estou falando daquela auto-pie­dade indul­gente que serve para nunca evo­luir­mos e jus­ti­fi­car­mos nos­sas caga­das sem nunca sair­mos do lugar. A auto-com­pai­xão é ter em mente que há um sen­ti­mento vis­ce­ral de aju­dar a si mesmo a se levan­tar desse lugar de sofri­mento em busca de algo melhor. Esse sen­ti­mento é extre­ma­mente pode­roso pois nutre um amor pró­prio que pou­cos expe­ri­men­tam, afi­nal, “cada um sabe onde lhe aperta o calo”.


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Diogo Desiderati
Psicólogo de carteirinha e de coração, apaixonado pela vida e pelos mistérios dela. Tenho verdadeiro amor pelo desenvolvimento pessoal, ou seja dar um passo a mais em direção a ser hoje uma pessoa melhor do que se foi ontem. Também tenho forte ligação com as filosofias taoistas e budistas, o que reflete em meu temperamento zen.

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