Um dos pilares dos ensinamentos budistas é a prática da compaixão. Mais do que isso, é a compaixão como estado constante da mente, um estilo de vida que retira o foco de si para tomar o sofrimento do nosso próximo como central em nossa existência.

Claro que, para muitos, essa afirmativa pode parecer exagerada, coisa relegada aos santos monges dos templos no Tibet, ou, mais próximo de nós, aos monges Franciscanos. A verdade é que cada vez mais a ciência encontra razões para que acreditemos em duas coisas: a compaixão faz bem a todos, para nossa saúde mental e física. Em suma, a antiga sabedoria budista estava certa. A outra coisa é que, ao contrário do que parece, essa habilidade social pode, sim, ser aprendida e, para nosso alívio, é mais simples do que parece.

Compaixão é acessível a todos.
Você não precisa dedicar a sua vida a isso, mas compaixão é acessível a todos.

E por que é simples? Segundo alguns psicólogos e outros cientistas, isso se deve à importância que a compaixão exerceu durante a evolução da espécie humana, o que fez com que ela seja considerada o nosso mais básico instinto social.

Antes de prosseguirmos com este texto, cabe aqui uma diferenciação entre empatia, altruísmo e compaixão.

Empatia é a experiência visceral de sentimentos alheios aos seus. Por isso pessoas com maiores níveis de empatia têm dificuldade para assistir vídeos de gente se ferindo e se escondem em agonia no sofá enquanto a família dá gargalhadas com as video-cassetadas no Faustão.

Altruísmo está mais relacionado ao ato: é uma ação que beneficia alguém. Como é algo que relaciona à ação, ela pode estar desvinculada do sentimento de empatia. Por exemplo, fazer doações para se obter isenção fiscal, prática muito comum.

Finalmente, a compaixão é algo ainda mais visceral do que a empatia, ela é uma resposta emocional quando se percebe o sofrimento alheio e envolve um desejo autêntico de ajudar.

Esse sentimento, estudos indicam, é encontrado em várias espécies, como em ratos, em chimpanzés e em humanos desde a mais tenra idade. Isso traz elementos para corroborar que esse instinto fora herdado de nossos ancestrais mamíferos mais distantes que esboçavam comportamento social como pode ser observado em variados grupos hoje, como os suricatos, primatas e felinos que decidem criar filhotes de outras espécies, apenas para citar alguns exemplos.

Por ser tão visceral, o esforço para se alcançar tal potencial não é um esforço hercúleo, mas obviamente isso varia de pessoa para pessoa. Somos seres complexos e nossos instintos são condicionados pelo nosso ambiente, nossa educação, situação financeira, criação, traumas. Enfim, nossa programação mais básica está subjugada aos upgrades que recebemos ao longo do tempo.

Por ter persistido em nosso percurso evolutivo, a compaixão deve ter trazido benefícios que melhoraram nossa capacidade de sobreviver, certo? Bem, além da obviedade que é o fato de que para criaturas sociais ter compaixão melhora muito as possibilidades daquela comunidade se perpetuar, existem benefícios outros ao nível individual que nos indica sua importância para, até mesmo, um aumento em nossa expectativa de vida.

Compaixão: Suricatos vivem em sociedades complexas baseada em cooperação. E nós?
Suricatos vivem em sociedades complexas baseadas em cooperação. E nós?

Primeiro: atos de compaixão dão um barato. Sim, isso mesmo. Pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde, nos EUA, descobriram, através de exames de neuroimagem, que as regiões responsáveis pelo prazer no cérebro (comer um brigadeiro, receber um presente, sexo) ficam tão ativas quando se observa alguém recebendo dinheiro quanto quando nós mesmos recebemos dinheiro.

Na verdade, existe um famoso estudo conduzido pela pesquisadora Elizabeth Dunn, da Universidade da Colúmbia Britânica no Canadá, onde ela separou dois grupos de indivíduos e deu a cada um deles a mesma quantidade de dinheiro. Para um grupo foi dada a instrução de que gastassem consigo mesmos, para o outro foi-lhes dito que gastassem com outras pessoas. O que ela descobriu foi que aqueles que gastaram o dinheiro com outras pessoas apresentaram um nível de felicidade que era maior e mais duradouro do que o apresentado pelo grupo que gastou o dinheiro consigo mesmo.

O simples fato de ser tão prazeroso é um forte indicativo de melhora na sobrevivência da espécie: o prazer diminui a inflamação nas células relacionada ao stress, melhora a motivação e nos impele a repetir aquela tarefa, o que melhora o aprendizado.

Outro fator importante é que a compaixão muda o foco de nossas vidas de um auto-centramento excessivo para aumentar nossa visão de mundo, tirando o foco de si e colocando nos outros. Evidências indicam que tal mudança ajuda a combater transtornos que têm como base o foco no “eu”, como por exemplo, a ansiedade e a depressão. Talvez você mesmo já tenha experimentado isso, quando, numa tarde cinzenta em que a depressão estava batendo à porta, o telefone toca e é um amigo que precisa de ajuda. Normalmente toda aquela gravidade que te prendia ao sofá desaparece e você sente força e motivação para ir ajudar seu amigo. E, muitas vezes, nesse processo, tiramos novas conclusões e mudamos nossa perspectiva até mesmo sobre nossos próprios problemas.

herperlee

E esse é o terceiro benefício da compaixão: ela fortalece vínculos com os outros, sejam conhecidos ou não. Na verdade um estudo indica que a falta de conexões sociais pode ser mais prejudicial para a saúde do que fumar, ser obeso ou ter pressão alta. Enquanto manter laços sociais saudáveis aumenta em até 50% a sua longevidade. Imagine o outro lado daquele telefonema: e se seu amigo não tivesse para quem ligar?

Outros fatos sobre a compaixão: ela normalmente alimenta uma reação em cadeia. Um estudo realizado por James Fowler da Universidade da Califórnia indica que uma ação de compaixão inspira outra quase todas as vezes. É essa a lógica do chamado “café pendente”, uma prática cada vez mais comum ao redor do mundo onde um consumidor deixa um café pago para quem quiser tomar, o que ajuda muitos moradores de rua a se aquecerem no inverno.

Mas, como cultivar esse estilo de vida?

Bem, como todo aprendizado ele envolve mais prática do que teoria, a qual foi esboçada nessas breves linhas. Caso você tenha um perfil mais acadêmico e domine o inglês, vou deixar ao fim do artigo uma série de artigos sobre o tema.

Uma das práticas mais utilizadas é a meditação direcionada para a compaixão, uma prática que em poucos minutos pode trazer muitos benefícios para o longo prazo. Ela é uma variação da chamada meditação para o mindfulness (sobre a qual falarei em breve), onde as imagens mentais utilizadas não são as de paz e tranquilidade, mas sim ter em mente pessoas as quais você sabe estarem sofrendo por algum motivo, ao mesmo tempo em que se deseja que aquela pessoa fique bem, que suas tribulações acabem e que a paz possa ser alcançada.

Há de se manter em mente que o foco não são as imagens em si. Afinal, elas podem despertar sentimentos muito ruins e esse não é objetivo. Sua atenção deve estar voltada, portanto, para o sentimento de compaixão que você desenvolve ao visualizar aquela imagem e a desejar o fim daquela situação desagradável. O uso de imagens mentais é tão poderoso que estudos indicam que a atividade da amígdala se torna mais regulável, ou seja, pessoas que praticam meditação acabam por ter uma melhor capacidade para regular a própria emoção. Condon, Miller, Desbordes, e DeSteno, pesquisadores, indicam que 8 semanas dessa prática é suficiente para mudar a postura de uma pessoa com relação à compaixão quase que totalmente. É como se fosse uma simulação e, como todo simulador, com o tempo e prática notamos os efeitos fora do simulador.

Compaixão: Se um café pode fazer a diferença na sua vida onde você toma todos os dias, imagina na vida de quem mal tem água para beber?
Se um café pode fazer a diferença na sua vida onde você toma todos os dias, imagina na vida de quem mal tem água para beber?

E, fora desse simulador, também podemos praticar a compaixão nos engajando em práticas como o trabalho voluntário, doação de objetos (indo lá entregar, obviamente), ou simplesmente dando lugar para a grávida no ônibus, o idoso ou para alguém que parece muito cansado.

Agora quero trazer para você uma das coisas mais ricas sobre a compaixão: a auto-compaixão.

É comum que nossa sociedade orientada para o sucesso, para realização, acabe por elevar nosso nível de cobrança pessoal a patamares alarmantes. Somos humanos, cometemos erros e esses são fundamentais para o nosso aprendizado. Entretanto, essa ideia de erro como algo positivo parece ter desaparecido da nossa cultura. Como consequência, nos cobramos demais, exigimos demais dos outros e temos muito baixa tolerância para as falhas. E isso gera estresse, ansiedade, angústia, desperta transtornos e, principalmente, gera ressentimento.

O que pode ser mais danoso do que estarmos ressentidos com nós mesmos?

A nossa capacidade de perdoar está limitada e, usualmente, acabamos por esquecer de nos perdoarmos. E esse deveria ser o tipo de compaixão mais simples, por quê? Vamos usar uma frase de Elvis Presley, o rei do rock, para explicar:

“Antes que você me acuse, critique ou explore, ande uma milha nos meus sapatos.” - Elvis Presley
“Antes que você me acuse, critique ou explore, ande uma milha nos meus sapatos.” – Elvis Presley

Ainda que esta frase se direcione ao sentimento que direcionarmos aos outros, fica clara uma coisa: nós andamos uma milha e muito mais com tais sapatos. Isso quer dizer que conhecemos melhor do que ninguém a nossa própria história, nossas dores, sofrimentos, vacilos e medos. Então, se firmarmos um compromisso de nos tornarmos pessoas melhores, de aprendermos a nos amar, podemos ter compaixão por nós mesmos, lembrando que somos humanos, máquinas imperfeitas, propensas a erros e que isso não diz menos sobre o seu caráter ou que você não presta, como vejo muitos pacientes, amigos e familiares pensando. Não estou falando daquela auto-piedade indulgente que serve para nunca evoluirmos e justificarmos nossas cagadas sem nunca sairmos do lugar. A auto-compaixão é ter em mente que há um sentimento visceral de ajudar a si mesmo a se levantar desse lugar de sofrimento em busca de algo melhor. Esse sentimento é extremamente poderoso pois nutre um amor próprio que poucos experimentam, afinal, “cada um sabe onde lhe aperta o calo”.


Você pode querer ler também:

Cinco dicas para entender a meditação
12 joias da sabedoria budista que transformarão sua vida

escrito por:

Diogo Desiderati

Psicólogo de carteirinha e de coração, apaixonado pela vida e pelos mistérios dela. Tenho verdadeiro amor pelo desenvolvimento pessoal, ou seja dar um passo a mais em direção a ser hoje uma pessoa melhor do que se foi ontem. Também tenho forte ligação com as filosofias taoistas e budistas, o que reflete em meu temperamento zen.