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Como vencer a procrastinação

Em Comportamento, Série Procrastinação por Tim UrbanComentários

(Tra­du­ção auto­ri­zada por Tim Urban, autor do texto ori­gi­nal em inglês, publi­cado no site Wait But Why)

Esta é a Parte 2. Você não enten­derá a Parte 2 se não leu a Parte 1 ainda. Aqui está a Parte 1.


Pro-cras-ti-na-ção (subs­tan­tivo do latim pro­cras­ti­na­tio, –onis): O ato de arrui­nar sua pró­pria vida sem nenhuma razão apa­rente


Deixe-me come­çar dizendo que já me can­sei de fazer iro­nias sobre lutar con­tra a pro­cras­ti­na­ção inca­pa­ci­tante enquanto escre­via tex­tos sobre pro­cras­ti­na­ção e como superá-la. Pas­sei as duas últi­mas sema­nas sendo esse cara, que ati­rou em seu pró­prio pé enquanto falava sobre cui­da­dos ao lidar com armas, e pre­tendo vol­tar a ficar livre de iro­nias sobre pro­cras­ti­na­ção neste texto.

Algu­mas notas antes de come­çar­mos:

  • Não sou pro­fis­si­o­nal em nada disso, só um pro­cras­ti­na­dor durante a vida toda que pensa sobre esse tema o tempo todo. Eu ainda estou total­mente em guerra com meus pró­prios hábi­tos, mas eu fiz algum pro­gresso nas últi­mas sema­nas, e vou expres­sar meus pen­sa­men­tos sobre o que deu certo para mim.
  • Este texto foi publi­cado atra­sado, não só por­que levou dois mil anos para escrevê-lo, mas tam­bém por­que decidi que a noite de segunda era um momento emer­gen­cial para abrir o Goo­gle Earth, flu­tuar pou­cas cen­te­nas sobre o ponto mais ao sul da Índia e per­cor­rer todo o cami­nho pra cima na Índia até o ponto mais ao norte, para “ter uma melhor per­cep­ção da Índia”. Eu tenho pro­ble­mas.

Certo, então semana pas­sada nós mer­gu­lha­mos na bata­lha diá­ria que ocorre den­tro do pro­cras­ti­na­dor para exa­mi­nar a psi­co­lo­gia sub­ja­cente enquanto ela acon­tece. Mas esta semana, em que esta­mos na ver­dade ten­tando fazer algo em rela­ção a isso, pre­ci­sa­mos cavar ainda mais fundo. Vamos come­çar por ten­tar des­trin­char a psi­co­lo­gia do pro­cras­ti­na­dor e ver qual real­mente é a essên­cia da coisa toda.

Nós sabe­mos sobre o Macaco da Gra­ti­fi­ca­ção Ins­tan­tâ­nea (a parte do seu cére­bro que faz você pro­cras­ti­nar) e seu domí­nio sobre o Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais, mas o que está mesmo acon­te­cendo ali?

O pro­cras­ti­na­dor tem o mal hábito, fron­tei­riço ao vício, de dei­xar o macaco ven­cer. Ele ainda pre­tende con­tro­lar o macaco, mas ele coloca nisso um esforço malo­grado, usando os mes­mos méto­dos que com­pro­va­da­mente não fun­ci­o­na­ram com ele ao longo de anos, e lá no fundo ele sabe que o macaco vai ven­cer. Ele jura mudar, mas o padrão ape­nas per­ma­nece o mesmo. Por­que uma pes­soa que é efi­ci­ente em outros aspec­tos da sua vida coloca nisso um esforço inú­til e insu­fi­ci­ente repe­ti­das vezes?

A res­posta é que ele tem um auto-con­fi­ança incri­vel­mente baixa quando se trata dessa parte de sua vida, per­mi­tindo a si mesmo ser escra­vi­zado por uma pro­fe­cia auto-rea­li­zá­vel e auto­des­tru­tiva. Vamos cha­mar essa pro­fe­cia auto-rea­li­zá­vel de seu Enredo. O Enredo do pro­cras­ti­na­dor é mais ou menos assim:

Para os afa­ze­res da minha vida, aca­ba­rei espe­rando até o último minuto, entrando em pânico e então nem farei o melhor tra­ba­lho que puder nem cru­za­rei os bra­ços sem fazer coisa nenhuma. Para os afa­ze­res da minha vida, vamos ser hones­tos, ou come­ça­rei algum e aban­do­na­rei no meio ou, mais pro­va­vel­mente, nem che­ga­rei perto de come­çar.

O pro­blema do pro­cras­ti­na­dor é pro­fundo, e para ele mudar é neces­sá­rio algo mais do que “ser mais dis­ci­pli­nado” ou “mudar seus maus hábi­tos” — a raiz do pro­blema está vin­cu­lada a seu Enredo, e seu Enredo é o que ele pre­cisa mudar.

*    *    *

Antes de falar­mos sobre como mudar o Enredo, vamos exa­mi­nar, con­cre­ta­mente, o que o pro­cras­ti­na­dor quer mesmo mudar. Com o que os hábi­tos cor­re­tos se pare­cem, e onde exa­ta­mente o pro­cras­ti­na­dor se dá mal?

Há dois com­po­nen­tes em ser hábil em rea­li­zar as coi­sas de uma maneira efe­tiva e sau­dá­vel: pla­ne­jar e fazer. Vamos come­çar com a mais fácil:

 

Planejar

Pro­cras­ti­na­do­res ado­ram pla­ne­jar, algo sim­ples pois não envolve fazer, e fazer é a krip­to­nita do pro­cras­ti­na­dor.

Mas quando um pro­cras­ti­na­dor pla­neja, ele gosta de fazer isso de uma forma vaga, que não con­si­dera os deta­lhes ou a rea­li­dade muito de perto, e seu pla­ne­ja­mento deixa essas coi­sas per­fei­ta­mente con­fi­gu­ra­das para que na ver­dade não rea­lize nada. Uma ses­são de pla­ne­ja­mento do pro­cras­ti­na­dor deixa-o no pesa­delo de um rea­li­za­dor:

uma grande lista de afa­ze­res e com­pro­mis­sos inti­mi­da­do­res e obs­cu­ros.

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Uma grande lista de coi­sas vagas e inti­mi­da­do­ras faz o Macaco da Gra­ti­fi­ca­ção Ins­tan­tâ­nea rir. Quando você faz uma lista como essa, o macaco diz “ah, per­feito, isso é fácil!”. Mesmo que sua ingê­nua mente cons­ci­ente pre­tenda rea­li­zar os itens nessa lista de uma forma efi­ci­ente, o macaco sabe que, em seu incons­ci­ente, você não tem a inten­ção de fazer isso.

Pla­ne­ja­mento efe­tivo, por outro lado, pre­para você para o sucesso. Seu pro­pó­sito é Sua fina­li­dade é fazer exa­ta­mente o oposto de tudo gra­ças a essa frase:

Planejamento efetivo pega uma grande lista e seleciona um vencedor:

Uma grande lista é tal­vez uma fase ini­cial do pla­ne­ja­mento, mas pla­ne­ja­mento pre­cisa ter­mi­nar com uma pri­o­ri­za­ção rigo­rosa e um item que emerge como o ven­ce­dor — o item que você colo­cará como o pri­o­ri­tá­rio. E o item que vence deve ser aquele que tem mais sig­ni­fi­cado para você — o item mais impor­tante para a sua feli­ci­dade. Se há itens urgen­tes envol­vi­dos, esses tem de vir pri­meiro e pre­ci­sam ser cum­pri­dos tão rápido quanto pos­sí­vel a fim de abrir cami­nho para os itens impor­tan­tes (pro­cras­ti­na­do­res amam usar itens urgen­tes mas sem impor­tân­cia como des­culpa para adiar eter­na­mente os impor­tan­tes).

Planejamento efetivo desobscurece um item obscuro:

Todos nós sabe­mos o que é um item obs­curo. Um item obs­curo é vago e obs­curo, e você não tem muita cer­teza por onde come­çar, como você o rea­li­zará ou em que lugar encon­tra res­pos­tas para suas dúvi­das a res­peito dele.

Diga­mos que seu sonho é fazer seu pró­prio apli­ca­tivo, e você sabe que se você criar um apli­ca­tivo de sucesso você pode aban­do­nar seu emprego e se tor­nar um desen­vol­ve­dor em tempo inte­gral. Você tam­bém pensa que a habi­li­dade de pro­gra­mar é a alfa­be­ti­za­ção do século 21, e de qual­quer modo você não tem dinheiro para ganhar ter­cei­ri­zando o desen­vol­vi­mento do apli­ca­tivo, então você decide mar­car “Apren­der a pro­gra­mar” como o item ven­ce­dor da sua lista — a pri­o­ri­dade número um. Exci­tante, certo?

Bem, não, por­que “Apren­der a pro­gra­mar” é um item inten­sa­mente obs­curo — e cada vez que você decide que é tempo de come­çar, você coin­ci­den­te­mente tam­bém decide que sua inbox pre­cisa ser limpa e que o chão de sua cozi­nha pre­cisa ser ence­rado, . Esse item jamais aca­bará se rea­li­zando.

Para desobs­cu­re­cer esse item, você pre­cisa ler, pes­qui­sar e fazer per­gun­tas para des­co­brir exa­ta­mente como alguém aprende a pro­gra­mar, os meios neces­sá­rios e espe­cí­fi­cos para cada passo ao longo do cami­nho, e quanto tempo cada um vai durar. Desobs­cu­re­cer o item de uma lista faz com que ele passe disso:

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Para isso:

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Planejamento efetivo transforma um item intimidador em uma serie de pequenas, claras e administráveis tarefas:

A obs­cu­ri­dade de um item se com­bina com sua natu­reza inti­mi­da­dora e forma uma poção este­róide para o Macaco da Gra­ti­fi­ca­ção Ins­tan­tâ­nea. E só por­que você desobs­cu­re­ceu um item isso não sig­ni­fica que ele já não é hor­ri­vel­mente grande e inti­mi­da­dor. A chave para eli­mi­nar a natu­reza inti­mi­da­dora de um item é assi­mi­lar este fato:

Uma con­quista glo­ri­osa e notá­vel é só o que uma longa série de tare­fas nada glo­ri­o­sas e nada notá­veis se parece quando vista a grande dis­tân­cia.

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Nin­guém “cons­trói uma casa”. As pes­soas colo­cam um tijolo e depois outro e depois outro e depois outro e no final o resul­tado é uma casa. Pro­cras­ti­na­do­res são gran­des visi­o­ná­rios — eles amam fan­ta­siar sobre a bela man­são que eles um dia irão cons­truir — mas o que eles pre­ci­sam ser é ambi­ci­o­sos pedrei­ros, que meto­di­ca­mente colo­cam um tijolo após outro, dia após dia, sem desis­tir, até a casa estar cons­truída.

Pra­ti­ca­mente todo grande empre­en­di­mento pode ser redu­zido a um fun­da­men­tal con­junto de peque­nos pro­gres­sos — seus tijo­los. Uma visita de 45 minu­tos à aca­de­mia é o tijolo para se ficar em grande forma. Uma prá­tica de 30 minu­tos é o tijolo para se tor­nar um grande gui­tar­rista.

O dia típico na semana de um pre­tenso escri­tor e na semana de um ver­da­deiro escri­tor são quase idên­ti­cos. O ver­da­deiro escri­tor escreve um punhado de pági­nas, colo­cando um tijolo, e o pre­tenso escri­tor não escreve nada. 98% do resto do dias deles é idên­tico. Mas um ano depois, o ver­da­deiro escri­tor com­ple­tou o pri­meiro esboço de um livro e o pre­tenso escri­tor tem… coisa nenhuma.

Tudo tem a ver com tijo­los.

E a boa notí­cia é que colo­car um tijolo não é inti­mi­da­dor. Mas tijo­los exi­gem agen­da­mento. Então o último passo no pla­ne­ja­mento é fazer um Cro­no­grama de Tijo­los, colo­cando tijo­los em nichos no calen­dá­rio. Esses nichos não são nego­ciá­veis nem can­ce­lá­veis — afi­nal, trata-se de sua maior pri­o­ri­dade e da coisa mais impor­tante para você, não é? A data mais impo­rante é a pri­meira. Você não pode come­çar a apren­der a pro­gra­mar “em novem­bro”. Mas você pode come­çar a apren­der a pro­gra­mar em 21 de novem­bro, das 18h às 19h.

Agora que você pla­ne­jou efe­ti­va­mente, basta seguir o cro­no­grama e você se tor­nará um pro­gra­ma­dor. A única coisa que falta é fazer

Fazendo

Não é que os pro­cras­ti­na­do­res não gos­tam do con­ceito de fazer. Eles olham para os tijo­los no seu calen­dá­rio e pen­sam, “Demais, isso vai ser diver­tido!”. E isso ocorre por­que quando eles ima­gi­nam o momento no futuro em que sen­ta­rão e come­ça­rão a colo­car um tijolo, eles supõem que as coi­sas ocor­re­rão sem a pre­sença do Macado da Gra­ti­fi­ca­ção Ins­tan­tâ­nea. A visão que os pro­cras­ti­na­do­res têm do cená­rio futuro parece nunca incluir o macaco.

Mas quando chega o momento de come­çar a colo­car o tijolo no nicho pro­gra­mado, o pro­cras­ti­na­dor faz algo sen­sa­ci­o­nal — ele deixa o macaco domi­nar a situ­a­ção e arrui­nar tudo.

E já que demons­tra­mos acima que toda rea­li­za­ção se resume à habi­li­dade de colo­car um tijolo num nicho que está no seu cro­no­grama, parece que iso­la­mos aqui o cerne do con­flito. Vamos exa­mi­nar o desa­fio espe­cí­fico de colo­car um só tijolo:

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Esse dia­grama repre­senta o desa­fio pre­sente sem­pre que você se pro­põe qual­quer tarefa, seja pre­pa­rar um Power­Point para o tra­ba­lho, cor­rer para ficar em forma, tra­ba­lhar num roteiro ou qual­quer coisa que você faça na sua vida. A Entrada Crí­tica é onde você vai para ofi­ci­al­mente come­çar a tra­ba­lhar na tarefa, a Flo­resta Negra é o pro­cesso de real­mente fazer a tarefa, que uma vez con­cluída lhe con­duz como recom­pensa ao Play­ground Feliz — um lugar em que você sente satis­fa­ção e onde o lazer é agra­dá­vel e recom­pen­sa­dor pois você con­se­guiu con­cluir algo. Even­tu­al­mente você se vê super-enga­jado naquilo que você está tra­ba­lhando e entra num estado de Fluxo [http://pt.wikipedia.org/wiki/Fluxo_(psicologia)], no qual você está tão ale­gre­mente imerso na tarefa que você perde a noção do tempo.

Esses cami­nhos são mais ou menos assim:

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Parece bem sim­ples, certo?

Bom, para o azar dos pro­cras­ti­na­do­res, eles ten­dem a não che­gar no Play­ground Feliz e no Fluxo.

Por exem­plo, aqui está um pro­cras­ti­na­dor que nunca chega a come­çar a tarefa que ele deve­ria cum­prir, pois ele nunca passa pela Entrada Crí­tica. Ao invés disso, ele des­per­diça horas cha­fur­dando no Play­ground das Tre­vas, odi­ando a si mesmo:

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Aqui temos uma pro­cras­ti­na­dora que começa a tarefa, mas ela não con­se­gue man­ter seu foco, então ela fica fazendo lon­gos inter­va­los para nave­gar na inter­net e pre­pa­rar algo para comer. Ela não ter­mina con­cluindo a tarefa:

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Aqui temos um pro­cras­ti­na­dor que não con­se­guia come­çar a tarefa, mesmo com um prazo fatal se apro­xi­mando, e ele passa horas no Play­ground das Tre­vas, sabendo que o imi­nente prazo fatal está se apro­xi­mando e ele só está fazendo sua vida ficar mais difí­cil ao sequer come­çar. Even­tu­al­mente, o prazo fatal fica tão pró­ximo que o Mons­tro do Pânico repen­ti­na­mente entra urrando na sala, apa­vo­rando-o e fazendo com que ele se atire na tarefa para cum­prir o prazo.

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Após ter­mi­nar, ele se sente decente pois rea­li­zou algo, mas ele não está com­ple­ta­mente satis­feito pois ele sabe que fez um tra­ba­lho de menor qua­li­dade pois tinha muita pressa, e ele sente que des­per­di­çou a maior parte do seu dia por razão nenhuma. Isso o faz che­gar no Par­que dos Sen­ti­men­tos Con­fu­sos.

Então se você é um pro­cras­ti­na­dor, vamos obser­var o que você pre­cisa para se man­ter no cami­nho certo, aquele que lhe dei­xará muito mais feliz.

A pri­meira coisa que você pre­cisa fazer é pas­sar pela Entrada Crí­tica. Isso sig­ni­fica parar o que quer que você esteja fazendo quando chega a hora de ini­ciar uma tarefa, dei­xando todas as dis­tra­ções de lado e come­çando. Parece sim­ples, mas é a parte mais difí­cil. É aqui que o Macaco da Gra­ti­fi­ca­ção Ins­tan­tâ­nea coloca sua mais feroz resis­tên­cia:

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O macaco odeia inten­sa­mente parar algo diver­tido e come­çar algo difí­cil, e é neste momento que você pre­cisa ser mais forte. Se você con­se­guir come­çar e coa­gir o macaco a entrar na Flo­resta Negra, você já dobrou um pouco de sua von­tade.

Claro, ele não vai desis­tir assim tão fácil.

A Flo­resta Negra é onde você per­ma­nece enquanto está tra­ba­lhando. Não é um lugar diver­tido de se estar, e o Macaco da Gra­ti­fi­ca­ção Ins­tan­tâ­nea não quer ter qual­quer rela­ção com esse local. Para tor­nar as coi­sas mais difí­ceis, a Flo­resta Negra está cer­cada pelo Play­ground das Tre­vas, um dos luga­res favo­ri­tos do macaco, e já que ele pode ver o quão perto fica, tenta com todas as suas for­ças dei­xar a Flo­resta Negra.

Haverá tam­bém oca­siões em que você colide com uma árvore — tal­vez a cami­nhada para entrar em forma coloca você diante de uma ladeira que pre­cisa subir, tal­vez você pre­cise usar uma fór­mula do Excel que não conhece, tal­vez a música que você está com­pondo sim­ples­mente não está ficando do jeito que você ima­gi­nava — e esse é o momento em que o macaco fará sua ten­ta­tiva de fuga mais cora­josa.

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Não faz sen­tido tro­car a Flo­resta Negra pelo Play­ground das Tre­vas — ambos são som­brios. Ficar em ambos é desa­gra­dá­vel, mas a grande dife­rença é que a Flo­resta Negra leva à feli­ci­dade e o Play­groud das Tre­vas leva ape­nas à mais misé­ria. Mas o Macaco da Gra­ti­fi­ca­ção Ins­tan­tâ­nea não é lógico, e para ele o Play­ground das tre­vas parece muito mais diver­tido.

A boa notí­cia é que se você puder enfren­tar um pouco da Flo­resta Negra, algo curi­oso acon­tece. Fazer pro­gresso em uma tarefa pro­duz sen­ti­men­tos posi­ti­vos de rea­li­za­ção e eleva sua auto-estima. O macaco obtém sua força da baixo auto-estima, e quando você sente um sopro de satis­fa­ção con­sigo pró­prio, o macaco encon­tra uma Banana de Ele­vada Auto-estima no cami­nho. Isso não eli­mina sua resis­tên­cia intei­ra­mente, mas isso o dis­trai por um bocado de tempo, e você per­ce­berá que a neces­si­dade de pro­cras­ti­nar dimi­nuiu.

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Então, se você pros­se­gue, algo mágico acon­tece. Quando você che­gar a dois ter­ços ou três quar­tos de uma tarefa, espe­ci­al­mente se está indo bem, você começa a se sen­tir muito satis­feito com as coi­sas e, repen­ti­na­mente, o fim fica visí­vel. Esse é o Ponto Deci­sivo.

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O Ponto Deci­sivo é impor­tante por­que não é ape­nas você que sente o cheiro do Play­ground Feliz adi­ante — o macaco tam­bém pode senti-lo. Ele não se importa se a gra­ti­fi­ca­ção vem gra­ças a você ou a sua custa, ele ape­nas ama coi­sas que são fáceis e diver­ti­das. Uma vez que você atin­giu o Ponto Deci­sivo, o macaco se torna mais inte­res­sado em che­gar no Play­ground Feliz do que no Play­ground das Tre­vas. Quando isso ocorre, você perde todo seu impulso de pro­cras­ti­nar e agora você e o macaco estão cor­rendo em dire­ção ao ponto de che­gada.

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Antes que per­ceba, você ter­mi­nou e está no Play­ground Feliz. Agora, pela pri­meira vez em muito tempo, você e o macaco são um time. Ambos que­rem diver­são, e ela é fan­tás­tica por­que é mere­cida. Quando você e o macaco for­mam um time, você quase sem­pre está feliz.

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A outra coisa que pode acon­te­cer quando você pas­sar pelo Ponto Deci­sivo, depen­dendo do tipo de tarefa e do quão bem o tra­ba­lho está indo, é que você pode come­çar a se sen­tir fan­tás­tico em rela­ção ao que está fazendo, tão fan­tás­tico que con­ti­nuar a tra­ba­lhar parece muito mais diver­tido do que inter­rom­per para cur­tir ati­vi­da­des de lazer. Você se torna obse­cado com a tarefa e basi­ca­mente perde inte­resse em tudo mais, incluindo em comida e no pas­sar do tempo — isso é cha­mado Fluxo. Fluxo não é ape­nas um sen­ti­mento jubi­lante, é tam­bém onde geral­mente você rea­liza gran­des coi­sas.

O macaco é tão vici­ado em júbilo quanto você, e nova­mente ambos for­mam um time.

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Esfor­çar-se até che­gar no Ponto Deci­sivo é difí­cil, mas o que faz a pro­cras­ti­na­ção tão mais difí­cil é que o Macaco da Gra­ti­fi­ca­ção Ins­tan­tâ­nea tem uma ter­rí­vel memó­ria de curto prazo — mesmo se você foi bem suce­dido de um jeito incrí­vel na segunda-feira, quando você começa a tarefa da terça o macaco já esque­ceu de tudo e nova­mente resis­tirá a entrar na Flo­resta Negra ou nela per­ma­ne­cer.

E é por isso que per­sis­tên­cia é um com­po­nente crí­tico do sucesso. Colo­car cada tijolo exige uma bata­lha inte­rior — e no final, sua habi­li­dade de ven­cer cada bata­lha espe­cí­fica e colo­car tijolo após tijolo, dia após dia, é fun­da­men­tal na luta de um pro­cras­ti­na­dor para assu­mir o con­trole de seu mundo.

Então isso é o que pre­cisa acon­te­cer. Mas se a pro­cras­ti­na­ção pudesse ser resol­vida lendo um texto de um site, não seria um pro­blema tão grande na vida de tan­tas pes­soas. Só há uma forma de real­mente ven­cer a pro­cras­ti­na­ção:

Você precisa provar a si mesmo que pode fazer isso.

Você pre­cisa mos­trar para si mesmo que pode fazer isso, e não ape­nas dizer para si mesmo. As coi­sas muda­rão quando você mos­trar a si mesmo que elas podem mudar. Até lá, você não acre­di­tará nisso, e nada mudará. Pense em você como um arti­lheiro de fute­bol que há tem­pos não faz um gol. Para joga­do­res de fute­bol, tem tudo a ver com con­fi­ança, e um arti­lheiro que há tem­pos não faz gol pode dizer a si mesmo mil vezes “sou um grande arti­lheiro, vou fazer o pró­ximo gol”, mas não é antes de ele real­mente fazer um gol que sua con­fi­ança vol­tará e ele reto­mará sua habi­li­dade de volta.

Então como come­ça­mos a golear?

1) Tente inter­na­li­zar o fato de que tudo o que você faz é uma esco­lha.

Comece pen­sando sobre os ter­mos que usa­mos neste artigo, e se eles são razoá­veis para você, escreva-os. Parte da razão pela qual eu dei nomes a mui­tos des­ses sen­ti­men­tos e fenô­me­nos (o Macaco da Gra­ti­fi­ca­ção Ins­tan­tâ­nea, o Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais, o Mons­tro do Pânico, o Play­ground das Tre­vas, Obs­cu­re­cên­cia, Tijo­los, a Entrada Crí­tica, a Flo­resta Negra, o Ponto Deci­sivo, o Play­ground Feliz, Fluxo, seu Roteiro) é que nomes aju­dam a cla­rear a rea­li­dade das esco­lhas que você faz. Isso ajuda a expor más esco­lhas e res­sal­tar o momento em que é mais crí­tico fazer boas esco­lhas.

2) Invente méto­dos para aju­dar a der­ro­tar o macaco.

Alguns méto­dos pos­sí­veis:

  • Crie a opor­tu­ni­dade para um Mons­tro do Pânico, se já não existe alguma — se você está ten­tando gra­var um álbum, agende um show para alguns meses adi­ante, reserve um local e envie um con­vite para um grupo de pes­soas.
  • Se você real­mente quer come­çar um negó­cio, dei­xar seu emprego tor­nará o Mons­tro do Pânico o novo mora­dor do seu lar.
  • Se você está ten­tando escre­ver de forma con­sis­tente em um blog, colo­que “publico um novo post todas as Quin­tas” no topo de sua página prin­ci­pal.
  • Deixe reca­dos para você mesmo, lem­brando que deve fazer boas esco­lhas.
  • Colo­que um alarme para lem­brar do iní­cio de uma tarefa, ou para recor­dar o que está em jogo.
  • Mini­mize as dis­tra­ções de todas as for­mas pos­sí­veis. Se a TV é um sério pro­blema, venda sua TV. Se a inter­net é um sério pro­blema, arrume um segundo com­pu­ta­dor cujo Wifi está desa­bi­li­tado, e colo­que seu celu­lar no Modo Avião durante as ses­sões de tra­ba­lho.
  • Crie um cami­nho sem volta para você, como fazer um depó­sito não res­ti­tuí­vel para aulas ou men­sa­li­dade em um curso.

E se os méto­dos que você esta­be­le­ceu não esti­ve­rem fun­ci­o­nando, mude-os. Colo­que um lem­brete men­sal que diz “A coi­sas melho­ra­ram? Se não melho­ra­ram, mude seus méto­dos”.

3) Foque no pro­gresso lento e con­sis­tente — livros são escri­tos uma página por vez.

Da mesma forma que gran­di­o­sas rea­li­za­ções ocor­rem pequeno tijolo por pequeno tijolo, um hábito pro­fun­da­mente arrai­gado como a pro­cras­ti­na­ção não muda de uma hora para outra, mas sim com uma modesta melhora por vez. Lem­bre-se, tudo isso tem a ver com mos­trar a si mesmo o que você pode rea­li­zar, então o segredo não é ser per­feito, mas sim­ples­mente melho­rar. O autor que escreve uma página por dia escre­veru um livro após um ano. O pro­cras­ti­na­dor que melhora um pouco a cada semana é uma pes­soa total­mente trans­for­mada um ano depois.

Por­tanto não pense sobre ir de A até Z — ape­nas comece de A até B. Mude o Roteiro de “eu pro­cras­tino em cada tarefa que faço” para “uma vez por semana eu cum­pro uma tarefa sem pro­cras­ti­nar”. Se você puder fazer isso, você cri­ará uma ten­dên­cia. Eu ainda sou um mise­rá­vel pro­cras­ti­na­dor, mas defi­ni­ti­va­mente estou melhor do que estava um ano atrás, então me sinto espe­ran­çoso sobre o futuro.

Por­que eu penso nesse assunto tanto, e por­que acabo de escre­ver um artigo de 19.000 pági­nas sobre isso?

Por­que der­ro­tar a pro­cras­ti­na­ção é o mesmo que ganhar o con­trole de sua pró­pria vida. Muito daquilo que faz as pes­soas feli­zes ou infe­li­zes — seu nível de rea­li­za­ção e satis­fa­ção, sua auto-estima, os arre­pen­di­men­tos que car­re­gam con­sigo, o quanto de tempo livre pos­suem para dedi­car a seus rela­ci­o­na­men­tos — está estrei­ta­mente vin­cu­lado a pro­cras­ti­na­ção. Então com­pensa demais levar esse assunto a sério, e o tempo para come­çar a melho­rar é agora.

LEIA A PARTE 3: MATRIZ DO PROCRASTINADOR. CLIQUE AQUI


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Tim Urban
Formado em Ciências Políticas pela Harvard University, é autor do site Wait But Why e fundador da ArborBridge.

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