TRETAS | Dia desses publiquei no Facebook uma opinião breve, até superficial, sobre as eleições americanas. Não demorou até que um amigo comentasse discordando. E minha réplica, reconheço, foi confrontativa, pois eu poderia ter respondido de muitas outras melhores maneiras. Mas o fato é que, escolhido o caminho da confrontação, em poucos minutos ambos já estávamos posicionados em lados opostos de um ringue no qual cada golpe era composto por grandes parágrafos recheados de argumentações contundentes.

Porém, o cerne do problema colocado no meu comentário, e as diversas formas construtivas com as quais ele e eu poderíamos abordar a questão principal, ficaram completamente deixados de lado.

Quando percebi o que estava acontecendo, o que fiz?

Simplesmente apaguei a publicação.

O sentimento de alívio foi enorme. Isso porque desenvolvi, ao longo dos anos, uma verdadeira aversão a debates na internet – principalmente àqueles debates supostamente pautados por uma alegada racionalidade dos interlocutores.

No fundo sempre são “microdiscussões” (discussões pouco relevantes) em que os debatedores silenciam e intimidam, com seu ardor em discutir, os demais participantes da conversa e perdem horas rebatendo e replicando verborragicamente cada argumento um do outro, numa disputa que tem como propósito apenas mostrar que o adversário está errado. Não raro, tudo acaba em troca de ofensas pessoais.

É o que chamo de TRETA.

 

OS MALES DAS TRETAS

Meu horror à treta na internet é um dos motivos pelos quais sempre resisti em criar fóruns ou grupos de debates para o Ano Zero. Estava certo de que logo esses espaços se converteriam em locais infestados de tretas, graças a pessoas que não só têm tempo e energia de sobra para desperdiçar em debates nada construtivos — têm também, mais convicções sobre o mundo do que é realmente inteligente e prudente ter.

Esse tipo de debate está sempre a serviço do ego dos participantes. O foco das tretas é mostrar que um dos debatedores tem razão e que o outro está errado, ao invés de todos se concentrarem na construção não só de um consenso possível, mas também na formulação conjunta de ideias propositivas sobre o tema.

Mesmo adultos respeitáveis portam-se como crianças mimadas em discussões na internet. É o ego agindo insidiosamente pela treta.
Mesmo adultos respeitáveis portam-se como crianças mimadas em discussões na internet. É o ego agindo insidiosamente.

Discutir na internet é extremamente fácil – sequer corremos o risco de olhar nos olhos de nosso interlocutor. Por isso existe muito barulho, animosidade e hostilidade nas redes sociais. Aquilo que parece algo bem democrático (a internet enquanto espaço aberto a todo tipo de manifestação) torna-se, na verdade, algo nocivo: opiniões irrefletidas, inimizades instantâneas e agressividade verbal.

No fundo, sempre se trata de uma disputa para ver quem tem o pau argumentativo maior. E jamais nesse tipo de discussão chega-se a qualquer coisa construtiva e realmente útil — salvo a convicção íntima de cada participante de que o outro estava e continua errado, não importa o que ele tenha dito.

E a alusão ao órgão sexual masculino não é casual: percebo nessas tretas uma pulsão sexual mal dirigida. Há algo de masturbatório nessas discussões da internet, pois os debatedores estão ali reunidos, mas na verdade cada um está apenas se masturbando em público, focado em agradar freneticamente a si mesmo diante de sua suposta virilidade argumentativa.

 

A EXCLUSÃO DA DIMENSÃO EMOCIONAL

Além da treta ser motivada pelo ego, outro equívoco é que os participantes em geral são pessoas confiantes demais no suposto poder da racionalidade de seus argumentos. Acreditam que o embate será puramente racional, e que por argumentos racionais o adversário será conduzido à luz do entendimento.

Porém, em uma extensa e mundialmente aclamada pesquisa, o neurologista e neurocientista António Damásio demonstrou que no fundo nós, seres humanos, não conseguimos ser racionais quando tratamos de questões essencialmente humanas (como são temas tais como política, sociedade e comportamento). A racionalidade só é efetivamente manejável no terreno da matemática, da técnica e das ciências objetivas, como a Física. Em questões humanas, apenas utilizamos uma retórica pretensamente racional para justificar posicionamentos orientados por vieses e emoções íntimas que sequer percebemos conscientemente.

Isso significa que é impossível um debate racional sobre questões humanas? Não, isso significa que um debate sobre questões humanas precisa incluir também a dimensão emocional de cada debatedor.

E como fazer isso de forma que não pareça invasiva ou sentimental? Basta perguntar mais, mostrar-se realmente interessado na opinião e na própria pessoa com quem se está debatendo, mesmo que discordando dela. Basta revelar suas dúvidas sobre o assunto em pauta, expor os seus receios em relação ao que ela está propondo de uma forma que ela também possa compreender, convidando o outro a fazer o mesmo em relação ao seu ponto de vista.

acalmar awkward yeti

Não há nada de inerentemente ruim no fato de o ser humano só conseguir aplicar exclusivamente a razão em questões abstratas, técnicas ou cientificamente objetivas, e que na vida prática, em questões humanas como as relativas à economia, política e sociedade, sejamos seres guiados também e talvez principalmente pela emoção. Isso só nos deixa atentos para quais emoções estamos alimentando e fortalecendo dentro de nós e em nossa sociedade como um todo.

Perceber e incluir no debate a dimensão emocional subjacente a cada opinião é uma das formas de desmontarmos o clima de beligerância e disputa egóica existente nas discussões da internet. E diminuir as tretas é um passo fundamental na busca por um ambiente mais construtivo e feliz nas redes sociais.

Mas não acaba aí: precisamos também seguir as regras do diálogo não violento.

 

DIÁLOGO NÃO VIOLENTO

O diálogo não violento é a manifestação da comunicação não violenta no terreno da confrontação de ideias discordantes. A comunicação não violenta, por sua vez, é um método proposto pelo psicólogo Marshall Rosenberg como forma de eliminar a hostilidade e agressividade nas interações humanas, permitindo que nos comuniquemos com os outros de forma saudável e construtiva.

De um modo bem sucinto, a prática da comunicação não violenta depende da observância de regras como as seguintes:

1 – Ter empatia pelo outro, colocando-se em seu lugar e tentando compreender suas motivações emocionais e seu contexto pessoal: é aqui que incluímos a dimensão emocional que existe mesmo em discussões supostamente racionais sobre política, economia e sociedade.

2 – Evitar etiquetar a outra pessoa e suas opiniões com rótulos simplificadores e, de regra, caricaturizadores: usar expressões como “fascista”, “racista”, “esquerdinha” e “reaça” para etiquetar o outro e suas ideias bloqueia o caminho do entendimento e instaura a hostilidade recíproca.

3 – Perceber atentamente os próprios sentimentos durante a prática da comunicação e reconhecer, com honestidade, as motivações emocionais que também podem ser subjacentes à nossa comunicação.

Vamos trocar essas regras por outras.
Vamos trocar essas regras por outras?

Mas como aplicar isso em debates? Em outras palavras, como praticar diálogos não violentos?

Aí que entra a formulação de outro grande pensador, o filósofo Daniel Dennett. Em seu livro Intuition Pumps and Other Tools for Thinking, ele propõe que, ao discordarmos da opinião de alguém e expressarmos nossas críticas a suas ideias, observemos três simples regras:

1 – Você deve buscar reexpressar a opinião da outra pessoa de forma tão clara, vívida e justa que ela própria poderia dizer: “obrigado, eu gostaria de ter expresso as coisas dessa maneira”.

2 – Você deve listar qualquer ponto de concordância que exista entre você e a outra pessoa.

3 – Você deve mencionar qualquer coisa que possa ter aprendido com a outra pessoa, mesmo que seja um questionamento ou aspecto relativo ao assunto que antes você não havia cogitado.

“Somente então”, afirma Dennet, “você está autorizado a dizer uma palavra de refutação ou de crítica”.

Gosto de considerar as seis regras acima (as da comunicação não violenta e as de Dennet) como normas de etiqueta básica para qualquer debate – em suma, as regras elementares para o diálogo não violento.

Claro, observar essas seis normas sempre parece algo difícil, mas é justamente essa a intenção: como discutir na internet é extremamente fácil, se algumas normas de conduta fossem observadas como um compromisso geral de todos nós, debater se tornaria algo um pouco mais custoso. O resultado disso é que as pessoas só debateriam sobre o que é REALMENTE importante para elas, poupando a todos das inúmeras tretas motivadas por qualquer tipo de divergência e que, no fundo, não levam a nada senão a aumentar o clima de hostilidade na internet. É uma questão de custo e benefício.

Mais ainda, essas regras deixam muito pouco espaço para o ego humano chafurdar e se divertir. Atualmente, as discussões na internet são um parque de diversão para o lado mais imaturo de nossos egos brincar com falácias lógicas, vieses de pensamento e pretensões de racionalidade arrogante como se elas fossem brinquedos em um playground. Assumirmos um compromisso com o diálogo não violento simplesmente fecha esses parques de diversão nocivos e pestilentos.

Mas, além dessas seis regras do diálogo não violento, um debate de qualidade depende de um último elemento: de que a intenção de todos os debatedores esteja voltada para uma meta comum e propositiva.

 

O DEBATE CONSENSUAL E PROPOSITIVO

No mundo jurídico, a forma de resolução de conflitos tem passado por uma gradual transição que aos poucos afeta toda a sociedade: a transição do modelo contencioso para o modelo consensual.

No modelo tradicional, de natureza contenciosa, duas partes apresentam sua discordância perante um juiz através de um processo judicial. O juiz as escuta, pondera as questões apresentadas e estabelece quem tem razão. Já no modelo consensual, o juiz facilita e aproxima as partes para que elas próprias cheguem a um consenso.

Embora no mundo real seja praticamente impossível que uma das partes reconheça ter estado, desde o início do debate, totalmente errada em sua opinião, curiosamente as discussões na internet são conduzidas utilizando o modelo jurídico contencioso. É verdade que nos processos jurídicos desse tipo é possível ao juiz estabelecer que uma das partes tenha razão em alguns pontos e a outra em outros pontos. Mas, nos debates da internet, até mesmo isso parece muito difícil de acontecer.

Isso jamais ocorrerá em um debate (a não ser vencer o oponente pelo cansaço). Mesmo assim, é desse jeito que debatemos.
Isso jamais ocorrerá em um debate (a não ser vencer o oponente pelo cansaço). Mesmo assim, é desse jeito que debatemos.

No campo dos debates, a distinção entre os dois modelos está na resposta à seguinte pergunta: o que os debatedores, mesmo que implicitamente, combinaram que será a meta final da discussão?

Se os debatedores combinaram, mesmo que por sua conduta e de forma subentendida, que a meta do debate é estabelecer quem está certo e quem está errado entre eles, temos o modelo contencioso, produtor das famigeradas tretas.

Se, porém, os debatedores desde o início combinaram que o objetivo do debate é buscar alguma forma de consenso propositivo entre si, temos o modelo consensual aplicado à discussão.

E o que seria a busca de um “consenso propositivo”? Consiste em as partes orientarem seu diálogo para que seja respondida uma outra pergunta: no que concordamos (qual é o consenso possível) e o que pode ser feito de prático e construtivo a respeito dos problemas e questões consensualmente reconhecidas por nós, e que subjazem todas as nossas discordâncias (o que podemos propor em conjunto)?

Em síntese, ao invés dos participantes se perguntarem quem está certo, o objetivo é acharem um consenso sobre o que é certo.

Mas aqui há um truque:

Claro que nem sempre será possível encontrar um consenso entre os debatedores, ainda mais um consenso que seja propositivo. Afinal, algumas diferenças são inconciliáveis. O truque é que esse modelo de debate funciona mesmo quando tal consenso não é na prática possível, pois o importante é que o debate desde o início tenda à busca desse consenso propositivo, seja ele ou não obtido. Ou seja, a busca pelo consenso serve como princípio norteador do debate ao longo de toda a troca de ideias, e não necessariamente como objetivo que precisa ser alcançado.

Com o compromisso assumido pelas partes em buscar o consenso propositivo, a inclusão da dimensão emocional no debate e a observância das regras do diálogo não violento, temos como resultado debates não só saudáveis e civilizados, mas também realmente proveitosos. No fim desse tipo de debate, os participantes e aqueles que assistiram a conversa podem sair com algumas propostas novas, práticas e criativas para a solução dos problemas discutidos. Todos encerram a discussão com um sentimento de gratificação, pois participaram de algo útil e produtivo – e talvez, com um sentimento de que fizeram novos amigos entre pessoas que antes pareciam ser adversários.

Por fim, se quisermos alcançar a real excelência nos debates, há uma última coisa fazer:

SEJAMOS RAPOSAS, E NÃO PORCOS ESPINHOS

Em 1953, o filósofo político Isaiah Berlin propôs uma divisão entre a postura das pessoas em relação a determinados problemas, inspirado em um antigo provérbio grego, que diz algo como “o porco-espinho conhece muito bem uma só coisa, mas a raposa conhece um pouco de várias coisas ao mesmo tempo”. Para ele, ou nos portamos como raposas ou como porcos-espinhos.

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A distinção é facilmente explicada pelo psicólogo Kahneman em um trecho de seu livro Rápido e Devagar:

“Porcos-espinhos “sabem uma grande verdade” e têm uma teoria sobre o mundo; eles explicam eventos particulares dentre uma estrutura coerente, ficam eriçados de impaciência com quem não enxerga as coisas da mesma maneira que eles e são confiantes em seus prognósticos.” Já raposas, pelo contrário, “são pensadoras complexas”, que “reconhecem que a realidade emerge das interações de muitos agentes e forças diferentes, incluindo o acaso cego, muitas vezes produzindo resultados grandes e imprevisíveis”.

Para Kahneman, enquanto “dois porcos espinhos em lados diferentes de uma questão, um atacando as ideias imbecis do outro, dão uma boa mesa redonda”, as raposas tendem a criar menos hostilidade entre si, e portanto “têm menos probabilidade do que os porcos-espinhos de serem convidadas para debates de televisão”.

Ou seja, se há treta, é muito provável que se trate de dois porcos-espinhos espetando um ao outro.

É verdade que todos nós temos um pouco de raposa e de porco-espinho, tudo dependendo do assunto. Para alguns, por exemplo, os problemas de uma sociedade são culpa de um só grande vilão, como o Capitalismo é para muitos socialistas e o Estado é para muitos liberais extremistas. Para outros, porém, tudo isso é muito mais complexo.

Mas é sempre muito importante nos esforçarmos em nutrir uma mentalidade de raposa. Afinal, a verdade é que a capacidade de reconhecer a complexidade do mundo real, de admitir que a maior parte dos grandes problemas do mundo têm múltiplas causas e, principalmente, a habilidade de conviver com ambivalência das situações humanas não são apenas três sinais distintivos de inteligência. São, também, virtudes que nos deixam mais preparados para enfrentar nossa difícil realidade com muito bom humor.


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escrito por:

Victor Lisboa

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